Ensaio poético “Sistema BodyTalk”

Cláudia Morum Xavier Lapa (1)

Sistema. Sistêmico. Partes em um todo. O todo.

Todas as vezes que falamos em partes, olhamos para o todo. As partes que formam o todo estando, cada uma, em seu próprio lugar. Nada falta. Tudo reverbera.
Tudo pertence e tudo completa. Tudo em seu próprio lugar.

Constelar. Conter lar. Constelação. Conter ação. Movimento e fluxo. Ir e vir sem fim.

O Eu, em si, é um sistema. Completo. Pleno. Pronto. E a caminho.

Eu, pronta e a caminho. Parto daqui.

Por que nos colocamos tanto a preencher espaços? Por que tendemos a excluir?
Se nós sabemos parte, por que queremos o todo? E se em nós mesmos somos todos, por que queremos partir?

Somos parte de um todo. Todos nós.
Somos plantados pela fonte da Vida lá no seio, no ventre, e ali somos acolhidos.
Ali, no ventre, passamos a pertencer.

Não fomos escolhidos. Fomos acolhidos.
E passamos a ser parte de um sistema, o familiar, onde pertencemos a um pai e a uma mãe.
Porque não existe pai sem mãe e não existe mãe sem pai.
Ambos pertencem. Em si. No todo.
Já não importa o que se dê entre esse homem e essa mulher. Soprada a vida, um pertence ao outro e ambos se tornam um só em cada célula do que brota, do que nasce. Vida renovada!

Por que tentamos partir?

Pertencemos! E passamos todo o tempo validando esse movimento. Sou.
Pertenço.
Incluo e então integro.

Entrego! Integro!
Integrado ao todo me faço completo, pleno e perfeito. Tudo que fui feito para ser.

Somos soprados pela vida em um momento de Encontro. Sopro. Vento.
Vida!

Existimos a partir de dois e, também por isso, mesmo únicos, somos plurais. Trazemos em nós mesmos os dois, o encontro, a integração. A pertença!

É como se selássemos em nossa existência a completude do Ser. Perfeitos!
Tudo que fomos feitos para ser.

Mas então… por que partimos?
O que nos leva a tentar quebrar as partes se podemos ser o todo, estar no todo? Pertencer!? Parte ser!

Todo ser humano busca pertencer. Talvez seja exatamente por termos existido a partir de um encontro que nos parece vital fazer parte. Mas se entendemos que não há como partir, usufruímos do todo e saboreamos. Ficamos. Não tentamos encaixar em outro espaço. Não precisamos do que é do outro. Porque em mim eu sou pleno.

Porque no que me cabe, eu caibo. E plenifico.

Nascemos pertencentes. Mas mesmo antes de nascer, já somos parte do sistema. Mesmo aqueles que viveram por um curto espaço de tempo, ainda no ventre da mãe, e morreram sem ver a luz deste mundo, pertencem.

Porque tudo que existe, morre. Completa. Porque mesmo quem não nasce morre, e existe. E ninguém deixa de existir porque morreu. Somos todos parte, para sempre. E ninguém muda isso. Nem a Vida. Nem a morte.

Então… por que ainda tentamos partir?

Somos parte. Todos. Da humanidade. Do sistema familiar onde nascemos. E de sistemas que constituímos.
Um, dois, às vezes três ou mais…
Encontros que se perpetuam porque passamos a pertencer um ao sistema do outro. Intercessões. Pertenças.

Não é possível excluir o que pertence. Porque cada parte é do todo. E não há parte que supere o todo. Nunca.
Em qualquer tempo ou lugar.

Por que tentamos excluir?
Por que teimamos em pertencer ao que não nos cabe?

Se existimos, pertencemos. E me pertencem. Os filhos são dos pais e os pais são dos filhos. Para sempre. Nada muda isso. Nem a morte. Nem a vida. Selados por um encontro, pertencemos.

Um encontro entre um homem e uma mulher. Onde ambos são inteiros e completam.
Momentos que se eternizam quando a Vida sopra.
Não há como separar.

Em mim, pai e mãe são um só.

Para sempre.
Um não é maior que o outro. Ambos são partes e juntos são
o todo. Um pertence ao outro, e mesmo que se despeçam como casal, permanecem sistema, e permanecem um em mim. Em cada célula minha. Células que são parte e formam o todo. E a vida segue em frente. Em pleno movimento. Plena. Serena. E soberana.

Assim a vida se dá. Plenificando encontros. Eternizando vidas que pertencem. Multiplicamos. Crescemos. Esparramamos sementes dos frutos colhidos dos que vieram antes. Vida continuada. Sou parte. Colho e semeio. E o que espalho será colhido pelos que vem depois de mim. Porque sou só uma parte do todo que existe desde muito antes e que pode ir em frente, a partir de mim e dos meus encontros. Porque pertenço e selo. Continuo. Permaneço viva naquele a quem dei, nos solos que semeei.

Nasço, cresço, frutifico. Multiplico. Pertenço em partes e ao todo. Participo de novos sistemas.
Trabalho, organizações… sistemas!

Com meu trabalho, sirvo. Me coloco a serviço da Vida, do mundo e da humanidade. Então, mais pertenço!
Como parte, sirvo ao todo.
Esparramo sementes. Multiplico. Mas permaneço um só. Uma parte, de um todo. É só o que posso ser. Parte. Plena. Inteira e íntegra.

E como parte, pertenço e me coloco a serviço. Dou continuidade e crio. Atividade. Movimento.
Sigo em frente.

A serviço da Vida. Dou. Recebo. Troco. Complemento. Colho. Contribuo.

Equilibro no dar e receber a continuidade da Vida plena. Vida que é.
Em mim, em você, em nós, a Vida é.
Plena. Sem complementos.

Se há luta, há luto. Perda. Falta. Exclusão. Negação. Ilusão.
Pertencente, pertence para sempre.
Flui. Em colher e semear. Usufruir. Compartilhar. Organizar. Se dar. E Ser.

E então, volto ao início desse momento. No tempo.

Sistema BodyTalk. Sistema. Pertenço? Pertenço!

Me dou! Coloco a serviço. Colho. Semeio. Observo. Compartilho. Multiplico. Organizo a mim ao estar no meu lugar. Como parte, sou do todo. Pertenço. Recebo. E na medida que dou e colho, sigo em movimento de pertença.
Com o que é meu. Colhendo do outro.
E, do que é meu, usufruo e plenifico.
E do outro, colho e sirvo.

Escuta, revista sobre BodyTalk, ed. 1, inverno, 2020 4

Vai e vem. Em movimento. Sempre pertencendo. Aceitando
da vida. Acolhendo. Fazendo a flor ser. Florescer.
Em mim. No outro. Em todo.
Como parte. A parte que só cabe a mim. E que plenifica o todo em mim. E no outro.

Porque como parte, eu fico. Mesmo se partir.

Então…
Já sou parte. E do meu próprio lugar só eu posso ver. Estar. Observar. Ser.

Pleno Ser. Um só. Único. Especial. Extraordinário!
Como são todas as outras partes que pertencem ao todo. E em todos pertencem.

Que venha o que é meu. Que eu possa fazer boas coisas com isso. Tomar do que o outro oferece. Agradecer. E então, a Graça Ser. Em abundância.

Como lá no princípio da Vida. Soprar. Mover. E ir em frente. Esparramar sementes. Colher frutos. Se dar. Receber.

E assim, a Vida segue em frente. Em movimento.
Plena.
Soberana.

Eu quando eu partir, no momento em que a vida se fizer completa em mim, eu vou em paz. E fico.
Fico nas sementes plantadas.
Fico na existência pertencente.

Tudo está em seu lugar.
A vida flui.
Criatividade. Continuidade. Intimidade.

Vida multiplicada.
Que segue em frente. Em cada parte. No eu, em você, em todos, no TODO.

Usufruamos!
Vida em abundância desde sempre, para sempre. É só colher!

Somos sistêmicos. Sou Sistema.

E isso é BodyTalk.

Cláudia Morum Xavier Lapa Maio de 2020

(1) Cláudia Morum Xavier Lapa é
. Psicóloga clínica (atendimento individual, casal e grupo)
. Consteladora
. Terapeuta BodyTalk CBP e PaRama (certificada pela IBA)
. Palestrante
61 999949791
@claudiamorumxavierlapa

Para ler em pdf clique aqui

“BodyTalk como sistema, é sobre relacionar-se”

Nirvana Marinho (1)

Ao conhecer o BodyTalk como paciente, vivenciei a surpresa do bem-estar contínuo. Revisei crenças difíceis da mente racional, venho observando como se desprendem pouco a pouco e experimentei a força que emergiu para lidar com as decisões que a vida convida – ou impõe, depende do ponto de vista. Naquele tempo, não podia perceber o quanto essas melhorias estavam em relação: autocuidado, mente propositiva e serena e corpo pronto para realizar, decidir. Pouco a pouco, foi ficando nítido o quanto as sessões reverberam em mim, como um todo, sendo minha vida não mais em campos separados – profissão, afetos, família, sexualidade, dinheiro, sociedade – mas uma contiguidade.

Já conhecia os conceitos teóricos da Teoria Geral dos Sistemas, uma das precursoras do entendimento de complexidade e pensamento sistêmico, a partir do doutorado em Comunicação e Semiótica na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, em meados de 2002. Encontrar uma terapia que tem por base a teoria dos sistemas dinâmicos foi uma surpresa. Na pós-graduação, foi o Professor Jorge Albuquerque Vieira o anfitrião do pensamento sistêmico, cujos livros são extremamente inspiradores e ele é amplamente estudado no campo das artes.

Ademais de toda conceitualização densa, importante considerar que Jorge Vieira parte dos estudos de Mário Bunge (cuja data da publicação referência é 1979), cujos estudos focavam em compreender a ciência em sua complexidade chamada ontologia, ou seja, o que são as coisas, como as define, como
suas ações no mundo desenham modos de compreensão, ou seja, epistemologias. Esse emaranhado conceitual pode ser importante aqui para termos uma visão de como a teoria dos sistemas dinâmicas compõem a base filosófica e científica do BodyTalk.

Jorge Vieira, a partir de Bunge, nos conta em seu artigo “Organização e Sistemas” (2000), que ontologia é o estudo de conceitos – o que é – de substância, probabilidade, acaso, mudança, evento e processo, tempo e espaço, ou seja, questões que observamos na psique tal como se propõe o BodyTalk. Adverte mesmo que utilizamos tais conceitos sem termos parado para pensar o que eles realmente significam, pois isso depende da nossa visão de mundo. Por isso, vale ressaltar como é importante a revisão de percepção que Dr. John Veltheim, idealizador da abordagem, nos orienta quando é necessária uma visão não mais cartesiana, mas sim sistêmica do corpo-mente.

Ver corpo sob ponto de vista cartesiano é distinguir as partes e investir na mecânica de funcionamento, enquanto ver de forma sistêmica é observar as relações complexas entre as partes, às vezes visíveis, às vezes não, às vezes evidentes às vezes confusas ou não racionais, às vezes causais e muitas vezes não tão definidas assim em sua justificativa ou explicação racional, pois operam em níveis mais profundos do corpo-mente.

Jorge Vieira aprofunda ainda mais tais conceitos e torna-se aqui fundamental lembrarmos que, a partir de seu olhar sobre parâmetros sistêmicos, considerarmos que os sistemas observáveis são abertos e que suas propriedades fundamentais assim o estabelecem: segundo sua permanência, diante do seu ambiente, e dada sua autonomia. Isso quer dizer que “todas as coisas tendem a permanecer”; “sistemas trocam energia, matéria e informação com outros sistemas”, portanto o fazem em seus ambientes entrelaçados; e que os estoques armazenados ao longo do tempo se acumulam e criam uma narrativa (ele diz uma característica discursiva). Daí nascem sua função de memória, fundamental ao sistema. O autor ainda falará, neste artigo, sobre os parâmetros evolutivos, dentre eles a complexidade, cuja derivação é a reflexão sobre auto-organização.

No entanto, vejamos, por hora, como tal desenho teórico pode nos ajudar na dinâmica do BodyTalk. Vale pontuar que a teoria geral dos sistemas é uma das teorias sistêmicas clássicas que puderam problematizar as teorias que se seguiram, como a teoria dos sistemas dinâmicos. O que se assemelha aqui é o pensamento sistêmico em questão.

A contribuição fundamental do pensamento ontológico a que se baseia a teoria geral dos sistemas, pautando grande parte do pensamento sistêmico, é olhar os movimentos como sistemas abertos, buscando sua complexidade, pois para permanecer, trocar, armazenar – ter memória e narrativa, os sistemas buscam auto-organização.

Isso seria, justamente, uma das bases fundantes do BodyTalk. No meu entender, esse diálogo interteórico e prático – no pensamento científico atual e este aqui pensamento terapêutico do corpo-mente – é justamente essa compreensão dos sistemas abertos, sua complexidade e auto organização que fazem o BodyTalk ser como é: uma prática de escuta, prezando pela prioridade, observando vínculos e lendo a complexidade vinda do que chamamos de Inato.

Sistemas dinâmicos e BodyTalk

Dr John pontua em vários de seus escritos a relação entre a teoria dos sistemas dinâmicos e o BodyTalk. Vejamos algumas das citações:

No artigo de 2012, “BodyTalk: the journey”, ele cita:

“O sistema BodyTalk é baseado em alguns princípios diferentes que envolvem ciência (inclusive a física), filosofia, técnicas e fórmulas para usar medicina alternativa científica e segura e eficaz. (…) A principal base do sistema BodyTalk básico é a Teoria de Sistemas Dinâmicos. Esse modelo científico existe há mais de 40 anos e é maravilhosamente explicado por cientistas, como Fritjof Capra em seus escritos” (Veltheim, 2012, 279)

Escuta, revista sobre BodyTalk, ed. 1, inverno, 2020 4

“Eu sempre entendi completamente que (…) toda a energia do
universo era uma série ou coleção de matrizes morfogênicas que estão todas inter-relacionadas e interdependentes. Isso significa que o único sistema que faz total sentido para mim é a teoria de sistemas dinâmicos. O autor, Fritjof Capra, tem uma influência profunda no meu pensamento em seu livro, “O Ponto de Mutação”. (Veltheim, 2012, 283)

No livro “The Science and Philosophy of BodyTalk – Healthcare designed by your body” (2013), o capítulo 4 explica sobre “A sabedoria inata” e sua aplicação prática e cita:

“Para facilitar a condução de uma sessão do BodyTalk, é utilizada uma abordagem da teoria de sistemas dinâmicos. Isso significa que um protocolo para o cérebro esquerdo é estabelecido para que todo o conhecimento essencial da função da mente-corpo possa ser consultado, como um blueprint. No BodyTalk SystemTM, esse blueprint é incorporado ao Protocolo de Atendimento que reconhece as informações acumuladas de todos os níveis da mente corporal, desde a anatomia física, os corpos energéticos e a consciência localizada”. (Veltheim, 2013, 45)

No livro, “The BodyTalk System”, o capítulo 4 sobre “Reestabelecer a comunicação”, ele comenta:

“Através da Teoria dos Sistemas Dinâmicos, todos os ramos da medicina alternativa têm o potencial de desenvolver uma estrutura teórica sólida para trabalhar com o corpo como um sistema de energia. A Teoria dos Sistemas Dinâmicos também ajuda bastante a explicar as nuances do relacionamento entre o corpo e a mente, particularmente em relação à cura pela energia. As diversas e controversas descobertas e observações do sistema energético humano são finalmente explicáveis em termos relativos”. (Veltheim, 1999: 23)

Outra maneira de contextualizar Teoria dos Sistemas Dinâmicos é visitar fontes bibliográficas como Fritjof Capra, autor muito citado por Dr. John Veltheim como inspiração para sua visão do corpo-mente, de forma sistêmica. Em “A visão sistêmica da vida – uma concepção unificada e suas implicações filosóficas, políticas, sociais e econômicas”, Fritjof Capra diz:

Escuta, revista sobre BodyTalk, ed. 1, inverno, 2020 5

“As principais características do pensamento sistêmico emergiram na Europa durante a década de 20 em várias disciplinas. Os pioneiros em abordar o pensamento o pensamento sistêmico foram os biólogos, que enfatizaram a visão dos organismos vivos com totalidades integradas. Posteriormente, ele foi enriquecido pela psicologia da Gestalt e pela nova ciência da ecologia, e teve talvez os seus efeitos mais dramáticos na física quântica”. (Capra, 2014: 93)

Importante ressaltar que a chamada Teoria dos Sistemas Dinâmicos é também conhecida como “teoria dos sistemas não lineares” e é pautada no arcabouço matemático coerente que só foi possível com o avanço da matemática das décadas de 80 e 90. Capra comenta:

“A visão dos sistemas vivos como redes auto organizadoras cujos componentes estão, todos eles, interconectados e são interdependentes tem sido expressa repetidas vezes, de um maneira ou de outra, ao longo de toda a história da filosofia e da ciência. No entanto, modelos detalhados de sistemas auto organizadores poderiam ser formulados só muito recentemente, quanto se tornaram disponíveis novas ferramentas matemáticas que permitiram aos cientistas, pela primeira vez, descrever e modelar matematicamente a interconexidade fundamental das redes vivas”. (Capra, 2014: 134)

A teoria da complexidade surge nesse contexto. Sendo uma espécie de “mãe” do pensamento não linear, filosofia e matemática confluem na compreensão e descrição de relações e padrões de fenômenos não lineares, sobretudo aqueles dos seres vivos. Assim, tornou-se possível uma mudança de perspectiva do próprio pensamento sistêmico.

Assim também parece ser com a terapia sistêmica e integrativa do BodyTalk. Quando o que chamamos de fórmula – de prioridades e vínculos – na prática terapêutica permite a observação da não linearidade das histórias por detrás dos sintomas – é isso que muda completamente a visão de saúde sistêmica e medicina integrativa.

Escuta, revista sobre BodyTalk, ed. 1, inverno, 2020 6 BodyTalk como sistema

Dada tal contextualização, sabemos que o BodyTalk convida o corpo-mente à observação e escuta de suas prioridades baseadas na sabedoria inata do corpo. E isso tem a habilidade de trazer auto-organização, homeostase, saúde e consciência, o que expande sua complexidade e revela a dinâmica sistêmica que o caracteriza. A questão é: como isso acontece? Compreender como a teoria dos sistemas dinâmicos pode nortear tamanha complexidade no atendimento terapêutico, assim como as implicações desse olhar. Essa é nossa tarefa maior neste artigo.

A observação é uma das chaves da prática do BodyTalk. Conceitualmente apoiada na física quântica, a relação entre observador e observado é, na verdade, a percepção de como se influem mutuamente. É da característica dinâmica dos sistemas a vontade de conhecer seus movimentos, seus fluxos, seus ritmos, suas tendências. Se o sistema é dinâmico e aberto, seus movimentos serão conhecidos a medida em que o sistema se faz ele próprio. Assim, parece ser o corpo-mente em relação ao ambiente e, portanto, de certa forma, o processo terapêutico que o BodyTalk convoca. Observação é uma prática na qual nem prévio julgamento e nem dados a priori estão em pauta, pois é no acontecimento que a sessão se revela.

Dr John Veltheim deduziu que, uma vez uma qualidade de observação dada, o sistema aberto e vivo tende a sua organização não por sequenciar sua complexidade, ou seja, o corpo no BodyTalk não é uma leitura linear; tende a sua organização justamente porque é um sistema dinâmico, ou seja, suas partes não tem uma relação causal – não olhamos o sintoma para determinar um diagnóstico – nem olhamos para o sintoma nele mesmo mas nas suas relações complexas possíveis – ao que podemos chamar das várias técnicas que compõem o sistema integral. O que chamamos de fórmula no BodyTalk é sistêmico porque se revela na medida em que uma prioridade é estabelecida.

Isso nos leva a perceber que uma das peculiaridades do sistema BodyTalk é que a complexidade do corpo está em não diminuir ou elevar nenhuma história que

Escuta, revista sobre BodyTalk, ed. 1, inverno, 2020 7

aparece em sessão – não tem nada mais importante do que o
vínculo, a relação, as formas de coesão que, se ressignificadas, podem ganhar novas dinâmicas. E uma das características dessa dinâmica é a coerência, ou seja, o que realmente faz sentido, ao que chamamos de consciência. Não é uma mente que ordena o que é mais importante, porque isso seria uma forma de ordenação linear de um conjunto de fatores.

Sistema assim tem a tarefa de nos fazer repensar as relações complexas. Uma das implicações terapêuticas é de considerar a sessão como um sistema complexo, considerar a relação entre terapeuta e paciente com outras variáveis que deixa ambos abertos ao que virá.

Dessa maneira, a dinâmica sistêmica do BodyTalk é, em certa medida, em busca da homeostase, ou seja, do funcionamento do corpo e de suas potencialidades tal como são: nem estagnados na doença, nem apegados a sua história, mas em constante movimento porque justamente são lidos como sistemas abertos e complexos. Isso inclui os seus desequilíbrios como forma provisória de equilíbrio, o que abre uma longa jornada para entender a aceitação vinda do coração. Isso inclui também considerar que seus desequilíbrios não podem ser a submissão à doença ou à crença, mas, ao contrário, é um convite ao enfrentamento saudável.

A principal implicação do BodyTalk ser tido como uma prática sistêmica é justamente a possibilidade de observá-lo em sua complexidade e em constante dinâmica de coerência. Isso que o caracteriza como uma medicina integrativa singular. Saúde, do ponto de vista sistêmico, exige de nós a auto responsabilidade do olhar, da empatia e da atenção plena da mente.

Nirvana Marinho Março 2020

(1) Graduada em Dança (1999, UNICAMP), Doutora em Comunicação e Semiótica (2006, PUC-SP), terapeuta certificada de BodyTalk (CBP, desde dez 2015), atua em São Paulo. Atualmente tem como principais iniciativas e projetos com BodyTalk: estudos para implementação de BodyTalk nas Escolas, Grupo de estudos Mindscape – inclusive voltado a jovens estudantes, idealizadora e parte da Comissão Editorial do periódico sobre BodyTalk “Escuta” com Verena Kacinskis, idealizadora das entrevistas BodyTalkers falando de BodyTalk e pesquisadora da cartografia “BodyTalk no Brasil: cartografia de caminhos possíveis” com Ana Marcela Sarria e Daniele Pires, organizadora das Sessões de Matriz BodyTalk Br (nov 2019-2020) e idealizadora e pesquisadora da atual Estudo de Caso Coletivo sobre Articulações. Em tempo, concluiu seu treinamento para tornar-se Instrutora de BodyTalk Acesso em junho 2020 e é uma das coordenadoras do projeto comunitário BodyTalk Covid. Email: nirvana.bodytalk@gmail.com. Site: http://www.corpoconsciencia.net.

Para ler em pdf clique aqui

“A relação do livro “O ponto de Mutação” e o BodyTalk”

Luciano Flehr (1)

“Os novos conceitos em física provocaram uma profunda mudança em nossa visão do mundo: passou-se da concepção mecanicista de Descartes e Newton para uma visão holística e ecológica, que reputo semelhante às visões dos místicos de todas as épocas e tradições”. CAPRA, F., 1983:15

Com esta introdução adentramos no livro de Fritjof Capra, O ponto de mutação, que traz dados detalhados da evolução da física, da biomedicina, da psiquiatria ao longo dos anos. O livro é rico em detalhes sobre nomes e datas de acontecimentos no mundo da ciência, vem num crescente sobre a visão de Descartes, sobre o olhar mecanicista (que separava matéria e mente) da ciência, fazendo uma ponte com a visão de Newton, que aprofundou esta visão com seus cálculos matemáticos e uma base de tradições esotéricas, trazendo um pouco mais de substância para a visão mecanicista. Passa o olhar pela física moderna de Albert Einstein, mostrando que o seu trabalho foi de grande relevância, porém, não conseguindo fazer a interconexão entre matéria/mente/energia. Deixando este legado para a teoria quântica. Vamos focar na parte sobre a visão do livro que fala sobre saúde, terapias e técnicas holísticas e integração com o conceito sistêmico de tratamento.

No capítulo sobre Holismo e Saúde, traz um aprofundamento pelas diversas técnicas e terapias aplicadas há milênios. Iniciando pela avaliação do Xamanismo, sua importância dentro do contexto social e ambiental. Mostra o quão profundo é a Medicina Tradicional Chinesa, explicando o conceito de Yin e Yang, falando um pouco sobre os cinco elementos, que ele considera ser mais correto dizer “Cinco Fases”, trazendo a ideia de que o organismo humano é um microcosmo do universo e que é influenciado por eventos estressantes nas esferas psicológica e social, que impactam de forma reconhecida para a formação de doenças.

Percorre a medicina no Japão e mostra que lá há uma tendência a unir o conhecimento da Medicina Tradicional Chinesa com a medicina ocidental, criando assim uma denominação de Medicina tradicional do leste asiático, um sistema eficiente de assistência médica. Lá eles se interessam pelo conhecimento subjetivo,

que consideram tão valioso quanto o pensamento dedutivo racional.
Capra comenta que na medicina a intuição e o conhecimento subjetivo deveria ser usado por todo bom médico, porém não é validado e nem tem o reconhecimento na literatura profissional e nem é estimulado nos ensinos das escolas médicas. Em nenhum momento o livro se posiciona contra a medicina Hipocrática ocidental, mas nos mostra que deveria tomar um outro rumo, com relação à visão que tem do “doente e da doença”. Capra também traz a importância da inserção do trabalho de psicologia para acompanhar a pessoa que está adoentada, porque pela visão sistêmica, a parte emocional e social trás uma influência tamanha no adoecimento ou cura do indivíduo. O livro nos leva pelo campo da homeopatia, informando que a origem da filosofia desta terapia remonta aos ensinamentos de Paracelso e Hipócrates, tendo o sistema terapêutico formal fundado no final do século XVIII por Samuel Hahnemann. Trazendo o princípio que a finalidade da homeopatia é estimular os níveis de energia da pessoa. Através da identificação dos padrões de vibração do indivíduo e dos problemas, apregoa o princípio de que o semelhante cura o semelhante. Usando uma afirmação e colocação de George Vithoulkas, o maior expoente da nova homeopatia, podemos colocar que a relação entre o paciente e o homeopata/terapeuta, é uma interação íntima para ambos. “Não há como ser um mero observador passivo, é preciso haver esta interação, para que ocorra o crescimento tanto no profissional quanto no Paciente/Cliente” (CAPRA, F., 1983: 334).
Neste capítulo sobre Holismo e terapias, encontramos conhecimento sobre as técnicas de Wilhelm Reich, sobre a terapia Reichiana, que fala das couraças musculares. Nos mostra sobre a importância da meditação e relaxamento e o quanto a respirar correto é importante para manter os padrões de equilíbrio do corpo-mente. Vai discorrendo sobre as outras técnicas como Quiropraxia, Bioenergética, Técnica de Alexander, Feldenkrais, Rolf. Menciona que todas essas abordagens se baseiam na noção Reichiana de que “a tensão emocional se manifesta na forma de bloqueios na estrutura e no tecido musculares, mas diferem nos métodos empregados para desfazer esses bloqueios psicossomáticos” (CAPRA, F., 1983: 339).
O capítulo leva a entender que o conceito e princípio de saúde não deveria ser separado da integração com o ambiente, corpo-mente e campos energéticos. E faz análises e observações para mostrar que para ocorrer esta integração, precisamos ter uma visão sistêmica do universo a nossa volta. “A nova visão da realidade, de que vimos falando, baseia-se na consciência do estado de inter-relação e interdependência essencial de todos os fenômenos – físicos, biológicos, psicológicos, sociais e culturais” (CAPRA, F., 1983: 259).

Necessita-se ter clareza que os sistemas estão interligados, que os genes, não são os determinantes, exclusivos do funcionamento de um
organismo e que são partes integrantes de um todo ordenado e, portanto, adaptam-se à sua organização sistêmica.
E que todo ordenado é este? Capra cita a auto-organização, dividida em auto renovação e auto transcendência (capacidade de se dirigir criativamente para além das fronteiras físicas e mentais, nos processos de aprendizagem, desenvolvimento e evolução), e que estes princípios trazem uma dinâmica para a auto-organização do organismo. Mas, também nos mostra o quanto complexo é manter um organismo em equilíbrio. Isto nos leva a um entendimento de variáveis nos quais os sistemas estão inseridos. Questões ambientais, sociais, culturais, emocionais e constitucionais do corpo. É importante perceber que a dinâmica do corpo, não está restrita somente a ele. Precisamos ampliar nossa mente e percepção dessa visão sistêmica. Perceber o quanto o fator ambiental, tem um impacto tremendo sobre as reações químicas e emocionais e consequentemente físicas em nós.A influência do ambiente no nosso corpo/mente, foi bem explicada no livro A Biologia da Crença de Bruce H. Lipton, Ed. Butterfly, e Capra a descreve nesta frase de forma precisa “Cada criatura está, de alguma forma, ligada ao resto e dele depende”.


Ele nos mostra que se faz urgente trazer esta visão para as atividades de saúde: médicos, psicólogos, enfermeiros. O Ser não deve ser dividido, ele está integrado, não só em si, mas com tudo. Para ilustrar: “Do ponto de vista sistêmico, a vida não é uma substância ou uma força, e a mente não é entidade que interage com a matéria. Vida e mente são manifestações do mesmo conjunto de propriedades sistêmicas, um conjunto de processos que representam a dinâmica da auto-organização” (CAPRA, F., 1983: 284).
No livro, Capra descreve que esta auto-organização pode ser denominada com o termo Sabedoria Inata do corpo-mente. Neste ponto chegamos ao BodyTalk. A técnica do BodyTalk é denominada sistema de tratamento, porque o criador da técnica John Veltheim, tendo o livro O Ponto de Mutação, como uma de suas referências, conseguiu sintonizar com o princípio da visão sistêmica. No BodyTalk tudo está interligado. Parte física, emocional, ambiental, energética, cósmica. Trazendo fortes bases na Medicina Tradicional Chinesa e filosofia Vedanta, o BodyTalk se destaca por acessar a Sabedoria Inata do cliente para que possamos restabelecer o equilíbrio das energias, das emoções, influências ambientais, corpo físico e mente. John conseguiu unir os fundamentos da Medicina Tradicional Chinesa, Medicina Ocidental tradicional, pela anatomia e fisiologia do corpo, Yoga, Cinesiologia, Física Quântica e Bioenergética, formando um sistema de tratamento Sistêmico. Aonde tudo está interligado. Não deve haver separação, o Ser não é uma máquina fria, estática. Há uma dinâmica e interligação. Partindo do princípio de que o Sistema Corpo-
mente tem o poder de se auto curar, o Sistema BodyTalk acessa as informações através de um sistema de perguntas e respostas de biofeedback, para que possa restabelecer as diversas comunicações necessárias para se desfazer o estresse instaurado no corpo. Capra traz uma definição para estresse: “O estresse é um desequilíbrio do organismo em resposta a influências ambientais” (CAPRA, F., 1983: 317).
Como falei anteriormente, já é sabido hoje que o ambiente influencia grande parte das desarmonias que acontecem no individuo. Nossos genes vêm com todos os marcadores para adoecermos, o que faz para que um desses marcadores seja ativado, é sua reação ao ambiente e vice-versa. Na visão sistêmica, do sistema BodyTalk entendemos esta influência e através de um olhar cuidadoso e intuitivo do terapeuta, vamos acessando as informações nos detalhes, nas dinâmicas de como aquele indivíduo lida com estas oscilações. Para que através da técnica possamos restaurar o equilíbrio ou como citado no livro a capacidade de auto-organização do corpo-mente.
Transcrevo aqui algumas citações do livro O Ponto de Mutação, que fiz um paralelo com o Sistema BodyTalk, por se tratar de uma terapia que traz e incorpora esta visão Sistêmica para o Ser.

“Ser saudável significa, portanto, estar em sincronia consigo mesmo – física e mentalmente – e também com o mundo circundante” (CAPRA, F., 1983: 317).

“A doença pode ser física ou mental, ou manifestar-se como comportamento violento e temerário, incluindo crimes, abuso de tóxicos, acidentes e suicídios, a que se pode licitamente dar o nome de doenças sociais. Todas estas “vias de fuga” são formas de saúde precária, sendo a doença física apenas uma das numerosas formas patológicas de enfrentar situações estressantes na vida” (CAPRA, F., 1983: 319).

“É fato que o estresse prolongado anula o sistema imunológico do corpo e suas defesas naturais contra infecções e outras doenças. O pleno reconhecimento desse fato ocasionará uma importante mudança na pesquisa médica, fazendo com que ela deixe de lado a preocupação com microorganismos e passe a estudar cuidadosamente o organismo hospedeiro e seu meio ambiente” (CAPRA, F., 1983: 318).

Luciano Flehr Junho 2020

(1) Formado em Medicina Chinesa pelo Instituto de Acupuntura do Rio de Janeiro, Reiki I e II, Silva Mind Control, MindScape I e II , BreakThrough, tem todos os módulos do BodyTalk Prático e Avançado, Formação em Parama I e II. Foi organizador do curso de BodyTalk entre 2005 a 2007. Trouxe a Dra Janet Galipo para o primeiro curso de BodyTalk em Belo Horizonte em 2006. Atua com o BodyTalk há 16 anos. Email: lucianoflehr@gmail.com. Site: http://www.lucianobodytalk.com.

Para ler em pdf clique aqui

“BodyTalk no Brasil: uma cartografia de caminhos possíveis”

Ana Marcela Sarria[1]

  Como traçar o caminho de um sistema? Se partimos da percepção de que um sistema é necessariamente um conjunto de caminhos em movimento, cíclicos em sua natureza, nos deparamos com fenômenos pouco rastreáveis, que não cabem em mapas e não serão contidos em esquemas delimitados. Aprendemos sobre essa interdependência e multifatorialidade característica dos sistemas em outros artigos desta edição, especialmente aquela que se refere ao livro “O Ponto de Mutação” (CAPRA, 1982), e vemos como estas características são perceptíveis tanto em organismos vivos, quanto em dinâmicas sociais e coletivas. É levando em consideração essas premissas que nos propomos aqui a traçar caminhos percorridos pelo Sistema BodyTalk ao longo de sua presença no Brasil. São, conforme apontamos de partida, olhares sobre alguns caminhos possíveis de como este sistema vem se constituindo ao longo de 17 anos de presença nestas terras, através de algumas pessoas que criaram esta história.

  Traçando caminhos para além de um de mapa único, propomos o olhar de cartografia, que considera como premissa o caráter dinâmico e mutável daquilo que é observado, além da produção conjunta do conhecimento que compõe essa observação (CAVAGNOLI; MAHEIRIE, 2020; SADE; FERRAZ; ROCHA, 2013). Este artigo apresenta alguns elementos de um percurso trilhado conjuntamente por muitos terapeutas de BodyTalk, a partir da pergunta “como o BodyTalk entrou na sua vida, e o que aconteceu a partir disso”. A pesquisa cartográfica, cuja metodologia é apresentada na próxima seção, resultou em um material gráfico que faz parte desta publicação (https://bit.ly/cartografiabodytalkbr), e reúne de maneira esquemática e sensível as principais informações resultantes da análise de entrevistas com trinta terapeutas. Existe um foco, na parte gráfica, em apontar os principais pontos cronológicos e conceituais apreendidos na pesquisa, e também de apresentar aspectos básicos do sistema BodyTalk a pessoas que não o conhecem de dentro. Nesta escrita, nos propomos a apresentar de maneira mais detalhada o percurso trilhado para chegar a essas informações, e os principais aprendizados percebidos.

  A primeira seção é costurada pela proposta metodológica, e traz algumas reflexões sobre o corpo que compõe esta pesquisa, ou seja, o processo de “encontro” dos terapeutas que a compõem, apontando as importâncias de seu envolvimento nesse processo. Na segunda e última seção, são apontadas as principais categorias de análise percebidas no conjunto de respostas das entrevistas, que não serão aprofundadas neste artigo por falta de espaço, mas que ficam como pistas de possíveis sequências, e evidência da riqueza do material aqui analisado[2].

Do corpo da pesquisa – ou o quê faz uma cartografia?

  Esta pesquisa nasceu sem se saber projeto de pesquisa: surgiu da curiosidade de uma terapeuta de BodyTalk que, depois de quatro anos inserida no sistema, sentiu necessidade e impulso de conhecer mais sobre seus colegas e sobre o conjunto de possibilidades que vislumbrava em seu trabalho. Em abril de 2019, Nirvana Marinho lançou uma proposta num grupo virtual de amplo alcance formado por terapeutas de BodyTalk de todo o Brasil, um convite aberto para quem quisesse ser entrevistado sobre como este sistema de saúde entrou nas suas vidas. A entrevista seria feita em vídeo para poder ser publicizada na internet, “com o objetivo de divulgar nosso lugar de fala, nosso lugar de terapeutas, nosso lugar de responsabilidade” (MARINHO, 2019), conforme o chamado original do projeto.

  Na medida em que as entrevistas foram sendo realizadas e publicadas com o nome “BodyTalkers falando de BodyTalk”[3] foi se dando a percepção de um corpo já existente que vai se sabendo consciência, trazendo à tona uma multiplicidade de olhares, e ao mesmo tempo tecendo novas relações e entramados sobre esta prática. Ao longo dos meses, a proposta toma novo rumo e se volta para as origens do sistema no Brasil, formando a série de entrevistas nominada “BodyTalkers falando de BodyTalk: nossa história”[4]. Ao perceber a riqueza do conteúdo das trinta entrevistas realizadas nesta empreitada, Nirvana Marinho mobilizou seu olhar prévio de pesquisadora em comunicação[5] com o propósito de sistematizar as informações num formato cartográfico. Convidou as colegas Ana Marcela Sarria e Daniele Pires, ambas terapeutas de BodyTalk e com experiência em pesquisa na área de ciências sociais e antropologia[6], para colaborarem com seus olhares para um processo de sistematização das informações.

  A escolha pelo método cartográfico não se refere apenas à forma de apresentação dos resultados de pesquisa, mas sobretudo ao seu processo de construção. Assim, percebemos que ele já estava presente na realização das entrevistas e se faz pertinente com a proposta ao ser uma das “formas de pesquisar preocupadas com a processualidade e implicadas nas transformações que a investigação pode deflagrar” (CAVAGNOLI; MAHEIRIE, 2020, p. 65). Ou seja, desde sua concepção teórica a cartografia se propõe a acompanhar processos em movimento, construindo conjuntamente com as pessoas implicadas num certo campo de sentidos compartilhados, e sabendo que o simples observar e investigar estará gerando transformações no campo e nas pessoas envolvidas. Outra dimensão importante do percurso cartográfico é a dimensão política que ele supõe, no sentido de potencialidade das interações sociais, “quando são verificáveis movimentos capazes de criar brechas nos modos de apresentação do real, que engendrem novas configurações ao pensamento e ao campo de experiências”[7].

  Para a escrita deste artigo, Ana Marcela entrevistou Nirvana, num convite para revisitar o caminho que levou às entrevistas e o percurso trilhado ao longo de suas realizações. Ao refletir sobre o processo, Nirvana apontou o quanto inicialmente partiu de uma curiosidade aparentemente individual, porém ao longo do tempo percebeu o quanto a busca por essas informações e por essas conexões entre terapeutas atendia também a um interesse coletivo, e também nesse sentido também político, de maior compartilhamento e ampliação da autopercepção do nosso próprio valor. 

a minha impressão é que ao se dar a força para o estado de partilha, muitas coisas puderam acontecer. Notadamente eu percebi nesse tempo como os terapeutas começaram a se sentir ouvidos e valorados. E não é por mim, é pelo próprio movimento. As pessoas começaram a se tornar mais autorais no seu jeitinho de fazer. Então tem o Instagram de um, de outro, site de um, cada um faz de um jeito. Essa pipocagem de expressões, de autonomias, de subjetividades. […] Eu acho isso de uma beleza infinita, e eu acredito que isso é política: as pessoas poderem partilhar. (MARINHO, 2020)

  Outro aspecto central do método cartográfico surge aqui como pista para a compreensão da importância desta pesquisa: a construção de, e a partir da confiança. Tanto no processo de surgimento das entrevistas, temos a confiança depositada por Nirvana em que os colegas responderiam ao chamado, quanto nessas respostas temos a confiança dos terapeutas de BodyTalk em uma iniciativa onde teriam que, de certa forma, se expor e se entregar a uma experiência desconhecida. Este é um elemento central para a potência criativa surgida com esta iniciativa, já que, como sugerem Sade, Ferraz e Rocha:

“Confiar na potência de um encontro não se confunde com a ideia de completude, identidade ou convergência de interesses e finalidades. Não se trata de confiar em um resultado específico. As alianças fundadas na confiança não se sustentam na identidade de um estado de coisas ou de representações de um futuro, mas em zonas de indeterminação que nos lançam em trajetórias inventivas.” (2013, p. 285)

  Dessa inventividade, foi surgindo uma interação entre colegas, mesmo que virtualmente. O fato de as entrevistas ficarem disponíveis na plataforma do YouTube, e serem publicizadas via redes sociais, levou a que diversos terapeutas assistissem uns aos outros, conhecessem melhor o trabalho dos colegas, se vissem refletidos nas práticas descritas e quisessem acrescentar seu próprio olhar a esse mosaico coletivo que foi se configurando ao longo de alguns meses. Ainda olhando para a dimensão da confiança, a pergunta geradora “como o BodyTalk chegou na sua vida” trouxe também a característica de maior intimidade e autoria para as abordagens suscitadas nas entrevistas, expandindo explicações que poderiam ser técnicas e trazendo de maneira potente o aspecto vivencial deste sistema terapêutico. As reverberações disso se fizeram notar num processo observável nas falas que remetem a uma maior valorização de si, do seu trabalho, um auto-reconhecimento e também um reconhecimento à potência do próprio sistema terapêutico. Vemos, portanto, como: “com a confiança a nossa potência de agir excede aquilo que conhecemos, e, por isso, ela é condição de todo ato de criação. […] Promove, assim, a atualização de forças inéditas no nosso campo de consciência, e, ao mesmo tempo, novas possibilidades de ação.” ( SADE;  FERRAZ; ROCHA, 2013, p. 285-286).

  Percebemos um reflexo relevante dessas “novas possibilidades de ação” especialmente no surgimento da segunda etapa das entrevistas, que pode ser percebida na playlist específica subtitulada “Nossa História”.  De certa forma, as primeiras já vinham trazendo aspectos históricos relevantes, já que ao sermos convidados a contar como chegamos ao que fazemos hoje, frequentemente conectamos com uma versão da sequência de eventos e relações que nos possibilitou essa experiência. No entanto, a maioria dos terapeutas que vinham sendo entrevistados até então tinham entre dois e dez anos de prática como BodyTalkers, sendo que o sistema chegou pela primeira vez ao Brasil em 2003. No final de julho de 2019, participando de um curso de integração de módulos avançados, Nirvana Marinho teve uma experiência com alguns colegas que lhe chamou a atenção para a importância de conhecer melhor a trajetória histórica do BodyTalk no Brasil.

  Neste ponto, cabe ressaltar um aspecto importante, que é a pulverização com a qual estão distribuídos os terapeutas deste sistema. As formações no Sistema BodyTalk acontecem de maneira não sistemática em algumas grandes cidades do país, de acordo com a disponibilidade de instrutores estrangeiros e, até recentemente, um único instrutor brasileiro. O percurso de formação no sistema, apesar de cumprir um processo bem definido para certificação de terapeutas, se dá de maneira muito livre em termos de ritmo de realização dos cursos e de nível de aprofundamento nos níveis mais avançados. Isso significa que cada pessoa define, a partir de suas próprias demandas, quando fará os cursos, em quanto tempo e como incorporará o BodyTalk em sua prática profissional. Além disso, apenas no ano de 2019 surgiu a Associação Brasileira de BodyTalk (ABBTS), como uma sucursal local à Associação Internacional de BodyTalk (IBA, por sua sigla em inglês), portanto até então não havia uma instância formal de reunião e articulação de terapeutas desta prática.

  Portanto, fatores como:  fluxos de ofertas da formação desde a realização do primeiro curso oferecido; a extensa distribuição geográfica do país; e a ausência de uma política institucional de comunicação entre terapeutas, levaram à existência de diferentes gerações, com pouco contato entre si. Num trabalho de resgate dessa história, a estratégia de convite para as entrevistas, que num primeiro momento se deu por livre adesão de quem se sentisse convidado, passou a ter uma intencionalidade na busca por alguns elementos históricos sobre o sistema BodyTalk no Brasil, indo então por indicação de colegas nomeando uns aos outros nesse re-tecer de uma teia.

  Longe da pretensão de contar “A” história do BodyTalk no Brasil, como se existisse algo único com esse nome, esta lista de 13 entrevistas nos brinda com informações valiosas sobre as redes de afeto que permitiram a expansão do sistema em diferentes cidades, as conexões estabelecidas através de trajetórias pessoais que transitam também fora do país, e as maneiras como pequenos grupos de terapeutas mantiveram seus estudos e suas práticas localmente, notadamente no Rio de Janeiro, Brasília e Belo Horizonte. E para além desses aspectos, é também como se pudéssemos reconhecer mais uma camada de complexidade daquilo que nos dá base, num acúmulo de informações, experiências e conhecimentos existente para seguir expandindo nas novas etapas que vão surgindo num sistema complexo e em expansão.

Dos resultados e possibilidades de análise a partir das entrevistas

  Nesta seção trazemos alguns dos temas que aparecem como recorrentes e significativos nos olhares trazidos nas entrevistas, sistematizando de maneira breve os principais achados percebidos. Como parte do processo de elaboração do material gráfico de apresentação esquemática da cartografia, foi realizado um processo de análise da série “Nossa história”, que resultou em 35 temas chave que encontravam ressonância em diferentes entrevistas. Estes temas podem ser reunidos em quatro categorias de análise principais, que denominamos: aspectos da história e coletividade de terapeutas; relação dos terapeutas com o sistema; potencialidades e características percebidas pelos terapeutas; conceitos e procedimentos do sistema. Apesar do foco analítico mais minucioso na série histórica, consideramos que podemos generalizar muitas destas informações para a totalidade das entrevistas realizadas, já que todas foram assistidas e consideradas de certa forma, e trazem elementos em comum, que se complementam.

  A partir da recuperação histórica realizada nas entrevistas, vemos que o BodyTalk chegou no Brasil em 2003, com a vinda da instrutora estadounidense Janet Galipo ao Rio de Janeiro, ministrando uma palestra e um curso, com tradução simultânea, organizados a partir da relação entre pessoas que conheciam o sistema por terem vivido na Flórida, onde se encontra a sede da IBA. Graças à boa receptividade das pessoas que participaram, e pela característica dos cursos de estarem concentrados em poucos dias, foi possível que, a partir daquele ano, os cursos seguissem acontecendo periodicamente, na medida em que se ampliou o interesse pela prática. Através da rede de terapeutas que foi se formando, em 2006 aconteceu o primeiro curso dos módulos básicos – os Fundamentos – em Belo Horizonte, e em 2009 em Brasília. Além da ampliação de alcance geográfico, aconteceu também uma diversificação dos instrutores que vieram ao país e a oferta de diferentes módulos avançados. Vale a pena chamar a atenção também para a vinda do fundador do sistema, John Veltheim, que esteve no país em 2007 e 2009, oferecendo cursos e ministrando palestras de amplo alcance no Rio de Janeiro, Brasília e Recife. Nas cidades mencionadas até agora, também se mantiveram iniciativas de grupos de estudos autônomos e algumas ações voluntárias de implementação do BodyTalk em espaços de saúde e em projetos sociais.

  No ano de 2010 inicia um novo momento na dinâmica de formação no país, com a chegada do instrutor Márcio Ribeiro, brasileiro até então radicado em Cingapura, onde fez sua formação como terapeuta e instrutor. A partir de seu primeiro curso de Fundamentos, ministrado em Goiânia, a presença de Márcio contribuiu também com a expansão dos cursos para outras regiões, como São Paulo, Rio Grande do Sul e Paraná, entre outros. Nos anos seguintes, este instrutor se habilitou também para ministrar dois dos quatro módulos avançados – Princípios da Consciência e Biodinâmicas -, aumentando assim a possibilidade de aprofundamento na formação para mais terapeutas locais. De certa forma, e através de uma dinâmica mais complexa do que podemos mapear aqui, este foi um marco temporal importante para marcar a existência de diferentes gerações de terapeutas no país. Houve uma diminuição gradual da vinda de instrutores estrangeiros ao Brasil, apesar de se manter principalmente a vinda da Dra. Janet Galipo para lecionar os módulos avançados de Macrocosmos e Matrizes, além de outros instrutores que lecionam cursos das modalidades chamadas Ciências da Vida: MindScape, BreakThrough e FreeFall. Mais recentemente, houve também a expansão de cursos on-line de John Veltheim com tradução ao português, e a vinda da Dra. Laura Stuve para ministrar dois cursos especiais, de Epigenética e Ecologia do Corpo.

  Traçado esse percurso coletivo, ao nos aproximarmos dos percursos pessoais vemos que dentre as maneiras de se chegar no sistema BodyTalk, tanto como cliente quanto como terapeuta não há necessariamente um caminho único ou padrão. Há processos lentos de aproximação, assim como relações arrebatadoras onde a pessoa mergulha de cabeça no sistema, porém de maneira geral se encontra um encantamento que tem dificuldade de ser colocado em palavras. Nas histórias individuais, aparece uma profunda modificação de si a partir do contato com o sistema, seja em processos mais graduais e sutis, seja na percepção de mudanças rápidas e surpreendentes. Porém, mesmo se a narrativa de transformação individual não tem um percurso único – como haveria de ter? –, existe uma coincidência no entusiasmo pelo estudo e disseminação da prática quando a pessoa decide tornar-se terapeuta de fato.

  Diversos entrevistados apontam o impacto do BodyTalk em suas vidas por ser uma proposta de um paradigma de saúde em que há um profundo processo de auto-responsabilidade e consciência, e ao mesmo tempo um respeito ao tempo próprio de cada pessoa, se apoiando tanto na intuição, quanto em conhecimentos muito bem fundamentados, organizados em um protocolo estruturado. A curiosidade por “como isto funciona?”, ou mesmo “como isto é possível?”, leva à busca de um aprofundamento cada vez maior nos estudos e na prática, ao mesmo tempo em que vai se complementando com aquilo que a pessoa já trazia de experiência. Não é possível, com a informação que temos, traçar um perfil dos terapeutas, que vêm de diferentes bagagens profissionais e vivenciais. No entanto, é possível recuperar a valorização que eles apresentam ao fato de o BodyTalk ser um sistema que permite a complementariedade entre diferentes modalidades terapêuticas, e portanto valoriza e potencializa as experiências prévias do terapeuta. Neste sentido, as entrevistas trazem uma riqueza de possibilidades de escuta do corpo a partir da combinação de olhares da medicina, da psicologia, da medicina chinesa, da osteopatia, da arte, do yoga, das ciências sociais, entre outras formações que compõem os terapeutas. Nas palavras de uma das entrevistadas: “Essa complementariedade é uma visão que integra, e não fragmenta, como muitas vezes é a prática das profissões em saúde. Essa capacidade do BT de integrar, acolher e complementar, potencializar quaisquer outros recursos em saúde, em medicina, em autoconhecimento, é um grande presente.” (RESENDE 2019)

  Outro aspecto importante destacado pelos entrevistados é a riqueza e abrangência do percurso de formação possível dentro do próprio Sistema BodyTalk, que leva as pessoas a aprofundarem os estudos em diversos temas complexos. Além de um leque de questões relacionadas com as ciências da saúde, como anatomia e fisiologia, e outros sistemas de conhecimento, encontramos também uma importância central de dois pilares filosóficos: a Medicina Tradicional Chinesa e a filosofia Advaita/Vedanta. Ambas abordagens permeiam todo o conteúdo do Sistema BodyTalk em sua concepção, porém cabe destacar que os princípios de não-dualidade da Advaita ficam muitas vezes diluídos na compreensão sutil do quê é a consciência à qual nos referimos nos processos profundos de auto-conhecimento implicados no sistema. Nesse sentido, é digno de nota que alguns aspectos das entrevistas apontam para a relevância que teve o declarado interesse do instrutor Márcio Ribeiro nesse tema, de modo que estes conceitos se fizessem mais presentes nos cursos desde os módulos iniciais. Da mesma forma, aponta-se para o enriquecimento do Sistema na medida em que há cada vez mais instrutores com diferentes bagagens, trazendo maior versatilidade para os olhares possíveis.

Um ultra-breve encerramento

  Não há um fim em algo dinâmico, porém um texto se dá numa dimensão relativamente estática. As informações que constam aqui já geraram transformações em muitos sentidos, e as relações da matriz têm se modificado de maneira tão acelerada que já teríamos condições de fazer uma nova cartografia. Afinal, cada nova observação altera o que conhecemos. Neste momento, podemos considerar que a palavra que emerge como principal resultado deste processo é: amadurecimento. Estamos colhendo frutos.

Referências

CAPRA, F. O Ponto de Mutação: a Ciência, a Sociedade e a Cultura emergente. Cultrix: São Paulo – SP, 1982.

CAVAGNOLI, M. et al. A cartografia como estratégia metodológica à produção de dispositivos de intervenção na Psicologia Social. Fractal: Revista de Psicologia, [s. l.], v. 32, n. 1, p. 64–71, 2020.

MARINHO, N.  Comunicação em grupos restritos de Facebook. Postado em 14 de abril de 2019.

MARINHO, N. Arquivo de pesquisa. Entrevista realizada em 08/05/2020.

RESENDE, S. Entrevista na lista BodyTalkers falando de BodyTalk, Nossa História. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=uMIlEDbrA9M&list=PLAOdJgJTVHegOIKK_g9aPx99lzYGTY2nD . Entrevista realizada em 08/10/2019.

SADE, C.; FERRAZ, G. C.; ROCHA, J. M. O ethos da confiança na pesquisa cartográfica: experiência compartilhada e aumento da potência de agir. Fractal : Revista de Psicologia, [s. l.], v. 25, n. 2, p. 281–298, 2013.


[1]    Ana Marcela Sarria é Cientista Social, acadêmica em Enfermagem e terapeuta certificada de BodyTalk desde 2016. Também faz formação em Medicina Tradicional Chinesa. Encontrou no BodyTalk um valioso caminho para promover saúde como autonomia individual e coletiva com consciência e respeito à sabedoria de cada ser. Contato: (51) 99317-8777. Face e insta: @anamarcelabodytalk

[2]    As entrevistas que dão base a esta pesquisa estão disponíveis ao público na plataforma YouTube, conforme indicado na próxima seção, o que amplia as possibilidades de que quem se sinta convidado possa dar continuidade, aprofundamento ou mesmo novos rumos a esta análise.

[3]    Acessível em: https://www.youtube.com/playlist?list=PLAOdJgJTVHegvzV_b4kwxp1e4bpRfW04R

[4]    Acessível em: https://www.youtube.com/playlist?list=PLAOdJgJTVHegOIKK_g9aPx99lzYGTY2nD

[5]    Nirvana Marinho tem graduação em Dança pela UNICAMP, mestrado e doutorado em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, além de ampla experiência profissional em curadoria artística.

[6]    Ana Marcela Sarria tem graduação em Ciências Sociais e mestrado em Desenvolvimento Rural pela UFRGS, e Daniele Pires tem graduação em Ciências Sociais e mestrado em Antropologia, também pela UFRGS.

[7]    Ibid, p. 66.

Para ler em pdf clique aqui