O BreakThrough e o encontro da sua própria Rainha de Copas

Salima J. Lara Resende[1]

Como nos convida a refletir Esther Veltheim, criadora do Sistema Breakthrough: espiritualidade talvez seja a total aceitação de nossa humanidade, aqui e agora, em um mundo complexo. A aceitação de eu e você irrequietos, às vezes meio loucos. Onde achamos o sagrado e também partições, o prazer, a separação e, quando há muita (muita) sorte, reencontros com coisas mais leves do que o que nos fazem sentir jargões espirituais – ou desespirituais (esta última palavra aqui fui eu que inventei, mesmo).

Jargões como Alcançar a Iluminação; Curar a Criança Ferida; Ser Fit; Ser saudável; Desapegar do passado; Ser um grande terapeuta; Ser alguém bem resolvido; Evoluir. São jargões que geram metas que destroem o senso de confiança em si mesmo de alguém. Aumentam a arrogância e a desconexão com nossa clareza e humanidade – simples, vulnerável, espiritualizada.

Netflix e o Mestre

Esta semana assisti um filme no Netflix. A tradução do nome do filme seria, na íntegra: “Polvo, meu professor”. Era sobre um homem comum correndo contra o tempo, trabalhando com algo que não lhe era natural para a própria saúde. Decidiu mudar o rumo e passou a visitar diariamente um polvo que conheceu enquanto praticava mergulho livre na baía onde cresceu – sim, um polvo; o animal marinho mesmo, daqueles que se serve ou come em bons restaurantes. Meu Deus: que história. Difícil encontrar espiritualidade – ou humanidade – melhor descrita. História sobre devoção e clareza.

O que você acha que aconteceria a você se assistisse ao seu melhor amigo, a quem você se dedicou diariamente por um ano e que te ensinou a se encontrar livre e despido, e quem te deu o sentido de vida que você havia perdido, ser devorado por um tubarão enquanto você prende o ar debaixo d`agua, numa temperatura a 10 graus Celcius? Conseguiria só filmar a cena sem intervir, em entrega e sem necessidade de construir explicação – mental, espiritual, emocional ou desapegada? Eu não sei se conseguiria. E também não consegui não cair na armadilha de me envolver com expectativas irreais que me fizeram segurar minha própria energia na busca de uma evolução desconexa. Outras pessoas, pelo que vejo na prática, seguram a própria energia na tentativa de viverem o que se acredita ser uma Boa Vida. Mas o resultado é o mesmo: a queda.

Foi o questionamento ensinado pelo Sistema BreakThrough, junto com a graça do meu Mestre (sim, meu Mestre – vivo), que me possibilitou levantar. Mesmo com a graça de encontrar uma relação com um Mestre vivo real que me guia. Mestre é alguém que já desaprendeu tudo o que não é; não se diz saber e não precisa de nada além de relaxar e tomar sorvete de sobremesa, ou outras coisas assim. Observo o BreakThrough como ferramenta das mais preciosas dentre o que estudei nos últimos 18 anos em Psicologia. Explico agora o porquê, com parte da história de Alice no país das Maravilhas, de Lewis Carroll.

Se quisermos ir fundo no buraco da Alice e de fato conhecer a nós mesmos, temos que encontrar uma Rainha de Copas Interna. Essa rainha deve ser pronta a nos cortar a cabeça; nos resgatar das rasteiras que a cabeça (ou os Sistemas de Crenças), às vezes, nos dá. O rastro delas – tanto da Rainha Interna quanto das rasteiras da Crença – é dos mais difíceis de se decifrar. Somos sortudos se encontramos preciosos recursos de ajuda para a jornada. O BreakThrough é um deles.

Comecemos do começo

O BreakThrough é um sistema que nos leva a conhecer nossas crenças inconscientes. São elas o que gera em nós, em nosso corpo emocional, carga desnecessária e que acaba – cedo ou tarde – pesando. O peso pode ser por um senso de sofrimento, por estresse, por doenças físicas ou pela insistência em situações ou relações que não são nutritivas (que não ajudam a relaxar).

O significado do Símbolo de Copas, com o desenho de um coração, nos leva à lembrança das emoções. Se você já foi tomado por uma delas – as cinco emoções básicas: alegria/tristeza, preocupação, luto, medo ou raiva – e não conseguiu agir de forma prática naquele momento, você sabe o poder que tem o nosso Corpo Emocional. E pode se beneficiar com o BreakThrough. Conhecer essas energias emocionais, saber de onde vêm quando por elas somos tomados (Sistemas de Crenças inconscientes) facilita a vida. Encontrar estabilidade emocional, ou cortar a própria cabeça, é ser capaz de responder a vida em lugar de apenas reagir a ela. Ser capaz de parar de perder energia com o que não é importante; não nos deixa dormir ou não é aceito. Estabilidade emocional é a capacidade de não se envolver com o que dificulta o relaxamento – possível, por natureza, a qualquer Ser Humano. O mesmo relaxamento enaltecido pela força, poder e vivacidade que descrevem a existência de um animal selvagem – livre e intocado, como o polvo professor do filme. O BreakThrough pode nos ajudar a reaver relaxamento. O BreakThrough relaxa. Mas calma: quão fundo no buraco da Alice você quer ir?

De volta às origens: Quem sou Eu?

A jnana yoga é, dentre os caminhos espirituais, aquele que mais requer clareza intelectual. Uma capacidade de se fazer perguntas certas (muitas vezes tácitas) que ajudam a separar o joio do trigo; ou o que é real do que é irreal; ou a nossa clareza dos Sistemas de Crença. A jnana yoga é o fundamento do Sistema BreakThrough. É a arte de questionar até que se chegue a essência – o que não pode ser percebido, nem descrito – mas É. Aqui, onde as coisas são como são, relaxamento e alívio são possíveis. A resposta à pergunta “Qual o sentido da vida” é degustada, e não apenas entendida.

Ramana Maharishi, mestre indiano que usou a jnana yoga e morreu em 1954 (dia do meu aniversário, mas isso não importa – nem para mim nem para você) nos deu de presente a Auto-Investigação. A sugestão de prática que ele dava a milhares de alunos, pessoas que lhe procuravam na busca de alívio, aos seus mais próximos discípulos ou a sua mãe, era a mesma. A recomendação de se fazer, repetidamente e a si mesmo, a simples pergunta “Quem Sou Eu”. Quem é você que se encontrou ou está no caminho? Quem é você que não entende como outras pessoas conseguem viver daquele jeito? Quem é você que não sabe? Quem é você que tem raiva, frustração ou não consegue sair do lugar? Quem é você que se arrependeu ou que, finalmente, acertou? Quem é você que errou? Quem é você que faz o que pode? Quem é você que é amoroso? Quem é você que é egoísta? Quem é você que é agressivo, calmo ou pacífico? Quem é você que é demais, ou que não é bom o suficiente?

Ramana foi um ser humano extraordinário. Não só por ter sido simplesmente humano, até o talo. Mas por ter catalizado o processo espiritual (ou o processo de voltar a ser humano) de pessoas que hoje, ainda vivas, inspiram ou ensinam. Inclusive o meu Mestre, que tem Ramana como seu ParaGuru. E pessoas como a Esther Veltheim – que criou e nos ensinou o Sistema BreakThrough. Tenho o Breakthrough como uma versão mastigada para nós do Ocidente do exercício de AutoInvestigação de Ramana Maharishi. O BreakThrough é preciso, impressionante, simples. Funciona. Traz alívio, clareza, lembra-nos da necessidade de devoção e compaixão por nós mesmos, se quisermos ser humanos.

Autoperdão

Com o uso do BreakThrough na clínica (agora também online) testemunho centenas de pacientes, muitos dos quais recebem sessões mensais de BodyTalk, a dar significativos saltos na direção do alívio e do autoperdão. Com o uso do BreakThrough já experimentei clareza sobre mim mesma e sobre o que me segurou por meses a fio em situação justa demais. É uma daquelas coisas que vale se dar de presente: receber uma sessão de BreakThrough, ou estudar o Sistema. O único pré-requisito é você já ter sentido uma emoção exageradamente e querer – por saber o peso que uma emoção exagerada traz – ser a sua única e própria Rainha de Copas.


[1] Salima J. Lara Resende é Terapeura BodyTalk Avançada e Parama, Psicóloga, Terapeuta Floral e Alquimista. Mantém sua clínica em Brasília; atende por consultas online (em português e Inglês) e também em Florianópolis e Garopaba. Ensina o BodyTalk Acesso desde 2009; trabalha com o Breakthough desde 2010. Dedica-se `a meditação desde 2012. Contato: sensis.bodytalk@gmail.com / +5561998420477

Crédito da imagem: Ramanaashram, Tiruvannamalai, Índia, 2018. Foto: Salima J. Lara Resende

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Auto investigação e o caminho espiritual

[1]

Esther Veltheim[2]

Seja paciente na direção de tudo que está insolúvel no seu coração e tente amar as questões elas mesmas, como quartos fechados e como livros que são agora sendo escritos numa língua estrangeira. Não procure respostas, que não podem ser dadas a você porque você não está apto a viver com elas. E o ponto é, viver com tudo isso. Viva as questões agora. Talvez você irá gradualmente, então, sem perceber, viver em algum dia distante em direção ao futuro”. – Rainer Maria Rilke

Pergunte para vinte pessoas diferentes o que duas pequenas palavras “caminho espiritual” significam para elas e você irá provavelmente receber vinte respostas diferentes. Mas tem chance que muitas destas explanações irão conter o termo “ser iluminado”.

Caminho spiritual. Tornar-se iluminado, iluminar. Ser uma pessoa espiritual. Quase qualquer pessoa envolvida em cura alternativa ou algum tipo de yoga irá ter cruzado com essa terminologia ou mesmo regularmente usado esses termos.

Uma coisa é muito certa. Se seu objetivo é tornar-se iluminado, a crença que falta algo em você vai te pegar. O oposto também pode acontecer. Se seu objetivo é tornar-se iluminado, é possível que você esteja resignado com a ideia que existe alguma coisa que você precisa galgar ou antes algo tem que acontecer. Talvez o ego, o Eu, seus pensamentos. Talvez tudo isso.

E então, existem todo tipo de trajetórias espirituais que você pode considerar. E então existem todas as diferentes explicações sobre elas. E então existe o que você sente dentro de você. Talvez uma profunda frustração, uma nostalgia, uma sensação de “isso não é possível?!”, “existe algo mais”, “o que é a vida nisso tudo?”. Se você se relaciona com alguma coisa aqui, você não está sozinho. Espiritualidade é um assunto que tem algo de desconcertante, intrigante, sedutor, desafiador e direciona as pessoas para limite da loucura, provavelmente como nunca antes você experimentou.

Existem alguns maravilhosos ensinamentos e mestres no mundo que inspiram e catalisam nossa jornada espiritual. Alguns dos mais amados e renomados mitologistas e mestre em contar histórias, Joseph Campbell, nos convoca para nossa jornada espiritual chamado Jornada do Herói. E, claramente, nenhuma palavra melhor se aplica do que herói àquele que descreve qualquer um de nós que caminhe através da vida humana. Nada é certo, nada é premeditado, nada é garantido. Mesmo se nós não pensarmos em nós mesmos nessa jornada espiritual, somente ser humano já significa que estamos engajados numa jornada heroica.

Da perspectiva do BreakThrough, a vida espiritual significa: uma aventura de exploração do que é ser humano e viver essa vida humana tão plenamente como possível.

Como você talvez já saiba, existem quadro caminhos principais do Yoga –  Karma Yoga, Bhakti Yoga, Raja Yoga e Jnana Yoga. Esses são os caminhos espirituais usados por aqueles que se engajam numa jornada espiritual. Cada um é diferentemente conduzido para um temperamento particular e abordagem para a vida. Um dos quatro caminhos, Jnana, o caminho do conhecimento, é considerado um dos mais simples e o método mais direto de corte dos nossos equívocos sobre si mesmo. Como uma palavra simples é antítese da outra, o caminho é tradicionalmente o menos percorrido.

Porque o jnana yoga é considerado difícil e não seguido por qualquer um é porque ele requer um intelecto afiado; alguém com a capacidade de cortar através das concepções distorcidas de si. Ao fim, o jnana yoga pode ser bem chamado da yoga do questionamento. Não é que aqueles envolvidos em outro tipo de yoga não se coloquem questões. Ao contrário. O praticante de jnana explora as questões por elas mesmas num caminho que nenhum outro faz. É o caminho do discernimento: procurar diferenciar tão claramente quanto possível o que é real do que é irreal.

Vivendo na era da Informação que nós estamos, nunca antes os seres humanos estiveram expostos a tanto fluxo de informação. Nenhum de nós com um computador ou um smartphone ou televisão estamos disponíveis para sermos bombardeados com informação praticamente o tempo todo. Muito dessa informação parece convincente, até mesmo sedutora. Imagens, palavras, sons, ensinamentos, propagandas… e uma lista vai e vai sem parar.

Os benefícios são muitos, mas os perigos são igualmente numerosos. A habilidade do sistema humano para se adaptar a esse novo caminho de ser tem sido testado a todo momento. Muito do tempo que nós estamos desatentos a essa multiplicidade de instrusões elétricas estressantes, nosso sistema está absorvendo.

Como costuma acontecer quando nossos sistemas estão estressados, nós fazemos o que é mais fácil para nós. Nós queremos alívio imediato e nos preocupamos para que consequências a longo prazo caiam no esquecimento. Um dos mais comuns métodos de estresse que nós temos na era da Informação é presumir. Com tanta informação chegando até nós, é mais fácil ser como uma esponja, absorver a maior parte dela e economizar o tempo de questioná-la.

Em outras palavras, nunca houve um momento em que os seres humanos precisassem tanto aprimorar sua capacidade de questionar. Nunca houve um momento em que nossa vida como seres humanos tivessem tanta necessidade de examinar. Não é porque tempos obscuros e difíceis nunca existiram antes. Ao contrário, tudo que precedeu essa era tem requerido tremenda adaptação humana. Foram estes tipos de adaptações humanas que nos trouxeram a esta era, enfrentando inundações de informações.

Claramente, nunca houve um tempo de maior pressão do que aprender a arte do discernimento. No final das contas, nós precisamos aprender a arte do questionamento. Como uma criança pequena – direta, simples, com questões lógicas, que venham facilmente até nós. Isso significa que é da nossa natureza questionar claramente, simples e logicamente. Em algum lugar desse caminho, perdemos o contato com essa habilidade brilhante.

Entre a infância e o adulto, o intelecto torna-se uma palavra quase suja entre muitos nós. Nós esquecemos que pensar claramente e questionar claramente foi uma das coisas que nós realmente fazíamos muito bem. Vinha naturalmente. Isso significa que é inerente esse dom e que nenhum nós poderíamos ser privados.  Nós simplesmente precisamos nos valer disso.

Isso descreve o trabalho que fazemos no BreakThrough.


[1] Artigo gentilmente cedido pela autora através do site: https://www.breakthroughiba.com/.

[2] Esther is the Creator of the BreakThrough System and Co-Founder of the International BodyTalk Association (IBA). She resides in Europe and teaches advanced, interactive workshops in BreakThrough, in-person and online. She also runs ongoing BreakThrough Instructor Training programs and offers private, online BreakThrough sessions.

Esther is the author of Beyond Concepts – the investigation of who you are not, and Who am I? – the seeker’s guide to nowhere. Mais informações em https://www.breakthroughiba.com/instructors/.

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