O BreakThrough e o encontro da sua própria Rainha de Copas

Salima J. Lara Resende[1]

Como nos convida a refletir Esther Veltheim, criadora do Sistema Breakthrough: espiritualidade talvez seja a total aceitação de nossa humanidade, aqui e agora, em um mundo complexo. A aceitação de eu e você irrequietos, às vezes meio loucos. Onde achamos o sagrado e também partições, o prazer, a separação e, quando há muita (muita) sorte, reencontros com coisas mais leves do que o que nos fazem sentir jargões espirituais – ou desespirituais (esta última palavra aqui fui eu que inventei, mesmo).

Jargões como Alcançar a Iluminação; Curar a Criança Ferida; Ser Fit; Ser saudável; Desapegar do passado; Ser um grande terapeuta; Ser alguém bem resolvido; Evoluir. São jargões que geram metas que destroem o senso de confiança em si mesmo de alguém. Aumentam a arrogância e a desconexão com nossa clareza e humanidade – simples, vulnerável, espiritualizada.

Netflix e o Mestre

Esta semana assisti um filme no Netflix. A tradução do nome do filme seria, na íntegra: “Polvo, meu professor”. Era sobre um homem comum correndo contra o tempo, trabalhando com algo que não lhe era natural para a própria saúde. Decidiu mudar o rumo e passou a visitar diariamente um polvo que conheceu enquanto praticava mergulho livre na baía onde cresceu – sim, um polvo; o animal marinho mesmo, daqueles que se serve ou come em bons restaurantes. Meu Deus: que história. Difícil encontrar espiritualidade – ou humanidade – melhor descrita. História sobre devoção e clareza.

O que você acha que aconteceria a você se assistisse ao seu melhor amigo, a quem você se dedicou diariamente por um ano e que te ensinou a se encontrar livre e despido, e quem te deu o sentido de vida que você havia perdido, ser devorado por um tubarão enquanto você prende o ar debaixo d`agua, numa temperatura a 10 graus Celcius? Conseguiria só filmar a cena sem intervir, em entrega e sem necessidade de construir explicação – mental, espiritual, emocional ou desapegada? Eu não sei se conseguiria. E também não consegui não cair na armadilha de me envolver com expectativas irreais que me fizeram segurar minha própria energia na busca de uma evolução desconexa. Outras pessoas, pelo que vejo na prática, seguram a própria energia na tentativa de viverem o que se acredita ser uma Boa Vida. Mas o resultado é o mesmo: a queda.

Foi o questionamento ensinado pelo Sistema BreakThrough, junto com a graça do meu Mestre (sim, meu Mestre – vivo), que me possibilitou levantar. Mesmo com a graça de encontrar uma relação com um Mestre vivo real que me guia. Mestre é alguém que já desaprendeu tudo o que não é; não se diz saber e não precisa de nada além de relaxar e tomar sorvete de sobremesa, ou outras coisas assim. Observo o BreakThrough como ferramenta das mais preciosas dentre o que estudei nos últimos 18 anos em Psicologia. Explico agora o porquê, com parte da história de Alice no país das Maravilhas, de Lewis Carroll.

Se quisermos ir fundo no buraco da Alice e de fato conhecer a nós mesmos, temos que encontrar uma Rainha de Copas Interna. Essa rainha deve ser pronta a nos cortar a cabeça; nos resgatar das rasteiras que a cabeça (ou os Sistemas de Crenças), às vezes, nos dá. O rastro delas – tanto da Rainha Interna quanto das rasteiras da Crença – é dos mais difíceis de se decifrar. Somos sortudos se encontramos preciosos recursos de ajuda para a jornada. O BreakThrough é um deles.

Comecemos do começo

O BreakThrough é um sistema que nos leva a conhecer nossas crenças inconscientes. São elas o que gera em nós, em nosso corpo emocional, carga desnecessária e que acaba – cedo ou tarde – pesando. O peso pode ser por um senso de sofrimento, por estresse, por doenças físicas ou pela insistência em situações ou relações que não são nutritivas (que não ajudam a relaxar).

O significado do Símbolo de Copas, com o desenho de um coração, nos leva à lembrança das emoções. Se você já foi tomado por uma delas – as cinco emoções básicas: alegria/tristeza, preocupação, luto, medo ou raiva – e não conseguiu agir de forma prática naquele momento, você sabe o poder que tem o nosso Corpo Emocional. E pode se beneficiar com o BreakThrough. Conhecer essas energias emocionais, saber de onde vêm quando por elas somos tomados (Sistemas de Crenças inconscientes) facilita a vida. Encontrar estabilidade emocional, ou cortar a própria cabeça, é ser capaz de responder a vida em lugar de apenas reagir a ela. Ser capaz de parar de perder energia com o que não é importante; não nos deixa dormir ou não é aceito. Estabilidade emocional é a capacidade de não se envolver com o que dificulta o relaxamento – possível, por natureza, a qualquer Ser Humano. O mesmo relaxamento enaltecido pela força, poder e vivacidade que descrevem a existência de um animal selvagem – livre e intocado, como o polvo professor do filme. O BreakThrough pode nos ajudar a reaver relaxamento. O BreakThrough relaxa. Mas calma: quão fundo no buraco da Alice você quer ir?

De volta às origens: Quem sou Eu?

A jnana yoga é, dentre os caminhos espirituais, aquele que mais requer clareza intelectual. Uma capacidade de se fazer perguntas certas (muitas vezes tácitas) que ajudam a separar o joio do trigo; ou o que é real do que é irreal; ou a nossa clareza dos Sistemas de Crença. A jnana yoga é o fundamento do Sistema BreakThrough. É a arte de questionar até que se chegue a essência – o que não pode ser percebido, nem descrito – mas É. Aqui, onde as coisas são como são, relaxamento e alívio são possíveis. A resposta à pergunta “Qual o sentido da vida” é degustada, e não apenas entendida.

Ramana Maharishi, mestre indiano que usou a jnana yoga e morreu em 1954 (dia do meu aniversário, mas isso não importa – nem para mim nem para você) nos deu de presente a Auto-Investigação. A sugestão de prática que ele dava a milhares de alunos, pessoas que lhe procuravam na busca de alívio, aos seus mais próximos discípulos ou a sua mãe, era a mesma. A recomendação de se fazer, repetidamente e a si mesmo, a simples pergunta “Quem Sou Eu”. Quem é você que se encontrou ou está no caminho? Quem é você que não entende como outras pessoas conseguem viver daquele jeito? Quem é você que não sabe? Quem é você que tem raiva, frustração ou não consegue sair do lugar? Quem é você que se arrependeu ou que, finalmente, acertou? Quem é você que errou? Quem é você que faz o que pode? Quem é você que é amoroso? Quem é você que é egoísta? Quem é você que é agressivo, calmo ou pacífico? Quem é você que é demais, ou que não é bom o suficiente?

Ramana foi um ser humano extraordinário. Não só por ter sido simplesmente humano, até o talo. Mas por ter catalizado o processo espiritual (ou o processo de voltar a ser humano) de pessoas que hoje, ainda vivas, inspiram ou ensinam. Inclusive o meu Mestre, que tem Ramana como seu ParaGuru. E pessoas como a Esther Veltheim – que criou e nos ensinou o Sistema BreakThrough. Tenho o Breakthrough como uma versão mastigada para nós do Ocidente do exercício de AutoInvestigação de Ramana Maharishi. O BreakThrough é preciso, impressionante, simples. Funciona. Traz alívio, clareza, lembra-nos da necessidade de devoção e compaixão por nós mesmos, se quisermos ser humanos.

Autoperdão

Com o uso do BreakThrough na clínica (agora também online) testemunho centenas de pacientes, muitos dos quais recebem sessões mensais de BodyTalk, a dar significativos saltos na direção do alívio e do autoperdão. Com o uso do BreakThrough já experimentei clareza sobre mim mesma e sobre o que me segurou por meses a fio em situação justa demais. É uma daquelas coisas que vale se dar de presente: receber uma sessão de BreakThrough, ou estudar o Sistema. O único pré-requisito é você já ter sentido uma emoção exageradamente e querer – por saber o peso que uma emoção exagerada traz – ser a sua única e própria Rainha de Copas.


[1] Salima J. Lara Resende é Terapeura BodyTalk Avançada e Parama, Psicóloga, Terapeuta Floral e Alquimista. Mantém sua clínica em Brasília; atende por consultas online (em português e Inglês) e também em Florianópolis e Garopaba. Ensina o BodyTalk Acesso desde 2009; trabalha com o Breakthough desde 2010. Dedica-se `a meditação desde 2012. Contato: sensis.bodytalk@gmail.com / +5561998420477

Crédito da imagem: Ramanaashram, Tiruvannamalai, Índia, 2018. Foto: Salima J. Lara Resende

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Auto investigação e o caminho espiritual

[1]

Esther Veltheim[2]

Seja paciente na direção de tudo que está insolúvel no seu coração e tente amar as questões elas mesmas, como quartos fechados e como livros que são agora sendo escritos numa língua estrangeira. Não procure respostas, que não podem ser dadas a você porque você não está apto a viver com elas. E o ponto é, viver com tudo isso. Viva as questões agora. Talvez você irá gradualmente, então, sem perceber, viver em algum dia distante em direção ao futuro”. – Rainer Maria Rilke

Pergunte para vinte pessoas diferentes o que duas pequenas palavras “caminho espiritual” significam para elas e você irá provavelmente receber vinte respostas diferentes. Mas tem chance que muitas destas explanações irão conter o termo “ser iluminado”.

Caminho spiritual. Tornar-se iluminado, iluminar. Ser uma pessoa espiritual. Quase qualquer pessoa envolvida em cura alternativa ou algum tipo de yoga irá ter cruzado com essa terminologia ou mesmo regularmente usado esses termos.

Uma coisa é muito certa. Se seu objetivo é tornar-se iluminado, a crença que falta algo em você vai te pegar. O oposto também pode acontecer. Se seu objetivo é tornar-se iluminado, é possível que você esteja resignado com a ideia que existe alguma coisa que você precisa galgar ou antes algo tem que acontecer. Talvez o ego, o Eu, seus pensamentos. Talvez tudo isso.

E então, existem todo tipo de trajetórias espirituais que você pode considerar. E então existem todas as diferentes explicações sobre elas. E então existe o que você sente dentro de você. Talvez uma profunda frustração, uma nostalgia, uma sensação de “isso não é possível?!”, “existe algo mais”, “o que é a vida nisso tudo?”. Se você se relaciona com alguma coisa aqui, você não está sozinho. Espiritualidade é um assunto que tem algo de desconcertante, intrigante, sedutor, desafiador e direciona as pessoas para limite da loucura, provavelmente como nunca antes você experimentou.

Existem alguns maravilhosos ensinamentos e mestres no mundo que inspiram e catalisam nossa jornada espiritual. Alguns dos mais amados e renomados mitologistas e mestre em contar histórias, Joseph Campbell, nos convoca para nossa jornada espiritual chamado Jornada do Herói. E, claramente, nenhuma palavra melhor se aplica do que herói àquele que descreve qualquer um de nós que caminhe através da vida humana. Nada é certo, nada é premeditado, nada é garantido. Mesmo se nós não pensarmos em nós mesmos nessa jornada espiritual, somente ser humano já significa que estamos engajados numa jornada heroica.

Da perspectiva do BreakThrough, a vida espiritual significa: uma aventura de exploração do que é ser humano e viver essa vida humana tão plenamente como possível.

Como você talvez já saiba, existem quadro caminhos principais do Yoga –  Karma Yoga, Bhakti Yoga, Raja Yoga e Jnana Yoga. Esses são os caminhos espirituais usados por aqueles que se engajam numa jornada espiritual. Cada um é diferentemente conduzido para um temperamento particular e abordagem para a vida. Um dos quatro caminhos, Jnana, o caminho do conhecimento, é considerado um dos mais simples e o método mais direto de corte dos nossos equívocos sobre si mesmo. Como uma palavra simples é antítese da outra, o caminho é tradicionalmente o menos percorrido.

Porque o jnana yoga é considerado difícil e não seguido por qualquer um é porque ele requer um intelecto afiado; alguém com a capacidade de cortar através das concepções distorcidas de si. Ao fim, o jnana yoga pode ser bem chamado da yoga do questionamento. Não é que aqueles envolvidos em outro tipo de yoga não se coloquem questões. Ao contrário. O praticante de jnana explora as questões por elas mesmas num caminho que nenhum outro faz. É o caminho do discernimento: procurar diferenciar tão claramente quanto possível o que é real do que é irreal.

Vivendo na era da Informação que nós estamos, nunca antes os seres humanos estiveram expostos a tanto fluxo de informação. Nenhum de nós com um computador ou um smartphone ou televisão estamos disponíveis para sermos bombardeados com informação praticamente o tempo todo. Muito dessa informação parece convincente, até mesmo sedutora. Imagens, palavras, sons, ensinamentos, propagandas… e uma lista vai e vai sem parar.

Os benefícios são muitos, mas os perigos são igualmente numerosos. A habilidade do sistema humano para se adaptar a esse novo caminho de ser tem sido testado a todo momento. Muito do tempo que nós estamos desatentos a essa multiplicidade de instrusões elétricas estressantes, nosso sistema está absorvendo.

Como costuma acontecer quando nossos sistemas estão estressados, nós fazemos o que é mais fácil para nós. Nós queremos alívio imediato e nos preocupamos para que consequências a longo prazo caiam no esquecimento. Um dos mais comuns métodos de estresse que nós temos na era da Informação é presumir. Com tanta informação chegando até nós, é mais fácil ser como uma esponja, absorver a maior parte dela e economizar o tempo de questioná-la.

Em outras palavras, nunca houve um momento em que os seres humanos precisassem tanto aprimorar sua capacidade de questionar. Nunca houve um momento em que nossa vida como seres humanos tivessem tanta necessidade de examinar. Não é porque tempos obscuros e difíceis nunca existiram antes. Ao contrário, tudo que precedeu essa era tem requerido tremenda adaptação humana. Foram estes tipos de adaptações humanas que nos trouxeram a esta era, enfrentando inundações de informações.

Claramente, nunca houve um tempo de maior pressão do que aprender a arte do discernimento. No final das contas, nós precisamos aprender a arte do questionamento. Como uma criança pequena – direta, simples, com questões lógicas, que venham facilmente até nós. Isso significa que é da nossa natureza questionar claramente, simples e logicamente. Em algum lugar desse caminho, perdemos o contato com essa habilidade brilhante.

Entre a infância e o adulto, o intelecto torna-se uma palavra quase suja entre muitos nós. Nós esquecemos que pensar claramente e questionar claramente foi uma das coisas que nós realmente fazíamos muito bem. Vinha naturalmente. Isso significa que é inerente esse dom e que nenhum nós poderíamos ser privados.  Nós simplesmente precisamos nos valer disso.

Isso descreve o trabalho que fazemos no BreakThrough.


[1] Artigo gentilmente cedido pela autora através do site: https://www.breakthroughiba.com/.

[2] Esther is the Creator of the BreakThrough System and Co-Founder of the International BodyTalk Association (IBA). She resides in Europe and teaches advanced, interactive workshops in BreakThrough, in-person and online. She also runs ongoing BreakThrough Instructor Training programs and offers private, online BreakThrough sessions.

Esther is the author of Beyond Concepts – the investigation of who you are not, and Who am I? – the seeker’s guide to nowhere. Mais informações em https://www.breakthroughiba.com/instructors/.

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Alimentando nossos demônios

A Prática Da Aceitação Radical”

Myriam Machado[1]

Escrevi esse artigo em outubro do ano passado (2019) como celebração da minha graduação para facilitar o FreeFall 3. Como muitas coisas aconteceram nesse meio tempo, o artigo ainda está na fila a ser publicado na Newsletter da IBA.

Fico bastante feliz que a sua primeira publicação ocorra numa plataforma brasileira. Para mim, é mais uma celebração da minha própria origem e da gratidão que tenho por essa maravilhosa matriz.

E, antes de começar a leitura propriamente dita, eu gostaria de enviar minhas preces e “vibes” para que esse artigo encontre todos com saúde e em paz.

E o artigo começa assim:

Era uma vez um poderoso Demônio que aterrorizava a Terra. O nome dele era Rakta Bija. Toda vez que alguém tentava matá-lo, cada gota de sangue derramada se tornava outro Rakta Bija. E rapidamente, havia muitos Rakta Bija causando bastante destruição.

A palavra para “Demônio” em sânscrito é rakshasa, que se traduz como “protegido”. Os demônios são protegidos no sentido de que não podem ser destruídos. Por esse motivo, Kali, a deusa da destruição, foi chamada para lidar com Rakta Bija. A primeira coisa que Kali tentou fazer, foi matar Rakta Bija. Assim como nós – quando enfrentamos um desafio ou um conflito – o primeiro impulso de Kali foi se livrar do Demônio, ou destruí-lo.

Mas os ensinamentos que o Rakta Bija traz, é que realmente isso não funciona. Se você tentar lutar contra o Demônio, você apenas criará mais demônios. Quanto mais Kali tentava destruir Rakta Bija, mais forte ele se tornava. Então, num momento de inspiração, Kali aceitou o enorme desafio e com coragem e com toda sua compaixão, ela estendeu sua língua. E a língua vermelha de Kali cresceu no tamanho do mundo todo e ela engoliu todos os Rakta Bijas, dando aos “protegidos” um lugar dentro de si mesma. Dessa forma, eles foram assimilados e transformados em nutrição para a deusa da destruição.

Nos ensinamentos budistas, os demônios não são seres exóticos, como os vistos nas pinturas místicas de pergaminhos antigos. Eles não são zumbis sedentos por sangue escondidos em lugares escuros para nos assustar. Esses demônios residem dentro de nós e fazem parte do que somos. Eles são nossos problemas; eles são as reatividades emocionais de nossas próprias vidas. São nossas doenças crônicas ou problemas comuns como depressão, ansiedade e vícios.

O que você acha dessa perspectiva mais amorosa, de “engolir seus demônios”? Uma coisa nós já sabemos: que exigirá uma prática extraordinária de autoaceitação e bondade. Uma prática que convida a transmutação de muitas das suas crenças. Crenças que existe uma parte do seu corpo ou uma emoção, um sentimento ou memória que são “inadequados” ou “fracos” ou “feios”.

Um dos focos mais importantes do Método do FreeFall é prática de autoaceitação radical. A autoaceitação é a resposta a baixa autoestima e é em si, um caminho eficaz para a cura, porque revela o entendimento de que não negamos nosso desequilíbrio, nossos erros, nossas doenças, ou qualquer problema na nossa vida. Nós simplesmente reconhecemos nossos conflitos como o ganho potencial de uma nova consciência e, talvez, um autoentendimento mais profundo. Nos cursos do FreeFall nós exercitamos essa autoaceitação radical, que não somente celebra nossa força, nossa beleza e nossa luz, mas como também nossas fraquezas, nossas sombras e demônios.

O FreeFall faz parte das Ciências da Vida. As Ciências da Vida e o Sistema BodyTalk são sistemas complementares e interativos onde cada curso aprimora o outro. Mindscape, Breakthrough e FreeFall – como qualquer uma das classes do BodyTalk – são considerados parte de uma terapia baseada na consciência que trabalha com a força curativa da mente-corpo.

Os exercícios do FreeFall convidam um relacionamento mais experimental com muitos conceitos do sistema BodyTalk, de Fundamentos a Princípios da Consciência, da Matrizes Dinâmicas a Medicina Oriental, do PaRama ao Corpo Energético, e assim por diante.

No método FreeFall, o catalisador da autoaceitação é o desnudar-se. E se o ato de se despir é a coisa mais assustadora que vem à sua mente quando você ouve falar do FreeFall, talvez você precise mergulhar nesse conceito mais profundamente.

O monge budista Rinpoche CHOGYAM TRAMGPA diz: “Defendemos nossa ignorância porque estamos aterrorizados, para sermos honestos conosco. Praticar a honestidade é honrar a si mesmo, seu corpo, sua alma, seu coração, sua mente. Há uma liberdade extraordinária quando você vive sua nudez e há muito poucas pessoas que podem apreciar isso porque aprendemos desde muito jovem a ter vergonha até mesmo nojo de nós mesmos. Ser honesto consigo mesmo é despir-se. E isso é profundamente libertador.”

John Veltheim criou o método FreeFall depois de observar o quanto as constrições criadas por nossas próprias histórias sobre autoimagem e amor próprio – e a carga negativa expressa em nossas roupas – podem perturbar não apenas o equilíbrio físico, mas também mental, emocional e energético. O principal objetivo do método FreeFall é que você possa celebrar a liberdade de Ser Humano se sentindo “Naked Beneath the Clothes”.

Essa honestidade sagrada requer desnudar-se não só no corpo mas na mente e no coração. Essa honestidade requer coragem, vulnerabilidade e muito… muito amor. Porque numa perspectiva global, muitos de nós temos medo de nos sentirmos vulnerável. Muitos de nós temos medo de nos expor; ou de expor o que acreditam ser o “feio”, o “inadequado”, o “ignorante”.

Você já ouviu ou leu algo assim: “… em todo evento desafiador da vida há uma bênção disfarçada? Será então, que todos os eventos nas nossas vidas contêm bênçãos em potencial?” A Bioenergética afirma que quanto mais intenso o evento emocionalmente, maior a energia potencial de cura que ele contém.

Sob esse ponto de vista, os eventos que chamamos de “dolorosos” ou “desafiadores” poderiam ser chamados com mais precisão de “eventos que exigem mais trabalho para extrair suas bênçãos ou sua energia curativa”. No caso do FreeFall, tirar a roupa pode intensificar o desafio? Com certeza, intensificando também as bênçãos. Na realidade, nada é mais confrontador do que ser gentil e amoroso consigo mesmo e com os outros.

De acordo com estudos da Neurociência, ser crítico e julgador de si mesmo e dos outros é o estado natural do cérebro pensante humano. Além do padrão natural do nosso cérebro ser tão crítico, somos uma cultura em constante busca da imagem perfeita. Hoje em dia, a imagem parece ser mais importante que a substância. Vendo os comerciais na mídia hoje em dia, fica difícil escapar do condicionamento cultural de que não somos altos, ou magros, ou atraentes ou saudáveis – o suficiente. Nosso computador não é rápido o suficiente. Nosso iPhone não é novo o suficiente. Quando somos bombardeados constantemente com essas mensagens, é raro para qualquer um de nós não acreditar que existe uma imagem “ideal” de como deveríamos ser, e que definitivamente aquela imagem ideal não é o que somos.

O que me faz observar com mais atenção é essa necessidade frenética de obter mais informação. Não apenas em nossa matriz BodyTalk global. A cada dia estamos sendo expostos com novos treinamentos e cursos, workshops, etc. Parece que existe um consenso universal, de que se aprendermos mais um conjunto de ferramentas, só mais um conjunto de ferramentas … seremos uma pessoa melhor; um terapeuta mais sólido, mais bem-sucedido, mais especial.

Talvez, essa necessidade de “ser mais especial” é mais sedutora do que imaginamos. Ela contribui para a separação sociocultural porque se concentra mais nas necessidades individuais do que nas necessidades do grupo. Ela envenena nossos relacionamentos interpessoais com uma necessidade fabricada de ‘autovalidação’ e bloqueia a nossa capacidade empática – quando involuntariamente compartilhamos os sentimentos de outras pessoas.

Por fim, a necessidade de ser especial aumenta as nossas expectativas, tanto em relação a nós mesmos quanto aos outros, e quando nossas especialidades não são reconhecidas a nossa autoestima, autoaceitação e autoamor adoecem.

Sem o propósito de ter que aprender uma outra ferramenta o método FreeFall nos convida a explorar o que acreditamos ser nossa autoimagem.

Então, o que significa amar? E amar a si mesmo? O amor-bondade (Loving-Kindness) é ensinado por várias metodologias, por diferentes filosofias e mestres. O amor-bondade é orientado pelo complexo equilibrador do coração e requer profunda percepção e atenção plena. Se você estuda a palavra budista para bondade, que é Metta, descobre outras traduções como: cuidado, simpatia, boa vontade, benevolência, compaixão, amor.

Em última análise, o amor-bondade, é o harmonizador, é o antídoto para o ódio, o medo, aversão e a doença. No FreeFall essa é a nossa ferramenta para transmutar – o que acreditamos que sejam as nossas fraquezas em nossa força. O amor-bondade é a ferramenta para transcender nossas sombras (nossos demônios) em alimento.

Talvez, nessa jornada transcendente da vida é preciso um “desnudar” para que possamos mergulhar livremente para dentro nós mesmos.

E, apesar dos muitos medos da mente pensante que podem facilmente limitar o amor próprio, o convite principal do FreeFall continua sendo a lembrança de que a nossa consciência tem a capacidade inata de amar sem limites e sem condições.

Um amor que abraça a tudo e a todos, não exclui nada.

Com Amor-Bondade

Myriam

No momento[2] as classes presenciais do FreeFall estão sendo adiadas. Mas eu gostaria de compartilhar as descrições dos 3 Cursos FreeFall:

FreeFall 1: Descrição do Curso

A teoria do FreeFall evoluiu das ricas tradições e ensinamentos nos campos de psicoterapia, bioenergética e tradições orientais. Dr. John Veltheim, fundador do FreeFall e do BodyTalk System, expandiu esses princípios para criar uma oficina inspiradora e transformadora, na qual o participante pode experimentar, reconhecer e resolver problemas relacionados com a autoimagem e autoestima.

Os participantes do FreeFall exploram o “Eu” passando por vários processos e exercícios que ajudam a tirar as máscaras que usamos para lidar com a vida. A “máscara de enfrentamento” é uma matriz de medos, julgamentos, crenças e comportamentos que impedem o indivíduo de abraçar e amar a vida inteira, como ela é. Uma das maneiras de fazer isso é através do desnude físico.

O convite de remover as roupas faz parte do curso FreeFall, cujo objetivo é ajudar a revelar o relacionamento pessoal mais intimo. Essa proposta é bastante desafiadora, pois pode trazer forte engatilhamento na exploração dos condicionamentos que criam nossas histórias relativas a segurança, controle, aceitação e moralidade, entre outras. Apesar desse convite, os alunos podem usar qualquer tipo roupa durante o curso.

A investigação continua pela exposição das atitudes que temos em relação aos nossos corpos, nossa sexualidade e nossa sensualidade. Todas essas explorações experimentais integram o conceito de “Permissões”, que é um dos princípios principais do Sistema BodyTalk. Nunca há toque sexual ou conteúdo de natureza sexual.

São esses condicionamentos, experiências e influências ambientais que contribuem para a visão distorcida de nós mesmos.

No artigo do Dr. Ovelheiro, “Drake Beethoven Ouro Clotilde”, existe uma exposição clara desse condicionamento que sofremos e como isso nos afeta tanto fisicamente, mentalmente e emocionalmente.

Se você estiver interessado nessa dinâmica, leia o artigo completo AQUI [https://www.bodytalksystem.com/member/downloads/english/member/Naked_Beneath_Your_Clothing.pdf].

Viver como se possamos sentir “despidos sob nossas roupas” significa aumentar continuamente nossa capacidade de autoaceitação, para que a vida possa ir além das nossas próprias restrições. A resultante abertura do coração e a crescente confiança em si mesmo apoiam a integração terapêutica e a evolução pessoal desse curso.

O Seminário FreeFall 1 é apenas por inscrição. A aplicação é baseada em um processo de triagem conduzido pelo instrutor. A elegibilidade é limitada aos candidatos que demonstraram um comprometimento pessoal e profissional ativo com o Código de Ética da IBA. Os candidatos serão contactados se forem necessárias informações adicionais.

Este curso conta com 16 horas de educação continuada para os requisitos dos profissionais certificados do BodyTalk.

FreeFall 2

Descrição do Curso

O FreeFall 1 foi projetado para nos libertar da “imagem” que temos de nós mesmos e expor a “verdade nua” da nossa humanidade. O FreeFall 2 leva esse processo adiante, pois explora a intimidade humana saudável, incluindo a intimidade consigo mesmo. É um curso que nos desafia a abordar os mecanismos de enfrentamento que distorcem a expressão única de nossa mente-corpo.

Neste curso, exploramos áreas do cérebro que estão envolvidas na maneira como experimentamos e respondemos à vida. Observamos a comunicação cerebral e os neurotransmissores que criam expressões emocionais e fisiológicas muito específicas, e aprendemos ferramentas poderosas para nos ajudar a ser responsáveis ​​e apresentar nossas emoções.

Exploramos ainda mais nossos tabus em torno da sexualidade e continuamos a aprender a respeitar os nossos limites e dos outros, praticando o princípio essencial do BodyTalk: Permissões. Trabalhar com permissões inclui exercícios que desafiam nossa capacidade de dizer “sim” para o que queremos em nossos relacionamentos e na vida e “não” para o que não queremos. À medida que cultivamos maior senso de responsabilidade para com o Eu, aprendemos simultaneamente a ter relacionamentos mais saudáveis ​​e amorosos com os outros. Através de todos esses exercícios, redescobrimos a força vital de cura dentro de nós que se expressa à medida que nosso rígido condicionamento se suaviza. Nunca há toque sexual ou conteúdo sexual de nenhuma natureza.

O FreeFall 2 também inclui exercícios para apoiar a integração de vários aspectos de nossa sensualidade, abrindo a capacidade dos nossos cinco sentidos físicos e subtis de captar mais informações. Isso inclui exercícios que direcionam nossa atenção para experiências sensoriais e nos ajuda a distinguir a diferença entre nosso ego, que deseja saber mais informação sobre algo ou alguém, a fim de compreendê-los, e nosso instinto natural, cujo imperativo é sentir algo ou alguém para compreendê-los. Tais exercícios ampliam nossa compreensão dos conceitos de controle e vulnerabilidade, mais uma vez permitindo uma conexão mais amorosa, íntima e honesta consigo mesma e com os outros.

O pré-requisito para o FreeFall 2 é o FreeFall 1. O seminário é apenas por aplicação baseada em um processo de triagem completo conduzido pelo instrutor. A elegibilidade é limitada aos candidatos que demonstraram um comprometimento pessoal e profissional ativo com o Código de Ética da IBA. Os candidatos serão contactados se forem necessárias informações adicionais.

Este curso conta com 16 horas de educação continuada para os requisitos dos profissionais certificados do BodyTalk.

FreeFall 3 – Dynamics

Descrição do Curso

Este curso avançado do FreeFall trabalha mais profundamente com o conceito de “Permissões” já inicialmente explorado nos cursos anteriores do FreeFall. Através de exercícios que desafiam sua capacidade de pedir o que você deseja, você chegará a um entendimento mais amplo de responsabilidade e autoconfiança. À medida que praticamos a solicitação do que queremos neste curso, ele começa a revelar nossa necessidade essencial de comunicação aberta, além de aumentar nossa confiança em assumir riscos. Ao passar pelos exercícios do curso, descobrimos sistemas de crenças profundas de não-pertencer. Vemos que é a nossa resistência em sermos abertos e o forte apego que temos aos nossos padrões defensivos que bloqueiam nossa capacidade de viver em alinhamento com nossa essência. Esse padrão programado e automático de atacar, de se defender e/ou se desligar leva a constrição de energia e consequentemente doenças.

Além de Permissões, este curso enfatiza a autoconsciência e o autocuidado. Para esse fim, o curso inclui exercícios que desafiam a autointimidade à medida que aprendemos a respeitar as escolhas pessoais e estabelecer e honrar nossos próprios limites.

O curso explora a sensação do toque como a parte mais vital da nossa personificação humana. Por meio de exercícios que utilizam o sentido do tato, exploramos limites pessoais, acordos e comunicação aberta. A natureza do curso é tal que começamos a trabalhar muito rapidamente na esfera do cérebro do coração, e não no cérebro da cabeça, o que ajuda a fundamentar os exercícios e também facilita um ambiente muito seguro, honesto e, portanto, estimulante. Os alunos trabalham para incorporar uma expressão saudável do conceito de “Consentimento” por meio de exercícios de generosidade, gratidão e abnegação, enquanto aprendem simultaneamente a deixar de lado a abnegação. É importante observar que, dentro deste curso, nunca há toque ou conteúdo sexual na natureza.

Este trabalho do FreeFall é mais ativo do que passivo, mais poderoso do que impotente. Mais importante, reconhecemos no FreeFall que, quando se trata de praticar os exercícios, o corpo é o lugar essencial da mudança. As mudanças e mudanças que os alunos experimentam neste e em outros cursos do FreeFall costumam ser visualmente percetíveis – postura diferente, aparência mais brilhante, pele mais firme, a lista continua. À medida que aprendemos a priorizar a autrresponsabilidade, o autocuidado, os limites pessoais e a comunicação aberta, nosso corpo começa a revelar um novo estado físico.

O pré-requisito para o FreeFall 3 é o FreeFall 2. O seminário é apenas por aplicação baseada em um processo de triagem completo conduzido pelo instrutor. A elegibilidade é limitada aos candidatos que demonstraram um comprometimento pessoal e profissional ativo com o Código de Ética da IBA. Os candidatos serão contactados se forem necessárias informações adicionais.

Este curso conta com 16 horas de educação continuada para os requisitos dos profissionais certificados do BodyTalk.


[1] Myriam pratica e estuda o BodyTalk System ™ desde 2001. Após mais de 18 anos de prática regular e estudos, a sua prática clínica incorpora técnicas de Módulos Avançados, das Ciências da Vida, da Epigenética e do PaRama. As suas sessões refletem mais de 20 anos de experiência praticando o sistems do BodyTalk e seus tratamentos expressam sua extensa experiência terapêutica e mais de 35 anos de prática espiritual intensa em combinação com a abordagem multidisciplinar e intuitiva da Fisiologia Avançada, Física Quântica e Epigenética. myriammachadobaker.com

[2] Especificamente o ano de 2020 devido a pandemia global. (N.E.)

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Anexo – descrição dos seminários FreeFall – Myriam Machado

MindScape como potencial

Com Angie Tourani[1], Celso Juc[2] e Carlos Bueno[3]

Mediação Nirvana Marinho

Tradução Adriana Camilo

Realizada em 2 julho de 2020 (zoom) / Transcrita por Nirvana Marinho                          

Nirvana Marinho: O Escuta é um periódico para falar de BodyTalk. A 1ª edição foi lançada nesse último inverno, para nós é inverno agora. E nós tivemos a oportunidade de começar a reunir vários artigos, resenhas, entrevistas sobre BodyTalk. Para próximo edição, falaremos sobre as Ciências da Vida. E muitos formatos diferentes seriam possíveis como esse que gostaria de propor a vocês hoje com uma mesa redonda. Nosso desafio hoje vai ser depois transcrever em um texto escrito. E farei seguindo as regras de citação de todos você e qualquer necessidade de edição, consultarei vocês. (…)

O Escuta, inicialmente, é em Português. E por isso eu dobro meu agradecimento à Angie porque por enquanto nosso alcance é para os leitores de língua portuguesa. Mas, ao mesmo tempo, acho muito importante poder multiplicar esse conhecimento no Brasil e para as pessoas que lêem Português.

Nossa dinâmica hoje será eu lançarei algumas questões que já estava no nosso roteiro mas adoraria que caso vocês tivessem perguntas entre vocês ou sugerirem algum tipo de questionamento entre vocês, a gente também use esse espaço como um espaço de troca. Meu objetivo aqui é, não só deixar vocês a vontade, mas manejar nosso tempo. (…)

Minha primeira pergunta é um espaço para vocês dizerem sobre vocês mesmos e como o MindScape compôs seu caminho profissional e pessoal.

Angie Touraine: Sou Angie Touranie, foi apresentada ao BodyTalk e MindScape em 2005. Quando estive a 1ª vez em um curso de MindScape foi transformador para mim. Eu era extremamente “cérebro esquerdo”, orientada para lógica e para o objetivo; então criatividade, intuição, sentir as sensações não eram sequer discutidas. Eu fui para o curso, quis sair da aula porque foi algo que realmente mexeu e transformou as minhas estruturas sobre o que eu acreditava, um novo paradigma de vida. Tem sido uma interessante jornada nos últimos 10, 15 anos ensinando e integrando MindScape na minha vida. MindScape tem tido um impacto literalmente em todos os aspectos na minha vida, pessoalmente, profissionalmente, espiritualmente. Basicamente, profissionalmente falando, eu vejo BodyTalk e MindScape completamente inseparáveis. Não vejo duas coisas diferentes, aprofunda e aprimora o tratamento mas também a comunicação com o cliente. Para os tratamentos, sessões à distância é muito proveitoso. Profissionalmente, se você trabalha com pessoas, MindScape é muito, muito valioso. E em todas as aulas, eu tenho pessoalmente algo positivo.

Celso Juc: O meu primeiro contato com MindScape foi através da minha mulher, que fez em 2010, e também fiz no mesmo ano. Minha formação é em Engenharia. E então, pode ver que… 1 mais 1 é igual a 2 sempre. Quando eu fiz o MindScape, eu aprendi que 1 mais 1 nem sempre dá 2. E fiquei apaixonado pelo MindScape. E comecei a fazer outros cursos do MindScape. Eu não sou BodyTalker. Somente Ciências da Vida. E aí eu fiz alguns avançados com Kris (Attard). Um dia conversei com uma pessoa, e disse “tenho muita vontade de ser instrutor”, e ela disse, “por que você não tenta?”. Então conversei com o Kris, e ele disse “você tem o perfil de ser instrutor de MindScape”, já vínhamos conversando. E nos últimos quatro anos eu tenho sido também Instrutor de MindScape, além de outras coisas que faço. Eu também dou aulas de liderança emocional, trabalho com emoção, com liderança, em universidades, em pós-graduação e MBA no Brasil. Como mudou a minha vida, muito, eu sempre adorei o MindScape, eu uso o MindScape na minha empresa para criatividade, para criação. Eu aprendo muito com as pessoas, como Angie. Eu gosto muito de dar os cursos tanto que eu tenho os cursos posteriores ao curso de formação – eu faço grupos, a gente trabalha e treina, treina, treina. Minha vida é outra coisa com MindScape.

Carlos Bueno: Boa noite. Eu sou muito ruim com datas, vou falar da minha história sem as datas. Comecei com BodyTalk, 2011; não lembro quando foi o curso com a Angela (Adkins), talvez Adriana possa ajudar quando foi [acho que foi 2012]. Comecei muito empolgada, até hoje sou, em todas as áreas que o sistema permite. Eu fiz todos os módulos, inclusive o PaRama, MindScape básico e avançado. Fiz os cursos mais filosóficos também, Finding Healthing 1 e 2; Medicina oriental e não me lembro os outros, mas fiz mais alguns. E em relação ao MindScape, posso resumir falando como eu indico ele as pessoas: eu falo para as pessoas se eu tivesse que esquecer todas as técnicas que eu fiz na minha vida e pudesse guardar uma coisa, eu guardava o MindScape. Então, eu, ao contrário do Celso e da Angie, eu tinha uma cabeça mais aberta, eu aceitei melhor, mas fazer o curso de MindScape é muito … expande muito nossa percepção das coisas. E no último exercício que a gente faz, do escaneamento, ali é a prova cabal que não existe tempo e espaço, não existe essa diferença, estamos todos juntos, somos uma coisa só. Como eu uso MindScape: eu uso basicamente nas sessões de BodyTalk (…). Tentamos fazer vários grupos de estudos (…).

Nirvana: Eu gostaria de usar essa inspiração “MindScape uma coisa que não esqueceria”, para trazer uma pergunta para todos você. Se vocês se lembram, qual foi o ponto de mutação, de completa transformação, usando o MindScape a sua vida pessoal ou profissional. E gostaria que vocês dessem um exemplo, e me alongo na pergunta para que vocês se lembrem um exemplo incrível da carreira ou na vida pessoal.  Quem poderia trazer o primeiro exemplo, seria ótimo ouvir vocês.

Angie: Com certeza. Eu diria que primeiro eu uso em cada aspecto da minha vida, especialmente em comunicação e resolução de conflitos. Depois de usar o MindScape há muitos anos, não é algo externo, já está integrado e inseparável da minha personalidade e a forma que me movo. Quando comecei a aprender MindScape, me ajudou academicamente, estava estudando para me tornar terapeuta e instrutora de BodyTalk. Em pouco tempo, em 2, 3 anos, tornei-me terapeuta certificada e logo depois Instrutora, certamente sem o MindScape isso não teria sido possível. Eu estava estudando anatomia e fisiologia que eram pré requisitos para me tornar terapeuta avançada e instrutora. E, naquele tempo, na África do Sul, estava estudando na universidade e viajando muito, perdia muitas aulas. Eu tinha somente um mês para fazer o exame, e usei o MindScape intensamente para estudar para o exame. Para o meu professor, isso foi surpreendente, porque, segundo ele, seria impossível passar na prova da forma como eu fiz, sem estar nas aulas presencialmente. Naquela época eu também estava participando de vários cursos avançados com Dr John (Veltheim), e sempre ficava a questão “o que era capaz de reter”, mas posso dizer que o MindScape foi a chave atrás de ter toda esse avanço profissional. Profissionalmente falando, posso dizer que tudo isso só foi possível para mim porque eu fiz através do MindScape.

Pessoalmente falando, eu vivo doze por 7 (24 horas por dia, 7 dias por semana) – eu estou falando com as pessoas, planejando, com MindScape. Sabe que é relaxante, meu estado mudou depois; as pessoas dizem que depois do MindScape foi uma mudança de 360 graus. Porque minha intuição, minha conexão com o Eu superior se torna parte da sua expressão. É uma linda oportunidade de falar sobre isso.

Nirvana: Obrigada Angie, vamos ouvir Celso. Qual foi seu ponto de mutação?

Celso: O Carlos falou dele, foi no 1º curso. Eu escrevi na minha apostila, no meu manual, “eu quero ensinar MindScape”, no ano que eu fiz. Eu escrevi isso, porque eu pensei “as pessoas precisam saber disso”. Foi impressionante. Campo é campo. Eu quero contar um exemplo; isso aconteceu em 2016… eu guardo datas, diferente do Carlos. Eu estava em São Paulo, o Kris (Attard) estava em São Paulo, e meu sogro teve um AVC. Minha mulher me ligou, eu saí do curso, atendi o telefone. E ela me disse que a psicóloga, a assistente social já tinha chamado a mãe, a ela, o irmão que o pai tinha poucas horas de vida. Nesse momento, eu pensei em vou convidar meu sogro para a oficina. E ele me disse: “eu não vou morrer”. E o médico disse, “ele não tem chance”. E eu busquei na minha mente a ressonância que tinha feito, o mapa, do exame. E eu peguei o resultado do exame, e eu vi o mapeamento a mancha, eu não entendo nada, não sou médico. E eu perguntei de novo (para meu sogro): “vai viver”. E ele disse: “sim, eu vou viver”. Ele tá vivo, na cama, faz quatro anos que está na cama, e já se comunica por gestos com a gente. (…)

Nirvana: Lindo exemplo, obrigada. Vamos ouvir Carlos. Qual foi seu ponto de mutação com MindScape, talvez em clínica, com paciente?

Carlos: Cada uso com MindScape já é um ponto de mutação. Cada confirmação de histórias como a do Celso, coisas que a gente vê na clínica. De você tocar no paciente e explicar como foi o acidente dele, sem ele ter falado nada. Todas essas confirmações são muito incríveis, são coisas que não me acostumo. Sempre falo que nunca me acostumo com MindScape e com BodyTalk. (….)[4]

Nirvana: Qual espaço de autorresponsabilidade o MindScape promove, não é. Porque na verdade uma das coisas que eu observo e gostaria de ouvir na experiência de vocês é como o MindScape muda nossa percepção. Gostaria de poder ouvir quais mudanças vocês observam em vocês mesmos? (…) Gostaria de ouvir de vocês quais foram as alterações perceptivas que vocês sentiram em vocês mesmos, corporais, mentais, espiritualmente.

Angie: Eu diria que eu uso MindScape para criar o meu espaço de meditação e eu sempre medito lá. MindScape é uma prática espiritual porque todos viveremos situações, desafios na vida, e ao invés de achar uma solução fora, vamos para dentro, para a oficina do MindScape. Então, basicamente, indo para seu estado mental, conectando seus guias ou animais, é uma forma de conectar também com sua mente subconsciente para achar seus bloqueios. Se eu tenho conflito com relacionamentos ou uma dor física, eu vou para meu MindScape. E pergunto o que está acontecendo na minha vida, por que, o que está representando na minha vida, porque meu subconsciente está apresentado essa situação. E uma vez que estou mais consciente com essa má percepção sobre mim, ou medo, ou insegurança, os sintomas desaparecem.

Nirvana: Eu já vivi isso também.

Angie: Para mim, MindScape traz esse espaço de poder encontrar as respostas internamente, ao invés de buscar externamente, ou culpar fatores externos.

Nirvana: Muito obrigada, Angie, muito importante este aspecto espiritual do MindScape. Celso, você tem algum relato de mudança de percepção ou de mudança em você?

Celso: Eu tenho uma conexão maior com meu corpo. Eu tive uma pedra no rim, a pouco tempo atrás. Você tem que esperar dez minutos para fazer o exame, usando o contraste, para identificar a pedra no rim. E a dor é muito grande né. E eu usei como exemplo o MindScape para eu suportasse a dor, e foi uma minha experiência de dez minutos se tornou um minuto. Muito bom. E outra coisa, eu não tenho dúvidas. Se eu quero uma coisa eu não tenho dúvidas, aquilo é aquilo. É isso.

Nirvana: Você tem algum relato?

Carlos: (…) O que eu sinto é que cada vez a gente usa e quanto mais a gente usa [o MindScape], mais afinados ficam nossos sentidos, tanto normais como sutis, principalmente os sutis. Para dar um exemplo, o que me chamou atenção. (…) A Angela falou uma vez sobre atividade física no MindScape. E eu sou um pouco desconfiado das coisas. Certa vez, eu montei uma academia de musculação na minha oficina. E eu fui malhar e senti as dores musculares no dia seguinte. E eu não tinha feito outra atividade, não tinha com eu ter aquela dor física. Eu senti exatamente os músculos que eu tinha malhado. Inclusive nessa pandemia eu queria ter usado isso, mas não usei ainda.

Nirvana: Nós temos aqui três exemplos, três histórias tão diferentes. E eu estou aqui imaginando nosso leitor. Eu gostaria que vocês pudessem comentar, brevemente, o quão infinito é esse universo do MindScape. E esse comentário vai na direção também de ouvir como vocês relacionam o MindScape com todo sistema do BodyTalk. Talvez para Angie venha a ser a inseparável relação entre MindScape e BodyTalk, eu gostaria de ouvir mais sobre isso; talvez para o Celso vá ser como o MindScape ajuda em outras áreas no desenvolvimento profissional; e tendo o Carlos como bodytalker tão entusiasmado com MindScape, eu gostaria talvez de ouvir um exemplo clínico. (…) Tudo que vocês trouxeram aqui leva a essa infinitude. Então é assim que eu gostaria de encerrar nossa conversa: qual relação do MindScape e BodyTalk.

Celso: Não sou do BodyTalk, eu fiquei pensando no MindScape a dias atrás, o que eu poderia falar sobre o MindScape para pessoas que eu gostaria de convidar e trazer para o MindScape. Então eu escrevi um artigo e o nome do artigo é Felicidade. E o artigo começa assim: você consegue explicar felicidade? A sensação que você tem na felicidade, você cresce, você se sente grande. E você não cabe no seu corpo. E que você não consegue explicar. Você só sente. E o MindScape para mim é mais ou menos isso, não dá para explicar. Você tem que sentir. Por isso eu convido as pessoas para experimentarem. E depois elas não soltam mais. É verdade. E como exemplo, uma experiência que eu fiz, um piloto com um grupo de pessoas que trabalham juntas. E eles tinham um problema. Em seis minutos, nós tivemos 39 soluções possíveis com o problema com insights dentro do MindScape. É isso.

Carlos: A relação do MindScape com BodyTalk que é os dois sistemas são geniais e ilimitados. E a limitação deles, na verdade, é o praticante. E então assim, tanto o MindScape como o BodyTalk, não são um milagre, justamente por isso precisam ser praticados. Porque, principalmente o MindScape, o BodyTalk também, eles trazem uma sensação que eu vou resolver tudo. E você realmente vai. Mas se você praticar. Se realmente usar, se dedicar. Então até o próprio John Veltheim o MindScape a gente aprende as ferramentas mas acaba ficando com algumas, se especializando com algumas. Eu estou falando isso tudo, porque é natural, o que eu não faço lá dentro – “não falo com meus guias”, “não uso minha mesa”. E exemplo é de cada atendimento que a gente faz, e a pessoa fala: “não posso esconder nada de você”. E para fechar, eu uso o MindScape como um ampliador na sessão de BodyTalk, e partir do momento em que eu comecei a usar o MindScape, parece que ficou tudo nítido durante a sessão.

Nirvana: Obrigada, Carlos, é verdade. MindScape é um amplificador de som e imagem. Angie, comente por favor a relação do MindScape com BodyTalk com sua vasta experiência.

Angie: Se você usa pessoalmente ou profissionalmente, MindScape integra e abre os paradigmas do tratamento. Porque o BodyTalk você usa o feedback neuromuscular pode se tornar mecânico e mais lento; com MindScape, é outra experiência. Integrando BodyTalk e MindScape, é como se suas sessões voassem, dar asas porque a velocidade, a qualidade da sessão é impulsionada. A nível prático, não posso imaginar fazer BodyTalk sem usar o MindScape. Com minha experiência prática, eu vou na minha oficina de MindScape, quando inicio a sessão, e eu me mesclo, me misturo com o cliente. E quando me misturo, eu tenho contato da história, todos os detalhes da experiência do cliente. Quando estou com um cliente com câncer, embora eu não tenha uma bagagem médica profunda, eu convido para minha oficina um especialista e me mesclo com o blueprint desses especialistas, e então realizada a sessão e é totalmente diferente. MindScape é sem fim do seu potencial porque não é a partir do cérebro esquerdo, mas se mescla com a consciência universal e traz o melhor que você precisa. Trabalhar com clientes usando MindScape, você está habilitado basicamente para conectar e ter a raiz do problema muito rápido; é como abrir o capítulo do livro da vida da pessoa e lê-lo. Isso funciona totalmente na zona, ressoar a zona e estar em contato com o subconsciente da pessoa. Meu comentário final é, tanto para o bodytalker como um terapeuta de saúde, o MindScape é o melhor investimento que você pode dar para seu desenvolvimento profissional em um alto nível. Obrigada.

Nirvana: Incrível Angie, ouvir desse ponto de vista. Essa experiência que vocês três compartilharam nesta mesa redonda tem a particularidade de cada um, o que embeleza o sistema, mas tem algo que parece unir nós cinco, incluindo a mim e a Adriana: é a nossa paixão, a nossa entrega por essa possibilidade. E é nesse espírito que eu gostaria de agradecer vocês, novamente, de fato, deixar uma flor no caminho de suas oficinas, porque assim como vocês, eu considero o MindScape como um caminho espiritual. E por isso que eu sou extremamente grata por essa noite de partilhas de experiências. Antes de terminar, passo para Adriana porque eu sei como é difícil fazer esse movimento de tradução.

Adriana: Só dizer realmente da minha paixão e da minha conexão com MindScape. Estou fazendo parte dessa segunda edição do Escuta e falando das Ciências da Vida como um todo. Tem sido um mergulho muito poderoso, especial. E celebro a dimensão integral, espiritual inclusive, do MindScape, e do BodyTalk como um todo. Obrigada.

Nirvana: Boa noite a todos e um ótimo dia a você, Angie.


[1] Angie Tourani, www.bodytalksystem.com.hk ,  FB – BodyTalk Hong Kong, IG- bodytalkangie

 Angie Tourani is Hong Kong’s only Advanced Certified BodyTalk Practitioner, BodyTalk Instructor and MindScape Trainer, since 2010.  She specializes in working with emotional issues, anxiety, immune system weaknesses,  digestive issues and hormonal problems  with both adults and children. She offers both physical treatments and distance (remote) healing sessions.

Angie is passionate about working with clients with chronic, inflammatory, stress related issues by assisting them through treatments, and through providing them with training to utilize simple, self-help techniques. This training is provided through the BodyTalk Access Seminar and the development of meditation and mind skills in the MindScape Seminar.

[2] CELSO JUC

Instrutor certificado em MindScape pelo IBA Global Healing, professor de Liderança Emocional pela FIA / Harvard Business Review Brasil, palestrante nos temas: Inteligência Emocional, Atenção Plena e Felicidade. Ativista Quântico formado pelo físico indiano Dr. Amit Goswami. Engenheiro, com mais de 35 anos de experiência como gerente e diretor de empresas nacionais e multinacionais.

e-mail: celso@mindscape.com.br

Fone: (11) 98304.0000

www.celsojuc.com.br

[3] Carlos Bueno, CBP desde 2011, PaRama, MindScape. Realizou vários outros cursos do IBA, tais como Medicina Oriental, Finding Heath 1 e 2 com John Veithein. Coordenou grupo de estudos de BodyTalk e de Mindscape. contato (whatsapp): 61 98199-8880.

[4] Aqui houve uma exceção do texto falado em comum acordo com o participante. (N.E.)

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Ciências da Vida do BodyTalk

autodescoberta e o apreço por perguntas significativas

            Adriana Almeida Camilo[1]

“Onde eu estou, eu estou. Quando eu estou, eu sou.” 

Maria Beatriz Nascimento

O convite para escrever este ensaio sobre as Ciências da Vida para o periódico “Escuta, sobre BodyTalk” veio em um momento de síntese da minha trajetória pessoal e profissional. Em uma singela sincronicidade, havia retornado recentemente de uma residência artística nominada “Práticas de Escuta” que, de certa forma, marcou a celebração da integração de caminhos por mim percorridos nos últimos 25 anos em campos como: terapias, artes do movimento e artes audiovisuais, práticas somáticas, escrita, pesquisa científica, produção de conteúdo intelectual e cultural, ativismo socioambiental, espiritualidade, sistemas familiares e coletividades, ecologia profunda, meditação, estudos e práticas sobre as águas, embriologia, nascimentos, a vida e seus ritos de passagem, inclusive a morte e o morrer.

Compreender e retomar os vínculos entre estes campos aparentemente tão diversos constitui-se uma oportunidade de reconhecer a minha própria existência e de tantos outros organismos como sistemas vivos interrelacionados. Ao longo da vida, meu foco foi se movendo do fazer e da ação voltada para objetivos para reconhecer o Ser Que Sou, estar consciente e presente, ainda que muitas vezes pareça desafiante.

Lembra que falei sobre celebrar? O conceito de celebração autêntica, a partir da Ecologia Profunda e do Dragon Dreaming[2], parte do princípio que celebrar é um movimento introspectivo de observar as experiências e as próprias emoções, em um exercício de presença aqui-agora, colhendo os aprendizados da jornada de tal forma que o processo em si seja tão valorado quanto seu resultado. É a arte de fazer perguntas significativas que geram mais espaço interno do que conclusões. A partir desta escuta interna, as reflexões podem ser socializadas com outras pessoas, em uma tessitura intuitiva sobre o que sei, mas principalmente sobre o que se revela na dimensão do desconhecido sobre si e sobre a vida. É com gratidão, portanto, que compartilho com vocês este mergulho.

As Ciências da Vida do Sistema BodyTalk podem ser compreendidas como um espaço fértil e potente de autodescoberta e integração na relação consigo, com outros e com o mundo. É inegável o quanto MindScape, BreakThrough e FreeFall potencializaram, expandiram e seguem enriquecendo minha prática clínica como terapeuta BodyTalk. Mais do que um conjunto de cursos do sistema BodyTalk, que apoiam a relação terapeuta-cliente e se desdobram em aprimoramento da atuação profissional, estamos aqui diante de jornadas nas quais o foco é o processo de autocura, autoconsciência, autocuidado. Cada mergulho sob a perspectiva do MindScape, BreakThrough e FreeFall foram presentes e oportunidades preciosas que me permitiram contemplar minha natureza essencial e reconhecer essa mesma humanidade em outras pessoas.

Neste sentido, compartilhar as Ciências da Vida e convidar clientes a participar destes cursos é também uma maneira de estimulá-las(os) na apropriação do caminho de autoconhecimento. É uma forma de apoiar cada pessoa que encontro no contexto terapêutico a colocar o espelho diante de si e reconhecer-se para além das crenças, máscaras e condicionamentos que ao longo da vida foram se juntando à autoimagem e à própria noção de realidade. São todos cursos sem pré-requisitos (no nível básico), na medida em que não há pré-requisitos para Ser quem se é e contemplar a própria história com frescor.

As abordagens de saúde baseadas em Consciência partem do princípio que o processo manifesto está relacionado com a sabedoria inata, que no BodyTalk é chamada “Consciência Universal”. A forma como acessamos essa Consciência é por meio da intuição, uma sabedoria que está sempre disponível para todos nós. À medida que refinamos a habilidade de identificar os condicionamentos e crenças desenvolvidos ao longo da vida, que distorcem a escuta sensível da intuição, mais profunda e através da experiência, compreendemos a natureza essencial da sabedoria inata (VELTHEIM, J. 2013).

Como os cursos Ciências da Vida do sistema BodyTalk não tiveram seus nomes traduzidos para português aqui no Brasil, intui que expandir a compreensão semântica dos três eixos poderia trazer alguns insights.

Em uma aula com a instrutora Suffen Paphassarang, revelou-se a compreensão de Mindscape como paisagem mental que integra as qualidades estruturantes do hemisfério esquerdo do cérebro com a natureza intuitiva do hemisfério direito. Quanta riqueza e liberdade contemplar as informações que se apresentam quando sintonizamos com a intuição estruturada como paisagens de grande plasticidade! Com Kris Attard, Andy Spencer e Angela Adkins, compreendi que permitir que o cérebro entre na frequência alpha, reduzindo distrações desnecessárias e filtros baseados no passado, convida a criatividade e a intuição a acessarem informações subconscientes sobre o campo e sobre nós mesmas(os), ancoradas(os) na sabedoria do coração.

A imaginação – que é a intuição não estruturada e inclui visualização, sonhar acordado, pensamentos em geral, sonhos – é fundamental para um saudável funcionamento do cérebro, no estabelecimento de sinapses neuronais diversificadas e fortes, no processamento do estresse, na geração de novas ideias, na criatividade, dentre muitos outros (VELTHEIM, J., 2013). O poder e a complexidade da capacidade de autocura e reequilíbrio do organismo, especialmente a partir de práticas apoiadas na intuição, como meditação, vizualizações e abordagens integrativas baseadas no modelo corpo-mente, são investigados no livro “The Heart of Healing”, do Institute of Noetics Sciences, com riqueza de exemplos clínicos e referências a pesquisas científicas [sem edição traduzida para o português].

De acordo com o dicionário Oxford, breakthrough é “um importante desenvolvimento que poderá guiar a um acordo ou realização (agreement or achievement: 1. algo que alguém fez com sucesso, especialmente usando seus próprios esforços ou habilidades/ 2. o ato ou processo de realizar algo)” [tradução minha]. Nas Ciências da Vida, o BreakThrough é um método de autoinquirição concebido por Esther Veltheim a partir de princípios da Advaita. Em uma jornada pela natureza paradoxal e curadora do conflito e da psique humana, BreakThrough é um convite para transcender uma vida vivida a partir de condicionamentos e comportamentos reativos para uma vida mais consciente e plena (VELTHEIM, J., 2013). As convicções inconscientes deixam de atuar como verdades absolutas e são desveladas como crenças, baseadas no passado, que até então vinham moldando nossa perspectiva da realidade. Neste sentido, “o ato ou processo de realizar algo” que os passos do BreakThrough propiciam não vão em direção de tornar-se uma pessoa melhor ou diferente, mas sim no sentido da autorrealização, reconhecendo o que sempre esteve ali, o estado natural e autêntico do Ser, com toda sua humanidade (VELTHEIM, E., 2001).

FreeFall, por sua vez, traz o sentido semântico de queda livre, sem emprego de força ou de acessórios externos para impulsionar ou frear o movimento. Em termos vivenciais, é um mergulho na consciência de quem somos, compreendendo como nossas máscaras e mecanismos de defesa se expressam no corpo por meio de tensões, rigidez muscular e barreiras de proteção do coração. Temas como autoimagem, a relação com o próprio corpo, sexualidade, controle, dinheiro e vulnerabilidade são abordados com confidencialidade, cuidado e profundidade. Em que medida o que protege daquilo que mais tememos também pode nos separar do contato com o que verdadeiramente somos e amamos, a vitalidade e a presença no aqui-agora?

Sendo o FreeFall uma abordagem terapêutica baseada em consciência, também me parece ilustrativo resgatar a metáfora do iceberg: a pequena ponta como aquilo que somos conscientes, enquanto a maior parte do iceberg está submersa, ou seja, inconsciente. Não obstante, os movimentos do iceberg são geridos por aquilo que está visível e por aquilo que está submerso, por sua totalidade. Neste sentido, ancorar-se na sabedoria do coração, como abordado no módulo Princípios da Consciência do BodyTalk e vivenciado no FreeFall, é uma integração profunda com as dimensões inconscientes do Ser. É a âncora descendo as águas profundas do inconsciente, da sombra, para acessar e abraçar a totalidade do iceberg. Nossas sombras não são necessariamente limitações, mas tudo que não somos conscientes sobre nosso Ser. “O pensamento complexo tenta, efetivamente, perceber o que liga as coisas umas às outras, e não apenas a presença das partes no todo, mas também a presença do todo nas partes.” (MORIN, 2013: 14). Novamente, assim como no BreakThrough, no FreeFall não há um propósito de despojar por completo dos filtros e crenças que criam a realidade experienciada, chegando em uma autoimagem idealizada, neutra, imaculada, perfeita. A natureza do movimento é despojar-se da noção de que sua experiência determina quem você é.  Essa é sua experiência no momento, mas não é você.

O sistema BodyTalk foi inicialmente desenvolvido por John e Esther Veitheim no Mindscape, em estado alpha, integrando a intuição e a capacidade do cérebro de sistematizar e estruturar o conhecimento – com foco no desenvolvimento pessoal e autoconhecimento. Seus expressivos resultados na melhora ou remissão de desequilíbrios no corpo físico foram consequências, desdobramentos de uma abordagem sistêmica e integrativa. O BodyTalk segue em processo de aprofundamento e expansão e vem sendo aprimorado ao longo dos anos com a contribuição de seus sistematizadores, instrutores, terapeutas, estudantes e clientes.

Fritjof Capra[3], reconhecida influência do sistema BodyTalk, a partir de suas inestimáveis contribuições para o pensamento sistêmico e a física quântica, após a publicação de “O ponto de mutação”, “O Tao da física” e “Green politics”, apresentou um quarto livro, onde conta sua história pessoal e os diálogos com mulheres e homens notáveis por trás de suas ideias e conceitos. Em seu livro “Sabedoria Incomum”, traz um instigante relato de seu encontro com o mestre Krishnamurti e seu processo de libertação do aparente conflito entre a autorealização espiritual e sua trajetória como cientista, altamente identificado com o pensamento:

“Examinemos então a questão, […] sem julgarmos, sem condenarmos, sem justificarmos. O que é o medo? Examinemos isso juntos, vocês e eu. Vejamos se conseguimos realmente nos comunicar, estar no mesmo plano, na mesma intensidade, no mesmo momento.” […] E Krishnamurti passava então a tecer uma teia imaculada de conceitos. […] Apresentava uma análise brilhante de como tais problemas existenciais básicos estão inter-relacionados – não na teoria, mas na prática. Krishnamurti não só confrontava cada membro da plateia com os resultados de sua análise, como também instava e convencia cada um a se envolver no processo de análise. No final, ficava uma sensação nítida e forte de que o único meio para se resolver qualquer um dos nossos problemas existenciais é ir além do pensamento, além da linguagem, além do tempo – é ‘libertar-se do conhecido’, como diz no título de um de seus melhores livros, Freedom from the know.” [CAPRA, 1988: 22].

Em que medida as experiências do cotidiano, daquelas consideradas mais banais às valoradas como impactantes, por meio da autobservação, se convertem em vínculos, em suporte para a consciência de si e do mundo?

Consciência é tudo que é. Como separar quem se é do (f)ato de existir? Viver a vida como prática: reconhecer-se Ser. Não como um caminho para aprimorar-se e tornar-se a referência idealizada de si mesmo, mas como processo de despojar a força e poder que atribuímos a nossas crenças, aos julgamentos sobre como devemos ser e sobre como a Vida deve ser, para receber, perceber, processar e co-criar a Vida no aqui agora, na medida em que o viver simplesmente acontece.

Em essência, uma sessão de BodyTalk é uma escuta sensível, atenta e ancorada na consciência do coração, a partir de protocolos que estruturam a intuição, permitindo o desvelar da sabedoria inata do cliente, do terapeuta e, por que não dizer, da sabedoria acumulada coletivamente. A escuta daquilo que está consciente e tangível, mas também dos silêncios, das entrelinhas, dos vazios que se revelam para além das narrativas conhecidas, além das histórias por hábito repetidas tantas vezes sobre si ou sobre a vida. Essa disponibilidade para re(conhecer) o Ser na sua dimensão integral desvela o desconhecido, a sombra, a potência que habita o inconsciente e que igualmente faz parte de quem somos.

Referências

CAPRA, F. (1988). Sabedoria incomum. Conversas com pessoas notáveis. São Paulo: Cultrix Editora.

CYRULNIK, B. & MORIN, E. (2013). Diálogo sobre a natureza humana. São Paulo: Editora Palas Athena.

Institute of Noetic Sciences & POOLE, W. (1993) The Heart of Healing. Atlanta: Turner Publishing.

MACY, J. & JOHNSTONE, C. (2020). Esperança ativa. Rio de Janeiro: Bambual Editora.

OXFORD (2000). Oxford Advanced Learner´s Dictionary of Current English. Oxford University Press (impresso).

VELTHEIM, E. (2001). Who Am I?: The Seeker’s Guide to Nowhere. Florida: PaRama LLC.
VELTHEIM, J. (2013). The Science and Philosophy of BodyTalk, Healthcare Designed by Your Body. Florida: PaRama LLC.

[1] Terapeuta BodyTalk certificada, tendo chegado no sistema BodyTalk em 2011 e desde então mergulhado em todos os módulos avançados, além de outros aprofundamentos, como Medicina Oriental, Ecologia do Corpo e Epigenética. Participou e monitorou cursos como Mindscape Básico e Avançado, Breakthrough, FreeFall 1 e 2, além de satsangs com Esther Veltheim. Contribuiu na organização do primeiro encontro de terapeutas BodyTalk do Brasil, em 2013, tendo facilitado nesta ocasião e em 2018, vivências de grupo para a matriz de terapeutas do sistema. É integrante da equipe do projeto BodyTalk Brasil COVID-19.

Psicóloga, com especialização em psicologia clínica pelo Instituto de Gestalt-Terapia (IGTB) e mestrado em Desenvolvimento Humano e Saúde pela Universidade de Brasília (UnB). Escritora, fotógrafa, artista transdisciplinar, investigadora das artes do movimento, facilitadora de processos em que a dança e as práticas somáticas se encontram e se potencializam, e em pesquisas de improvisação e meditação em ambientes naturais ou aquáticos. Ecologia Profunda, Ecopsicologia e abordagens bioinspiradas, a natureza rítmica e mediadora da Água e Embriologia são seus temas atuais de pesquisa e aprofundamento. Foi professora e coordenadora pedagógica em uma das primeiras formações de doulas no Brasil e desenvolve um projeto chamado Feminino Bem-Viver. adriacamilo@gmail.com site: almamater.art.br

[2] A Ecologia Profunda e o Dragon Dreaming são abordagens que integram o desenvolvimento pessoal, comunitário e ecológico como dimensões interelacionadas e inseparáveis de um sistema vivo. Embora não façam parte do Sistema BodyTalk, bebem de alguns fontes conceituais e filosóficas comuns. “Esperança ativa”, o mais recente livro de Joanna Macy, doutora em ecofilosofia, estudiosa da teoria geral dos sistemas e grande referência em Ecologia Profunda é uma inspiração para este ensaio, que versa sobre as Ciências da Vida do BodyTalk como caminho de autodescoberta.

[3] A primeira edição do periódico Escuta teve como eixo condutor o BodyTalk como Sistema e inclui uma entrevista com o Dr. John Veltheim, na qual se confirma a importância de Fritjof Capra, especialmente o livro Ponto de Mutação, na sistematização do BodyTalk. A entrevista foi conduzida por Verena Kanciskins.

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Ciclo do cuidado

Maria Fontes[1]

O curador ferido é um arquétipo bastante utilizado para falar sobre “o terapeuta” e a capacidade empática que essa tarefa convoca. Esse termo é inspirado na história de Quíron, o Centauro.

Na mitologia grega, Quíron é uma figura que, apesar de possuir corpo de cavalo e, de certa forma, o potencial anímico e instintivo bruto, ele era refinado, bondoso e conhecido por sua habilidade com a Medicina. De fato, era considerado uma autoridade espiritual que tratava as dores humanas. Diz o mito que ele foi, acidentalmente, atingido por uma flecha envenenada lançada por Hércules. Como era imortal, Quíron sobreviveu, mas a ferida incurável se tornou um sofrimento crônico. O desconforto da dor pessoal faz com que Quíron experiencie e busque inúmeros recursos para apaziguar aquela ferida. Ele passa sua existência investigando soluções, caminhos e possibilidades de amenizar sua dor. Reúne em si grande bagagem, o que favorece o entendimento das variadas dimensões das dores humanas que ele curava. Arquetipicamente, ele fala do curador ferido e sua busca ao lidar com a ferida eterna.

Inspirado, ou não, na imagem desse mito, Carl Jung também fala do curador ferido. Segundo ele, um terapeuta pode auxiliar na cura de pessoas por ele ser um doente, ou seja, aqueles marcados por suas dores seriam capazes de ajudar pessoas a reconhecerem, cuidarem e curarem as próprias feridas.

Estar atento e disponível a auxiliar o outro no caminho por vales escuros e doloroso de sua própria alma requer a força e a coragem de buscar a própria cura, o próprio aconchego na dor. Isso é uma arte. De acordo com Julia Cameron (2002, pág. 48) em O caminho do artista,a arte nasce na atenção (…). A arte parece brotar da dor, mas talvez seja porque a dor ajuda a focar nossa atenção em detalhes”. A arte do cuidado parece então se relacionar com a capacidade de observar e avançar nos detalhes da própria dor, conhecer os labirintos internos, lamber feridas das quedas e tropeçadas da vida e, então, disponibilizar um olhar que observe a dor do outro, os detalhes desse outro.

Mas, então, que outro é esse? Sistemicamente falando, minha capacidade de auto-observar e encontrar os pontos da minha dor, auxilia o outro a encontrar também suas dores. Não há separação.

Desde que comecei a estudar e praticar o BodyTalk, em 2012, os conceitos da Advaita Vedanta[2] foram polindo minha observação do mundo, ou minha observação no mundo.

A grande pegadinha de sentir-se separado para entender-se como um indivíduo vem da necessidade de controle: controlar o que se sente, proteger-se de dores e dissabores, minimizar julgamentos ou controlar para programar e planejar uma rota de vida. Então, vem a Vedanta novamente e me conta que controle é “a mãe de todas as crenças limitantes”. O Ser em sua expressão mais amplificada e potente não se separa do outro, nem da vida, nem dos fluxos orgânicos, nem das estações do ano, nem dos mecanismos sociais, nem mesmo das interferências astronômicas e astrológicas, ou seja, o Ser É algo integrado e composto por inúmeras camadas. A cada instante uma vivência, uma sensação de expansão, outra de limitação, uma alegria, uma tristeza, e assim, uma série de experiências de vida que vão constituindo uma experiência que vou acabar chamando de minha. Minha experiência de vida, ou, na Vida!

Não posso controlar quando dói ou quando a vida flui. Quando adoece ou quando cura. Há então, a possibilidade de observar e permitir que a consciência se faça presente, e apenas aguardar o que dela possa brotar para a nova experiência. Parece – ou realmente é – um lançar-se no espaço, lançar-se na vida.

O BodyTalk praticado em nossos consultórios é apenas uma parte de um sistema amplo e sofisticado que promove bem-estar, vida, autoconhecimento e saúde. Esse sistema integral de saúde vai desde técnicas mais simples – como o Córtices –, passando por treinamentos para autocuidados, até oferecer um suporte “filosófico-existencial-transpessoal”, embasado na Advaita Vedanta. E não para por aí.

Como técnica clínica, nos fornece um treinamento preciso com navegação respeitosa que parte da premissa das prioridades do sistema humano de cada cliente. Acontece que as dores humanas são múltiplas e complexas. Cada um de nós reflete um prisma de cores únicas. Por reverberação, sintonia com o diapasão universal ou atração sintonizada com o perfil do nosso curador ferido, a clínica de cada terapeuta irá expressar ou atrair dores humanas similares àquelas que já nos foram possíveis enxergar, observar e avançar na cura. É nesse ponto, na perspectiva de abraçar o curador ferido de cada terapeuta que, generosamente encontramos no Sistema BodyTalk, as Ciências da Vida.

Dizemos que BodyTalk é uma terapia de observação. Observar a prioridade da sabedoria inata do cliente permitindo que a mente consciente participe dessa observação e melhore sua comunicação com os aspectos observados. A partir de onde se observa algo? Só se pode observar algo a partir da própria presença. Adalberto Barreto – nos conceitos da terapia comunitária – nos esclarece que “só reconhecemos fora aquilo que conhecemos dentro” (BARRETO, Adalberto: 2005).

Ser terapeuta me convida constantemente à autoinvestigação!

Nessa jornada pelas trilhas do BodyTalk, vem sendo fundamental resgatar aquele dever de casa dos meus processos pessoais e me disponibilizar para constantes atualizações em mim. Para isso, auto-observação é um ticket de passagem sem volta.

É difícil definir as Ciências da Vida apenas como cursos do sistema BodyTalk, mas, de forma prática, são o conjunto de cursos formados pelo agrupamento do Mindscape, BreakThrough e Freefall. Cada um desses é em si um conjunto de técnicas, um espaço para processos terapêuticos e também, uma ferramenta de suporte pessoal e para a prática profissional.

O BreakThrough me ensina a ser papel de origami: investigar as crenças antigas, como marcas de um formato pessoal que já não me cabem mais e, então, por meio dos 7 passos investigativos, desapegar e deixar ir, para que uma nova “dobradura” possa proporcionar nova direção. Assim, surge uma nova possibilidade de uma nova forma de expressão. Quando reações exageradas nos dominam, gatilhos subconscientes estão nos pressionando. Os 7 passos do BreakThrough nos possibilitam identificar e transformar os gatilhos que, por vezes, sequestram nossa lucidez e apenas reagimos. Esse é um movimento interno que pode mudar nossa direção e ser altamente transformador. Muitas feridas e dores deixam de ser necessárias quando a liberação de uma crença limitante e obsoleta nos possibilita outro olhar sobre as situações e sobre nós.

Outro parceiro fundamental na prática da auto-observação é o Mindscape. Ele é o espaço dentro das Ciências da Vida que fornece um cenário seguro, como meu anjo da guarda. Fornece uma base, um apoio para os passos pessoais, relacionais e profissionais. Ali nada é por acaso. Ao alcance dos olhos fechados, alinhado com a respiração profunda, “a casa dos pensamentos malucos” se torna um lugar em que, qualquer “maluquês” ganha contornos bem desenhado e pode ser traduzida em uma linguagem cheia de informações. Mais nítido ou mais simbólico, cada elemento informa algo essencial.  A relação azeitada com a oficina vem trazendo, dia após dia, enorme clareza, e, consequentemente, confiança nos processos intuitivos.

E então, temos o Freefall.

Pausa para um suspiro… Suspiro com sensação de colo, carinho, cuidado e muito sacolejo no Serzinho que vos escreve.

Na tradução, Queda Livre!

Ao longo da vida, fui passando por vários processos terapêuticos, mas sempre me sentia “à paisana” nesse campo. Deixei locais internos, que me doíam e custavam caro reconhecer e transformar, sempre para um futuro, para o depois, como se magicamente padrões e dores fossem se curar com um toque divino. Quando me tornei terapeuta, foi necessário mergulhar mais profundo, olhar para as feridas do curador ferido com maior lucidez. Neste caminho, cheguei até o FreeFall.

FreeFall é o processo terapêutico mais ousado e, ao mesmo tempo, acolhedor e gentil que conheço até hoje. A proposta é que, dentro de um círculo invisível de confidencialidade, confiança e autorresponsabilidade, os participantes possam despir as camadas e irem em direção ao Ser. De fato, despimos. A metodologia é a nudez. Tiramos a roupa, sim, e com ela muitos preconceitos e personagens. Nesse ato simbólico cada peça de roupa pode carregar para o chão o que ela tenta esconder ou tenta dizer sobre nós. Traz a possibilidade de revelar quem somos diante de nós mesmos.

A nudez carrega em si muitos elementos ligados à sexualidade. Socialmente são raros os momentos em que a nudez é bem-vinda. Ela está relacionada a momentos íntimos e ao sexo. A energia sexual é a base da energia vital, é a energia de cura e a própria pulsão de vida. Sabemos que existimos a partir do sexo dos nossos pais. A simples menção a essa realidade nos mobiliza. Para muitos de nós, um desconforto ou sensação de preferir não lembrar dessa parte. FreeFall parte desses desconfortos com a sexualidade moldada e nos guia rumo a uma queda livre para dentro de nossa potência de vida, presente em cada célula, apenas porque estamos vivos, aqui e agora.

Na jornada FreeFall, caminhamos de mãos dadas com nossa história de vida e temos espaço para olhar de frente, no espelho, tudo o que somos ou que podemos ser ao nos despirmos dos medos, culpas, vergonhas e limitações autoimpostas. A repressão sexual está no corpo, na mente, nas emoções e até no espiritual. Ela nos formata, modela, cria camadas de dores e distanciamento de nossa força vital. FreeFall é sobre nos recuperarmos para nós mesmos.

A intensidade dessa jornada depende do ritmo de cada um consigo, com seu curador ferido e com as permissões pessoais de avançar ou se reconhecer no limite do que é possível a cada momento. É também sobre respeito, especialmente o autorrespeito. Não existe obrigatoriedade em passos pré-definidos, o que encontramos é uma guiança dentro de um processo seguro e pessoalizado. As propostas são para o grupo, e cada indivíduo tem a oportunidade de indagar-se sobre o tamanho do passo a ser dado. Apesar de estarmos em grupo, o caminho não é em direção ao outro, senão, em direção a si.

Despir-se para acessar a vestimenta mais correspondente ao Ser. Abrir os olhos e enxergar para além da imagem refletida no espelho.

Por etapas, atravessamos as camadas que foram necessárias serem moldadas diante das repressões, abusos e distorções. Ao enxergar no corpo as dores e ao possibilitar uma experiência corporal real e segura, podemos viver insights, prazeres e alegrias que liberam couraças antigas. Soltar o que estava congelado em nós reverbera de forma incrível no corpo e na vida.

É claro que esbarramos em obstáculos, mas é possível abraçar os monstros escondidos em nossas temidas sombras.

Contatar a essência é um caminho pessoal, um ritmo único. Sutilmente a poesia pessoal ganha espaço para se manifestar. Os contornos de cada um aparecem nos limites pessoais. Já falei do respeito e do acolhimento únicos? Uma dança em que cada peça de roupa deixada pelo corpo e pela persona revelam o nu de uma alma disponível a se enxergar e, às vezes, também ser vista.

Em 2016, saltei no primeiro Freefall Brasil. Encontrei, sim, muito sacolejo. A poeira que deixei pousada “para depois” foi se levantando. Um turbilhão de transformação a partir dali. Desde então, busco “saltar” em queda livre nesse ambiente terapêutico pelo menos uma vez ao ano. Assim, o repertório do meu curador ferido foi alcançando o alicerce da energia sexual de olhos abertos e mais atentos.

Em minha prática clínica, percebo mais energia vital disponível. Abundância em forma de energia básica, sexual, kundalini, que é a base de quase toda energia requisitada para a manutenção do fluxo de vida no sistema humano. Essa observação se estende aos meus clientes, mais profundos e dispostos a observar junto ao BodyTalk locais primordiais de desconfortos antigos.

Em tempo de pandemia, as feridas humanas e da humanidade estão abertas e quase inconsoláveis. O arquétipo quirônico está exposto: “o grande cuidador é aquele que possui a maior ferida”. Para cuidar é preciso cuidado, autocuidado.

FreeFall toca e abraça as feridas da alma. Constitui por si um espaço espiritual. Afinal, não há nada mais sagrado do que reconhecer e abraçar a própria dor, a própria sombra. Passo a passo, o cuidado vai se estabelecendo em esferas que pareciam intocáveis e, assim, um ciclo lindo de cuidado e atenção gentil pode nos habitar.

Onde está escuro em você?  Topa levar vida até lá?

Fluxo de vida em queda livre!

Namastê.

Maria Fontes


[1] Mulher latino-americana, filha, mãe, amiga, poetisa e sonhadora. Antropóloga e Socióloga pela UnB (Universidade de Brasília), mestrado em Psicologia Comunitária no ISPA (Instituto de Psicologia Aplicada – Lisboa), Instrutora de Yoga desde 2007, Terapeuta BodyTalk, CBP (Certified BodyTalk Practitioner) desde 2012. Apaixonada pelo Freefall desde 2016. Coordenando grupos de estudos desde 2018. O maior interesse de pesquisa pessoal é a interação indivíduo e sociedade. Encaro o BodyTalk como um sistema importante no balanceamento sustentável da vida e o azeitamento das engrenagens entre os níveis pessoal, social, ambiental, econômico, político e espiritual. Contato: fontes.mandala@gmail.com

instagram: @fontes.mandala

#(61)981012401

[2] Filosofia de raiz hindu dentro das tradições de pensamento e espiritualidade indianas cujas recentes mestres podem ser destacados como Balsekar, Krishamurti, Mooji, com os quais a concepção e leitura dos Vedas, escritos antigos sobre corpo, mente, espírito são de não-dualidade. (N.E.)

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Entrevista ao Dr. John Veltheim por Verena Kacinskis

Entrevista[1] ao Dr. John Veltheim[2]

Por Verena Kacinskis[3]

Verena Kacinskis – Olá John, muito obrigada por conceder esta entrevista. Como expliquei por e-mail, essa conversa sairá na primeira edição do periódico “Escuta”. Escolhemos a Teoria dos Sistemas Dinâmicos como tema desta edição. Por isso, trouxe três perguntas em torno desse tema.

John Veltheim – Ótimo! 

VK – Agora sou Instrutora de Fundamentos e, além disso, também traduzi para o Português todos os materiais dos seus cursos nos últimos anos. 

JV – Eu sei. Muito obrigado pelo seu ótimo trabalho. Recomendei você para ser instrutora porque te conheci quando fui ao Brasil e achei que você estava fazendo um ótimo trabalho. 

VK – Muito obrigada! Não sei como é em outras partes do mundo, mas aqui no Brasil as pessoas ainda tendem a dizer coisas como “Bem, eu trabalho com uma técnica chamada BodyTalk”. Costumo começar as minhas aulas esclarecendo para os alunos que o BodyTalk não é uma técnica, é um Sistema. São duas coisas diferentes.  Fico me perguntando de onde veio a ideia, como você soube que não criaria uma nova técnica, que você colocaria coisas juntas e criaria um sistema. Como foi isso? 

JV – Quando estudei na universidade, aprendíamos só técnicas. Com o tempo fui ficando profundamente interessado no trabalho de Fritjof Capra, em “O Ponto de Mutação”, e isso me direcionou à Teoria dos Sistemas Dinâmicos. Naquela época eu ensinava acupuntura e percebi que ela também se baseia na Teoria dos Sistemas Dinâmicos. Você começa a ter um outro olhar para as mesmas coisas e percebe “Eu já estava fazendo isso, afinal!”. Comecei a ler publicações de Física e percebi que toda estrutura, inclusive em nível subatômico, funciona segundo a Teoria dos Sistemas Dinâmicos. É muito mais profundo do que qualquer outra coisa. Naquele filme que fizeram baseado no livro do Fritjof Capra [Mindwalk], deram mais ênfase à ecologia – você sabe, a Teoria dos Sistemas Dinâmicos está na Ecologia. Mas não é só a base da ecologia geral do mundo, é a base da ecologia do corpo também, e de como nós nos relacionamos com o mundo. Portanto, a formação básica do mundo é baseada na Teoria dos Sistemas Dinâmicos. 

Então, comecei a pensar “Tudo bem, quais são os princípios básicos da Teoria dos Sistemas Dinâmicos?”. E foquei em um deles: o princípio da comunicação. A partir daí comecei a praticar a acupuntura a partir dessa perspectiva. Mesmo que eu estivesse usando as agulhas do jeito que eu já costumava usar, na minha mente via sistemas dinâmicos afetando o corpo, e comecei a observar melhoras nos resultados. Então comecei a ensinar acupuntura sob o ponto de vista da Teoria dos Sistemas Dinâmicos nos cursos avançados da faculdade na qual  era Diretor, e isso fez uma grande diferença nos resultados dos tratamentos dos meus alunos. Acho que trouxe um melhor entendimento. Para mim, significava olhar a coluna vertebral, por exemplo, sob a perspectiva dos sistemas dinâmicos, na quiropraxia e osteopatia, entendendo que tudo está conectado e tudo envolve tudo. Ou seja, você podia ter torcido o dedo do pé e isso podia estar te trazendo uma dor na lateral da cabeça.  Passei a sempre olhar para o que estava acontecendo no corpo todo. A pessoa me procurava com dor no ombro e eu acabava tratando o menisco medial do joelho oposto.  Consegui chegar a isso, mesmo antes de usar o Sim e o Não, por estar usando intuitivamente a Teoria dos Sistemas Dinâmicos, o que me levou a encontrar formas diferentes de fazer as mesmas coisas. 

Eu já tinha explorado outros aspectos da cinesiologia aplicada – sabe, se feita de forma apropriada, a cinesiologia aplicada também é um modelo de sistema dinâmico, embora não fosse ensinada sob essa perspectiva naquela época. Atualmente existe na Alemanha uma faculdade ensinando a cinesiologia assim. O diretor dessa faculdade fez seu treinamento comigo. Comecei com trabalho básico, especificamente com os Córtices e coisas afins. Assim que refinei o trabalho a partir da Teoria dos Sistemas Dinâmicos, tudo evoluiu muito rápido. Comecei a ver as coisas por sua relação com as outras. A pessoa vinha com um problema no joelho e eu enxergava o que realmente estava acontecendo ali – um problema no joelho não é um problema apenas no joelho, frequentemente é um problema no meridiano do Rim e toda uma gama de outras coisas que estão relacionadas dinamicamente. Então eu fiquei… bem, não vou dizer que fiquei obcecado, mas digamos que passei a focar no desenvolvimento e aperfeiçoamento da osteopatia e da acupuntura, que eram as disciplinas que eu ensinava na época, e para isso comecei a praticá-las sempre a partir do ponto de vista dos sistemas dinâmicos, ou seja, buscando comunicação, sincronização, etc. 

Depois comecei a desenvolver algumas técnicas – Córtices foi a primeira delas – e comecei a perceber que se fizesse alguns toques básicos, conseguia alguns resultados. Todavia, se eu fizesse a mesma implementação com toques usando os conceitos da Teoria dos Sistemas Dinâmicos, os resultados eram melhores. Foi como uma atitude que passei a usar, e comecei a perceber resultados melhores e mais rápidos. A partir daí, iniciei o desenvolvimento de tudo ao redor da Teoria dos Sistemas Dinâmicos. 

Naquela época, esbarrei com o Fritjof Capra numa conferência, e apesar de só termos tomado um café juntos, eu senti como se ele tivesse me entregado uma energia [risos], o que me deixou ainda mais animado. Nós não chegamos a falar sobre isso, mas me senti inspirado só de estar na presença de Deus em pessoa (pelo menos para mim, porque seu livro o Ponto de Mutação foi, de fato, um ponto de mudança para mim). Eu não gostei do primeiro livro dele, achei muito científico para mim, mas depois ele entrou mais na Teoria dos Sistemas Dinâmicos. 

Portanto, eu sempre voltava para a ideia de que tudo está relacionado e só precisamos chegar a um ponto em que os sistemas interajam entre si, precisamos ajudar o corpo a trabalhar em equipe, basicamente, e perceber que qualquer parte do corpo pode influenciar qualquer outra parte do corpo se você entender esses princípios. E, apesar de nós não irmos tão fundo no BodyTalk básico, ainda assim ensinamos técnicas que estão baseadas nisso. No entanto, conforme você vai se aprofundando no BodyTalk, você começa a ter mais contato com a Teoria dos Sistemas Dinâmicos e percebe que tudo gira ao redor dela, essa é a fundação de tudo. E até nos meus trabalhos mais avançados, aqueles que estou desenvolvendo agora, ainda uso a teoria como base. Claro que eu estudei extensivamente a Física Quântica e coisas assim. 

Você sabe, estive no Brasil algumas vezes, estudei Física Quântica com alguns teóricos importantes lá. Eles ficavam impressionados com o fato de eu estar trabalhando com a Teoria dos Sistemas Dinâmicos. Alguns deles disseram “Sim, nós também estamos nos encaminhando para essa direção, vamos trabalhar cada vez mais a partir dessa perspectiva”. Foi por isso que nos demos tão bem e eles endossaram meu trabalho. 

Então, posso dizer que o processo de criação de BodyTalk foi como uma evolução. Demorou um pouco porque as pessoas ainda estavam fazendo o trabalho básico achando que eram técnicas em vez de dinâmicas. Essas pessoas usavam as técnicas e conseguiam resultados, mesmo que não entendessem completamente a teoria existente por trás. Acho que demora mesmo um pouco e ainda tem bastante gente que faz o trabalho básico do BodyTalk e não o entende completamente, enxergam apenas as técnicas. Não obstante, depois que você está trabalhando com BodyTalk há um tempo,  conforme você vai fazendo o trabalho mais avançado, vai ficando óbvio, já que você se percebe fazendo vínculos que parecem malucos, tipo entre o joelho e a lateral da cabeça – e na verdade você está tratando o fígado. 

Tudo evoluiu bem rápido, na verdade. Demorou um tempinho para que as pessoas às quais eu estava ensinando, principalmente àquelas que tinham formação médica, para que elas entendessem o que estava falando, porque elas eram muito cartesianas. Mesmo que reconhecessem que a Física avançada trabalha muito com a Teoria dos Sistemas Dinâmicos, alguns dos médicos me diziam “Mas a Física avançada não tem nada a ver com a Medicina!” [risos]. Naquela época, quando eu comecei, a Medicina era bem cartesiana, mas isso está mudando bastante agora, principalmente na Europa. Por isso meu trabalho está sendo cada vez mais aceito nesse contexto. 

E agora, conforme vou desenvolvendo trabalhos ainda mais avançados, continuo me apoiando na Teoria dos Sistemas Dinâmicos. Apesar de não ser mais tão óbvio como nos meus trabalhos mais básicos, as técnicas que tenho apresentado nos cursos mais avançados também se apoiam nessa abordagem e quem não percebe tende a não conseguir os mesmo resultados que eu. Mas veja, quando eu coloco a minha mão em cima de uma pessoa, estou colocando a mão sobre um corpo que está em um estado natural de sistema dinâmico consigo e com o seu ambiente, e isso afeta tudo, porque quando você atende um paciente, você está tratando a relação dinâmica dele com sua família, incluindo os familiares que ele nunca conheceu. 

Inclusive, podemos estar influenciando a relação dessa pessoa com o governo. Vocês sabem disso aí no Brasil e nós estamos vivendo isso aqui nos EUA – esses governos que são bem cartesianos, que focam em acumular dinheiro e coisas afins, isso causa uma corrosão em tudo ao redor porque eles não enxergam o mundo como um sistema dinâmico. Tenho notado que em lugares como Holanda e França, os governos estão trabalhando mais baseados na Teoria dos Sistemas Dinâmicos, sabe? E lá as coisas funcionam melhor, como na Noruega, por exemplo. Eles têm o melhor sistema de educação do mundo apesar de os alunos só irem para a escola 3h por dia. Mesmo assim eles estão entre os melhores da Europa porque ensinam as crianças a se relacionarem e interagirem com o mundo, e ao fazerem isso alcançam uma informação que não se aprende nos livros e isso é muito mais útil. Portanto, vejo que o BodyTalk está refletindo o que está acontecendo nos melhores cenários da educação, das ciências políticas, e vejo que as pessoas mais interessadas no meu trabalho são os físicos quânticos. 

A Teoria dos Sistemas Dinâmicos está ficando bem conhecida em círculos científicos, mas do ponto de vista médico, o sistema médico atual está mais direcionado ao modelo cartesiano porque eles trabalham com remédios que não são criados para os indivíduos. No entanto, alguns médicos não gostam desse conceito e estão tentando, em alguns lugares da Europa, por exemplo, incluir a homeopatia e outras coisas que, de alguma forma, estão baseadas na Teoria dos Sistemas Dinâmicos. 

VK – John, tem uma coisa que eu sempre quis te perguntar. Para criar algo como o que você criou – um sistema novo, como o BodyTalk – você precisa abrir espaços dentro de você. A gente precisa abrir espaços internos para poder criar. Como isso funciona para você? O que acontece primeiro: você passa por mudanças e então cria algo novo, ou você cria algo novo e isso te transforma? Ou tudo acontece ao mesmo tempo? Como é o seu processo criativo? 

JV – Na verdade, tenho que dizer que grande parte do meu processo criativo acontece quando estou tratando pessoas e preciso achar respostas para entender o que está acontecendo. Então digamos que eu receba um caso complicado – e recebo muitos casos complicados. Primeiro, preciso me abrir para o que está ali, depois isso se liga ao meu background e aos meus conhecimentos, isso tudo começa a vir intuitivamente, e eu tenho esse dom de saber, quando algo aparece intuitivamente, se vai funcionar ou não. Isso é intuitivo, certo? Então, é bem comum que eu use uma técnica pela primeira vez quando estou tratando um caso bem teimoso, desses que não conseguem bons resultados com outras técnicas.  Consigo fazer isso, em certo nível, por causa da minha experiência – trabalho com saúde há 50 anos, estou acostumado com os pacientes e com as respostas aos tratamentos. Assim, tento algo completamente diferente, baseado naqueles princípios que conheço, e eu vejo as mudanças acontecendo no corpo. Posteriormente, isso se torna um novo curso. Em praticamente todas as coisas que eu crio, não me sento e fico ponderando. 

Quase tudo o que desenvolvi foi feito com as minhas mãos sobre o paciente quando eu estava respondendo a uma situação ou a um caso difícil, para o qual tinha que encontrar uma resposta. Portanto, tudo o que eu preciso fazer é me abrir e levar aquilo para um novo nível.

Existem coisas que eu ainda não ensinei, principalmente no nível da Consciência Coletiva, em que podemos tratar grupos maiores. Um dos temas com os quais tenho estado mais empolgado é a ecologia. Tenho feito muitos trabalhos com ecologia e planejo fazer muito mais. Se você olha para os ecologistas, eles estão trabalhando dentro da Teoria dos Sistemas Dinâmicos. Por exemplo, digamos que você queira plantar alguma coisa. Você precisa saber onde vai plantar baseado em onde vai ser o melhor lugar para que aquele sistema dinâmico funcione. No momento estou trabalhando muito para entender como usar o BodyTalk para a Ecologia e tenho conhecido pessoas interessantes que trabalham com isso. De agora em diante espero me dedicar mais ao planeta do que aos indivíduos porque pela Teoria dos Sistemas Dinâmicos você pode influenciar áreas enormes e encontrar soluções que trazem mudanças consideráveis na ecologia daquela região do mundo. É um trabalho fundamental, de base. 

O que nós aplicamos no corpo também pode ser aplicado à forma de funcionamento de empresas, de uma floresta etc e acho que começa a fazer sentido para as pessoas quando elas entendem como funciona. Algumas pessoas precisam ser convencidas pelos resultados mas tenho percebido que em algum momento faz um clique, porque já faz parte do conhecimento do lado direito do nosso cérebro, já que o cérebro direito definitivamente funciona dessa forma [Teoria dos Sistemas Dinâmicos]. Percebo que as pessoas que se sentem atraídas pelo tipo de trabalho que faço são pessoas que naturalmente estão mais orientadas para o cérebro direito, que estão se movimentando nessa direção e querem entender as coisas pela lógica do cérebro direito. Francamente, em essência, o cérebro direito funciona a partir da Teoria dos Sistemas Dinâmicos e o cérebro esquerdo é cartesiano. 

VK – Tem algo mais que eu percebo. Quando aprendemos BodyTalk nos níveis básicos, aprendemos que estamos sincronizando a pessoa ao ambiente, estamos dissolvendo a influência do ambiente sobre a pessoa etc. Mas agora que já trabalho com BodyTalk há 11 anos, percebo que as pessoas que recebem sessões de BodyTalk há um tempo passam a se organizar dentro de seu próprio campo sistêmico. Acompanho diversos pacientes com BodyTalk que recebem sessão uma vez por mês há 4 ou 5 ou 7 anos. Imagina isso! Receber BodyTalk uma vez por mês há 7 anos! Comecei a ver padrões e a documentá-los e percebo que nos primeiros 8 a 9 meses, aproximadamente, estamos organizando as coisas básicas da vida daquele paciente, colocando as coisas em ordem. 

Depois desse período, vamos mais profundo no trabalho, as pessoas começam a ficar mais autônomas, elas podem cuidar de si mesmas, não dependem mais tanto do BodyTalk para se manterem organizadas. E então, a partir do segundo ano de tratamento, mais ou menos, elas começam a ficar mais sincronizadas e alinhadas com o ambiente, com seu campo sistêmico. É quando um livro chama a atenção na livraria e era justamente o que precisavam ler, quando começam a enxergar os sinais ao seu redor. O que quero dizer é que o BodyTalk atua no ambiente organizando as pessoas com seu campo sistêmico e essa é uma das coisas mais bonitas porque agora essas pessoas não só deixam de ser afetadas pelo ambiente mas passam a ter um efeito positivo sobre ele. Entende? 

JV – Absolutamente, esse sempre foi um dos meus sonhos desde a criação do BodyTalk. 

As pessoas que estão muito envolvidas com BodyTalk hoje, quando começaram a fazer aulas comigo lá no começo, eram bem cartesianas, pensavam “Isto é meio estranho, mas ele parece saber o que está fazendo” [risos]. Elas achavam que estavam apenas implementando fórmulas no cliente e não percebiam que estavam rearranjando todo o processo de como o seu próprio corpo funcionava. Não percebiam que ao tratar as pessoas, elas estavam se tratando. Eu vi esses terapeutas passarem por muitas mudanças. Agora, quando elas vêm conversar comigo, vejo que têm uma percepção diferente e forte dos sistemas dinâmicos. Algumas vezes eu ainda preciso corrigi-las para retirar condicionamentos a respeito da Teoria [dos Sistemas Dinâmicos] mas o BodyTalk muda mesmo a vida das pessoas. Isso é muito legal. Eu recebo emails de pessoas me agradecendo e dizendo que o BodyTalk mudou suas vidas. Elas contam felizes que se divorciaram ou passaram por coisas muito desconfortáveis por causa do BodyTalk [risos]. Essas pessoas se abriram para essas mudanças. 

É claro que outras pessoas não ficam por muito tempo [no BodyTalk] porque costumam estar muito envolvidas com sua cultura local, que é muito cartesiana, e elas não topam passar por essas mudanças. E para elas também é difícil conseguir clientes de BodyTalk, então acabam escolhendo ficar com métodos mais cartesianos. Mas nós plantamos uma semente e algumas vezes elas me relatam que tiveram que parar, que foram estudar isto ou aquilo, 6 anos depois voltaram para o BodyTalk, e finalmente fez sentido para elas. É mesmo muito difícil, o treinamento na maioria das sociedades é muito cartesiano, não leva em conta o todo. Veja o modelo médico. Eu tive o benefício de conhecer pessoas pelo mundo que se entusiasmaram muito com o meu trabalho e isso nos levou à vitalização do BodyTalk. Para ser sincero, a rede de neurônios precisa passar por mudanças. 

VK – Sim, com certeza! 


JV – O que eu percebo é que a maior mudança acontece no meu curso de Energetics, onde fazemos o equilíbrio dos cérebros e melhoramos a comunicação entre eles. Semanas depois, quando encontro alunos do curso, eles me dizem que finalmente estão entendendo a Teoria dos Sistemas Dinâmicos. Porque os cérebros estão trabalhando juntos de novo. 

VK – No curso de Fundamentos aprendemos que o Protocolo é um modelo de sistemas dinâmicos, as fórmulas funcionam como um modelo de sistemas dinâmicos, mas também vejo que quando o terapeuta e o cliente recebem e praticam BodyTalk há um tempo, eles começam a funcionar e a se comportar mais sincronizados com a ideia dos sistemas dinâmicos. É porque começamos a ver que o modelo dos sistemas dinâmicos está em todos os lugares. Está nas fórmulas, está no protocolo, está no Sistema BodyTalk, e também está na forma como as sessões afetam o cliente. Isso é muito interessante. Eu trabalhava como psicóloga, comecei a trabalhar com BodyTalk e me afastei um pouco da psicologia, mas alguns anos depois, quando voltei para a psicologia, percebi que compreendia os conceitos muito melhor do que antes porque, graças ao BodyTalk, havia vividos aqueles conceitos. Eu vivi a sincronicidade e o inconsciente coletivo, da psicologia junguiana, na minha prática, no meu corpo, e os testemunhei com o meu MindScape. Então agora eu entendo a psicologia junguiana melhor do que antes. Na verdade, agora eu realmente entendo o que o Jung estava dizendo. 

JV – Bem, eu conheci alguns cientistas brilhantes, e os que chegam ao topo e se sobressaem, como Elizabeth Rauscher, Fritjof Capra etc, definitivamente entendem a Teoria dos Sistemas Dinâmicos. A Elizabeth Rauscher – acho que ela faleceu recentemente – foi basicamente uma das maiores matemáticas do mundo (NT – pequena correção: ela era PhD em Física). Eu a conheci no Brasil e você deve ter me visto empurrando a cadeira de rodas dela pra lá e pra cá. Eu me oferecia para empurrar sua cadeira de rodas porque queria ficar sempre por perto para poder entrar no cérebro dela, conversar com ela [risos]. Ela tinha um entendimento dramático da Teoria dos Sistemas Dinâmicos. Ela foi Chefe na NASA, ajudou a projetar alguns dos foguetes, ela era uma lenda. Nós conversamos sobre a Teoria dos Sistemas Dinâmicos e era tão natural para ela. Ela me disse “é assim que tudo funciona” e tentou me convencer de que a matemática pura é o que melhor se aproxima da Teoria dos Sistemas Dinâmicos. Ela e o Richard [L. Amoroso] fizeram muitos trabalhos juntos, trabalhos que ficaram bem famosos, e ela me mostrou os emails que eles costumavam trocar todos os dias usando fórmulas matemáticas como linguagem, para poderem expressar a Teoria dos Sistemas Dinâmicos “em sua forma apropriada” [gargalhadas]. É uma linguagem baseada na Teoria dos Sistemas Dinâmicos e esta pode ser chamada por nomes diferentes. Tive o privilégio de conhecer muitos desses cientistas e a maioria deles diz que o Capra os inspirou muito, porque ele foi o cara que realmente entendeu a Teoria dos Sistemas Dinâmicos. Ele está aposentado agora, morando na ilha de Vancouver, perto de Vancouver. Quando tivemos a Conferência lá [Conferência Internacional de BodyTalk de 2013], eu soube que ele e o [Rupert] Sheldrake e todos esses top moram perto uns dos outros e se encontram toda semana. Fui convidado para ir a um desses encontros mas recebi o convite depois que a reunião aconteceu. 

VK – Não acredito!!

JV – Verdade! [risos] O Rupert Sheldrake expressa de forma diferente mas ele também está falando de Teoria dos Sistemas Dinâmicos. 

VK – Eu estou lendo O Ponto de Mutação agora. O livro foi escrito nos anos 80 mas é tão atual! 

JV – Sim, muito. 

VK – John, já estamos terminando a entrevista. Quer dizer algo mais?

JV – Obrigado por falar comigo. Tenho planos de ir ao Brasil porque sinto que estou precisando respirar o ar de vocês [risos]. Eu adoro o Brasil mas não tenho ido por causa do meu acidente. Ainda estou me recuperando porque tive três derrames quase ao mesmo tempo e eu deveria estar morto, segundo os médicos. Tive hemorragia, concussão, por isso não quis viajar ou voar nos últimos anos. Estou melhor, embora eu ainda sinta os efeitos dos derrames (minha memória de curto prazo está comprometida). Mas estou me recuperando e quero voltar a viajar no ano que vem. 

Quero ir para a Índia, porque temos 40 médicos que estudaram Fundamentos lá e eles querem que eu dê um curso avançado. Depois tenho que ir para a Filipinas porque eles estão fazendo um trabalho ótimo com os indígenas. Provavelmente não vou dar aula lá, só quero ver como está esse trabalho. Então no ano que vem pretendo começar com os Estados Unidos e depois quero voltar para o Brasil e rever os alunos. Por enquanto estou em minha casa fazendo sessões à distância e tem sido ótimo porque estou usando as pessoas como cobaias para minhas novas técnicas [risos] e estou vendo ótimos resultados. Tem sido divertido. 


[1] Realizada 21 de abril 2020 por Zoom.

[2] Dr. John Veltheim é o fundador do BodyTalk System e da International BodyTalk Association. O Dr. Veltheim é quiroprático, acupunturista tradicional, filósofo, mestre de Reiki, professor e professor. O sistema BodyTalk foi desenvolvido pela primeira vez nos anos 90 pelo Dr. John Veltheim. Originalmente da Austrália, o Dr. Veltheim administrou uma clínica de muito sucesso em Brisbane por 15 anos. Ele também foi diretor da Faculdade de Acupuntura e Terapias Naturais de Brisbane por cinco anos Seus extensos estudos de pós-graduação incluem cinesiologia aplicada, psicologia bioenergética, osteopatia, física quântica, medicina esportiva, aconselhamento e filosofia e teologia comparadas. Biografia disponível em https://www.bodytalksystem.com/iba/professionals/details.cfm?id=381.

[3] VERENA KACINSKIS é psicóloga, Adv. CBP, CBI e pesquisa as várias formas humanas de se expressar. Produz cursos e conteúdos sobre a calma que surge quando organizamos nosso mundo interno em verenakacinskis.com e fala sobre receitas com plantas + intuição no projeto Minha Cozinha Virou Um Jardim.

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Ensaio poético “Sistema BodyTalk”

Cláudia Morum Xavier Lapa (1)

Sistema. Sistêmico. Partes em um todo. O todo.

Todas as vezes que falamos em partes, olhamos para o todo. As partes que formam o todo estando, cada uma, em seu próprio lugar. Nada falta. Tudo reverbera.
Tudo pertence e tudo completa. Tudo em seu próprio lugar.

Constelar. Conter lar. Constelação. Conter ação. Movimento e fluxo. Ir e vir sem fim.

O Eu, em si, é um sistema. Completo. Pleno. Pronto. E a caminho.

Eu, pronta e a caminho. Parto daqui.

Por que nos colocamos tanto a preencher espaços? Por que tendemos a excluir?
Se nós sabemos parte, por que queremos o todo? E se em nós mesmos somos todos, por que queremos partir?

Somos parte de um todo. Todos nós.
Somos plantados pela fonte da Vida lá no seio, no ventre, e ali somos acolhidos.
Ali, no ventre, passamos a pertencer.

Não fomos escolhidos. Fomos acolhidos.
E passamos a ser parte de um sistema, o familiar, onde pertencemos a um pai e a uma mãe.
Porque não existe pai sem mãe e não existe mãe sem pai.
Ambos pertencem. Em si. No todo.
Já não importa o que se dê entre esse homem e essa mulher. Soprada a vida, um pertence ao outro e ambos se tornam um só em cada célula do que brota, do que nasce. Vida renovada!

Por que tentamos partir?

Pertencemos! E passamos todo o tempo validando esse movimento. Sou.
Pertenço.
Incluo e então integro.

Entrego! Integro!
Integrado ao todo me faço completo, pleno e perfeito. Tudo que fui feito para ser.

Somos soprados pela vida em um momento de Encontro. Sopro. Vento.
Vida!

Existimos a partir de dois e, também por isso, mesmo únicos, somos plurais. Trazemos em nós mesmos os dois, o encontro, a integração. A pertença!

É como se selássemos em nossa existência a completude do Ser. Perfeitos!
Tudo que fomos feitos para ser.

Mas então… por que partimos?
O que nos leva a tentar quebrar as partes se podemos ser o todo, estar no todo? Pertencer!? Parte ser!

Todo ser humano busca pertencer. Talvez seja exatamente por termos existido a partir de um encontro que nos parece vital fazer parte. Mas se entendemos que não há como partir, usufruímos do todo e saboreamos. Ficamos. Não tentamos encaixar em outro espaço. Não precisamos do que é do outro. Porque em mim eu sou pleno.

Porque no que me cabe, eu caibo. E plenifico.

Nascemos pertencentes. Mas mesmo antes de nascer, já somos parte do sistema. Mesmo aqueles que viveram por um curto espaço de tempo, ainda no ventre da mãe, e morreram sem ver a luz deste mundo, pertencem.

Porque tudo que existe, morre. Completa. Porque mesmo quem não nasce morre, e existe. E ninguém deixa de existir porque morreu. Somos todos parte, para sempre. E ninguém muda isso. Nem a Vida. Nem a morte.

Então… por que ainda tentamos partir?

Somos parte. Todos. Da humanidade. Do sistema familiar onde nascemos. E de sistemas que constituímos.
Um, dois, às vezes três ou mais…
Encontros que se perpetuam porque passamos a pertencer um ao sistema do outro. Intercessões. Pertenças.

Não é possível excluir o que pertence. Porque cada parte é do todo. E não há parte que supere o todo. Nunca.
Em qualquer tempo ou lugar.

Por que tentamos excluir?
Por que teimamos em pertencer ao que não nos cabe?

Se existimos, pertencemos. E me pertencem. Os filhos são dos pais e os pais são dos filhos. Para sempre. Nada muda isso. Nem a morte. Nem a vida. Selados por um encontro, pertencemos.

Um encontro entre um homem e uma mulher. Onde ambos são inteiros e completam.
Momentos que se eternizam quando a Vida sopra.
Não há como separar.

Em mim, pai e mãe são um só.

Para sempre.
Um não é maior que o outro. Ambos são partes e juntos são
o todo. Um pertence ao outro, e mesmo que se despeçam como casal, permanecem sistema, e permanecem um em mim. Em cada célula minha. Células que são parte e formam o todo. E a vida segue em frente. Em pleno movimento. Plena. Serena. E soberana.

Assim a vida se dá. Plenificando encontros. Eternizando vidas que pertencem. Multiplicamos. Crescemos. Esparramamos sementes dos frutos colhidos dos que vieram antes. Vida continuada. Sou parte. Colho e semeio. E o que espalho será colhido pelos que vem depois de mim. Porque sou só uma parte do todo que existe desde muito antes e que pode ir em frente, a partir de mim e dos meus encontros. Porque pertenço e selo. Continuo. Permaneço viva naquele a quem dei, nos solos que semeei.

Nasço, cresço, frutifico. Multiplico. Pertenço em partes e ao todo. Participo de novos sistemas.
Trabalho, organizações… sistemas!

Com meu trabalho, sirvo. Me coloco a serviço da Vida, do mundo e da humanidade. Então, mais pertenço!
Como parte, sirvo ao todo.
Esparramo sementes. Multiplico. Mas permaneço um só. Uma parte, de um todo. É só o que posso ser. Parte. Plena. Inteira e íntegra.

E como parte, pertenço e me coloco a serviço. Dou continuidade e crio. Atividade. Movimento.
Sigo em frente.

A serviço da Vida. Dou. Recebo. Troco. Complemento. Colho. Contribuo.

Equilibro no dar e receber a continuidade da Vida plena. Vida que é.
Em mim, em você, em nós, a Vida é.
Plena. Sem complementos.

Se há luta, há luto. Perda. Falta. Exclusão. Negação. Ilusão.
Pertencente, pertence para sempre.
Flui. Em colher e semear. Usufruir. Compartilhar. Organizar. Se dar. E Ser.

E então, volto ao início desse momento. No tempo.

Sistema BodyTalk. Sistema. Pertenço? Pertenço!

Me dou! Coloco a serviço. Colho. Semeio. Observo. Compartilho. Multiplico. Organizo a mim ao estar no meu lugar. Como parte, sou do todo. Pertenço. Recebo. E na medida que dou e colho, sigo em movimento de pertença.
Com o que é meu. Colhendo do outro.
E, do que é meu, usufruo e plenifico.
E do outro, colho e sirvo.

Escuta, revista sobre BodyTalk, ed. 1, inverno, 2020 4

Vai e vem. Em movimento. Sempre pertencendo. Aceitando
da vida. Acolhendo. Fazendo a flor ser. Florescer.
Em mim. No outro. Em todo.
Como parte. A parte que só cabe a mim. E que plenifica o todo em mim. E no outro.

Porque como parte, eu fico. Mesmo se partir.

Então…
Já sou parte. E do meu próprio lugar só eu posso ver. Estar. Observar. Ser.

Pleno Ser. Um só. Único. Especial. Extraordinário!
Como são todas as outras partes que pertencem ao todo. E em todos pertencem.

Que venha o que é meu. Que eu possa fazer boas coisas com isso. Tomar do que o outro oferece. Agradecer. E então, a Graça Ser. Em abundância.

Como lá no princípio da Vida. Soprar. Mover. E ir em frente. Esparramar sementes. Colher frutos. Se dar. Receber.

E assim, a Vida segue em frente. Em movimento.
Plena.
Soberana.

Eu quando eu partir, no momento em que a vida se fizer completa em mim, eu vou em paz. E fico.
Fico nas sementes plantadas.
Fico na existência pertencente.

Tudo está em seu lugar.
A vida flui.
Criatividade. Continuidade. Intimidade.

Vida multiplicada.
Que segue em frente. Em cada parte. No eu, em você, em todos, no TODO.

Usufruamos!
Vida em abundância desde sempre, para sempre. É só colher!

Somos sistêmicos. Sou Sistema.

E isso é BodyTalk.

Cláudia Morum Xavier Lapa Maio de 2020

(1) Cláudia Morum Xavier Lapa é
. Psicóloga clínica (atendimento individual, casal e grupo)
. Consteladora
. Terapeuta BodyTalk CBP e PaRama (certificada pela IBA)
. Palestrante
61 999949791
@claudiamorumxavierlapa

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“BodyTalk como sistema, é sobre relacionar-se”

Nirvana Marinho (1)

Ao conhecer o BodyTalk como paciente, vivenciei a surpresa do bem-estar contínuo. Revisei crenças difíceis da mente racional, venho observando como se desprendem pouco a pouco e experimentei a força que emergiu para lidar com as decisões que a vida convida – ou impõe, depende do ponto de vista. Naquele tempo, não podia perceber o quanto essas melhorias estavam em relação: autocuidado, mente propositiva e serena e corpo pronto para realizar, decidir. Pouco a pouco, foi ficando nítido o quanto as sessões reverberam em mim, como um todo, sendo minha vida não mais em campos separados – profissão, afetos, família, sexualidade, dinheiro, sociedade – mas uma contiguidade.

Já conhecia os conceitos teóricos da Teoria Geral dos Sistemas, uma das precursoras do entendimento de complexidade e pensamento sistêmico, a partir do doutorado em Comunicação e Semiótica na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, em meados de 2002. Encontrar uma terapia que tem por base a teoria dos sistemas dinâmicos foi uma surpresa. Na pós-graduação, foi o Professor Jorge Albuquerque Vieira o anfitrião do pensamento sistêmico, cujos livros são extremamente inspiradores e ele é amplamente estudado no campo das artes.

Ademais de toda conceitualização densa, importante considerar que Jorge Vieira parte dos estudos de Mário Bunge (cuja data da publicação referência é 1979), cujos estudos focavam em compreender a ciência em sua complexidade chamada ontologia, ou seja, o que são as coisas, como as define, como
suas ações no mundo desenham modos de compreensão, ou seja, epistemologias. Esse emaranhado conceitual pode ser importante aqui para termos uma visão de como a teoria dos sistemas dinâmicas compõem a base filosófica e científica do BodyTalk.

Jorge Vieira, a partir de Bunge, nos conta em seu artigo “Organização e Sistemas” (2000), que ontologia é o estudo de conceitos – o que é – de substância, probabilidade, acaso, mudança, evento e processo, tempo e espaço, ou seja, questões que observamos na psique tal como se propõe o BodyTalk. Adverte mesmo que utilizamos tais conceitos sem termos parado para pensar o que eles realmente significam, pois isso depende da nossa visão de mundo. Por isso, vale ressaltar como é importante a revisão de percepção que Dr. John Veltheim, idealizador da abordagem, nos orienta quando é necessária uma visão não mais cartesiana, mas sim sistêmica do corpo-mente.

Ver corpo sob ponto de vista cartesiano é distinguir as partes e investir na mecânica de funcionamento, enquanto ver de forma sistêmica é observar as relações complexas entre as partes, às vezes visíveis, às vezes não, às vezes evidentes às vezes confusas ou não racionais, às vezes causais e muitas vezes não tão definidas assim em sua justificativa ou explicação racional, pois operam em níveis mais profundos do corpo-mente.

Jorge Vieira aprofunda ainda mais tais conceitos e torna-se aqui fundamental lembrarmos que, a partir de seu olhar sobre parâmetros sistêmicos, considerarmos que os sistemas observáveis são abertos e que suas propriedades fundamentais assim o estabelecem: segundo sua permanência, diante do seu ambiente, e dada sua autonomia. Isso quer dizer que “todas as coisas tendem a permanecer”; “sistemas trocam energia, matéria e informação com outros sistemas”, portanto o fazem em seus ambientes entrelaçados; e que os estoques armazenados ao longo do tempo se acumulam e criam uma narrativa (ele diz uma característica discursiva). Daí nascem sua função de memória, fundamental ao sistema. O autor ainda falará, neste artigo, sobre os parâmetros evolutivos, dentre eles a complexidade, cuja derivação é a reflexão sobre auto-organização.

No entanto, vejamos, por hora, como tal desenho teórico pode nos ajudar na dinâmica do BodyTalk. Vale pontuar que a teoria geral dos sistemas é uma das teorias sistêmicas clássicas que puderam problematizar as teorias que se seguiram, como a teoria dos sistemas dinâmicos. O que se assemelha aqui é o pensamento sistêmico em questão.

A contribuição fundamental do pensamento ontológico a que se baseia a teoria geral dos sistemas, pautando grande parte do pensamento sistêmico, é olhar os movimentos como sistemas abertos, buscando sua complexidade, pois para permanecer, trocar, armazenar – ter memória e narrativa, os sistemas buscam auto-organização.

Isso seria, justamente, uma das bases fundantes do BodyTalk. No meu entender, esse diálogo interteórico e prático – no pensamento científico atual e este aqui pensamento terapêutico do corpo-mente – é justamente essa compreensão dos sistemas abertos, sua complexidade e auto organização que fazem o BodyTalk ser como é: uma prática de escuta, prezando pela prioridade, observando vínculos e lendo a complexidade vinda do que chamamos de Inato.

Sistemas dinâmicos e BodyTalk

Dr John pontua em vários de seus escritos a relação entre a teoria dos sistemas dinâmicos e o BodyTalk. Vejamos algumas das citações:

No artigo de 2012, “BodyTalk: the journey”, ele cita:

“O sistema BodyTalk é baseado em alguns princípios diferentes que envolvem ciência (inclusive a física), filosofia, técnicas e fórmulas para usar medicina alternativa científica e segura e eficaz. (…) A principal base do sistema BodyTalk básico é a Teoria de Sistemas Dinâmicos. Esse modelo científico existe há mais de 40 anos e é maravilhosamente explicado por cientistas, como Fritjof Capra em seus escritos” (Veltheim, 2012, 279)

Escuta, revista sobre BodyTalk, ed. 1, inverno, 2020 4

“Eu sempre entendi completamente que (…) toda a energia do
universo era uma série ou coleção de matrizes morfogênicas que estão todas inter-relacionadas e interdependentes. Isso significa que o único sistema que faz total sentido para mim é a teoria de sistemas dinâmicos. O autor, Fritjof Capra, tem uma influência profunda no meu pensamento em seu livro, “O Ponto de Mutação”. (Veltheim, 2012, 283)

No livro “The Science and Philosophy of BodyTalk – Healthcare designed by your body” (2013), o capítulo 4 explica sobre “A sabedoria inata” e sua aplicação prática e cita:

“Para facilitar a condução de uma sessão do BodyTalk, é utilizada uma abordagem da teoria de sistemas dinâmicos. Isso significa que um protocolo para o cérebro esquerdo é estabelecido para que todo o conhecimento essencial da função da mente-corpo possa ser consultado, como um blueprint. No BodyTalk SystemTM, esse blueprint é incorporado ao Protocolo de Atendimento que reconhece as informações acumuladas de todos os níveis da mente corporal, desde a anatomia física, os corpos energéticos e a consciência localizada”. (Veltheim, 2013, 45)

No livro, “The BodyTalk System”, o capítulo 4 sobre “Reestabelecer a comunicação”, ele comenta:

“Através da Teoria dos Sistemas Dinâmicos, todos os ramos da medicina alternativa têm o potencial de desenvolver uma estrutura teórica sólida para trabalhar com o corpo como um sistema de energia. A Teoria dos Sistemas Dinâmicos também ajuda bastante a explicar as nuances do relacionamento entre o corpo e a mente, particularmente em relação à cura pela energia. As diversas e controversas descobertas e observações do sistema energético humano são finalmente explicáveis em termos relativos”. (Veltheim, 1999: 23)

Outra maneira de contextualizar Teoria dos Sistemas Dinâmicos é visitar fontes bibliográficas como Fritjof Capra, autor muito citado por Dr. John Veltheim como inspiração para sua visão do corpo-mente, de forma sistêmica. Em “A visão sistêmica da vida – uma concepção unificada e suas implicações filosóficas, políticas, sociais e econômicas”, Fritjof Capra diz:

Escuta, revista sobre BodyTalk, ed. 1, inverno, 2020 5

“As principais características do pensamento sistêmico emergiram na Europa durante a década de 20 em várias disciplinas. Os pioneiros em abordar o pensamento o pensamento sistêmico foram os biólogos, que enfatizaram a visão dos organismos vivos com totalidades integradas. Posteriormente, ele foi enriquecido pela psicologia da Gestalt e pela nova ciência da ecologia, e teve talvez os seus efeitos mais dramáticos na física quântica”. (Capra, 2014: 93)

Importante ressaltar que a chamada Teoria dos Sistemas Dinâmicos é também conhecida como “teoria dos sistemas não lineares” e é pautada no arcabouço matemático coerente que só foi possível com o avanço da matemática das décadas de 80 e 90. Capra comenta:

“A visão dos sistemas vivos como redes auto organizadoras cujos componentes estão, todos eles, interconectados e são interdependentes tem sido expressa repetidas vezes, de um maneira ou de outra, ao longo de toda a história da filosofia e da ciência. No entanto, modelos detalhados de sistemas auto organizadores poderiam ser formulados só muito recentemente, quanto se tornaram disponíveis novas ferramentas matemáticas que permitiram aos cientistas, pela primeira vez, descrever e modelar matematicamente a interconexidade fundamental das redes vivas”. (Capra, 2014: 134)

A teoria da complexidade surge nesse contexto. Sendo uma espécie de “mãe” do pensamento não linear, filosofia e matemática confluem na compreensão e descrição de relações e padrões de fenômenos não lineares, sobretudo aqueles dos seres vivos. Assim, tornou-se possível uma mudança de perspectiva do próprio pensamento sistêmico.

Assim também parece ser com a terapia sistêmica e integrativa do BodyTalk. Quando o que chamamos de fórmula – de prioridades e vínculos – na prática terapêutica permite a observação da não linearidade das histórias por detrás dos sintomas – é isso que muda completamente a visão de saúde sistêmica e medicina integrativa.

Escuta, revista sobre BodyTalk, ed. 1, inverno, 2020 6 BodyTalk como sistema

Dada tal contextualização, sabemos que o BodyTalk convida o corpo-mente à observação e escuta de suas prioridades baseadas na sabedoria inata do corpo. E isso tem a habilidade de trazer auto-organização, homeostase, saúde e consciência, o que expande sua complexidade e revela a dinâmica sistêmica que o caracteriza. A questão é: como isso acontece? Compreender como a teoria dos sistemas dinâmicos pode nortear tamanha complexidade no atendimento terapêutico, assim como as implicações desse olhar. Essa é nossa tarefa maior neste artigo.

A observação é uma das chaves da prática do BodyTalk. Conceitualmente apoiada na física quântica, a relação entre observador e observado é, na verdade, a percepção de como se influem mutuamente. É da característica dinâmica dos sistemas a vontade de conhecer seus movimentos, seus fluxos, seus ritmos, suas tendências. Se o sistema é dinâmico e aberto, seus movimentos serão conhecidos a medida em que o sistema se faz ele próprio. Assim, parece ser o corpo-mente em relação ao ambiente e, portanto, de certa forma, o processo terapêutico que o BodyTalk convoca. Observação é uma prática na qual nem prévio julgamento e nem dados a priori estão em pauta, pois é no acontecimento que a sessão se revela.

Dr John Veltheim deduziu que, uma vez uma qualidade de observação dada, o sistema aberto e vivo tende a sua organização não por sequenciar sua complexidade, ou seja, o corpo no BodyTalk não é uma leitura linear; tende a sua organização justamente porque é um sistema dinâmico, ou seja, suas partes não tem uma relação causal – não olhamos o sintoma para determinar um diagnóstico – nem olhamos para o sintoma nele mesmo mas nas suas relações complexas possíveis – ao que podemos chamar das várias técnicas que compõem o sistema integral. O que chamamos de fórmula no BodyTalk é sistêmico porque se revela na medida em que uma prioridade é estabelecida.

Isso nos leva a perceber que uma das peculiaridades do sistema BodyTalk é que a complexidade do corpo está em não diminuir ou elevar nenhuma história que

Escuta, revista sobre BodyTalk, ed. 1, inverno, 2020 7

aparece em sessão – não tem nada mais importante do que o
vínculo, a relação, as formas de coesão que, se ressignificadas, podem ganhar novas dinâmicas. E uma das características dessa dinâmica é a coerência, ou seja, o que realmente faz sentido, ao que chamamos de consciência. Não é uma mente que ordena o que é mais importante, porque isso seria uma forma de ordenação linear de um conjunto de fatores.

Sistema assim tem a tarefa de nos fazer repensar as relações complexas. Uma das implicações terapêuticas é de considerar a sessão como um sistema complexo, considerar a relação entre terapeuta e paciente com outras variáveis que deixa ambos abertos ao que virá.

Dessa maneira, a dinâmica sistêmica do BodyTalk é, em certa medida, em busca da homeostase, ou seja, do funcionamento do corpo e de suas potencialidades tal como são: nem estagnados na doença, nem apegados a sua história, mas em constante movimento porque justamente são lidos como sistemas abertos e complexos. Isso inclui os seus desequilíbrios como forma provisória de equilíbrio, o que abre uma longa jornada para entender a aceitação vinda do coração. Isso inclui também considerar que seus desequilíbrios não podem ser a submissão à doença ou à crença, mas, ao contrário, é um convite ao enfrentamento saudável.

A principal implicação do BodyTalk ser tido como uma prática sistêmica é justamente a possibilidade de observá-lo em sua complexidade e em constante dinâmica de coerência. Isso que o caracteriza como uma medicina integrativa singular. Saúde, do ponto de vista sistêmico, exige de nós a auto responsabilidade do olhar, da empatia e da atenção plena da mente.

Nirvana Marinho Março 2020

(1) Graduada em Dança (1999, UNICAMP), Doutora em Comunicação e Semiótica (2006, PUC-SP), terapeuta certificada de BodyTalk (CBP, desde dez 2015), atua em São Paulo. Atualmente tem como principais iniciativas e projetos com BodyTalk: estudos para implementação de BodyTalk nas Escolas, Grupo de estudos Mindscape – inclusive voltado a jovens estudantes, idealizadora e parte da Comissão Editorial do periódico sobre BodyTalk “Escuta” com Verena Kacinskis, idealizadora das entrevistas BodyTalkers falando de BodyTalk e pesquisadora da cartografia “BodyTalk no Brasil: cartografia de caminhos possíveis” com Ana Marcela Sarria e Daniele Pires, organizadora das Sessões de Matriz BodyTalk Br (nov 2019-2020) e idealizadora e pesquisadora da atual Estudo de Caso Coletivo sobre Articulações. Em tempo, concluiu seu treinamento para tornar-se Instrutora de BodyTalk Acesso em junho 2020 e é uma das coordenadoras do projeto comunitário BodyTalk Covid. Email: nirvana.bodytalk@gmail.com. Site: http://www.corpoconsciencia.net.

Para ler em pdf clique aqui

“A relação do livro “O ponto de Mutação” e o BodyTalk”

Luciano Flehr (1)

“Os novos conceitos em física provocaram uma profunda mudança em nossa visão do mundo: passou-se da concepção mecanicista de Descartes e Newton para uma visão holística e ecológica, que reputo semelhante às visões dos místicos de todas as épocas e tradições”. CAPRA, F., 1983:15

Com esta introdução adentramos no livro de Fritjof Capra, O ponto de mutação, que traz dados detalhados da evolução da física, da biomedicina, da psiquiatria ao longo dos anos. O livro é rico em detalhes sobre nomes e datas de acontecimentos no mundo da ciência, vem num crescente sobre a visão de Descartes, sobre o olhar mecanicista (que separava matéria e mente) da ciência, fazendo uma ponte com a visão de Newton, que aprofundou esta visão com seus cálculos matemáticos e uma base de tradições esotéricas, trazendo um pouco mais de substância para a visão mecanicista. Passa o olhar pela física moderna de Albert Einstein, mostrando que o seu trabalho foi de grande relevância, porém, não conseguindo fazer a interconexão entre matéria/mente/energia. Deixando este legado para a teoria quântica. Vamos focar na parte sobre a visão do livro que fala sobre saúde, terapias e técnicas holísticas e integração com o conceito sistêmico de tratamento.

No capítulo sobre Holismo e Saúde, traz um aprofundamento pelas diversas técnicas e terapias aplicadas há milênios. Iniciando pela avaliação do Xamanismo, sua importância dentro do contexto social e ambiental. Mostra o quão profundo é a Medicina Tradicional Chinesa, explicando o conceito de Yin e Yang, falando um pouco sobre os cinco elementos, que ele considera ser mais correto dizer “Cinco Fases”, trazendo a ideia de que o organismo humano é um microcosmo do universo e que é influenciado por eventos estressantes nas esferas psicológica e social, que impactam de forma reconhecida para a formação de doenças.

Percorre a medicina no Japão e mostra que lá há uma tendência a unir o conhecimento da Medicina Tradicional Chinesa com a medicina ocidental, criando assim uma denominação de Medicina tradicional do leste asiático, um sistema eficiente de assistência médica. Lá eles se interessam pelo conhecimento subjetivo,

que consideram tão valioso quanto o pensamento dedutivo racional.
Capra comenta que na medicina a intuição e o conhecimento subjetivo deveria ser usado por todo bom médico, porém não é validado e nem tem o reconhecimento na literatura profissional e nem é estimulado nos ensinos das escolas médicas. Em nenhum momento o livro se posiciona contra a medicina Hipocrática ocidental, mas nos mostra que deveria tomar um outro rumo, com relação à visão que tem do “doente e da doença”. Capra também traz a importância da inserção do trabalho de psicologia para acompanhar a pessoa que está adoentada, porque pela visão sistêmica, a parte emocional e social trás uma influência tamanha no adoecimento ou cura do indivíduo. O livro nos leva pelo campo da homeopatia, informando que a origem da filosofia desta terapia remonta aos ensinamentos de Paracelso e Hipócrates, tendo o sistema terapêutico formal fundado no final do século XVIII por Samuel Hahnemann. Trazendo o princípio que a finalidade da homeopatia é estimular os níveis de energia da pessoa. Através da identificação dos padrões de vibração do indivíduo e dos problemas, apregoa o princípio de que o semelhante cura o semelhante. Usando uma afirmação e colocação de George Vithoulkas, o maior expoente da nova homeopatia, podemos colocar que a relação entre o paciente e o homeopata/terapeuta, é uma interação íntima para ambos. “Não há como ser um mero observador passivo, é preciso haver esta interação, para que ocorra o crescimento tanto no profissional quanto no Paciente/Cliente” (CAPRA, F., 1983: 334).
Neste capítulo sobre Holismo e terapias, encontramos conhecimento sobre as técnicas de Wilhelm Reich, sobre a terapia Reichiana, que fala das couraças musculares. Nos mostra sobre a importância da meditação e relaxamento e o quanto a respirar correto é importante para manter os padrões de equilíbrio do corpo-mente. Vai discorrendo sobre as outras técnicas como Quiropraxia, Bioenergética, Técnica de Alexander, Feldenkrais, Rolf. Menciona que todas essas abordagens se baseiam na noção Reichiana de que “a tensão emocional se manifesta na forma de bloqueios na estrutura e no tecido musculares, mas diferem nos métodos empregados para desfazer esses bloqueios psicossomáticos” (CAPRA, F., 1983: 339).
O capítulo leva a entender que o conceito e princípio de saúde não deveria ser separado da integração com o ambiente, corpo-mente e campos energéticos. E faz análises e observações para mostrar que para ocorrer esta integração, precisamos ter uma visão sistêmica do universo a nossa volta. “A nova visão da realidade, de que vimos falando, baseia-se na consciência do estado de inter-relação e interdependência essencial de todos os fenômenos – físicos, biológicos, psicológicos, sociais e culturais” (CAPRA, F., 1983: 259).

Necessita-se ter clareza que os sistemas estão interligados, que os genes, não são os determinantes, exclusivos do funcionamento de um
organismo e que são partes integrantes de um todo ordenado e, portanto, adaptam-se à sua organização sistêmica.
E que todo ordenado é este? Capra cita a auto-organização, dividida em auto renovação e auto transcendência (capacidade de se dirigir criativamente para além das fronteiras físicas e mentais, nos processos de aprendizagem, desenvolvimento e evolução), e que estes princípios trazem uma dinâmica para a auto-organização do organismo. Mas, também nos mostra o quanto complexo é manter um organismo em equilíbrio. Isto nos leva a um entendimento de variáveis nos quais os sistemas estão inseridos. Questões ambientais, sociais, culturais, emocionais e constitucionais do corpo. É importante perceber que a dinâmica do corpo, não está restrita somente a ele. Precisamos ampliar nossa mente e percepção dessa visão sistêmica. Perceber o quanto o fator ambiental, tem um impacto tremendo sobre as reações químicas e emocionais e consequentemente físicas em nós.A influência do ambiente no nosso corpo/mente, foi bem explicada no livro A Biologia da Crença de Bruce H. Lipton, Ed. Butterfly, e Capra a descreve nesta frase de forma precisa “Cada criatura está, de alguma forma, ligada ao resto e dele depende”.


Ele nos mostra que se faz urgente trazer esta visão para as atividades de saúde: médicos, psicólogos, enfermeiros. O Ser não deve ser dividido, ele está integrado, não só em si, mas com tudo. Para ilustrar: “Do ponto de vista sistêmico, a vida não é uma substância ou uma força, e a mente não é entidade que interage com a matéria. Vida e mente são manifestações do mesmo conjunto de propriedades sistêmicas, um conjunto de processos que representam a dinâmica da auto-organização” (CAPRA, F., 1983: 284).
No livro, Capra descreve que esta auto-organização pode ser denominada com o termo Sabedoria Inata do corpo-mente. Neste ponto chegamos ao BodyTalk. A técnica do BodyTalk é denominada sistema de tratamento, porque o criador da técnica John Veltheim, tendo o livro O Ponto de Mutação, como uma de suas referências, conseguiu sintonizar com o princípio da visão sistêmica. No BodyTalk tudo está interligado. Parte física, emocional, ambiental, energética, cósmica. Trazendo fortes bases na Medicina Tradicional Chinesa e filosofia Vedanta, o BodyTalk se destaca por acessar a Sabedoria Inata do cliente para que possamos restabelecer o equilíbrio das energias, das emoções, influências ambientais, corpo físico e mente. John conseguiu unir os fundamentos da Medicina Tradicional Chinesa, Medicina Ocidental tradicional, pela anatomia e fisiologia do corpo, Yoga, Cinesiologia, Física Quântica e Bioenergética, formando um sistema de tratamento Sistêmico. Aonde tudo está interligado. Não deve haver separação, o Ser não é uma máquina fria, estática. Há uma dinâmica e interligação. Partindo do princípio de que o Sistema Corpo-
mente tem o poder de se auto curar, o Sistema BodyTalk acessa as informações através de um sistema de perguntas e respostas de biofeedback, para que possa restabelecer as diversas comunicações necessárias para se desfazer o estresse instaurado no corpo. Capra traz uma definição para estresse: “O estresse é um desequilíbrio do organismo em resposta a influências ambientais” (CAPRA, F., 1983: 317).
Como falei anteriormente, já é sabido hoje que o ambiente influencia grande parte das desarmonias que acontecem no individuo. Nossos genes vêm com todos os marcadores para adoecermos, o que faz para que um desses marcadores seja ativado, é sua reação ao ambiente e vice-versa. Na visão sistêmica, do sistema BodyTalk entendemos esta influência e através de um olhar cuidadoso e intuitivo do terapeuta, vamos acessando as informações nos detalhes, nas dinâmicas de como aquele indivíduo lida com estas oscilações. Para que através da técnica possamos restaurar o equilíbrio ou como citado no livro a capacidade de auto-organização do corpo-mente.
Transcrevo aqui algumas citações do livro O Ponto de Mutação, que fiz um paralelo com o Sistema BodyTalk, por se tratar de uma terapia que traz e incorpora esta visão Sistêmica para o Ser.

“Ser saudável significa, portanto, estar em sincronia consigo mesmo – física e mentalmente – e também com o mundo circundante” (CAPRA, F., 1983: 317).

“A doença pode ser física ou mental, ou manifestar-se como comportamento violento e temerário, incluindo crimes, abuso de tóxicos, acidentes e suicídios, a que se pode licitamente dar o nome de doenças sociais. Todas estas “vias de fuga” são formas de saúde precária, sendo a doença física apenas uma das numerosas formas patológicas de enfrentar situações estressantes na vida” (CAPRA, F., 1983: 319).

“É fato que o estresse prolongado anula o sistema imunológico do corpo e suas defesas naturais contra infecções e outras doenças. O pleno reconhecimento desse fato ocasionará uma importante mudança na pesquisa médica, fazendo com que ela deixe de lado a preocupação com microorganismos e passe a estudar cuidadosamente o organismo hospedeiro e seu meio ambiente” (CAPRA, F., 1983: 318).

Luciano Flehr Junho 2020

(1) Formado em Medicina Chinesa pelo Instituto de Acupuntura do Rio de Janeiro, Reiki I e II, Silva Mind Control, MindScape I e II , BreakThrough, tem todos os módulos do BodyTalk Prático e Avançado, Formação em Parama I e II. Foi organizador do curso de BodyTalk entre 2005 a 2007. Trouxe a Dra Janet Galipo para o primeiro curso de BodyTalk em Belo Horizonte em 2006. Atua com o BodyTalk há 16 anos. Email: lucianoflehr@gmail.com. Site: http://www.lucianobodytalk.com.

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