A natureza humana é biológica, física, química e energética

Gabriela Menezes (1)

O gesto particular de um corpo
cria ondas de energia publica
nesse encontro dual
de passos nada casual.

Ancestralidade é esse desdobramento atemporal
de uma única centelha ocupando
corpos temporais.

(errata feita 25 junho 2021: inclusão dos poemas de Amanda Pinho)

O DNA e a expressão da vida 

Muitos de nós aprendemos nas aulas de biologia que somos construídos a partir de nosso DNA. Ele determina se seremos altos ou baixos, loiros ou morenos, de cabelos lisos ou cacheados, de olhos azuis ou castanhos. Apenas quatro bases nitrogenadas no DNA (A, T, C e G) são capazes de se combinar numa variedade de formas a ponto de gerar um ser tão complexo como o ser humano, além de todos os outros seres vivos.

O DNA, armazenado no núcleo da célula, tem toda nossa informação genética e é de onde vai ser produzido tudo que nos mantem vivos. O dogma central da biologia nos explica que o DNA é transcrito para RNA e depois traduzido em proteínas e, assim, a informação que estava no núcleo da célula ao ser convertida em RNA migra para o citoplasma para ser traduzida em proteína. Essas proteínas saem das células para percorrer o corpo e desempenhar as funções do organismo, explicando de forma bem simples.

As funções básicas e vitais são realizadas pelas células sem que percebamos, assim funciona o nosso sistema nervoso autônomo, e seguimos respirando, com o coração batendo, e andando por aí sem precisar pensar a cada segundo qual movimento deveríamos estar fazendo para coordenar todas essas ações simultaneamente.

Também não precisamos medir a quantidade de açúcar ingerida a cada refeição, porque o organismo é capaz de equilibrar os níveis de glicose do sangue sozinho. Digamos que eu coma uma caixa inteira de chocolate, as células do meu corpo receberão através da membrana citoplasmática um sinal de excesso de açúcar, essa informação fará com que as células especializadas do pâncreas produzam insulina, uma proteína que vai gerar uma resposta de equilíbrio aos níveis ideais de açúcar no organismo.

Mas se todas as informações do que produzimos estão contidas no DNA que fica no núcleo da célula, como esse DNA vai saber quais proteínas ele deve produzir? Parece que o núcleo da célula, daquele lugar isolado, precisa de informações de fora da célula para saber o que esse corpo precisa produzir para sobreviver no ambiente, não é?! Aí é que entra o papel essencial da membrana celular: captar informações para regular a expressão celular. Assim como nossa pele delimita o corpo e recebe os sinais do meio ambiente através de sensações, a membrana da célula forma esse delimite e recebe os sinais do ambiente através dos sinalizadores químicos e energéticos.

A membrana celular tem um papel muito importante na expressão celular, é através dela que são selecionadas as informações que vão chegar no núcleo e ditar o tipo de comportamento que esse corpo terá. Então, por mais que o DNA tenha todas as informações, ele vai depender das informações do meio ambiente para agir. A membrana seleciona o que entra e o que sai da célula como resposta aos estímulos do meio.

As células que estão dentro do corpo não conseguem ter acesso ao que acontece do lado de fora do corpo por elas mesmas. Elas dependem das informações que chegam através do sistema central de processamento das informações: o cérebro. Devido à especialização celular em tecidos, órgãos, e sistemas do corpo, cada qual com sua função, o cérebro assumiu a função de coordenar o diálogo entre as moléculas sinalizadoras dentro dessa comunidade de órgãos do corpo humano.

A epigenética e o controle do DNA

Todas as células possuem toda a informação genética do indivíduo, mas nem todas as células vão expressar tudo a todo momento. As células se especializaram e para saber o que deve ou não ser expresso o maquinário celular utiliza moléculas reguladoras. As células musculares são especializadas em movimento, as células do pulmão são especializadas em trocas gasosas, e assim, cada parte do corpo ficou com uma função, e a expressão celular responde a essa função. 

Para além da especialização celular, descobriu-se poder haver uma expressão diferente dos genes, sem qualquer alteração no DNA. Alguns tipos de moléculas reguladoras podem grudar em cima da fita de DNA e fazer com que a expressão de determinado gene seja ligada ou desligada, aumentada ou inibida. Essas moléculas controlam o DNA, e esses fatores são hereditários! Assim, foi revelada a epigenética. 

Lembra que as células respondem ao meio em que estão inseridas? Gerando respostas às informações que a membrana recebe do ambiente em que estão inseridas? Os fatores epigenéticos são suscetíveis a influências externas, como por exemplo fatores de estresse, fome, variações de temperatura, alimentação. Então, o DNA pode ser influenciado a se expressar de diferentes modos a depender do ambiente a que está exposto, sendo este a chave da regulação. Quando o organismo precisa se adaptar a algo novo, é conveniente que as células se reorganizem, e os marcadores epigenéticos podem ativar ou inibir a expressão dos genes decisivos para esse novo momento da vida.

As experiências de vida também afetam os marcadores epigenéticos. Um estudo mostrou como os netos dos holandeses que passaram fome durante a segunda guerra mundial foram influenciados por fatores herdados. A privação de alimento gerou uma reprogramação metabólica, que foi transmitida para as gerações seguintes, levando os netos à obesidade.

A mesma privação foi testada em laboratório, os cientistas deram a ratas prenhes aproximadamente metade das calorias padrão, e seus filhotes nasceram menores que o do grupo controle. Na vida adulta, as diferenças de tamanho desapareceram, mas os filhotes das ratas com restrição alimentar apresentaram maior quantidade de gordura abdominal do que os filhotes do grupo controle. Já os netos das ratas em privação alimentar, apesar de nascerem menores, na vida adulta eram maiores do que os do grupo controle, apresentavam maior quantidade de gordura visceral e inflamação no cérebro. Isso mesmo aconteceu com suas mães que tinham sido alimentadas com a dieta padrão. A reprogramação metabólica veio da privação de alimento da avó. 

A partir da descoberta da epigenética, seu papel tem sido investigado em diferentes alterações dos processos biológicos do corpo, como câncer, doenças autoimunes, desenvolvimento embrionário e distúrbios como esquizofrenia. Estudos já demostraram que a exposição ao estresse altera marcadores epigenéticos no cérebro, alterando genes relacionados à neuroplasticidade, desencadeando a depressão.

Então, além das características físicas que herdamos no DNA, podemos herdar fatores epigenéticos e/ou desenvolver nossos próprios fatores epigenéticos respondendo ao meio onde estamos inseridos.

O superorganismo humano

O ser humano é formado por cerca de 50 trilhões de células. Essas células se especializaram e se organizaram em tecidos, que formaram órgãos, que se combinaram em sistemas, e que unidos formaram o corpo humano. A especialização fez com que as células estabelecessem comunidades, porque elas não agiam mais de forma independente. Assim, todas as células do corpo precisam agir em torno de um bem comum. 

Este ser humano é o habitat de cerca de 500 trilhões de microorganismos: o microbioma humano. Esses microorganismos vivem em nós e são parte do nosso mecanismo de vida. Dependemos dessa cooperação para nossa sobrevivência, uma vez que as bactérias que nos habitam têm funções nobres como liberação de micronutrientes essenciais, regulação do sistema imunológico e proteção contra microorganismos danosos. O sistema imune convive em harmonia com o microbioma, eliminando apenas o que causa trauma ao corpo.

A composição do microbioma humano é individual. Varia conforme a dieta alimentar, o ambiente em que a pessoa está inserida e até mesmo a quantidade de remédios ingeridos ao longo da vida. Então, cada pessoa vai receber do microbioma a cooperação que cultiva em seus hábitos de vida individual. 

Além disso, este ser humano complexo está inserido num ambiente, que além de outros humanos contém diversas outras espécies animais, inserido num bioma da natureza com um clima específico e uma vegetação característica. Dependemos, mais do que imaginamos, de cooperação para sobreviver na natureza, e o corpo humano já se mostrou capaz de realizar essa cooperação.

A biologia que não se vê

No livro ‘A Biologia da Crença’, Bruce Lipton nos conta a importância da física quântica na biologia, que ignoramos por estarmos muito presos ao mundo físico de Newton. No mundo quântico e invisível de Einstein, a matéria está diretamente ligada à energia. 

Já se acreditou que o átomo fosse a menor unidade que forma qualquer molécula. Entretanto, a física quântica descobriu que os átomos são constituídos de partículas subatômicas, que formam vórtices de energia que giram e vibram constantemente, irradiando energia. Os átomos podem se expressar como um conjunto de partículas sólidas ou como uma onda, um campo de força não material. Energia e matéria estão tão intimamente ligadas que não podem ser consideradas coisas independentes.

Cada uma das 118 espécies atômicas descritas na tabela periódica tem sua própria constituição e apresentam um movimento diferente, o que constitui sua assinatura, e assim, é possível identificar os padrões de energia que emitem no seu conjunto de átomos. Tudo no universo emite um padrão de energia único por ter uma constituição diferente, e cada pessoa também é uma constituição única cada qual com uma assinatura energética. 

Se o universo dos átomos é uma integração de campos de energia interdependentes, o corpo humano também o é. E assim, o corpo apresenta uma complexa intercomunicação entre suas partes físicas e os campos de energia que o compõe. Um problema pode surgir de uma falha de comunicação em qualquer ponto dessa rede de informação: partículas ou ondas, e por vezes é difícil explicar o motivo de certos sintomas, desconfortos ou doenças.

Pesquisas envolvendo o mapeamento das interações entre proteínas das células comprovaram uma complexa rede de ligações entre elas. A mudança de um parâmetro de uma das proteínas altera o de diversas outras dentro do sistema, que aparentemente não teriam nenhuma relação. Por exemplo, uma proteína utilizada no metabolismo de DNA pode estar associada a fatores determinantes do sexo, como a proteína Rbp1 das moscas de fruta. Se acreditamos haver uma falha no metabolismo de DNA e criamos um remédio para isso, podemos alterar os fatores determinantes do sexo como efeito colateral dessa medicação caso altere a expressão de Rbp1.

Além de toda a comunicação física que acontece através das moléculas, proteínas, e sinalizadores químicos no corpo, há também a comunicação energética, eletromagnética, que é muito mais rápida que a comunicação física. A comunicação por ondas é cerca de 100 vezes mais rápida que a comunicação por partículas. Essa transferência de sinais mais rápida é útil para nos manter vivos em resposta aos fatores ambientais, e pode ser útil em acessar essas falhas de comunicação e promover seu reparo.

A medicina oriental, antes mesmo da descoberta da física quântica, já baseava seu tratamento em energia. Segundo a medicina tradicional chinesa, o corpo é formado por uma complexa estrutura de fluxos de energia conhecidos como meridianos, que se assemelham a circuitos eletrônicos.

O comportamento das ondas de energia é importante porque as frequências vibracionais podem alterar as propriedades químicas e físicas de um átomo. A movimentação constante dos átomos gera ondas, assim como pedrinhas jogadas na água, e assim podemos influenciar essa onda dos átomos com ondas construtivas ou parar sua atividade com ondas destrutivas.

Como os pensamentos afetam a química do corpo

Os pensamentos são manifestações da mente e influenciam o cérebro físico a controlar a fisiologia do corpo. A mente é energia, o cérebro é matéria física, mas já sabemos que a constituição do aspecto energia e do aspecto físico são semelhantes, são ondas ou partículas. Então, essa energia dos pensamentos pode alterar a expressão das proteínas de funcionamento das células, como falamos na epigenética. 

No livro ‘A Biologia da Crença’, Bruce Lipton nos instiga a olhar para os casos médicos conhecidos como exceção e avaliar o poder do pensamento. Como é possível um cientista tomar um copo cheio de bactérias causadoras de cólera e não ser afetado? Como há pacientes com HIV que não apresentam nenhum sintoma de AIDS? Como pacientes terminais de câncer conseguem recuperar a saúde com remissão espontânea do quadro diagnosticado?

E ele mesmo já diz que só pensar positivo não funciona, apesar de não trazer qualquer problema pensar de forma positiva perante a vida. O pensamento positivo e criativo está na mente consciente, porém a mente inconsciente, onde trazemos nossa programação instintiva e nosso banco de dados de experiências vividas, é bem mais forte. Então, se você aprendeu desde criança que tem uma saúde frágil, dificilmente somente pensar que vai se curar do câncer trará um resultado se você tem como premissa que sua saúde é frágil.

Os reflexos comportamentais básicos foram herdados como instintos genéticos, entretanto, nossa evolução permitiu além de receber os instintos genéticos, aprender com as experiências, um condicionamento adquirido. Essas respostas não envolvem o uso do cérebro consciente, funcionam como hábitos, tem um padrão repetitivo e rodam no automático, não são governadas pela razão ou pelos pensamentos. 

Assim também são muitos de nossos medos, não são mesmo reais ou nossos. São herdados epigeneticamente ou aprendidos desde que somos muito pequenos com nossos pais, cuidadores, familiares e professores, nós absorvemos comportamentos e emoções em nosso sistema de memória, como método para sobreviver e fazer parte da nossa comunidade. Nós vamos rodar esses programas aprendidos porque foram incorporados na nossa mente inconsciente. Todas as células do nosso corpo vão ouvir esse padrão de comportamento como a verdade a ser seguida.

Por sorte, somos dotados de uma região no cérebro chamado córtex pré-frontal, a evolução nos permitiu desenvolver uma região no cérebro especializada em pensamento, planejamento e tomada de decisões. Com isso, ganhamos o poder de observar nossos comportamentos e emoções. Essa parte consciente tem acesso às informações armazenadas em nosso banco de memórias. Assim, podemos refletir sobre nossa vida e planejar nossas ações. É onde podemos observar os comportamentos programados que adotamos e escolher se vamos mantê-los ou modificá-los.

Esses comportamentos programados e as percepções que derivam deles são as nossas crenças, que estão no controle da nossa biologia. Porém, as nossas crenças não são definitas e imutáveis. 

Experimentos com culturas celulares em ambiente controlado mostraram que as células fogem das toxinas e vão em direção aos nutrientes, mas enquanto as células estão fugindo das toxinas, elas não podem se nutrir e crescer. São dois sinais opostos. Se a célula está ameaçada, é mais importante sobreviver. Já quando ela está em um ambiente onde ela pode ir em direção aos nutrientes, ela pode crescer.

Nós estamos “crescendo” a todo momento, nossas células estão sempre se renovando, e nós também não nos nutrimos quando adotamos o comportamento de proteção e fuga. Ficar sob longos tempos no mecanismo de proteção gera estresse que pode paralisar totalmente o processo de crescimento. A capacidade de pensar com clareza também é afetada! O processamento das informações é mais lento que a atividade automática, e por isso, rodamos o programa habitual. Viver com níveis crônicos ou elevados dos hormônios do estresse, em um estado constante de tensão e vigília afeta de forma severa a saúde. 

Além de retirar o estresse, é importante adicionar momentos de alegria, amor e satisfação para estimular o processo de crescimento saudável. Primeiro passo: identificar seus medos e analisar de que forma eles impedem o seu crescimento. É uma escolha corajosa iniciar esse movimento.

Lembra que o cérebro é a central de processamento das informações? Uma outra parte dele, o cérebro límbico, desenvolveu um mecanismo onde converte os sinais químicos em sensações acessíveis a todas as células do corpo, e nossa mente consciente conhece essas sensações como emoções. As emoções se manifestam por meio da emissão controlada de sinais pelo sistema nervoso, os receptores que leem essa mensagem estão presentes em todas as células do corpo, e não só no cérebro. Nossas emoções não são geradas somente a partir da nossa interação com o ambiente, a mente consciente pode fazer o cérebro gerar emoção que vai agir sobre todo o sistema.

A mente consciente não opera em piloto automático como a inconsciente. Ela é criativa na forma como reage aos estímulos ambientais. Se um comportamento pré-programado entra em ação através da mente inconsciente, a mente consciente pode intervir, interromper e criar uma resposta diferente, porém temos de ter esse padrão pré-programado identificado e vontade de mudá-lo. Os comportamentos e crenças que aprendemos dos nossos pais, colegas e professores podem não ser os mesmos que queremos para a nossa vida, mas precisamos saber o que realmente queremos para não reproduzir o que aprendemos ser o certo.

Uma maneira de trazer ao mundo palpável como os pensamentos afetam a fisiologia do corpo é analisarmos o efeito placebo. No teste de medicamentos, alguns pacientes recebem o medicamento com princípio ativo e outros recebem o medicamento sem o princípio ativo. Muitos dos que não receberam o princípio ativo relatam melhoras dos sintomas e do bem-estar geral após iniciar o tratamento. Essa percepção de melhora veio do fato de acreditar estar tomando o medicamento. Isso demonstra como a mente pode ser forte em promover melhora na saúde. 

Ao contrário, o efeito nocebo também ocorre. É quando a mente emite sinais negativos que afetam a saúde. Como receber um diagnóstico de uma doença incurável e morrer em poucos meses. 

Como vimos, as crenças moldam a percepção, e a biologia se adapta a elas. Essas crenças agem como uma lente por onde você enxerga a vida. E quem decide qual lente usar é você. 

Ação do BodyTalk

O Sistema BodyTalk é uma metodologia de escuta do corpo, que visa trabalhar as prioridades de comunicação. Falamos acima sobre como uma falha na comunicação pode ocorrer em qualquer parte do corpo: físico ou energético. O restabelecimento dessa comunicação promove saúde.

Um curto-circuito pode ocorrer devido a uma crença que você tem e está inconsciente, mas que choca com o momento de vida que você está passando. Você não sabe explicar de onde vem aquele mal-estar, aquela dor, pode ser até mesmo que você procure um médico e clinicamente você esteja bem, mas há algo ali que te incomoda.

Em uma sessão de BodyTalk pode-se olhar para essa história, observar o que é prioridade, restabelecer o circuito de comunicação físico ou energético. Trazer à mente consciente o que estava velado. 

Outra possibilidade é olhar como um sintoma clínico ou uma doença pode estar atuando nesses campos interconectados do corpo, tanto física quanto energicamente. Um sintoma é sempre um mensageiro de algo a ser observado.

Através de um protocolo estruturado o terapeuta pode observar desde uma necessidade física de hidratação no cérebro, passando por um equilíbrio dos meridianos energéticos, até chegar a um fator epigenético herdado que precisa ser inibido.

Lembra que as crenças são a lente através da qual a gente enxerga a vida? Talvez você tenha escolhido sair de óculos escuros sempre, mas está de noite e talvez você esteja esbarrando em muitas coisas pelo caminho, pode já estar com o dedinho doendo de tanto bater em cantos não vistos, mas ainda não percebeu por que não está enxergando direito. Na sessão de BodyTalk, o terapeuta te ajuda a realizar que você está de óculos escuros sempre, até quando não se faz necessário. E dali em diante, fica fácil para você avaliar se quer continuar utilizando os óculos escuros e em quais situações você pode e/ou deve usá-los! 

Momento pandemia

Vimos que o meio ambiente e nossa percepção a respeito dele é determinante sobre como nosso corpo vai se comportar, sobre o que ele vai expressar, e sobre como nossa saúde será afetada. Nesse momento de pandemia podemos gerar alterações na expressão de nossos genes como forma de adaptação ao que estamos vivenciando, e somente as futuras gerações poderão nos mostrar o impacto da pandemia na expressão epigenética. 

As pessoas ao redor do mundo estão vivenciando um estresse coletivo que já passa de um ano, e como vimos acima, o estresse afeta severamente a saúde. Mas também vimos que os pensamentos podem mudar toda a química do corpo e que podemos escolher como vamos reagir às nossas emoções.

Neste momento estamos vivendo o desconhecido, é natural ter medo. As notícias são assustadoras, mas também há o meio científico trabalhando rapidamente na tentativa de combater a pandemia. Milhares de pessoas estão em luto, mas também há alegria pelas pessoas que se recuperam. Além da saúde, há outros fatores da vida que são impactados diretamente ou indiretamente pela pandemia. Muitos estão preocupados com a manutenção da sua fonte de renda, muitos com raiva por terem perdido o mínimo que tinham para sobreviver. 

É importante dar lugar a cada uma dessas emoções. Entretanto, saber que podemos olhar conscientemente para cada emoção que sentimos, saber como ela afeta a nossa saúde, e escolher com qual delas ficar, é cuidar de nós mesmos. É manter nosso sistema imune ativo e trabalhando pacificamente.

O melhor que podemos fazer no momento por nós e pela sociedade é cuidar de criarmos o melhor ambiente possível para nossas células!

Gabriela Menezes

referências bibliográficas

Livro – A biologia da crença, Bruce Lipton

https://super.abril.com.br/ciencia/entenda-de-uma-vez-o-que-e-epigenetica/

https://agencia.fapesp.br/cientistas-buscam-caminho-mais-rapido-para-tratar-depressao/34873/

https://aprender.ead.unb.br/enrol/index.php?id=2407

https://www.manualdaquimica.com/quimica-geral/atomo.htm

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(1)

Sou terapeuta BodyTalk certificada desde 2016, e entusiasta do sistema BodyTalk desde que o conheci como cliente. Sou formada em Biologia, e fiz mestrado em Imunologia de Tumores já buscando um olhar individualizado da cura. Hoje, gosto de investigar os labirintos dos corações através dos caminhos do BodyTalk, e como cada um faz para encontrar a sua própria verdade e lidar com seus desconfortos nesse caminhar da vida.

Email: menezesgf@gmail.com

Insta: @gabrielamenezesbodytalk

Celular: (21)993271809

Vida que vale a pena ser vivida

Alexandre Abrantes (1)

Consciência faz-se
   semente molecular
   de fazer brotar células
    de trançar tecidos.
 Costura órgãos
 em colchas orgânicas
   de frutificar sentido.
  Ah, esse eterno ter e ser !

Esse corpo oceano
preenche os (a)mares da vida
   com suas celulares gotas primordiais.

Na sua pele vibra
o finito inesquecível
Debaixo dela a eternidade
te espera.


As linhas sinuosas do tempo
costuram a geometria sagrada
de um corpo em retalhos.

(errata feita em 25 de junho 2021: inclusão dos poemas de Amanda Pinho)

A história desse artigo é bem entrelaçada com o seu conteúdo – não teria como ser diferente já que tudo faz parte do todo como postula a visão não-dualista – e, portanto, decidi contá-la de forma resumida para iniciarmos esse papo.

Tudo começou com uma postagem que fiz falando sobre a morte na minha conta do Instagram, que foi vista e comentada pela amiga Natasha, que tinha exatamente aceitado fazer o editorial dessa edição do Escuta, falando sobre Vida (e morte). Que sincronicidade! Ela prontamente observou isso e me fez o convite para escrever, e eu sem titubear também aceitei mesmo sem ter experiência com essa prática.

Até aí tudo bem, né? Mas e bloqueio criativo que me impedia de iniciar o texto? Como fazer para superá-lo? E sabe qual foi o gatilho para então o artigo “nascer”? Justamente a lembrança do “deadline”, o prazo final, a morte do prazo. Foi preciso entrar em contato com a morte para me lembrar da vida, de dar a vida (a este artigo).

E assim tive a inspiração para colocar em palavras o turbilhão de pensamentos, sensações e insights que me ocorreram! Vida e morte, como um jogo, uma dança. Vida poderia ser dita como o intervalo entre dois eventos: nascer e morrer. De quanto é esse intervalo, o que vai acontecer durante ele segue sendo um mistério, por mais que a humanidade através de vários estudos e tentativas tente prever e controlar aquilo que está além do nosso entendimento racional e do nosso controle.

Memento Mori. “Lembre-se da morte”. Essa expressão latina que remonta ao fim do século XVI era uma saudação utilizada pelos eremitas de Santo Paulo da França, porém a morte já é algo abordado pela filosofia e religiões ao longo dos séculos, afinal é uma certeza na vida de todos nós.

A interpretação dessa expressão traz uma importante reflexão: diante da lembrança de que tudo é impermanente e acabará, Eu vivo uma vida que vale a pena ser vivida? (E nesse momento te convido a pausar a leitura e deixar essa pergunta ressoar aí dentro. Solte as expectativas, o controle e simplesmente deixe fluir).

Não existe uma resposta certa ou errada. Aqui o mais importante é a pergunta e a reflexão que ela provoca. Acolha aquilo que vier, aceite, abrace. Afinal, se você está me lendo é porque está viva(o) e isso significa que é ainda é possível viver uma vida que vale a pena ser vivida!

“Mas Alexandre, minha vida não tem um propósito! Sinto-me perdida!”

E se o propósito da vida for somente estar viva? Apenas ser, estar presente e experimentar cada situação em todo seu imenso potencial, seja ele de dor ou de prazer, desagradável ou agradável? Apenas permitir que essa consciência que se manifesta em cada um de nós como indivíduos se experimente, experiencie o mundo e as suas possibilidades.

O BodyTalk system tem sido um grande aliado nas minhas práticas terapêuticas tanto como terapeuta do sistema como cliente. Dentro do protocolo utilizado por nós há uma técnica chamada “Consciência” que trabalha com temas que abrangem nossa existência, observando distorções de como interpretamos essa realidade, através de padrões estabelecidos com sistemas de crenças e filtros que fomos recebendo, criando e fortalecendo ao longo de nossas vidas. E dentro dessa técnica tem um espaço dedicado às distorções sobre a nossa percepção sobre o TEMPO.

E aqui vale novamente fazer algumas perguntas: Como é a minha relação com a morte? Entendo que é algo natural e continuo aproveitando a vida ou “morro de medo da morte”? Não tem problema ter medo, afinal é um padrão ligado a nossa sobrevivência. O grande problema é esse medo ser tão grande, que te impede de viver.

E sobre viver, lembra da última vez que você esteve inspirada e fez alguma atividade com tamanha entrega simplesmente porque ela tinha que ser feita, sem pensar nos benefícios de realizá-la ou agir de uma maneira motivada, onde o único motivo para a ação é o resultado desta?

Estar inspirada é estar num estado de fluxo, onde o ego momentaneamente perde as rédeas e permite que você apenas experimente o momento presente, um momento de entusiasmo, que é exatamente aquele em que você está tão imersa em algo que perde a noção de tempo e espaço e, quando “volta”, parece que se passaram 15 minutos mas na realidade se passou mais de 1 hora!

Imagina viver cada vez mais uma vida de forma inspirada, num estado de entusiasmo, sem reviver o seu passado ou estar presa nos projetos futuros por uma grande parte do tempo. Essa técnica auxilia nesse processo da nossa sabedoria inata – a inteligência que autorregula nosso sistema corpo e mente – de desfazer esses conteúdos que distorcem nossa percepção do mundo e nos impedem de viver desse modo, que um dia já foi o nosso jeito natural de viver a vida.

A vida somente acontece no momento presente. Pensar no futuro ou lembrar do passado ocorrem a partir do momento presente, que é o único que realmente existe! E a partir desse entendimento, quanto mais presentes, mais vivos nos sentimos! Não digo que é para abandonarmos as lembranças do que vivemos, nem deixemos de fazer planos para o que desejamos realizar, mas diminuir o tempo que passamos nesses estados e valorizando cada vez mais as pequenas ações, gestos, objetos. É resgatar o nosso “olhar de criança”, que diante de um novo mundo, onde tudo é visto e experimentado pela primeira vez, há uma imersão na experiência.

E para que esse texto não fique apenas numa esfera do intelecto, pare a leitura agora, respire fundo algumas vezes e perceba sua respiração, contemple o local onde você está e tende perceber os detalhes dos objetos, as cores, a intensidade da luz, os sons, os cheiros, o vento tocando sua pele. Vai lá!

E aí? Como foi essa simples e breve experiência pra você?

É ótima pra nos lembrar que já temos o que precisamos para viver, todo o potencial está presente aí dentro, aqui e agora, basta acessá-lo!

E se ainda persistir a sensação de que não está vivendo uma vida que vale a pena ser vivida, mapeie as mudanças que deseja, ajuste o GPS pra onde deseja chegar, sem ocupar sua mente questionando se o caminho é longo ou curto. Apenas comece a caminhada, curta cada passo do caminho, contemple o que se passa dentro e fora, pois é caminhando que se faz o caminho, e é vivendo que se faz a vida valer a pena!

Alexandre Abrantes

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1 Alexandre Abrantes. Terapeuta certificado BodyTalk. Acupunturista. Personal Trainer. Estudos em xamanismo, bruxaria, Astrologia, tarologia, yoga e vedanta. Personal Trainer e instrutor de Yoga
# (21) 981297703. Instagram: @aleabrantes_

Prefácio, edição 4, Acompanhando a Vida

Natasha Mesquita

A aceleração do tempo
aumenta a complexidade
do mundo.

Iluminar os pensamentos é o caminho
pra salvar a ação.

(errata feita 25 junho 2021: inclusão do poema de Amanda Pinho)

Com verdadeiro entusiasmo pela minha aproximação a um universo novo e instigante, este da editoração, apresento para vocês a quarta edição da ESCUTA. “Acompanhando a Vida” surge como um tema que tem inspiração advinda do próprio processo terapêutico. Não seria o processo terapêutico um ato de assistir os caminhos da vida, na sua diversidade plural? Assistir pela ação de observar principalmente, sendo em si o observar um modo de dar apoio a quem caminha seu percurso pessoal de viver a vida. 

O BodyTalk como ferramenta, amplia nossa capacidade de ler, de ver, de escutar e perceber a expressão do ser, sendo um sistema que engloba múltiplas linguagens advindas dos mais diversos conhecimentos. Nas edições passadas da revista ESCUTA, abordamos ente outros assuntos, sobre as estruturas, bases científicas e filosóficas do sistema. “Acompanhando a vida” vem amplificar nossa visão para dentro e para fora. O que permeia o BodyTalk poderá ser alcançado através dos artigos que recheiam esta edição propondo um mergulho sobre técnicas e estudos do sistema. Mas não somente é este o intuito do desenvolvimento da vida deste periódico edição quatro. Desejo que possas sentir e experimentar de modo mais vivencial do que racional, as informações que em forma de palavras te alcançará. 

Entrevista, reflexões sobre a vida como um constante dialogo com a morte, um sutil convite para um exercício ativo de contemplação sobre o tempo, poesias em movimento, artigo sobre nossa biologia e como é impactada pelos hábitos e crenças, e também um artigo-depoimento .

A vida é sobre viver, e tudo é sobre a vida. BodyTalk acompanha e nossa ESCUTA se abre para receber  olhares e perspectivas diversas sobre este acompanhar; aqui neste edição, de uma bióloga mestra em imunologia, um educador físico, acupunturista e yogi, uma pediatra, uma psicoterapeuta corporal e poeta, e uma instrutora avança de BodyTalk  também doutorado e Ph.D. em Medicina Integrativa. Todos terapeutas BodyTalk exprimindo nesta edição, através de seus olhares estudiosos de diversas áreas de especialização, algumas facetas da imensidão do universo que podemos alcançar com o Sistema. 

Desejando que a ESCUTA possa ser para vocês leitores um lugar de encontro com novos conhecimentos que te toquem na relação consigo e com o mundo transformando e ampliando formas de ver, te convido a abrir seu coração para receber as informações com todo o seu ser existente, e assim te desejo uma boa viagem. 

Natasha Mesquista

maio 2021

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Como o BodyTalk transformou a minha vida e a de milhares de pessoas

Luciano Flehr

Minha trajetória no BodyTalk se iniciou por meio de uma ida minha a uma pessoa muito querida que faz meu mapa astral. Na época, eu havia acabado de me formar em medicina chinesa pelo Instituto de Acupuntura do Rio de Janeiro (IARJ) e pensava como me veria dali a dez anos, se eu teria corpo para aplicar a massoterapia nas pessoas. Comecei a pensar que precisava encontrar alguma técnica que me proporcionasse trabalhar sem me exigir tanto fisicamente quando eu estivesse mais velho.

Fui à leitura do mapa, e a astróloga me disse que eu deveria olhar com carinho para aquela técnica que era nova no Brasil, e me deu um folheto de uma palestra sobre o BodyTalk. Telefonei e informei meu nome para reservar o lugar. No dia da palestra, caiu um temporal no Rio de Janeiro, e eu não consegui ir. Confiando no que a astróloga havia me falado, resolvi me inscrever no curso. Logo de início, a pessoa que fazia a tradução simultânea dizia que o BodyTalk poderia ajudar a curar mazelas, questões físicas e emocionais. Pensei: “Joguei meu dinheiro fora, mas, já que estou aqui, vamos ver aonde isso vai”. 

Na prática de uma técnica do Sistema BodyTalk, uma pessoa que eu nunca tinha visto na vida começou a chorar na maca pelo que eu estava falando, ao acessar a “sabedoria inata” dela. Chamei a instrutora, a dra. Janet Galipo, e ela me disse: “Se está chorando, é porque precisava sair. Está tudo ok”. Executei a técnica e, à medida que prosseguia, a pessoa ia relatando que tudo o que eu falava fazia todo o sentido e que as datas batiam com a história dela. Fiquei espantado e pensei que deveria olhar com mais carinho para a técnica. O que se seguiu foi uma grande paixão pelo Sistema BodyTalk.

Foi importante fazer essa introdução para compartilhar que o que aconteceu depois desse dia só me mostrou que fiz a escolha certa e isso me faz ser grato por esse dia e pelas palavras da minha astróloga.

A seguir, relato o que ocorreu em tratamentos surpreendentes e maravilhosos ao longo desses 16 anos de trabalho com o BodyTalk.

Uma senhora, mostrando-se muito agressiva, que volta e meia tinha crises de herpes me procurou. Fiz uma anamnese com ela, e começamos a sessão. Na época, eu só havia feito os modelos básicos. A sessão transcorreu, e relatei a essa senhora o que havia sido feito. Ela olhava para mim espantada. Havia situações da convivência dela com o pai, a falta, a revolta. Depois daquela sessão, quando retornou para a próxima, me disse que, naquele mês, não havia tido nenhuma crise de herpes, se sentia mais leve, mais feliz e que as crises haviam cessado.

Em outro atendimento, chegou uma senhora em cadeira de rodas. Na época, eu atendia em um consultório em que havia escadas para se chegar até a minha sala. Eu desci e fui atendê-la na parte de baixo. Ela relatou dores no corpo todo, sentia muitas dores. Realizei a sessão e, uma semana depois, ela me ligou dizendo que, no dia seguinte, as dores haviam parado e resolveu fazer pilates. No entanto, abusou nos exercícios, e as dores acabaram voltando. Em situações como essa, sempre recomendo que a pessoa com dores tenha calma e não exagere. O corpo precisa de tempo para se ajustar ao equilíbrio e, em muitos casos, há uma luta interna em querer manter um estado já conhecido, mesmo que seja o de desarmonia.

Em outra situação, atendi uma senhora por questões de equilíbrio, mas o que ela queria mesmo era levar o marido. Depois de umas duas sessões nela, o marido percebeu uma diferença em sua vitalidade e alegria, e ela conseguiu levá-lo. 

Fiz a anamnese, como de praxe, e ele me falou sobre sua questão, uma depressão profunda. A frase que mais me marcou foi: “Eu tenho vontade de morrer todos os dias”. Muito impactante. Fiz a sessão, conversamos um pouco mais, e ele se foi. Voltou para uma segunda sessão, e eu perguntei como ele estava. Disse que ainda sentia vontade de morrer. Expliquei que cada corpo é um ser diferente, que cada pessoa responde de forma diferente ao trabalho, que ele tivesse paciência porque eu tinha certeza de que o trabalho o ajudaria. Na terceira sessão, perguntei: “E então, como ficou e está?”. Ele abriu um sorriso que iluminou a sala e, olhando nos meus olhos, disse: “Agora eu sinto vontade de viver!”. Foi tão marcante aquela cena que a carrego comigo até hoje. 

Passado algum tempo, comecei a atender em Belo Horizonte por um certo período. Organizei o primeiro curso de BodyTalk na cidade em 2006. Mantive um consultório lá e me dividia a cada 15 dias entre Belo Horizonte e o Rio de Janeiro. Tenho dois casos interessantes dessa época na capital mineira.

O primeiro foi de um senhor que me procurou porque estava com diabetes. Sua taxa de glicose era entre 200 e 300 mg/dl. Fazia tratamento médico, mas a taxa sempre oscilava, e a glicose baixava até 150 mg/dl mais ou menos, não diminuía mais do que isso. Iniciamos o tratamento, e um dia, quando telefonei para confirmar a sessão, ele me disse: “Luciano, está confirmado, não sei o que você faz, não entendo, mas vamos continuar, porque, nesses últimos cinco anos, minha glicose nunca chegou em 99 como nesses dias”. Ele queria parar o tratamento médico, mas eu disse que não deveria fazê-lo, pois o acompanhamento do médico era importante. Depois que voltei para ficar em definitivo no Rio, soube que a taxa de glicose dele se mantinha entre 125 e 99 mg/dl. Para quem estava com uma taxa que atingia os 300, ele ficou muito bem.

Também em Belo Horizonte, atendi uma moça que sofria com enxaquecas absurdas, tinha crises que a deixavam inoperante por dias. Eu fazia as sessões nela, mas parecia que o trabalho não ia adiante, não conseguíamos obter nenhum resultado. Até que um dia ela chegou à sessão com uma crise muito forte. Durante o trabalho, tivemos de interromper algumas vezes para que ela vomitasse, tamanha era a náusea que a enxaqueca lhe provocava. No final da sessão, a dor estava em um nível de 40%. Ela foi para casa e, alguns dias depois, disse que a dor havia cessado e que, desde então, nunca mais havia tido aquelas crises. Um bom tempo depois, entrei em contato com ela e soube que continuava bem, sem crises, somente cefaleias comuns.

Outro atendimento bem interessante foi o de uma moça que me procurou porque tinha crises de pânico severas. Eu a atendi e, uns três dias depois, a terapeuta dela me telefonou perguntando o que eu havia feito com a moça. Disse que ela havia vivenciado um intenso tiroteio, dentro de um túnel e não tinha sofrido nenhuma crise de pânico diante do acontecimento. Expliquei à terapeuta o Sistema BodyTalk, e a terapeuta marcou uma sessão. Ficou tão impressionada que queria experimentar essa técnica.

Tenho muitas histórias, muitos relatos, muita gente se transformando com esse trabalho tão maravilhoso e encantador que é o Sistema BodyTalk.

Tudo o que relatei aqui foi para incentivar as pessoas que estão começando no BodyTalk a ir adiante. Nem sempre as respostas serão rápidas, mas uma coisa que sempre digo a cada cliente que atendo é: “Não posso afirmar nada, mas o que eu afirmo é que, a partir do momento em que você recebe uma sessão de BodyTalk, ela está atuando no seu corpo-mente, quer você perceba, quer não”.

Espero que esses relatos ajudem as pessoas a ter uma visão mais clara sobre o que é o BodyTalk no dia a dia de atendimento. Tanto para o cliente quanto para o terapeuta. Afinal, considerando o pensamento sistêmico, estamos todos interconectados.

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(link atualizado em maio 2021)

O Caminho da Individuação

Márcio Ribeiro

A partir do instante em que nascemos, surge um movimento inconsciente por aceitação. Embora nem todos desenvolvamos a sensação de não sermos amados, desejados e queridos, de acordo com a formação da nossa consciência de separação, todos buscamos ser aceitos. 

Por vezes, observamos que a nossa chegada no mundo traz uma mudança potencialmente agradável, mas que também gera um grande peso para as pessoas que nos recebem. Trata-se de um peso que essas pessoas buscam disfarçar com toda força (seja por valores culturais e éticos ou, simplesmente, pelo cuidado em nos acolher), e assim eventualmente conseguem transformá-lo em amor. Ainda assim, o peso existe.

A partir daí, o que podemos perceber é que no transcorrer de uma vida, o ser humano desenvolve várias máscaras em busca de aceitação, retribuição ou obtenção de alguma recompensa. Pressionados pela intensidade de cada estágio que passamos desde a infância, ouvindo opiniões sobre nos parecermos mais com o pai ou com a mãe, por exemplo, buscamos crescer.

Então, desde o início da jornada, todos nós recebemos uma carga consensual com os códigos para pertencermos. Essa carga evolui para a máscara principal que adotamos e com a qual vivemos, mas que nem por isso torna-se um fardo para todos. Porém, na percepção de alguns, essa máscara cria uma ideia equivocada de que aqueles que nos trouxeram ao mundo deveriam ser responsáveis por nós, cem por cento do tempo. Essa é uma demanda que, por sua vez, passa a se apresentar como um grande obstáculo.

Ao não aprender a lidar com essas máscaras, ou ainda, ao não buscar uma versão individual de nós mesmos, dentro do espaço-tempo da nossa mortalidade, nos distanciamos do sentimento de valor e amor próprio e, principalmente, da individuação.

Enquanto terapeutas de BodyTalk embasados no vasto conhecimento da filosofia Advaita Vedanta, a busca por essa individuação se torna um desmascaramento dos momentos cruéis em que julgamos o outro, ou nos quais nos sentimos julgados. Desta forma, a busca pela individuação nos alimenta com um senso de que é possível sim viver, apesar da impossibilidade de sermos aceitos o tempo inteiro. 

Entendemos que é possível viver com um sentimento de paz, apesar de não termos controle absoluto sobre nada. Compreendemos que precisamos fazer do controle um legado ilusório, porém necessário, para as vivências mundanas do cotidiano. Afinal, esse controle é útil; inclusive para evitar uma reação de emoção exagerada diante dos desafios que surgirão na interação com o outro, a partir do nosso processo de individuação. 

Vale ressaltar que não importa o quanto você se individue, o mundo não precisa acompanhar a sua individuação. Ou seja, o outro não precisa estar bem-resolvido para que você também possa estar em um lugar melhor. Embora o conhecimento seja impessoal, esta é uma jornada pessoal, na medida em que a iluminação é para todos, mesmo que o despertar nunca seja igual para ninguém. 

Tomar esse despertar pode implicar, para alguns mais que para outros, uma sensação de isolamento, de solidão ou, até mesmo, de estar a um passo de uma depressão. Outra percepção que habitualmente acompanha o despertar de consciência é o sentimento de não ser entendido. 

Mas o grande trabalho de um terapeuta de BodyTalk é de somar-se ao entendimento de que o corpo-mente quer essa individuação; todo ser deseja lembrar-se de quem é, na origem. Por esse motivo, devemos sempre ter em mente a analogia da onda no mar. 

A onda, quando se percebe ainda identificada com o mar, ela faz da corrida em direção a praia o seu grande objetivo. Poderíamos dizer que ela traça caminhos e metas para chegar até seu destino: primeiro, vem crescendo como uma marola no meio de um oceano, até tornar-se onda forte, corajosa e capaz. É assim que ela, destemidamente, alcança a praia. Conforme o mar a recolhe para a fusão e ela percebe que a praia não é o fim da jornada, surge a consciência de nunca ter sido separada do oceano. É a partir desse desapontamento egóico que se inicia o despertar espiritual.

Seguindo a mesma linha, ao longo da vida humana passamos por desafios, gestamos motivações, vestimos máscaras para dar conta, buscamos melhorar para sermos aprovados e aceitos. Acreditamos que desta forma vamos conseguir alcançar algum objetivo, que assim que chegarmos lá seremos felizes; e que se não atingimos esse marco, significa então que não fomos ninguém, não fizemos nada, não chegamos em lugar nenhum. Sem contar que muitas vezes projetamos essa felicidade no outro como se fosse um objetivo comum. 

Talvez a nossa grande inflexão possa estar em dar-nos conta de que não é sobre o resultado final e nem sobre ser feliz, mas sim sobre experienciar essa jornada inconstante, impermanente, que nos é dada e tirada, sem aviso prévio. Viver os prazeres, os despertares e os lutos, inclusive da perda dessa efêmera experiência de onda. O ouro está na faísca potencial de despertar para a jornada por si só, como jornada da alma, e não em função de algum resultado egóico final. A experiência da convivência, do diálogo, do afeto, do amor… Isso é o que interessa e faz o exercício da jornada da alma valer a pena.

Portanto, no que diz respeito a nós, terapeutas, que temos o conhecimento das consciências naturais do corpo e as dinâmicas dualísticas que elas nos convidam a viver aqui: quanto mais individuados, mais este ir e vir de vivências será percebido apenas como uma oscilação na onda. 

Para mim, este é o marco zero a partir do qual eu já não me encanto mais com a adrenalina de surfar a crista da onda, pois afinal, sei que a onda também baixa. Tampouco me paraliso quando tudo se silencia. A vida então começa a ser trançada de impermanência, agora bem menos assustadora, e ressalta aquilo que mais temos que reconhecer na nossa história humana: a vulnerabilidade, não como um sinal de fraqueza, mas de humanidade. Afinal, mesmo pertencendo à vasta consciência-oceano, somos apenas seres humanos. 

Na jornada infinita da alma, somos ondas com término determinado, mas expressamos consciência quando nos percebemos conectados ao potencial infinito de possibilidades. Agora, os nossos pais já não são mais responsáveis por nós, a cultura não é responsável por nós, e tampouco há culpa por estarmos atravessando qualquer experiência. A religião, que já não dava todas as respostas, agora ocupa o lugar de nos servir durante a jornada, até o ponto de não servir mais. 

Agora o eu já não segura mais, não julga mais, não critica mais, e não busca ser aceito ou amado quando percebe que não o é. Agora há amor-próprio e auto-aceitação, inclusive diante de outras ondas que, ainda identificadas, se acham separadas do oceano, e assim, de mim mesmo. 

Individuados, livres, ao fim da jornada, temos o potencial de morrermos despertos, quando a faísca de iluminação retorna à essência do todo. Conectados com o todo, individuados, não importa mais que as relações sejam agradáveis ou que tragam felicidade. Agora todos pertencem ao ciclo de múltiplas facetas, sem jeito certo de ser ou de viver, porque toda a expressão do universo é válida.

O importante é manter um caminhar centrado e conectado, na companhia desapegada de todos, buscando viver e resolver aquilo que nos cabe, em homenagem a essa força que governa a todos, dê a ela o nome que quiser: amor, consciência… Pouco importa, desde que o caminho seja aquele da individuação.

Finalizo com Balsekar (1992, p. 200, grifo do autor)

Você não pode evitar estar aqui! Eu não pude evitar estar aqui. Este-que-está-falando e aquele-que-está-escutando precisam estar aqui para que a fala-escuta ocorra como um evento. Você pensa que você está ouvindo, mas a escuta está ocorrendo através do mecanismo do corpo-mente e isto é parte do processo de desidentificação, de iluminação, que acontece. E no processo de desidentificação, no processo evolutivo, isto é um evento. Isto é um evento específico. Portanto, esta escuta está ocorrendo através do mecanismo do corpo-mente porque tinha que ser assim neste momento, neste lugar. Isto é parte do funcionamento da Totalidade.

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(link atualizado em maio 2021)

Prefácio Ed. 3 Escuta

Renata Ururahy [1]

Tendo praticado e estudado BodyTalk internacionalmente, estou muito honrada em fazer parte da terceira edição do Escuta e desta forma me conectar com a matriz brasileira de terapeutas BodyTalk.  É com muita alegria que vejo o sistema se desenvolver de forma tão profissional e qualificada no país do meu coração.

Acredito que estamos em um momento único na história da humanidade, em que existe a possibilidade de um salto quântico na forma das pessoas entenderem a dinâmica do corpo-mente de forma mais interconectada, que trará uma grande demanda das terapias baseadas em consciência.  

Nesta edição os artigos vêm explorar, em diversos ângulos, o princípio fundamental do BodyTalk como sistema de saúde baseado em consciência e refletir na importância crucial deste princípio para o alcance de um verdadeiro estado de saúde.    

Marcio Ribeiro nos convida a questionar o que faz a jornada da alma realmente valer a pena e como viver essa jornada inconstante e impermanente de forma centrada e conectada. Seu artigo é uma bela descrição da importância do processo de individuação que o BodyTalk facilita ao encontro do amor próprio e autoaceitação. Marcio traça uma trajetória desde o momento onde formamos nossas máscaras em busca da aceitação e pertencimento ao momento em que nos reencontramos como os seres que realmente somos.  O artigo explora a possibilidade de vivermos desapegados de resultados egóicos e “Livres, ao fim da jornada, temos o potencial de morrermos despertos, quando a faísca de iluminação retorna a essência do todo.” afirma Ribeiro. 

Luciano Flehr, em seu artigo divide conosco relatos incríveis de resultados alcançados com o BodyTalk em diferentes etapas de seu crescimento como terapeuta. Fazendo parte do sistema há mais de doze anos, me identifico muito com a forma em que Luciano se apaixona pela modalidade e as possibilidades que ela nos oferece de transcender aquilo que acreditamos ser possível dentro do paradigma da medicina moderna. 

Refletindo na definição fundamental do BodyTalk como sistema de cuidados com a saúde baseado em consciência, Natasha Mesquita nos convida a questionar “Por que tantos paradigmas sobre a viabilidade de sessão a distância, se a consciência é imaterial?”

De forma descontraída e intrigante, o artigo nos desafia a refletir como acessamos as informações nas sessões de BodyTalk e a importância da simples observação do terapeuta do que o corpo tem a dizer como fator causal do processo de transformação. 

Natasha explora o embasamento científico da física quântica para explicar como as sessões de BodyTalk podem ser efetivas tanto pessoalmente como a longa distância, apresentando o conceito de campos morfogenéticos e entrelaçamento quântico usados para descrever a interconexão de todas as coisas no universo. Além disso, o artigo instiga o questionamento de nossas crenças acerca do que é o conhecimento, trazendo a importância da qualidade subjetiva e da experiência interna ao processo de validação do conhecimento. 

Em uma edição da Escuta que reflete novos princípios científicos para entender terapias integrativas e quânticas como o BodyTalk, Nirvana Marinho em seu artigo “BodyTalk e sua ciência, fatos baseados na consciência”, nos apresenta três pesquisas realizadas no Brasil nos últimos dois anos. Nirvana também nos introduz à três autores que fortalecem a base científica do BodyTalk: Fritjof Capra, James Oschman e Amit Goswami que nos oferecem uma ponte entre a ciência e a filosofia e descrevem uma prática não dualista da consciência, nos levando a uma nova visão da realidade.

Em seu artigo, Ana Carolina Medeiros de Vasconcelos provoca o leitor a questionar o verdadeiro significado de saúde e nos convida a incluir o conceito do valor que damos à vida quando pensamos em saúde. O artigo reflete na natureza impermanente do nosso estado de saúde e da importância de práticas (como o BodyTalk) que promovem o alinhamento com a Consciência e buscam satisfazer a alma no caminho de volta para casa como aspectos fundamentais na promoção da saúde.   

Aproveitem a leitura dos artigos desses incríveis profissionais.

[1] Formada em Nutrição pela UnB, Renata se mudou para os EU para expandir seu conhecimento em terapias integartivas, onde completou seu mestrado em Nutrição Holística pela Clayton College of Natural Health. Em busca de se aprofundar na compreensão da interação corpo-mente, se certificou como Terapeuta BodyTalk, Instrutora de Yoga e Reiki Master. Renata realiza atendimentos pessoais e a distância no Brasil e Estados Unidos, além de trabalhar com grupos de mulheres em processo de descoberta espiritual.

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(link atualizado em maio 2021)

Ciências da Vida do BodyTalk

autodescoberta e o apreço por perguntas significativas

            Adriana Almeida Camilo[1]

“Onde eu estou, eu estou. Quando eu estou, eu sou.” 

Maria Beatriz Nascimento

O convite para escrever este ensaio sobre as Ciências da Vida para o periódico “Escuta, sobre BodyTalk” veio em um momento de síntese da minha trajetória pessoal e profissional. Em uma singela sincronicidade, havia retornado recentemente de uma residência artística nominada “Práticas de Escuta” que, de certa forma, marcou a celebração da integração de caminhos por mim percorridos nos últimos 25 anos em campos como: terapias, artes do movimento e artes audiovisuais, práticas somáticas, escrita, pesquisa científica, produção de conteúdo intelectual e cultural, ativismo socioambiental, espiritualidade, sistemas familiares e coletividades, ecologia profunda, meditação, estudos e práticas sobre as águas, embriologia, nascimentos, a vida e seus ritos de passagem, inclusive a morte e o morrer.

Compreender e retomar os vínculos entre estes campos aparentemente tão diversos constitui-se uma oportunidade de reconhecer a minha própria existência e de tantos outros organismos como sistemas vivos interrelacionados. Ao longo da vida, meu foco foi se movendo do fazer e da ação voltada para objetivos para reconhecer o Ser Que Sou, estar consciente e presente, ainda que muitas vezes pareça desafiante.

Lembra que falei sobre celebrar? O conceito de celebração autêntica, a partir da Ecologia Profunda e do Dragon Dreaming[2], parte do princípio que celebrar é um movimento introspectivo de observar as experiências e as próprias emoções, em um exercício de presença aqui-agora, colhendo os aprendizados da jornada de tal forma que o processo em si seja tão valorado quanto seu resultado. É a arte de fazer perguntas significativas que geram mais espaço interno do que conclusões. A partir desta escuta interna, as reflexões podem ser socializadas com outras pessoas, em uma tessitura intuitiva sobre o que sei, mas principalmente sobre o que se revela na dimensão do desconhecido sobre si e sobre a vida. É com gratidão, portanto, que compartilho com vocês este mergulho.

As Ciências da Vida do Sistema BodyTalk podem ser compreendidas como um espaço fértil e potente de autodescoberta e integração na relação consigo, com outros e com o mundo. É inegável o quanto MindScape, BreakThrough e FreeFall potencializaram, expandiram e seguem enriquecendo minha prática clínica como terapeuta BodyTalk. Mais do que um conjunto de cursos do sistema BodyTalk, que apoiam a relação terapeuta-cliente e se desdobram em aprimoramento da atuação profissional, estamos aqui diante de jornadas nas quais o foco é o processo de autocura, autoconsciência, autocuidado. Cada mergulho sob a perspectiva do MindScape, BreakThrough e FreeFall foram presentes e oportunidades preciosas que me permitiram contemplar minha natureza essencial e reconhecer essa mesma humanidade em outras pessoas.

Neste sentido, compartilhar as Ciências da Vida e convidar clientes a participar destes cursos é também uma maneira de estimulá-las(os) na apropriação do caminho de autoconhecimento. É uma forma de apoiar cada pessoa que encontro no contexto terapêutico a colocar o espelho diante de si e reconhecer-se para além das crenças, máscaras e condicionamentos que ao longo da vida foram se juntando à autoimagem e à própria noção de realidade. São todos cursos sem pré-requisitos (no nível básico), na medida em que não há pré-requisitos para Ser quem se é e contemplar a própria história com frescor.

As abordagens de saúde baseadas em Consciência partem do princípio que o processo manifesto está relacionado com a sabedoria inata, que no BodyTalk é chamada “Consciência Universal”. A forma como acessamos essa Consciência é por meio da intuição, uma sabedoria que está sempre disponível para todos nós. À medida que refinamos a habilidade de identificar os condicionamentos e crenças desenvolvidos ao longo da vida, que distorcem a escuta sensível da intuição, mais profunda e através da experiência, compreendemos a natureza essencial da sabedoria inata (VELTHEIM, J. 2013).

Como os cursos Ciências da Vida do sistema BodyTalk não tiveram seus nomes traduzidos para português aqui no Brasil, intui que expandir a compreensão semântica dos três eixos poderia trazer alguns insights.

Em uma aula com a instrutora Suffen Paphassarang, revelou-se a compreensão de Mindscape como paisagem mental que integra as qualidades estruturantes do hemisfério esquerdo do cérebro com a natureza intuitiva do hemisfério direito. Quanta riqueza e liberdade contemplar as informações que se apresentam quando sintonizamos com a intuição estruturada como paisagens de grande plasticidade! Com Kris Attard, Andy Spencer e Angela Adkins, compreendi que permitir que o cérebro entre na frequência alpha, reduzindo distrações desnecessárias e filtros baseados no passado, convida a criatividade e a intuição a acessarem informações subconscientes sobre o campo e sobre nós mesmas(os), ancoradas(os) na sabedoria do coração.

A imaginação – que é a intuição não estruturada e inclui visualização, sonhar acordado, pensamentos em geral, sonhos – é fundamental para um saudável funcionamento do cérebro, no estabelecimento de sinapses neuronais diversificadas e fortes, no processamento do estresse, na geração de novas ideias, na criatividade, dentre muitos outros (VELTHEIM, J., 2013). O poder e a complexidade da capacidade de autocura e reequilíbrio do organismo, especialmente a partir de práticas apoiadas na intuição, como meditação, vizualizações e abordagens integrativas baseadas no modelo corpo-mente, são investigados no livro “The Heart of Healing”, do Institute of Noetics Sciences, com riqueza de exemplos clínicos e referências a pesquisas científicas [sem edição traduzida para o português].

De acordo com o dicionário Oxford, breakthrough é “um importante desenvolvimento que poderá guiar a um acordo ou realização (agreement or achievement: 1. algo que alguém fez com sucesso, especialmente usando seus próprios esforços ou habilidades/ 2. o ato ou processo de realizar algo)” [tradução minha]. Nas Ciências da Vida, o BreakThrough é um método de autoinquirição concebido por Esther Veltheim a partir de princípios da Advaita. Em uma jornada pela natureza paradoxal e curadora do conflito e da psique humana, BreakThrough é um convite para transcender uma vida vivida a partir de condicionamentos e comportamentos reativos para uma vida mais consciente e plena (VELTHEIM, J., 2013). As convicções inconscientes deixam de atuar como verdades absolutas e são desveladas como crenças, baseadas no passado, que até então vinham moldando nossa perspectiva da realidade. Neste sentido, “o ato ou processo de realizar algo” que os passos do BreakThrough propiciam não vão em direção de tornar-se uma pessoa melhor ou diferente, mas sim no sentido da autorrealização, reconhecendo o que sempre esteve ali, o estado natural e autêntico do Ser, com toda sua humanidade (VELTHEIM, E., 2001).

FreeFall, por sua vez, traz o sentido semântico de queda livre, sem emprego de força ou de acessórios externos para impulsionar ou frear o movimento. Em termos vivenciais, é um mergulho na consciência de quem somos, compreendendo como nossas máscaras e mecanismos de defesa se expressam no corpo por meio de tensões, rigidez muscular e barreiras de proteção do coração. Temas como autoimagem, a relação com o próprio corpo, sexualidade, controle, dinheiro e vulnerabilidade são abordados com confidencialidade, cuidado e profundidade. Em que medida o que protege daquilo que mais tememos também pode nos separar do contato com o que verdadeiramente somos e amamos, a vitalidade e a presença no aqui-agora?

Sendo o FreeFall uma abordagem terapêutica baseada em consciência, também me parece ilustrativo resgatar a metáfora do iceberg: a pequena ponta como aquilo que somos conscientes, enquanto a maior parte do iceberg está submersa, ou seja, inconsciente. Não obstante, os movimentos do iceberg são geridos por aquilo que está visível e por aquilo que está submerso, por sua totalidade. Neste sentido, ancorar-se na sabedoria do coração, como abordado no módulo Princípios da Consciência do BodyTalk e vivenciado no FreeFall, é uma integração profunda com as dimensões inconscientes do Ser. É a âncora descendo as águas profundas do inconsciente, da sombra, para acessar e abraçar a totalidade do iceberg. Nossas sombras não são necessariamente limitações, mas tudo que não somos conscientes sobre nosso Ser. “O pensamento complexo tenta, efetivamente, perceber o que liga as coisas umas às outras, e não apenas a presença das partes no todo, mas também a presença do todo nas partes.” (MORIN, 2013: 14). Novamente, assim como no BreakThrough, no FreeFall não há um propósito de despojar por completo dos filtros e crenças que criam a realidade experienciada, chegando em uma autoimagem idealizada, neutra, imaculada, perfeita. A natureza do movimento é despojar-se da noção de que sua experiência determina quem você é.  Essa é sua experiência no momento, mas não é você.

O sistema BodyTalk foi inicialmente desenvolvido por John e Esther Veitheim no Mindscape, em estado alpha, integrando a intuição e a capacidade do cérebro de sistematizar e estruturar o conhecimento – com foco no desenvolvimento pessoal e autoconhecimento. Seus expressivos resultados na melhora ou remissão de desequilíbrios no corpo físico foram consequências, desdobramentos de uma abordagem sistêmica e integrativa. O BodyTalk segue em processo de aprofundamento e expansão e vem sendo aprimorado ao longo dos anos com a contribuição de seus sistematizadores, instrutores, terapeutas, estudantes e clientes.

Fritjof Capra[3], reconhecida influência do sistema BodyTalk, a partir de suas inestimáveis contribuições para o pensamento sistêmico e a física quântica, após a publicação de “O ponto de mutação”, “O Tao da física” e “Green politics”, apresentou um quarto livro, onde conta sua história pessoal e os diálogos com mulheres e homens notáveis por trás de suas ideias e conceitos. Em seu livro “Sabedoria Incomum”, traz um instigante relato de seu encontro com o mestre Krishnamurti e seu processo de libertação do aparente conflito entre a autorealização espiritual e sua trajetória como cientista, altamente identificado com o pensamento:

“Examinemos então a questão, […] sem julgarmos, sem condenarmos, sem justificarmos. O que é o medo? Examinemos isso juntos, vocês e eu. Vejamos se conseguimos realmente nos comunicar, estar no mesmo plano, na mesma intensidade, no mesmo momento.” […] E Krishnamurti passava então a tecer uma teia imaculada de conceitos. […] Apresentava uma análise brilhante de como tais problemas existenciais básicos estão inter-relacionados – não na teoria, mas na prática. Krishnamurti não só confrontava cada membro da plateia com os resultados de sua análise, como também instava e convencia cada um a se envolver no processo de análise. No final, ficava uma sensação nítida e forte de que o único meio para se resolver qualquer um dos nossos problemas existenciais é ir além do pensamento, além da linguagem, além do tempo – é ‘libertar-se do conhecido’, como diz no título de um de seus melhores livros, Freedom from the know.” [CAPRA, 1988: 22].

Em que medida as experiências do cotidiano, daquelas consideradas mais banais às valoradas como impactantes, por meio da autobservação, se convertem em vínculos, em suporte para a consciência de si e do mundo?

Consciência é tudo que é. Como separar quem se é do (f)ato de existir? Viver a vida como prática: reconhecer-se Ser. Não como um caminho para aprimorar-se e tornar-se a referência idealizada de si mesmo, mas como processo de despojar a força e poder que atribuímos a nossas crenças, aos julgamentos sobre como devemos ser e sobre como a Vida deve ser, para receber, perceber, processar e co-criar a Vida no aqui agora, na medida em que o viver simplesmente acontece.

Em essência, uma sessão de BodyTalk é uma escuta sensível, atenta e ancorada na consciência do coração, a partir de protocolos que estruturam a intuição, permitindo o desvelar da sabedoria inata do cliente, do terapeuta e, por que não dizer, da sabedoria acumulada coletivamente. A escuta daquilo que está consciente e tangível, mas também dos silêncios, das entrelinhas, dos vazios que se revelam para além das narrativas conhecidas, além das histórias por hábito repetidas tantas vezes sobre si ou sobre a vida. Essa disponibilidade para re(conhecer) o Ser na sua dimensão integral desvela o desconhecido, a sombra, a potência que habita o inconsciente e que igualmente faz parte de quem somos.

Referências

CAPRA, F. (1988). Sabedoria incomum. Conversas com pessoas notáveis. São Paulo: Cultrix Editora.

CYRULNIK, B. & MORIN, E. (2013). Diálogo sobre a natureza humana. São Paulo: Editora Palas Athena.

Institute of Noetic Sciences & POOLE, W. (1993) The Heart of Healing. Atlanta: Turner Publishing.

MACY, J. & JOHNSTONE, C. (2020). Esperança ativa. Rio de Janeiro: Bambual Editora.

OXFORD (2000). Oxford Advanced Learner´s Dictionary of Current English. Oxford University Press (impresso).

VELTHEIM, E. (2001). Who Am I?: The Seeker’s Guide to Nowhere. Florida: PaRama LLC.
VELTHEIM, J. (2013). The Science and Philosophy of BodyTalk, Healthcare Designed by Your Body. Florida: PaRama LLC.

[1] Terapeuta BodyTalk certificada, tendo chegado no sistema BodyTalk em 2011 e desde então mergulhado em todos os módulos avançados, além de outros aprofundamentos, como Medicina Oriental, Ecologia do Corpo e Epigenética. Participou e monitorou cursos como Mindscape Básico e Avançado, Breakthrough, FreeFall 1 e 2, além de satsangs com Esther Veltheim. Contribuiu na organização do primeiro encontro de terapeutas BodyTalk do Brasil, em 2013, tendo facilitado nesta ocasião e em 2018, vivências de grupo para a matriz de terapeutas do sistema. É integrante da equipe do projeto BodyTalk Brasil COVID-19.

Psicóloga, com especialização em psicologia clínica pelo Instituto de Gestalt-Terapia (IGTB) e mestrado em Desenvolvimento Humano e Saúde pela Universidade de Brasília (UnB). Escritora, fotógrafa, artista transdisciplinar, investigadora das artes do movimento, facilitadora de processos em que a dança e as práticas somáticas se encontram e se potencializam, e em pesquisas de improvisação e meditação em ambientes naturais ou aquáticos. Ecologia Profunda, Ecopsicologia e abordagens bioinspiradas, a natureza rítmica e mediadora da Água e Embriologia são seus temas atuais de pesquisa e aprofundamento. Foi professora e coordenadora pedagógica em uma das primeiras formações de doulas no Brasil e desenvolve um projeto chamado Feminino Bem-Viver. adriacamilo@gmail.com site: almamater.art.br

[2] A Ecologia Profunda e o Dragon Dreaming são abordagens que integram o desenvolvimento pessoal, comunitário e ecológico como dimensões interelacionadas e inseparáveis de um sistema vivo. Embora não façam parte do Sistema BodyTalk, bebem de alguns fontes conceituais e filosóficas comuns. “Esperança ativa”, o mais recente livro de Joanna Macy, doutora em ecofilosofia, estudiosa da teoria geral dos sistemas e grande referência em Ecologia Profunda é uma inspiração para este ensaio, que versa sobre as Ciências da Vida do BodyTalk como caminho de autodescoberta.

[3] A primeira edição do periódico Escuta teve como eixo condutor o BodyTalk como Sistema e inclui uma entrevista com o Dr. John Veltheim, na qual se confirma a importância de Fritjof Capra, especialmente o livro Ponto de Mutação, na sistematização do BodyTalk. A entrevista foi conduzida por Verena Kanciskins.

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(link atualizado em maio 2021)

Ciclo do cuidado

Maria Fontes[1]

O curador ferido é um arquétipo bastante utilizado para falar sobre “o terapeuta” e a capacidade empática que essa tarefa convoca. Esse termo é inspirado na história de Quíron, o Centauro.

Na mitologia grega, Quíron é uma figura que, apesar de possuir corpo de cavalo e, de certa forma, o potencial anímico e instintivo bruto, ele era refinado, bondoso e conhecido por sua habilidade com a Medicina. De fato, era considerado uma autoridade espiritual que tratava as dores humanas. Diz o mito que ele foi, acidentalmente, atingido por uma flecha envenenada lançada por Hércules. Como era imortal, Quíron sobreviveu, mas a ferida incurável se tornou um sofrimento crônico. O desconforto da dor pessoal faz com que Quíron experiencie e busque inúmeros recursos para apaziguar aquela ferida. Ele passa sua existência investigando soluções, caminhos e possibilidades de amenizar sua dor. Reúne em si grande bagagem, o que favorece o entendimento das variadas dimensões das dores humanas que ele curava. Arquetipicamente, ele fala do curador ferido e sua busca ao lidar com a ferida eterna.

Inspirado, ou não, na imagem desse mito, Carl Jung também fala do curador ferido. Segundo ele, um terapeuta pode auxiliar na cura de pessoas por ele ser um doente, ou seja, aqueles marcados por suas dores seriam capazes de ajudar pessoas a reconhecerem, cuidarem e curarem as próprias feridas.

Estar atento e disponível a auxiliar o outro no caminho por vales escuros e doloroso de sua própria alma requer a força e a coragem de buscar a própria cura, o próprio aconchego na dor. Isso é uma arte. De acordo com Julia Cameron (2002, pág. 48) em O caminho do artista,a arte nasce na atenção (…). A arte parece brotar da dor, mas talvez seja porque a dor ajuda a focar nossa atenção em detalhes”. A arte do cuidado parece então se relacionar com a capacidade de observar e avançar nos detalhes da própria dor, conhecer os labirintos internos, lamber feridas das quedas e tropeçadas da vida e, então, disponibilizar um olhar que observe a dor do outro, os detalhes desse outro.

Mas, então, que outro é esse? Sistemicamente falando, minha capacidade de auto-observar e encontrar os pontos da minha dor, auxilia o outro a encontrar também suas dores. Não há separação.

Desde que comecei a estudar e praticar o BodyTalk, em 2012, os conceitos da Advaita Vedanta[2] foram polindo minha observação do mundo, ou minha observação no mundo.

A grande pegadinha de sentir-se separado para entender-se como um indivíduo vem da necessidade de controle: controlar o que se sente, proteger-se de dores e dissabores, minimizar julgamentos ou controlar para programar e planejar uma rota de vida. Então, vem a Vedanta novamente e me conta que controle é “a mãe de todas as crenças limitantes”. O Ser em sua expressão mais amplificada e potente não se separa do outro, nem da vida, nem dos fluxos orgânicos, nem das estações do ano, nem dos mecanismos sociais, nem mesmo das interferências astronômicas e astrológicas, ou seja, o Ser É algo integrado e composto por inúmeras camadas. A cada instante uma vivência, uma sensação de expansão, outra de limitação, uma alegria, uma tristeza, e assim, uma série de experiências de vida que vão constituindo uma experiência que vou acabar chamando de minha. Minha experiência de vida, ou, na Vida!

Não posso controlar quando dói ou quando a vida flui. Quando adoece ou quando cura. Há então, a possibilidade de observar e permitir que a consciência se faça presente, e apenas aguardar o que dela possa brotar para a nova experiência. Parece – ou realmente é – um lançar-se no espaço, lançar-se na vida.

O BodyTalk praticado em nossos consultórios é apenas uma parte de um sistema amplo e sofisticado que promove bem-estar, vida, autoconhecimento e saúde. Esse sistema integral de saúde vai desde técnicas mais simples – como o Córtices –, passando por treinamentos para autocuidados, até oferecer um suporte “filosófico-existencial-transpessoal”, embasado na Advaita Vedanta. E não para por aí.

Como técnica clínica, nos fornece um treinamento preciso com navegação respeitosa que parte da premissa das prioridades do sistema humano de cada cliente. Acontece que as dores humanas são múltiplas e complexas. Cada um de nós reflete um prisma de cores únicas. Por reverberação, sintonia com o diapasão universal ou atração sintonizada com o perfil do nosso curador ferido, a clínica de cada terapeuta irá expressar ou atrair dores humanas similares àquelas que já nos foram possíveis enxergar, observar e avançar na cura. É nesse ponto, na perspectiva de abraçar o curador ferido de cada terapeuta que, generosamente encontramos no Sistema BodyTalk, as Ciências da Vida.

Dizemos que BodyTalk é uma terapia de observação. Observar a prioridade da sabedoria inata do cliente permitindo que a mente consciente participe dessa observação e melhore sua comunicação com os aspectos observados. A partir de onde se observa algo? Só se pode observar algo a partir da própria presença. Adalberto Barreto – nos conceitos da terapia comunitária – nos esclarece que “só reconhecemos fora aquilo que conhecemos dentro” (BARRETO, Adalberto: 2005).

Ser terapeuta me convida constantemente à autoinvestigação!

Nessa jornada pelas trilhas do BodyTalk, vem sendo fundamental resgatar aquele dever de casa dos meus processos pessoais e me disponibilizar para constantes atualizações em mim. Para isso, auto-observação é um ticket de passagem sem volta.

É difícil definir as Ciências da Vida apenas como cursos do sistema BodyTalk, mas, de forma prática, são o conjunto de cursos formados pelo agrupamento do Mindscape, BreakThrough e Freefall. Cada um desses é em si um conjunto de técnicas, um espaço para processos terapêuticos e também, uma ferramenta de suporte pessoal e para a prática profissional.

O BreakThrough me ensina a ser papel de origami: investigar as crenças antigas, como marcas de um formato pessoal que já não me cabem mais e, então, por meio dos 7 passos investigativos, desapegar e deixar ir, para que uma nova “dobradura” possa proporcionar nova direção. Assim, surge uma nova possibilidade de uma nova forma de expressão. Quando reações exageradas nos dominam, gatilhos subconscientes estão nos pressionando. Os 7 passos do BreakThrough nos possibilitam identificar e transformar os gatilhos que, por vezes, sequestram nossa lucidez e apenas reagimos. Esse é um movimento interno que pode mudar nossa direção e ser altamente transformador. Muitas feridas e dores deixam de ser necessárias quando a liberação de uma crença limitante e obsoleta nos possibilita outro olhar sobre as situações e sobre nós.

Outro parceiro fundamental na prática da auto-observação é o Mindscape. Ele é o espaço dentro das Ciências da Vida que fornece um cenário seguro, como meu anjo da guarda. Fornece uma base, um apoio para os passos pessoais, relacionais e profissionais. Ali nada é por acaso. Ao alcance dos olhos fechados, alinhado com a respiração profunda, “a casa dos pensamentos malucos” se torna um lugar em que, qualquer “maluquês” ganha contornos bem desenhado e pode ser traduzida em uma linguagem cheia de informações. Mais nítido ou mais simbólico, cada elemento informa algo essencial.  A relação azeitada com a oficina vem trazendo, dia após dia, enorme clareza, e, consequentemente, confiança nos processos intuitivos.

E então, temos o Freefall.

Pausa para um suspiro… Suspiro com sensação de colo, carinho, cuidado e muito sacolejo no Serzinho que vos escreve.

Na tradução, Queda Livre!

Ao longo da vida, fui passando por vários processos terapêuticos, mas sempre me sentia “à paisana” nesse campo. Deixei locais internos, que me doíam e custavam caro reconhecer e transformar, sempre para um futuro, para o depois, como se magicamente padrões e dores fossem se curar com um toque divino. Quando me tornei terapeuta, foi necessário mergulhar mais profundo, olhar para as feridas do curador ferido com maior lucidez. Neste caminho, cheguei até o FreeFall.

FreeFall é o processo terapêutico mais ousado e, ao mesmo tempo, acolhedor e gentil que conheço até hoje. A proposta é que, dentro de um círculo invisível de confidencialidade, confiança e autorresponsabilidade, os participantes possam despir as camadas e irem em direção ao Ser. De fato, despimos. A metodologia é a nudez. Tiramos a roupa, sim, e com ela muitos preconceitos e personagens. Nesse ato simbólico cada peça de roupa pode carregar para o chão o que ela tenta esconder ou tenta dizer sobre nós. Traz a possibilidade de revelar quem somos diante de nós mesmos.

A nudez carrega em si muitos elementos ligados à sexualidade. Socialmente são raros os momentos em que a nudez é bem-vinda. Ela está relacionada a momentos íntimos e ao sexo. A energia sexual é a base da energia vital, é a energia de cura e a própria pulsão de vida. Sabemos que existimos a partir do sexo dos nossos pais. A simples menção a essa realidade nos mobiliza. Para muitos de nós, um desconforto ou sensação de preferir não lembrar dessa parte. FreeFall parte desses desconfortos com a sexualidade moldada e nos guia rumo a uma queda livre para dentro de nossa potência de vida, presente em cada célula, apenas porque estamos vivos, aqui e agora.

Na jornada FreeFall, caminhamos de mãos dadas com nossa história de vida e temos espaço para olhar de frente, no espelho, tudo o que somos ou que podemos ser ao nos despirmos dos medos, culpas, vergonhas e limitações autoimpostas. A repressão sexual está no corpo, na mente, nas emoções e até no espiritual. Ela nos formata, modela, cria camadas de dores e distanciamento de nossa força vital. FreeFall é sobre nos recuperarmos para nós mesmos.

A intensidade dessa jornada depende do ritmo de cada um consigo, com seu curador ferido e com as permissões pessoais de avançar ou se reconhecer no limite do que é possível a cada momento. É também sobre respeito, especialmente o autorrespeito. Não existe obrigatoriedade em passos pré-definidos, o que encontramos é uma guiança dentro de um processo seguro e pessoalizado. As propostas são para o grupo, e cada indivíduo tem a oportunidade de indagar-se sobre o tamanho do passo a ser dado. Apesar de estarmos em grupo, o caminho não é em direção ao outro, senão, em direção a si.

Despir-se para acessar a vestimenta mais correspondente ao Ser. Abrir os olhos e enxergar para além da imagem refletida no espelho.

Por etapas, atravessamos as camadas que foram necessárias serem moldadas diante das repressões, abusos e distorções. Ao enxergar no corpo as dores e ao possibilitar uma experiência corporal real e segura, podemos viver insights, prazeres e alegrias que liberam couraças antigas. Soltar o que estava congelado em nós reverbera de forma incrível no corpo e na vida.

É claro que esbarramos em obstáculos, mas é possível abraçar os monstros escondidos em nossas temidas sombras.

Contatar a essência é um caminho pessoal, um ritmo único. Sutilmente a poesia pessoal ganha espaço para se manifestar. Os contornos de cada um aparecem nos limites pessoais. Já falei do respeito e do acolhimento únicos? Uma dança em que cada peça de roupa deixada pelo corpo e pela persona revelam o nu de uma alma disponível a se enxergar e, às vezes, também ser vista.

Em 2016, saltei no primeiro Freefall Brasil. Encontrei, sim, muito sacolejo. A poeira que deixei pousada “para depois” foi se levantando. Um turbilhão de transformação a partir dali. Desde então, busco “saltar” em queda livre nesse ambiente terapêutico pelo menos uma vez ao ano. Assim, o repertório do meu curador ferido foi alcançando o alicerce da energia sexual de olhos abertos e mais atentos.

Em minha prática clínica, percebo mais energia vital disponível. Abundância em forma de energia básica, sexual, kundalini, que é a base de quase toda energia requisitada para a manutenção do fluxo de vida no sistema humano. Essa observação se estende aos meus clientes, mais profundos e dispostos a observar junto ao BodyTalk locais primordiais de desconfortos antigos.

Em tempo de pandemia, as feridas humanas e da humanidade estão abertas e quase inconsoláveis. O arquétipo quirônico está exposto: “o grande cuidador é aquele que possui a maior ferida”. Para cuidar é preciso cuidado, autocuidado.

FreeFall toca e abraça as feridas da alma. Constitui por si um espaço espiritual. Afinal, não há nada mais sagrado do que reconhecer e abraçar a própria dor, a própria sombra. Passo a passo, o cuidado vai se estabelecendo em esferas que pareciam intocáveis e, assim, um ciclo lindo de cuidado e atenção gentil pode nos habitar.

Onde está escuro em você?  Topa levar vida até lá?

Fluxo de vida em queda livre!

Namastê.

Maria Fontes


[1] Mulher latino-americana, filha, mãe, amiga, poetisa e sonhadora. Antropóloga e Socióloga pela UnB (Universidade de Brasília), mestrado em Psicologia Comunitária no ISPA (Instituto de Psicologia Aplicada – Lisboa), Instrutora de Yoga desde 2007, Terapeuta BodyTalk, CBP (Certified BodyTalk Practitioner) desde 2012. Apaixonada pelo Freefall desde 2016. Coordenando grupos de estudos desde 2018. O maior interesse de pesquisa pessoal é a interação indivíduo e sociedade. Encaro o BodyTalk como um sistema importante no balanceamento sustentável da vida e o azeitamento das engrenagens entre os níveis pessoal, social, ambiental, econômico, político e espiritual. Contato: fontes.mandala@gmail.com

instagram: @fontes.mandala

#(61)981012401

[2] Filosofia de raiz hindu dentro das tradições de pensamento e espiritualidade indianas cujas recentes mestres podem ser destacados como Balsekar, Krishamurti, Mooji, com os quais a concepção e leitura dos Vedas, escritos antigos sobre corpo, mente, espírito são de não-dualidade. (N.E.)

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(ink atualizado em maio 2021)

Prefácio Ed. 2 Escuta

Prefácio

Verena Kacinskis[1]

A edição que você tem diante dos seus olhos é especial. Isso porque o Sistema BodyTalk começou aqui, no que hoje chamamos de Ciências da Vida. Acho simbólico que um sistema de cuidado da saúde tenha surgido em seminários cujo foco não era o bem estar dos pacientes mas sim a organização e desenvolvimento internos dos terapeutas. Isto fala muito do BodyTalk em si. Sem auto-observação e autocuidado, como podemos ousar nos dedicar ao cuidado do outro?

Mas John e Esther Veltheim, estudantes de longa data de Jnana Yoga e intensos praticantes da autoinvestigação, sabiam disso. Eles sabem, até hoje, que a organização do mundo interno é parte do processo de autoconhecimento, e que para nos organizarmos é preciso desenvolver a arte da autoobservação. Por isso, ao fundarem o Sistema BodyTalk nos anos 1990, eles começaram por aqui.

Nesta segunda edição do Escuta, você vai encontrar cinco artigos cuja proposta é apresentar a diversidade fenomenológica das Ciências da Vida a partir das perspectivas das autoras e autores.

Em O ciclo do contato, Maria Fontes, terapeuta de BodyTalk, usa sua experiência pessoal para descrever, por vezes de forma poética, a riqueza dessas disciplinas. “Acontece que as dores humanas são múltiplas e complexas”, afirma Maria. E segue: “Cada um de nós reflete um prisma de cores únicas. Por reverberação, sintonia com o diapasão universal ou atração sintonizada com o perfil do nosso curador ferido, a clínica de cada terapeuta irá expressar ou atrair dores humanas similares àquelas que já nos foram possível enxergar, observar e avançar na cura. É nesse ponto, na perspectiva de abraçar o curador ferido de cada terapeuta que, generosamente, encontramos no Sistema BodyTalk as Ciências da Vida.”

Ciências da Vida é uma família de cursos vivenciais formada pelo MindScape, BreakThrough e Freefall. “Cada um desses é em si um conjunto de técnicas, um espaço para processos terapêuticos e também, uma ferramenta de suporte pessoal e para a prática profissional.”, nos explica Maria.

Em Ciências da Vida do BodyTalk, autodescoberta e o apreço por perguntas significativas, outro artigo cuja proposta é apresentar as três disciplinas a partir de uma experiência pessoal, a autora, Adriana Camilo, também terapeuta do Sistema BodyTalk, reflete sobre a contribuição das Ciências da Vida em sua trajetória: “Viver a vida como prática: reconhecer-se Ser. Não como um caminho para aprimorar-se e tornar-se a referência idealizada de si mesmo, mas como processo de despojar a força e poder que atribuímos a nossas crenças, aos julgamentos sobre como devemos ser e sobre como a Vida deve ser, para receber, perceber, processar e cocriar a Vida no aqui agora, na medida em que o viver simplesmente acontece.”

Adriana nos lembra que “Compartilhar as Ciências da Vida e convidar clientes a participar destes cursos é também uma maneira de estimulá-las(os) na apropriação do caminho de autoconhecimento.”

Seguindo por esta linha de pensamento (e sentimento), Myriam Machado, terapeuta de BodyTalk, nos guia pelos caminhos do FreeFall, disciplina das Ciências da Vida da qual ela é facilitadora. “John Veltheim criou o método FreeFall depois de observar o quanto as constrições criadas por nossas próprias histórias sobre autoimagem e amor próprio – e a carga negativa expressa em nossas roupas – podem perturbar não apenas o equilíbrio físico, mas também mental, emocional e energético. O principal objetivo do método FreeFall é que você possa celebrar a liberdade de Ser Humano.”

Saindo do FreeFall e caminhando em direção a outra disciplina, a própria Esther Veltheim, que idealizou e refinou os 7 passos de autoquestionamento do BreakThrough[2], nos relembra, em seu artigo Questionamento e o processo espiritual, que “nunca houve um tempo em que os seres humanos estivessem mais necessitados de aprimorar a habilidade de questionar” do que agora.

Por último, em MindScape como potencial caminho, Celso Juc e Angie Tourani, ambos instrutores de MindScape, e Carlos Bueno, terapeuta de BodyTalk e assíduo praticante das técnicas do MindScape, discutem, com mediação de Nirvana Marinho e tradução de Adriana Camilao, o uso do MindScape como ferramenta de autoconhecimento. Minha citação favorita desta conversa vem do Carlos Bueno: “MindScape e BodyTalk são geniais e ilimitados. A limitação deles é o praticante.”

Acredito que o autoconhecimento e a organização de nosso mundo interno ultrapassam o campo pessoal e funcionam como ferramentas de organização do coletivo. Não é possível construir uma sociedade saudável se os seus indivíduos estão doentes. Por isso, costumo dizer que o autoconhecimento é um trabalho, quase uma obrigação, social. A autonomia emocional adquirida depois de um fim de semana construindo uma intuição mais estruturada no MindScape ou investigando gatilhos emocionais no BreakThrough é algo que não se perde. Cada insight adquirido, permanece. E cada trabalho interno reverbera no campo familiar, profissional, social e político do indivíduo.


[1] VERENA KACINSKIS é psicóloga, Adv. CBP, CBI e pesquisa as várias formas humanas de se expressar. Produz cursos e conteúdos sobre a calma que surge quando organizamos nosso mundo interno em verenakacinskis.com e fala sobre receitas com plantas + intuição no projeto Minha Cozinha Virou Um Jardim.

[2] Depois da escrita deste Prefácio um novo artigo foi adicionado a esta edição, escrito por Salima J. Lara Resende (ERRATA) e embora não conste do presente texto, também sobre o BreakThrough, faz parte desta edição igualmente. (N.E.)

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(link atualizado em maio 2021)

Prefácio Ed. 1 Escuta

Convite à escuta

Celia Barboza dos Santos [1]

Quando recebi o convite para prefaciar a primeira edição do periódico Escuta, fiquei extremamente feliz pois o lançamento aglutina dois temas pelos quais sou encantada; o sistema BodyTalk e o pensamento sistêmico. E a melhor maneira de começar um artigo sobre o BodyTalk System é citando o próprio John Veltheim, criador do método, juntamente com Esther Veltheim.

A evolução do BodyTalk começou há quarenta anos com um sonho. A primeira parte do meu sonho era sobre uma terapia que pudesse transcender o modelo do diagnóstico, seguindo a primeira diretriz do corpo sobre seu próprio processo de cura. Nessa terapia, eu tinha visão do corpo na sua total expressão para decidir sobre suas próprias prioridades de tratamento. A função do terapeuta não era mais orquestrar o processo de tratamento de acordo com uma opinião de diagnóstico. Ao invés disso, a função do terapeuta poderia ser honrar e ser guiado pelo corpo de suas prioridades para cura. A segunda parte do meu sonho era a mesma de muitos seres humanos antes de mim: uma terapia que pudesse oferecer resultados tais que poderiam ser exponencialmente benéficos. No meu sonho, o sistema humano pode permanecer dinamicamente no caminho do seu bem-estar e poderia continuar melhorando mesmo depois que o tratamento tivesse acabado. Em outras palavras, o corpo, com sua própria sabedoria, poderia assumir o controle. A primeira parte do meu sonho se realizou através do que nós chamamos de Sistema BodyTalk. (I Had a Dream, John Veltheim e Esther Veltheim, 2016)

Em 2007, quando conheci o sistema BodyTalk, eu não tinha nenhuma noção do que estava por se abrir para a minha vida. Minha trajetória terapêutica dialoga com muitas práticas integrativas e, interessada em conhecer um método que combinava conhecimentos da fisiologia ocidental com os saberes da medicina tradicional chinesa e conceitos da física quântica, parecia que eu iria aprender mais uma técnica; no entanto o que encontrei foi um passaporte para um sistema de saúde baseado em consciência, numa abordagem de tal forma criativa, que trabalhar com este sistema tornou-se a minha universidade pessoal. A partir daí fiz todas as formações básicas e avançadas e segui o  desenvolvimento, certificando-me como praticante regular e integrando-me como membro da IBA Internacional BodyTalk Association, que é p órgão regulador no mundo.   Provavelmente, um dos grandes benefícios diretos que ser terapeuta BodyTalk me causa, é manter-me uma eterna curiosa, sobre temas diversos.

Nos ambientes das terapias integrativas, onde observa-se a energia como substrato causal, sempre ouvi que precisávamos aprender a pensar fora da caixa, que a energia acende a lâmpada, mas não podemos vê-la e então, por essa razão, existe. Sempre foi muito interessante, mas ainda havia um certo contexto de precisar acreditar, usando essas metáforas. As minhas primeiras experiências com o BodyTalk me surpreenderam muito e eu, simplesmente, não tinha explicações para os resultados. A minha enorme surpresa era em razão de que, tudo que eu fazia antes como terapeuta, dependia de mim, de um determinado conhecimento aplicado de uma forma específica, da minha inferência e interferência para que funcionasse; e a prática do BodyTalk me fazia experimentar uma estranha sensação de que não era eu quem estava pilotando. No BodyTalk, quem guia o processo é a própria pessoa, a partir do que se nomeia como Sabedoria Inata, trazendo as prioridades, revelando as informações, os aspectos que serão abordados e todo o processo é realizado por este mesmo princípio inteligente e altamente criativo.

Duas perguntas eram frequentes na minha mente: como era possível e em que tipos de doenças o método era eficaz; porque eu ainda expressava o conceito de que saúde era a ausência de doença. A primeira questão, sobre como era possível que uma pessoa que não tinha conhecimentos de anatomia, pudesse chegar até o aspecto celular de um órgão, foi rapidamente ficando clara, pois o BodyTalk possui protocolos detalhadíssimos, que funcionam como cartas de navegação, levando o terapeuta a observar as prioridades que estão sendo expressas pelo corpo; desde as funções orgânicas, até as formas como as emoções podem interferir na função orgânica, ou como o clima pode afetar o humor de alguém. Esta atenção ao que é prioridade, e não ao que é um sintoma, faz toda a diferença.

No entanto, a segunda questão, que confundia meu conceito antigo de saúde como sendo ausência de doença, exigiu mais esforços para minha compreensão. O BodyTalk me apresentou o pensamento sistêmico, o universo das possibilidades – que eu já começava a estudar, mas não via aplicabilidade – colocando por terra muitos comportamentos rígidos e ideias pré-concebidas. Olhar para um sintoma sem que, no entanto, haja uma investigação mais profunda, sobre os contextos que possibilitam que um determinado sintoma ou comportamento ganhem força para se expressar, equivale a destacar aquela parte do todo e dizer que não está adequada e não deveria ser como é.

O corpo é um sistema; é corpo-mente e todo o tempo está se expressando; então um sintoma local, pode estar comunicando que algo, num outro lugar, está em sofrimento. O que conhecemos como saúde ou doença são as opções disponíveis, dentro de uma infinidade de potenciais, que a sabedoria inata encontra para revelar histórias. É quando se pode observar, evocar consciência sobre o que está envolvido em uma complexa rede de informações, que comumente simplificamos com um nome diagnóstico. Todo sintoma é, no mínimo, uma grande história. E a Sabedoria Inata é a tendência natural do corpo para se auto regular.

Então, o BodyTalk é um grande sistema de saúde, que contém muitas estratégias, para apoiar o corpo no seu processo natural de auto regulação; esta é a proposta mais criativa que alguém pode encontrar para tratar da sua saúde, em todos os níveis. Quando falamos em sistemas, ou sobre a percepção sistêmica, estamos abrindo um espaço natural para observar que uma parte é composta de outras partes, até a infinitesimal partícula sub atômica.

Podemos admitir isso quando colocarmos em perspectiva a família. Nosso corpo não difere em absolutamente nada desta proposta. Somos um corpo alimentar, mas também somos um corpo essencial ou consciencial. A perspectiva de pertencimento é sistêmica, pois só ocorre em razão de uma parte se reconhecer em relação a um todo e a forma como a comunicação, os relacionamentos entre as partes, estão acontecendo. Então, como temos certeza de quem somos? 

Existe uma identidade, porque o meio sistêmico, que inclui família e ambiente, atuam para que a pessoa exista como indivíduo; quer dizer que, todo o tempo, temos muitos referenciais, programações e crenças, nos informando o que deveríamos ser e como precisamos nos comportar para sermos aceitos.

Para que se construa um corpo, uma pessoa, muita coisa aconteceu antes; e muitas delas estão agindo como informações desorganizadoras do equilíbrio. O fato de o BodyTalk ser um sistema, possibilita que esta perspectiva ampla e profunda, com tantos conteúdos diversamente registrados na experiência, se torne observável.

A criatividade no sistema BodyTalk, vem da possibilidade de observar as informações se expressando de modo não linear, não local, independente da lógica de tempo e espaço, apoiando o sistema corpo mente, para que encontre opções mais saudáveis para expressar-se. No BodyTalk, as sessões são conduzidas pelo praticante com total atenção ao que acontece no momento presente; o terapeuta está lá com o cliente, plenamente, sem julgamento de valor, praticando a escuta em níveis amplos. Há uma escuta de fato, daquilo que pode ser dito; mas principalmente, há uma escuta do silêncio; daquilo que nunca pôde ser dito; de histórias de uma vida inteira registradas no corpo; de memórias doloridas, marcantes ou singelas; registros inconscientes que, inúmeras vezes, precisam somente de uma respiração profunda ou de uma lágrima, pois palavra não cabe ali. A experiência em uma sessão de BodyTalk pode ser muito reveladora ou extremamente sutil, sugerindo que nada muito profundo está acontecendo, mas trata-se apenas de como a experiência se dá para cada um. E tudo isso segue, estritamente, os caminhos e ritmos delineados pela sabedoria inata.

Tendo a sentir a terapia como arte, pois antes de ser terapeuta eu dançava. E na escola onde estudei, havia duas meninas surdas que faziam balé clássico. Era um mistério como elas sabiam, no sentido do saber profundo, todos os compassos e ritmos da música! Hoje, eu compreendo mais claramente este jeito de escutar com o corpo inteiro, trata-se de estar com o coração disponível para a experiência, em estado de atenção e presença.

O BodyTalk faz este percurso, de escutar de perspectivas diferentes, já que esta escuta é feita sempre a partir do conjunto cliente/terapeuta, e desta energia única emergem questões sistêmicas; escutar é um “ato contínuo”. Reverberando em ondas para os vários níveis do ser. De uma certa forma o periódico Escuta, convida a todos para esta dança silenciosa. Aqui, terapeutas comparecem como autores, a convite da Nirvana Marinho que é a idealizadora do projeto. Quando a Nirvana se dispôs a ouvir os terapeutas, estava germinando o caminho que resultou neste periódico que, não por acaso, leva o nome de Escuta.
          

A medida em que ela nos ouvia, ondas alcançaram seu cérebro, seu coração e se expandiram em ações que se materializaram num amplo convite à participação integradora de muitos terapeutas, que puderam também expressar suas experiências e percepções sobre o BodyTalk, permitindo um mapeamento inicial da presença do BodyTalk no Brasil, como você  poderá descobrir lendo o artigo BodyTalk no Brasil: uma cartografia de caminhos possíveis – por Ana Marcela Sarria

O artigo A relação do Livro O Ponto de Mutação e o BodyTalk – por Luciano Flehr, aponta para as bases da teoria dos sistêmicas dinâmicos, trazendo informações precisas para a compreensão das interações entre o ambiente e o ser e a influência que o livro de Fritjot Capra teve na perspectiva sistêmica do Dr. John Veltheim.

Enquanto desenvolvemos a prática do BodyTalk, vamos aprendendo que, assim como no corpo, as relações também adoecem e que este adoecimento é a tentativa do sistema inteiro revelar que há algo muito importante acontecendo, no artigo BodyTalk como sistema, é sobre como relacionar-se – por Nirvana Marinho, fica evidente a indivisibilidade do ser, a integração entre ser e ambiente, desde a perspectiva sistêmica.

Para contar um pouco mais sobre pertencimento, o texto que é quase um poema, Sistema BodyTalk – por Claudia Morum Xavier Lapa, nos presenteia com a perspectiva sistêmica familiar. Assim como cada membro da família tem seu lugar, o corpo reflete este processo; ou será que é o contrário?

Observando tudo isso, eu me lembro do sonho do próprio Dr. John, que nos presenteia com uma entrevista imperdível, conduzida e transcrita pela Verena Kacinskis, contando como seus insights foram tomando forma para criar um sistema de saúde baseado em consciência.

O BodyTalk é exatamente assim. Escutamos a fala, escutamos o silêncio, escutamos a diversidade; os conflitos e movimentos criativos que, desde sempre, o sistema corpo-mente quer revelar nas relações com toda a história pessoal e o mundo em que vivemos, estando pronto para melhor se comunicar, sincronizar, equilibrar e caminhar com mais saúde. O convite é para leitura, mas é como uma proposta para ouvir, atentamente, no vibrato profundo do seu coração; assim como aquelas duas meninas no balé. Aproveita a entrada do inverno, se aconchega e escuta o que nosso coração te oferece. Escuta.

Celia Barboza dos Santos

Junho 2020


[1] BodyTalk System (CBP),PaRama Body Talk 1, Eastern Medicine, Master Programação Neurolinguistica, Terapias Integradas da Respiração, Constelação Familiar.

@Celiabarbozaterapeuta
Celia@celiabarboza.com

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(link atualizado em maio 2021)