Como o BodyTalk transformou a minha vida e a de milhares de pessoas

Luciano Flehr

Minha trajetória no BodyTalk se iniciou por meio de uma ida minha a uma pessoa muito querida que faz meu mapa astral. Na época, eu havia acabado de me formar em medicina chinesa pelo Instituto de Acupuntura do Rio de Janeiro (IARJ) e pensava como me veria dali a dez anos, se eu teria corpo para aplicar a massoterapia nas pessoas. Comecei a pensar que precisava encontrar alguma técnica que me proporcionasse trabalhar sem me exigir tanto fisicamente quando eu estivesse mais velho.

Fui à leitura do mapa, e a astróloga me disse que eu deveria olhar com carinho para aquela técnica que era nova no Brasil, e me deu um folheto de uma palestra sobre o BodyTalk. Telefonei e informei meu nome para reservar o lugar. No dia da palestra, caiu um temporal no Rio de Janeiro, e eu não consegui ir. Confiando no que a astróloga havia me falado, resolvi me inscrever no curso. Logo de início, a pessoa que fazia a tradução simultânea dizia que o BodyTalk poderia ajudar a curar mazelas, questões físicas e emocionais. Pensei: “Joguei meu dinheiro fora, mas, já que estou aqui, vamos ver aonde isso vai”. 

Na prática de uma técnica do Sistema BodyTalk, uma pessoa que eu nunca tinha visto na vida começou a chorar na maca pelo que eu estava falando, ao acessar a “sabedoria inata” dela. Chamei a instrutora, a dra. Janet Galipo, e ela me disse: “Se está chorando, é porque precisava sair. Está tudo ok”. Executei a técnica e, à medida que prosseguia, a pessoa ia relatando que tudo o que eu falava fazia todo o sentido e que as datas batiam com a história dela. Fiquei espantado e pensei que deveria olhar com mais carinho para a técnica. O que se seguiu foi uma grande paixão pelo Sistema BodyTalk.

Foi importante fazer essa introdução para compartilhar que o que aconteceu depois desse dia só me mostrou que fiz a escolha certa e isso me faz ser grato por esse dia e pelas palavras da minha astróloga.

A seguir, relato o que ocorreu em tratamentos surpreendentes e maravilhosos ao longo desses 16 anos de trabalho com o BodyTalk.

Uma senhora, mostrando-se muito agressiva, que volta e meia tinha crises de herpes me procurou. Fiz uma anamnese com ela, e começamos a sessão. Na época, eu só havia feito os modelos básicos. A sessão transcorreu, e relatei a essa senhora o que havia sido feito. Ela olhava para mim espantada. Havia situações da convivência dela com o pai, a falta, a revolta. Depois daquela sessão, quando retornou para a próxima, me disse que, naquele mês, não havia tido nenhuma crise de herpes, se sentia mais leve, mais feliz e que as crises haviam cessado.

Em outro atendimento, chegou uma senhora em cadeira de rodas. Na época, eu atendia em um consultório em que havia escadas para se chegar até a minha sala. Eu desci e fui atendê-la na parte de baixo. Ela relatou dores no corpo todo, sentia muitas dores. Realizei a sessão e, uma semana depois, ela me ligou dizendo que, no dia seguinte, as dores haviam parado e resolveu fazer pilates. No entanto, abusou nos exercícios, e as dores acabaram voltando. Em situações como essa, sempre recomendo que a pessoa com dores tenha calma e não exagere. O corpo precisa de tempo para se ajustar ao equilíbrio e, em muitos casos, há uma luta interna em querer manter um estado já conhecido, mesmo que seja o de desarmonia.

Em outra situação, atendi uma senhora por questões de equilíbrio, mas o que ela queria mesmo era levar o marido. Depois de umas duas sessões nela, o marido percebeu uma diferença em sua vitalidade e alegria, e ela conseguiu levá-lo. 

Fiz a anamnese, como de praxe, e ele me falou sobre sua questão, uma depressão profunda. A frase que mais me marcou foi: “Eu tenho vontade de morrer todos os dias”. Muito impactante. Fiz a sessão, conversamos um pouco mais, e ele se foi. Voltou para uma segunda sessão, e eu perguntei como ele estava. Disse que ainda sentia vontade de morrer. Expliquei que cada corpo é um ser diferente, que cada pessoa responde de forma diferente ao trabalho, que ele tivesse paciência porque eu tinha certeza de que o trabalho o ajudaria. Na terceira sessão, perguntei: “E então, como ficou e está?”. Ele abriu um sorriso que iluminou a sala e, olhando nos meus olhos, disse: “Agora eu sinto vontade de viver!”. Foi tão marcante aquela cena que a carrego comigo até hoje. 

Passado algum tempo, comecei a atender em Belo Horizonte por um certo período. Organizei o primeiro curso de BodyTalk na cidade em 2006. Mantive um consultório lá e me dividia a cada 15 dias entre Belo Horizonte e o Rio de Janeiro. Tenho dois casos interessantes dessa época na capital mineira.

O primeiro foi de um senhor que me procurou porque estava com diabetes. Sua taxa de glicose era entre 200 e 300 mg/dl. Fazia tratamento médico, mas a taxa sempre oscilava, e a glicose baixava até 150 mg/dl mais ou menos, não diminuía mais do que isso. Iniciamos o tratamento, e um dia, quando telefonei para confirmar a sessão, ele me disse: “Luciano, está confirmado, não sei o que você faz, não entendo, mas vamos continuar, porque, nesses últimos cinco anos, minha glicose nunca chegou em 99 como nesses dias”. Ele queria parar o tratamento médico, mas eu disse que não deveria fazê-lo, pois o acompanhamento do médico era importante. Depois que voltei para ficar em definitivo no Rio, soube que a taxa de glicose dele se mantinha entre 125 e 99 mg/dl. Para quem estava com uma taxa que atingia os 300, ele ficou muito bem.

Também em Belo Horizonte, atendi uma moça que sofria com enxaquecas absurdas, tinha crises que a deixavam inoperante por dias. Eu fazia as sessões nela, mas parecia que o trabalho não ia adiante, não conseguíamos obter nenhum resultado. Até que um dia ela chegou à sessão com uma crise muito forte. Durante o trabalho, tivemos de interromper algumas vezes para que ela vomitasse, tamanha era a náusea que a enxaqueca lhe provocava. No final da sessão, a dor estava em um nível de 40%. Ela foi para casa e, alguns dias depois, disse que a dor havia cessado e que, desde então, nunca mais havia tido aquelas crises. Um bom tempo depois, entrei em contato com ela e soube que continuava bem, sem crises, somente cefaleias comuns.

Outro atendimento bem interessante foi o de uma moça que me procurou porque tinha crises de pânico severas. Eu a atendi e, uns três dias depois, a terapeuta dela me telefonou perguntando o que eu havia feito com a moça. Disse que ela havia vivenciado um intenso tiroteio, dentro de um túnel e não tinha sofrido nenhuma crise de pânico diante do acontecimento. Expliquei à terapeuta o Sistema BodyTalk, e a terapeuta marcou uma sessão. Ficou tão impressionada que queria experimentar essa técnica.

Tenho muitas histórias, muitos relatos, muita gente se transformando com esse trabalho tão maravilhoso e encantador que é o Sistema BodyTalk.

Tudo o que relatei aqui foi para incentivar as pessoas que estão começando no BodyTalk a ir adiante. Nem sempre as respostas serão rápidas, mas uma coisa que sempre digo a cada cliente que atendo é: “Não posso afirmar nada, mas o que eu afirmo é que, a partir do momento em que você recebe uma sessão de BodyTalk, ela está atuando no seu corpo-mente, quer você perceba, quer não”.

Espero que esses relatos ajudem as pessoas a ter uma visão mais clara sobre o que é o BodyTalk no dia a dia de atendimento. Tanto para o cliente quanto para o terapeuta. Afinal, considerando o pensamento sistêmico, estamos todos interconectados.

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O Caminho da Individuação

Márcio Ribeiro

A partir do instante em que nascemos, surge um movimento inconsciente por aceitação. Embora nem todos desenvolvamos a sensação de não sermos amados, desejados e queridos, de acordo com a formação da nossa consciência de separação, todos buscamos ser aceitos. 

Por vezes, observamos que a nossa chegada no mundo traz uma mudança potencialmente agradável, mas que também gera um grande peso para as pessoas que nos recebem. Trata-se de um peso que essas pessoas buscam disfarçar com toda força (seja por valores culturais e éticos ou, simplesmente, pelo cuidado em nos acolher), e assim eventualmente conseguem transformá-lo em amor. Ainda assim, o peso existe.

A partir daí, o que podemos perceber é que no transcorrer de uma vida, o ser humano desenvolve várias máscaras em busca de aceitação, retribuição ou obtenção de alguma recompensa. Pressionados pela intensidade de cada estágio que passamos desde a infância, ouvindo opiniões sobre nos parecermos mais com o pai ou com a mãe, por exemplo, buscamos crescer.

Então, desde o início da jornada, todos nós recebemos uma carga consensual com os códigos para pertencermos. Essa carga evolui para a máscara principal que adotamos e com a qual vivemos, mas que nem por isso torna-se um fardo para todos. Porém, na percepção de alguns, essa máscara cria uma ideia equivocada de que aqueles que nos trouxeram ao mundo deveriam ser responsáveis por nós, cem por cento do tempo. Essa é uma demanda que, por sua vez, passa a se apresentar como um grande obstáculo.

Ao não aprender a lidar com essas máscaras, ou ainda, ao não buscar uma versão individual de nós mesmos, dentro do espaço-tempo da nossa mortalidade, nos distanciamos do sentimento de valor e amor próprio e, principalmente, da individuação.

Enquanto terapeutas de BodyTalk embasados no vasto conhecimento da filosofia Advaita Vedanta, a busca por essa individuação se torna um desmascaramento dos momentos cruéis em que julgamos o outro, ou nos quais nos sentimos julgados. Desta forma, a busca pela individuação nos alimenta com um senso de que é possível sim viver, apesar da impossibilidade de sermos aceitos o tempo inteiro. 

Entendemos que é possível viver com um sentimento de paz, apesar de não termos controle absoluto sobre nada. Compreendemos que precisamos fazer do controle um legado ilusório, porém necessário, para as vivências mundanas do cotidiano. Afinal, esse controle é útil; inclusive para evitar uma reação de emoção exagerada diante dos desafios que surgirão na interação com o outro, a partir do nosso processo de individuação. 

Vale ressaltar que não importa o quanto você se individue, o mundo não precisa acompanhar a sua individuação. Ou seja, o outro não precisa estar bem-resolvido para que você também possa estar em um lugar melhor. Embora o conhecimento seja impessoal, esta é uma jornada pessoal, na medida em que a iluminação é para todos, mesmo que o despertar nunca seja igual para ninguém. 

Tomar esse despertar pode implicar, para alguns mais que para outros, uma sensação de isolamento, de solidão ou, até mesmo, de estar a um passo de uma depressão. Outra percepção que habitualmente acompanha o despertar de consciência é o sentimento de não ser entendido. 

Mas o grande trabalho de um terapeuta de BodyTalk é de somar-se ao entendimento de que o corpo-mente quer essa individuação; todo ser deseja lembrar-se de quem é, na origem. Por esse motivo, devemos sempre ter em mente a analogia da onda no mar. 

A onda, quando se percebe ainda identificada com o mar, ela faz da corrida em direção a praia o seu grande objetivo. Poderíamos dizer que ela traça caminhos e metas para chegar até seu destino: primeiro, vem crescendo como uma marola no meio de um oceano, até tornar-se onda forte, corajosa e capaz. É assim que ela, destemidamente, alcança a praia. Conforme o mar a recolhe para a fusão e ela percebe que a praia não é o fim da jornada, surge a consciência de nunca ter sido separada do oceano. É a partir desse desapontamento egóico que se inicia o despertar espiritual.

Seguindo a mesma linha, ao longo da vida humana passamos por desafios, gestamos motivações, vestimos máscaras para dar conta, buscamos melhorar para sermos aprovados e aceitos. Acreditamos que desta forma vamos conseguir alcançar algum objetivo, que assim que chegarmos lá seremos felizes; e que se não atingimos esse marco, significa então que não fomos ninguém, não fizemos nada, não chegamos em lugar nenhum. Sem contar que muitas vezes projetamos essa felicidade no outro como se fosse um objetivo comum. 

Talvez a nossa grande inflexão possa estar em dar-nos conta de que não é sobre o resultado final e nem sobre ser feliz, mas sim sobre experienciar essa jornada inconstante, impermanente, que nos é dada e tirada, sem aviso prévio. Viver os prazeres, os despertares e os lutos, inclusive da perda dessa efêmera experiência de onda. O ouro está na faísca potencial de despertar para a jornada por si só, como jornada da alma, e não em função de algum resultado egóico final. A experiência da convivência, do diálogo, do afeto, do amor… Isso é o que interessa e faz o exercício da jornada da alma valer a pena.

Portanto, no que diz respeito a nós, terapeutas, que temos o conhecimento das consciências naturais do corpo e as dinâmicas dualísticas que elas nos convidam a viver aqui: quanto mais individuados, mais este ir e vir de vivências será percebido apenas como uma oscilação na onda. 

Para mim, este é o marco zero a partir do qual eu já não me encanto mais com a adrenalina de surfar a crista da onda, pois afinal, sei que a onda também baixa. Tampouco me paraliso quando tudo se silencia. A vida então começa a ser trançada de impermanência, agora bem menos assustadora, e ressalta aquilo que mais temos que reconhecer na nossa história humana: a vulnerabilidade, não como um sinal de fraqueza, mas de humanidade. Afinal, mesmo pertencendo à vasta consciência-oceano, somos apenas seres humanos. 

Na jornada infinita da alma, somos ondas com término determinado, mas expressamos consciência quando nos percebemos conectados ao potencial infinito de possibilidades. Agora, os nossos pais já não são mais responsáveis por nós, a cultura não é responsável por nós, e tampouco há culpa por estarmos atravessando qualquer experiência. A religião, que já não dava todas as respostas, agora ocupa o lugar de nos servir durante a jornada, até o ponto de não servir mais. 

Agora o eu já não segura mais, não julga mais, não critica mais, e não busca ser aceito ou amado quando percebe que não o é. Agora há amor-próprio e auto-aceitação, inclusive diante de outras ondas que, ainda identificadas, se acham separadas do oceano, e assim, de mim mesmo. 

Individuados, livres, ao fim da jornada, temos o potencial de morrermos despertos, quando a faísca de iluminação retorna à essência do todo. Conectados com o todo, individuados, não importa mais que as relações sejam agradáveis ou que tragam felicidade. Agora todos pertencem ao ciclo de múltiplas facetas, sem jeito certo de ser ou de viver, porque toda a expressão do universo é válida.

O importante é manter um caminhar centrado e conectado, na companhia desapegada de todos, buscando viver e resolver aquilo que nos cabe, em homenagem a essa força que governa a todos, dê a ela o nome que quiser: amor, consciência… Pouco importa, desde que o caminho seja aquele da individuação.

Finalizo com Balsekar (1992, p. 200, grifo do autor)

Você não pode evitar estar aqui! Eu não pude evitar estar aqui. Este-que-está-falando e aquele-que-está-escutando precisam estar aqui para que a fala-escuta ocorra como um evento. Você pensa que você está ouvindo, mas a escuta está ocorrendo através do mecanismo do corpo-mente e isto é parte do processo de desidentificação, de iluminação, que acontece. E no processo de desidentificação, no processo evolutivo, isto é um evento. Isto é um evento específico. Portanto, esta escuta está ocorrendo através do mecanismo do corpo-mente porque tinha que ser assim neste momento, neste lugar. Isto é parte do funcionamento da Totalidade.

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Prefácio Ed. 3 Escuta

Renata Ururahy [1]

Tendo praticado e estudado BodyTalk internacionalmente, estou muito honrada em fazer parte da terceira edição do Escuta e desta forma me conectar com a matriz brasileira de terapeutas BodyTalk.  É com muita alegria que vejo o sistema se desenvolver de forma tão profissional e qualificada no país do meu coração.

Acredito que estamos em um momento único na história da humanidade, em que existe a possibilidade de um salto quântico na forma das pessoas entenderem a dinâmica do corpo-mente de forma mais interconectada, que trará uma grande demanda das terapias baseadas em consciência.  

Nesta edição os artigos vêm explorar, em diversos ângulos, o princípio fundamental do BodyTalk como sistema de saúde baseado em consciência e refletir na importância crucial deste princípio para o alcance de um verdadeiro estado de saúde.    

Marcio Ribeiro nos convida a questionar o que faz a jornada da alma realmente valer a pena e como viver essa jornada inconstante e impermanente de forma centrada e conectada. Seu artigo é uma bela descrição da importância do processo de individuação que o BodyTalk facilita ao encontro do amor próprio e autoaceitação. Marcio traça uma trajetória desde o momento onde formamos nossas máscaras em busca da aceitação e pertencimento ao momento em que nos reencontramos como os seres que realmente somos.  O artigo explora a possibilidade de vivermos desapegados de resultados egóicos e “Livres, ao fim da jornada, temos o potencial de morrermos despertos, quando a faísca de iluminação retorna a essência do todo.” afirma Ribeiro. 

Luciano Flehr, em seu artigo divide conosco relatos incríveis de resultados alcançados com o BodyTalk em diferentes etapas de seu crescimento como terapeuta. Fazendo parte do sistema há mais de doze anos, me identifico muito com a forma em que Luciano se apaixona pela modalidade e as possibilidades que ela nos oferece de transcender aquilo que acreditamos ser possível dentro do paradigma da medicina moderna. 

Refletindo na definição fundamental do BodyTalk como sistema de cuidados com a saúde baseado em consciência, Natasha Mesquita nos convida a questionar “Por que tantos paradigmas sobre a viabilidade de sessão a distância, se a consciência é imaterial?”

De forma descontraída e intrigante, o artigo nos desafia a refletir como acessamos as informações nas sessões de BodyTalk e a importância da simples observação do terapeuta do que o corpo tem a dizer como fator causal do processo de transformação. 

Natasha explora o embasamento científico da física quântica para explicar como as sessões de BodyTalk podem ser efetivas tanto pessoalmente como a longa distância, apresentando o conceito de campos morfogenéticos e entrelaçamento quântico usados para descrever a interconexão de todas as coisas no universo. Além disso, o artigo instiga o questionamento de nossas crenças acerca do que é o conhecimento, trazendo a importância da qualidade subjetiva e da experiência interna ao processo de validação do conhecimento. 

Em uma edição da Escuta que reflete novos princípios científicos para entender terapias integrativas e quânticas como o BodyTalk, Nirvana Marinho em seu artigo “BodyTalk e sua ciência, fatos baseados na consciência”, nos apresenta três pesquisas realizadas no Brasil nos últimos dois anos. Nirvana também nos introduz à três autores que fortalecem a base científica do BodyTalk: Fritjof Capra, James Oschman e Amit Goswami que nos oferecem uma ponte entre a ciência e a filosofia e descrevem uma prática não dualista da consciência, nos levando a uma nova visão da realidade.

Em seu artigo, Ana Carolina Medeiros de Vasconcelos provoca o leitor a questionar o verdadeiro significado de saúde e nos convida a incluir o conceito do valor que damos à vida quando pensamos em saúde. O artigo reflete na natureza impermanente do nosso estado de saúde e da importância de práticas (como o BodyTalk) que promovem o alinhamento com a Consciência e buscam satisfazer a alma no caminho de volta para casa como aspectos fundamentais na promoção da saúde.   

Aproveitem a leitura dos artigos desses incríveis profissionais.

[1] Formada em Nutrição pela UnB, Renata se mudou para os EU para expandir seu conhecimento em terapias integartivas, onde completou seu mestrado em Nutrição Holística pela Clayton College of Natural Health. Em busca de se aprofundar na compreensão da interação corpo-mente, se certificou como Terapeuta BodyTalk, Instrutora de Yoga e Reiki Master. Renata realiza atendimentos pessoais e a distância no Brasil e Estados Unidos, além de trabalhar com grupos de mulheres em processo de descoberta espiritual.

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Ciências da Vida do BodyTalk

autodescoberta e o apreço por perguntas significativas

            Adriana Almeida Camilo[1]

“Onde eu estou, eu estou. Quando eu estou, eu sou.” 

Maria Beatriz Nascimento

O convite para escrever este ensaio sobre as Ciências da Vida para o periódico “Escuta, sobre BodyTalk” veio em um momento de síntese da minha trajetória pessoal e profissional. Em uma singela sincronicidade, havia retornado recentemente de uma residência artística nominada “Práticas de Escuta” que, de certa forma, marcou a celebração da integração de caminhos por mim percorridos nos últimos 25 anos em campos como: terapias, artes do movimento e artes audiovisuais, práticas somáticas, escrita, pesquisa científica, produção de conteúdo intelectual e cultural, ativismo socioambiental, espiritualidade, sistemas familiares e coletividades, ecologia profunda, meditação, estudos e práticas sobre as águas, embriologia, nascimentos, a vida e seus ritos de passagem, inclusive a morte e o morrer.

Compreender e retomar os vínculos entre estes campos aparentemente tão diversos constitui-se uma oportunidade de reconhecer a minha própria existência e de tantos outros organismos como sistemas vivos interrelacionados. Ao longo da vida, meu foco foi se movendo do fazer e da ação voltada para objetivos para reconhecer o Ser Que Sou, estar consciente e presente, ainda que muitas vezes pareça desafiante.

Lembra que falei sobre celebrar? O conceito de celebração autêntica, a partir da Ecologia Profunda e do Dragon Dreaming[2], parte do princípio que celebrar é um movimento introspectivo de observar as experiências e as próprias emoções, em um exercício de presença aqui-agora, colhendo os aprendizados da jornada de tal forma que o processo em si seja tão valorado quanto seu resultado. É a arte de fazer perguntas significativas que geram mais espaço interno do que conclusões. A partir desta escuta interna, as reflexões podem ser socializadas com outras pessoas, em uma tessitura intuitiva sobre o que sei, mas principalmente sobre o que se revela na dimensão do desconhecido sobre si e sobre a vida. É com gratidão, portanto, que compartilho com vocês este mergulho.

As Ciências da Vida do Sistema BodyTalk podem ser compreendidas como um espaço fértil e potente de autodescoberta e integração na relação consigo, com outros e com o mundo. É inegável o quanto MindScape, BreakThrough e FreeFall potencializaram, expandiram e seguem enriquecendo minha prática clínica como terapeuta BodyTalk. Mais do que um conjunto de cursos do sistema BodyTalk, que apoiam a relação terapeuta-cliente e se desdobram em aprimoramento da atuação profissional, estamos aqui diante de jornadas nas quais o foco é o processo de autocura, autoconsciência, autocuidado. Cada mergulho sob a perspectiva do MindScape, BreakThrough e FreeFall foram presentes e oportunidades preciosas que me permitiram contemplar minha natureza essencial e reconhecer essa mesma humanidade em outras pessoas.

Neste sentido, compartilhar as Ciências da Vida e convidar clientes a participar destes cursos é também uma maneira de estimulá-las(os) na apropriação do caminho de autoconhecimento. É uma forma de apoiar cada pessoa que encontro no contexto terapêutico a colocar o espelho diante de si e reconhecer-se para além das crenças, máscaras e condicionamentos que ao longo da vida foram se juntando à autoimagem e à própria noção de realidade. São todos cursos sem pré-requisitos (no nível básico), na medida em que não há pré-requisitos para Ser quem se é e contemplar a própria história com frescor.

As abordagens de saúde baseadas em Consciência partem do princípio que o processo manifesto está relacionado com a sabedoria inata, que no BodyTalk é chamada “Consciência Universal”. A forma como acessamos essa Consciência é por meio da intuição, uma sabedoria que está sempre disponível para todos nós. À medida que refinamos a habilidade de identificar os condicionamentos e crenças desenvolvidos ao longo da vida, que distorcem a escuta sensível da intuição, mais profunda e através da experiência, compreendemos a natureza essencial da sabedoria inata (VELTHEIM, J. 2013).

Como os cursos Ciências da Vida do sistema BodyTalk não tiveram seus nomes traduzidos para português aqui no Brasil, intui que expandir a compreensão semântica dos três eixos poderia trazer alguns insights.

Em uma aula com a instrutora Suffen Paphassarang, revelou-se a compreensão de Mindscape como paisagem mental que integra as qualidades estruturantes do hemisfério esquerdo do cérebro com a natureza intuitiva do hemisfério direito. Quanta riqueza e liberdade contemplar as informações que se apresentam quando sintonizamos com a intuição estruturada como paisagens de grande plasticidade! Com Kris Attard, Andy Spencer e Angela Adkins, compreendi que permitir que o cérebro entre na frequência alpha, reduzindo distrações desnecessárias e filtros baseados no passado, convida a criatividade e a intuição a acessarem informações subconscientes sobre o campo e sobre nós mesmas(os), ancoradas(os) na sabedoria do coração.

A imaginação – que é a intuição não estruturada e inclui visualização, sonhar acordado, pensamentos em geral, sonhos – é fundamental para um saudável funcionamento do cérebro, no estabelecimento de sinapses neuronais diversificadas e fortes, no processamento do estresse, na geração de novas ideias, na criatividade, dentre muitos outros (VELTHEIM, J., 2013). O poder e a complexidade da capacidade de autocura e reequilíbrio do organismo, especialmente a partir de práticas apoiadas na intuição, como meditação, vizualizações e abordagens integrativas baseadas no modelo corpo-mente, são investigados no livro “The Heart of Healing”, do Institute of Noetics Sciences, com riqueza de exemplos clínicos e referências a pesquisas científicas [sem edição traduzida para o português].

De acordo com o dicionário Oxford, breakthrough é “um importante desenvolvimento que poderá guiar a um acordo ou realização (agreement or achievement: 1. algo que alguém fez com sucesso, especialmente usando seus próprios esforços ou habilidades/ 2. o ato ou processo de realizar algo)” [tradução minha]. Nas Ciências da Vida, o BreakThrough é um método de autoinquirição concebido por Esther Veltheim a partir de princípios da Advaita. Em uma jornada pela natureza paradoxal e curadora do conflito e da psique humana, BreakThrough é um convite para transcender uma vida vivida a partir de condicionamentos e comportamentos reativos para uma vida mais consciente e plena (VELTHEIM, J., 2013). As convicções inconscientes deixam de atuar como verdades absolutas e são desveladas como crenças, baseadas no passado, que até então vinham moldando nossa perspectiva da realidade. Neste sentido, “o ato ou processo de realizar algo” que os passos do BreakThrough propiciam não vão em direção de tornar-se uma pessoa melhor ou diferente, mas sim no sentido da autorrealização, reconhecendo o que sempre esteve ali, o estado natural e autêntico do Ser, com toda sua humanidade (VELTHEIM, E., 2001).

FreeFall, por sua vez, traz o sentido semântico de queda livre, sem emprego de força ou de acessórios externos para impulsionar ou frear o movimento. Em termos vivenciais, é um mergulho na consciência de quem somos, compreendendo como nossas máscaras e mecanismos de defesa se expressam no corpo por meio de tensões, rigidez muscular e barreiras de proteção do coração. Temas como autoimagem, a relação com o próprio corpo, sexualidade, controle, dinheiro e vulnerabilidade são abordados com confidencialidade, cuidado e profundidade. Em que medida o que protege daquilo que mais tememos também pode nos separar do contato com o que verdadeiramente somos e amamos, a vitalidade e a presença no aqui-agora?

Sendo o FreeFall uma abordagem terapêutica baseada em consciência, também me parece ilustrativo resgatar a metáfora do iceberg: a pequena ponta como aquilo que somos conscientes, enquanto a maior parte do iceberg está submersa, ou seja, inconsciente. Não obstante, os movimentos do iceberg são geridos por aquilo que está visível e por aquilo que está submerso, por sua totalidade. Neste sentido, ancorar-se na sabedoria do coração, como abordado no módulo Princípios da Consciência do BodyTalk e vivenciado no FreeFall, é uma integração profunda com as dimensões inconscientes do Ser. É a âncora descendo as águas profundas do inconsciente, da sombra, para acessar e abraçar a totalidade do iceberg. Nossas sombras não são necessariamente limitações, mas tudo que não somos conscientes sobre nosso Ser. “O pensamento complexo tenta, efetivamente, perceber o que liga as coisas umas às outras, e não apenas a presença das partes no todo, mas também a presença do todo nas partes.” (MORIN, 2013: 14). Novamente, assim como no BreakThrough, no FreeFall não há um propósito de despojar por completo dos filtros e crenças que criam a realidade experienciada, chegando em uma autoimagem idealizada, neutra, imaculada, perfeita. A natureza do movimento é despojar-se da noção de que sua experiência determina quem você é.  Essa é sua experiência no momento, mas não é você.

O sistema BodyTalk foi inicialmente desenvolvido por John e Esther Veitheim no Mindscape, em estado alpha, integrando a intuição e a capacidade do cérebro de sistematizar e estruturar o conhecimento – com foco no desenvolvimento pessoal e autoconhecimento. Seus expressivos resultados na melhora ou remissão de desequilíbrios no corpo físico foram consequências, desdobramentos de uma abordagem sistêmica e integrativa. O BodyTalk segue em processo de aprofundamento e expansão e vem sendo aprimorado ao longo dos anos com a contribuição de seus sistematizadores, instrutores, terapeutas, estudantes e clientes.

Fritjof Capra[3], reconhecida influência do sistema BodyTalk, a partir de suas inestimáveis contribuições para o pensamento sistêmico e a física quântica, após a publicação de “O ponto de mutação”, “O Tao da física” e “Green politics”, apresentou um quarto livro, onde conta sua história pessoal e os diálogos com mulheres e homens notáveis por trás de suas ideias e conceitos. Em seu livro “Sabedoria Incomum”, traz um instigante relato de seu encontro com o mestre Krishnamurti e seu processo de libertação do aparente conflito entre a autorealização espiritual e sua trajetória como cientista, altamente identificado com o pensamento:

“Examinemos então a questão, […] sem julgarmos, sem condenarmos, sem justificarmos. O que é o medo? Examinemos isso juntos, vocês e eu. Vejamos se conseguimos realmente nos comunicar, estar no mesmo plano, na mesma intensidade, no mesmo momento.” […] E Krishnamurti passava então a tecer uma teia imaculada de conceitos. […] Apresentava uma análise brilhante de como tais problemas existenciais básicos estão inter-relacionados – não na teoria, mas na prática. Krishnamurti não só confrontava cada membro da plateia com os resultados de sua análise, como também instava e convencia cada um a se envolver no processo de análise. No final, ficava uma sensação nítida e forte de que o único meio para se resolver qualquer um dos nossos problemas existenciais é ir além do pensamento, além da linguagem, além do tempo – é ‘libertar-se do conhecido’, como diz no título de um de seus melhores livros, Freedom from the know.” [CAPRA, 1988: 22].

Em que medida as experiências do cotidiano, daquelas consideradas mais banais às valoradas como impactantes, por meio da autobservação, se convertem em vínculos, em suporte para a consciência de si e do mundo?

Consciência é tudo que é. Como separar quem se é do (f)ato de existir? Viver a vida como prática: reconhecer-se Ser. Não como um caminho para aprimorar-se e tornar-se a referência idealizada de si mesmo, mas como processo de despojar a força e poder que atribuímos a nossas crenças, aos julgamentos sobre como devemos ser e sobre como a Vida deve ser, para receber, perceber, processar e co-criar a Vida no aqui agora, na medida em que o viver simplesmente acontece.

Em essência, uma sessão de BodyTalk é uma escuta sensível, atenta e ancorada na consciência do coração, a partir de protocolos que estruturam a intuição, permitindo o desvelar da sabedoria inata do cliente, do terapeuta e, por que não dizer, da sabedoria acumulada coletivamente. A escuta daquilo que está consciente e tangível, mas também dos silêncios, das entrelinhas, dos vazios que se revelam para além das narrativas conhecidas, além das histórias por hábito repetidas tantas vezes sobre si ou sobre a vida. Essa disponibilidade para re(conhecer) o Ser na sua dimensão integral desvela o desconhecido, a sombra, a potência que habita o inconsciente e que igualmente faz parte de quem somos.

Referências

CAPRA, F. (1988). Sabedoria incomum. Conversas com pessoas notáveis. São Paulo: Cultrix Editora.

CYRULNIK, B. & MORIN, E. (2013). Diálogo sobre a natureza humana. São Paulo: Editora Palas Athena.

Institute of Noetic Sciences & POOLE, W. (1993) The Heart of Healing. Atlanta: Turner Publishing.

MACY, J. & JOHNSTONE, C. (2020). Esperança ativa. Rio de Janeiro: Bambual Editora.

OXFORD (2000). Oxford Advanced Learner´s Dictionary of Current English. Oxford University Press (impresso).

VELTHEIM, E. (2001). Who Am I?: The Seeker’s Guide to Nowhere. Florida: PaRama LLC.
VELTHEIM, J. (2013). The Science and Philosophy of BodyTalk, Healthcare Designed by Your Body. Florida: PaRama LLC.

[1] Terapeuta BodyTalk certificada, tendo chegado no sistema BodyTalk em 2011 e desde então mergulhado em todos os módulos avançados, além de outros aprofundamentos, como Medicina Oriental, Ecologia do Corpo e Epigenética. Participou e monitorou cursos como Mindscape Básico e Avançado, Breakthrough, FreeFall 1 e 2, além de satsangs com Esther Veltheim. Contribuiu na organização do primeiro encontro de terapeutas BodyTalk do Brasil, em 2013, tendo facilitado nesta ocasião e em 2018, vivências de grupo para a matriz de terapeutas do sistema. É integrante da equipe do projeto BodyTalk Brasil COVID-19.

Psicóloga, com especialização em psicologia clínica pelo Instituto de Gestalt-Terapia (IGTB) e mestrado em Desenvolvimento Humano e Saúde pela Universidade de Brasília (UnB). Escritora, fotógrafa, artista transdisciplinar, investigadora das artes do movimento, facilitadora de processos em que a dança e as práticas somáticas se encontram e se potencializam, e em pesquisas de improvisação e meditação em ambientes naturais ou aquáticos. Ecologia Profunda, Ecopsicologia e abordagens bioinspiradas, a natureza rítmica e mediadora da Água e Embriologia são seus temas atuais de pesquisa e aprofundamento. Foi professora e coordenadora pedagógica em uma das primeiras formações de doulas no Brasil e desenvolve um projeto chamado Feminino Bem-Viver. adriacamilo@gmail.com site: almamater.art.br

[2] A Ecologia Profunda e o Dragon Dreaming são abordagens que integram o desenvolvimento pessoal, comunitário e ecológico como dimensões interelacionadas e inseparáveis de um sistema vivo. Embora não façam parte do Sistema BodyTalk, bebem de alguns fontes conceituais e filosóficas comuns. “Esperança ativa”, o mais recente livro de Joanna Macy, doutora em ecofilosofia, estudiosa da teoria geral dos sistemas e grande referência em Ecologia Profunda é uma inspiração para este ensaio, que versa sobre as Ciências da Vida do BodyTalk como caminho de autodescoberta.

[3] A primeira edição do periódico Escuta teve como eixo condutor o BodyTalk como Sistema e inclui uma entrevista com o Dr. John Veltheim, na qual se confirma a importância de Fritjof Capra, especialmente o livro Ponto de Mutação, na sistematização do BodyTalk. A entrevista foi conduzida por Verena Kanciskins.

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Ciclo do cuidado

Maria Fontes[1]

O curador ferido é um arquétipo bastante utilizado para falar sobre “o terapeuta” e a capacidade empática que essa tarefa convoca. Esse termo é inspirado na história de Quíron, o Centauro.

Na mitologia grega, Quíron é uma figura que, apesar de possuir corpo de cavalo e, de certa forma, o potencial anímico e instintivo bruto, ele era refinado, bondoso e conhecido por sua habilidade com a Medicina. De fato, era considerado uma autoridade espiritual que tratava as dores humanas. Diz o mito que ele foi, acidentalmente, atingido por uma flecha envenenada lançada por Hércules. Como era imortal, Quíron sobreviveu, mas a ferida incurável se tornou um sofrimento crônico. O desconforto da dor pessoal faz com que Quíron experiencie e busque inúmeros recursos para apaziguar aquela ferida. Ele passa sua existência investigando soluções, caminhos e possibilidades de amenizar sua dor. Reúne em si grande bagagem, o que favorece o entendimento das variadas dimensões das dores humanas que ele curava. Arquetipicamente, ele fala do curador ferido e sua busca ao lidar com a ferida eterna.

Inspirado, ou não, na imagem desse mito, Carl Jung também fala do curador ferido. Segundo ele, um terapeuta pode auxiliar na cura de pessoas por ele ser um doente, ou seja, aqueles marcados por suas dores seriam capazes de ajudar pessoas a reconhecerem, cuidarem e curarem as próprias feridas.

Estar atento e disponível a auxiliar o outro no caminho por vales escuros e doloroso de sua própria alma requer a força e a coragem de buscar a própria cura, o próprio aconchego na dor. Isso é uma arte. De acordo com Julia Cameron (2002, pág. 48) em O caminho do artista,a arte nasce na atenção (…). A arte parece brotar da dor, mas talvez seja porque a dor ajuda a focar nossa atenção em detalhes”. A arte do cuidado parece então se relacionar com a capacidade de observar e avançar nos detalhes da própria dor, conhecer os labirintos internos, lamber feridas das quedas e tropeçadas da vida e, então, disponibilizar um olhar que observe a dor do outro, os detalhes desse outro.

Mas, então, que outro é esse? Sistemicamente falando, minha capacidade de auto-observar e encontrar os pontos da minha dor, auxilia o outro a encontrar também suas dores. Não há separação.

Desde que comecei a estudar e praticar o BodyTalk, em 2012, os conceitos da Advaita Vedanta[2] foram polindo minha observação do mundo, ou minha observação no mundo.

A grande pegadinha de sentir-se separado para entender-se como um indivíduo vem da necessidade de controle: controlar o que se sente, proteger-se de dores e dissabores, minimizar julgamentos ou controlar para programar e planejar uma rota de vida. Então, vem a Vedanta novamente e me conta que controle é “a mãe de todas as crenças limitantes”. O Ser em sua expressão mais amplificada e potente não se separa do outro, nem da vida, nem dos fluxos orgânicos, nem das estações do ano, nem dos mecanismos sociais, nem mesmo das interferências astronômicas e astrológicas, ou seja, o Ser É algo integrado e composto por inúmeras camadas. A cada instante uma vivência, uma sensação de expansão, outra de limitação, uma alegria, uma tristeza, e assim, uma série de experiências de vida que vão constituindo uma experiência que vou acabar chamando de minha. Minha experiência de vida, ou, na Vida!

Não posso controlar quando dói ou quando a vida flui. Quando adoece ou quando cura. Há então, a possibilidade de observar e permitir que a consciência se faça presente, e apenas aguardar o que dela possa brotar para a nova experiência. Parece – ou realmente é – um lançar-se no espaço, lançar-se na vida.

O BodyTalk praticado em nossos consultórios é apenas uma parte de um sistema amplo e sofisticado que promove bem-estar, vida, autoconhecimento e saúde. Esse sistema integral de saúde vai desde técnicas mais simples – como o Córtices –, passando por treinamentos para autocuidados, até oferecer um suporte “filosófico-existencial-transpessoal”, embasado na Advaita Vedanta. E não para por aí.

Como técnica clínica, nos fornece um treinamento preciso com navegação respeitosa que parte da premissa das prioridades do sistema humano de cada cliente. Acontece que as dores humanas são múltiplas e complexas. Cada um de nós reflete um prisma de cores únicas. Por reverberação, sintonia com o diapasão universal ou atração sintonizada com o perfil do nosso curador ferido, a clínica de cada terapeuta irá expressar ou atrair dores humanas similares àquelas que já nos foram possíveis enxergar, observar e avançar na cura. É nesse ponto, na perspectiva de abraçar o curador ferido de cada terapeuta que, generosamente encontramos no Sistema BodyTalk, as Ciências da Vida.

Dizemos que BodyTalk é uma terapia de observação. Observar a prioridade da sabedoria inata do cliente permitindo que a mente consciente participe dessa observação e melhore sua comunicação com os aspectos observados. A partir de onde se observa algo? Só se pode observar algo a partir da própria presença. Adalberto Barreto – nos conceitos da terapia comunitária – nos esclarece que “só reconhecemos fora aquilo que conhecemos dentro” (BARRETO, Adalberto: 2005).

Ser terapeuta me convida constantemente à autoinvestigação!

Nessa jornada pelas trilhas do BodyTalk, vem sendo fundamental resgatar aquele dever de casa dos meus processos pessoais e me disponibilizar para constantes atualizações em mim. Para isso, auto-observação é um ticket de passagem sem volta.

É difícil definir as Ciências da Vida apenas como cursos do sistema BodyTalk, mas, de forma prática, são o conjunto de cursos formados pelo agrupamento do Mindscape, BreakThrough e Freefall. Cada um desses é em si um conjunto de técnicas, um espaço para processos terapêuticos e também, uma ferramenta de suporte pessoal e para a prática profissional.

O BreakThrough me ensina a ser papel de origami: investigar as crenças antigas, como marcas de um formato pessoal que já não me cabem mais e, então, por meio dos 7 passos investigativos, desapegar e deixar ir, para que uma nova “dobradura” possa proporcionar nova direção. Assim, surge uma nova possibilidade de uma nova forma de expressão. Quando reações exageradas nos dominam, gatilhos subconscientes estão nos pressionando. Os 7 passos do BreakThrough nos possibilitam identificar e transformar os gatilhos que, por vezes, sequestram nossa lucidez e apenas reagimos. Esse é um movimento interno que pode mudar nossa direção e ser altamente transformador. Muitas feridas e dores deixam de ser necessárias quando a liberação de uma crença limitante e obsoleta nos possibilita outro olhar sobre as situações e sobre nós.

Outro parceiro fundamental na prática da auto-observação é o Mindscape. Ele é o espaço dentro das Ciências da Vida que fornece um cenário seguro, como meu anjo da guarda. Fornece uma base, um apoio para os passos pessoais, relacionais e profissionais. Ali nada é por acaso. Ao alcance dos olhos fechados, alinhado com a respiração profunda, “a casa dos pensamentos malucos” se torna um lugar em que, qualquer “maluquês” ganha contornos bem desenhado e pode ser traduzida em uma linguagem cheia de informações. Mais nítido ou mais simbólico, cada elemento informa algo essencial.  A relação azeitada com a oficina vem trazendo, dia após dia, enorme clareza, e, consequentemente, confiança nos processos intuitivos.

E então, temos o Freefall.

Pausa para um suspiro… Suspiro com sensação de colo, carinho, cuidado e muito sacolejo no Serzinho que vos escreve.

Na tradução, Queda Livre!

Ao longo da vida, fui passando por vários processos terapêuticos, mas sempre me sentia “à paisana” nesse campo. Deixei locais internos, que me doíam e custavam caro reconhecer e transformar, sempre para um futuro, para o depois, como se magicamente padrões e dores fossem se curar com um toque divino. Quando me tornei terapeuta, foi necessário mergulhar mais profundo, olhar para as feridas do curador ferido com maior lucidez. Neste caminho, cheguei até o FreeFall.

FreeFall é o processo terapêutico mais ousado e, ao mesmo tempo, acolhedor e gentil que conheço até hoje. A proposta é que, dentro de um círculo invisível de confidencialidade, confiança e autorresponsabilidade, os participantes possam despir as camadas e irem em direção ao Ser. De fato, despimos. A metodologia é a nudez. Tiramos a roupa, sim, e com ela muitos preconceitos e personagens. Nesse ato simbólico cada peça de roupa pode carregar para o chão o que ela tenta esconder ou tenta dizer sobre nós. Traz a possibilidade de revelar quem somos diante de nós mesmos.

A nudez carrega em si muitos elementos ligados à sexualidade. Socialmente são raros os momentos em que a nudez é bem-vinda. Ela está relacionada a momentos íntimos e ao sexo. A energia sexual é a base da energia vital, é a energia de cura e a própria pulsão de vida. Sabemos que existimos a partir do sexo dos nossos pais. A simples menção a essa realidade nos mobiliza. Para muitos de nós, um desconforto ou sensação de preferir não lembrar dessa parte. FreeFall parte desses desconfortos com a sexualidade moldada e nos guia rumo a uma queda livre para dentro de nossa potência de vida, presente em cada célula, apenas porque estamos vivos, aqui e agora.

Na jornada FreeFall, caminhamos de mãos dadas com nossa história de vida e temos espaço para olhar de frente, no espelho, tudo o que somos ou que podemos ser ao nos despirmos dos medos, culpas, vergonhas e limitações autoimpostas. A repressão sexual está no corpo, na mente, nas emoções e até no espiritual. Ela nos formata, modela, cria camadas de dores e distanciamento de nossa força vital. FreeFall é sobre nos recuperarmos para nós mesmos.

A intensidade dessa jornada depende do ritmo de cada um consigo, com seu curador ferido e com as permissões pessoais de avançar ou se reconhecer no limite do que é possível a cada momento. É também sobre respeito, especialmente o autorrespeito. Não existe obrigatoriedade em passos pré-definidos, o que encontramos é uma guiança dentro de um processo seguro e pessoalizado. As propostas são para o grupo, e cada indivíduo tem a oportunidade de indagar-se sobre o tamanho do passo a ser dado. Apesar de estarmos em grupo, o caminho não é em direção ao outro, senão, em direção a si.

Despir-se para acessar a vestimenta mais correspondente ao Ser. Abrir os olhos e enxergar para além da imagem refletida no espelho.

Por etapas, atravessamos as camadas que foram necessárias serem moldadas diante das repressões, abusos e distorções. Ao enxergar no corpo as dores e ao possibilitar uma experiência corporal real e segura, podemos viver insights, prazeres e alegrias que liberam couraças antigas. Soltar o que estava congelado em nós reverbera de forma incrível no corpo e na vida.

É claro que esbarramos em obstáculos, mas é possível abraçar os monstros escondidos em nossas temidas sombras.

Contatar a essência é um caminho pessoal, um ritmo único. Sutilmente a poesia pessoal ganha espaço para se manifestar. Os contornos de cada um aparecem nos limites pessoais. Já falei do respeito e do acolhimento únicos? Uma dança em que cada peça de roupa deixada pelo corpo e pela persona revelam o nu de uma alma disponível a se enxergar e, às vezes, também ser vista.

Em 2016, saltei no primeiro Freefall Brasil. Encontrei, sim, muito sacolejo. A poeira que deixei pousada “para depois” foi se levantando. Um turbilhão de transformação a partir dali. Desde então, busco “saltar” em queda livre nesse ambiente terapêutico pelo menos uma vez ao ano. Assim, o repertório do meu curador ferido foi alcançando o alicerce da energia sexual de olhos abertos e mais atentos.

Em minha prática clínica, percebo mais energia vital disponível. Abundância em forma de energia básica, sexual, kundalini, que é a base de quase toda energia requisitada para a manutenção do fluxo de vida no sistema humano. Essa observação se estende aos meus clientes, mais profundos e dispostos a observar junto ao BodyTalk locais primordiais de desconfortos antigos.

Em tempo de pandemia, as feridas humanas e da humanidade estão abertas e quase inconsoláveis. O arquétipo quirônico está exposto: “o grande cuidador é aquele que possui a maior ferida”. Para cuidar é preciso cuidado, autocuidado.

FreeFall toca e abraça as feridas da alma. Constitui por si um espaço espiritual. Afinal, não há nada mais sagrado do que reconhecer e abraçar a própria dor, a própria sombra. Passo a passo, o cuidado vai se estabelecendo em esferas que pareciam intocáveis e, assim, um ciclo lindo de cuidado e atenção gentil pode nos habitar.

Onde está escuro em você?  Topa levar vida até lá?

Fluxo de vida em queda livre!

Namastê.

Maria Fontes


[1] Mulher latino-americana, filha, mãe, amiga, poetisa e sonhadora. Antropóloga e Socióloga pela UnB (Universidade de Brasília), mestrado em Psicologia Comunitária no ISPA (Instituto de Psicologia Aplicada – Lisboa), Instrutora de Yoga desde 2007, Terapeuta BodyTalk, CBP (Certified BodyTalk Practitioner) desde 2012. Apaixonada pelo Freefall desde 2016. Coordenando grupos de estudos desde 2018. O maior interesse de pesquisa pessoal é a interação indivíduo e sociedade. Encaro o BodyTalk como um sistema importante no balanceamento sustentável da vida e o azeitamento das engrenagens entre os níveis pessoal, social, ambiental, econômico, político e espiritual. Contato: fontes.mandala@gmail.com

instagram: @fontes.mandala

#(61)981012401

[2] Filosofia de raiz hindu dentro das tradições de pensamento e espiritualidade indianas cujas recentes mestres podem ser destacados como Balsekar, Krishamurti, Mooji, com os quais a concepção e leitura dos Vedas, escritos antigos sobre corpo, mente, espírito são de não-dualidade. (N.E.)

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Prefácio Ed. 2 Escuta

Prefácio

Verena Kacinskis[1]

A edição que você tem diante dos seus olhos é especial. Isso porque o Sistema BodyTalk começou aqui, no que hoje chamamos de Ciências da Vida. Acho simbólico que um sistema de cuidado da saúde tenha surgido em seminários cujo foco não era o bem estar dos pacientes mas sim a organização e desenvolvimento internos dos terapeutas. Isto fala muito do BodyTalk em si. Sem auto-observação e autocuidado, como podemos ousar nos dedicar ao cuidado do outro?

Mas John e Esther Veltheim, estudantes de longa data de Jnana Yoga e intensos praticantes da autoinvestigação, sabiam disso. Eles sabem, até hoje, que a organização do mundo interno é parte do processo de autoconhecimento, e que para nos organizarmos é preciso desenvolver a arte da autoobservação. Por isso, ao fundarem o Sistema BodyTalk nos anos 1990, eles começaram por aqui.

Nesta segunda edição do Escuta, você vai encontrar cinco artigos cuja proposta é apresentar a diversidade fenomenológica das Ciências da Vida a partir das perspectivas das autoras e autores.

Em O ciclo do contato, Maria Fontes, terapeuta de BodyTalk, usa sua experiência pessoal para descrever, por vezes de forma poética, a riqueza dessas disciplinas. “Acontece que as dores humanas são múltiplas e complexas”, afirma Maria. E segue: “Cada um de nós reflete um prisma de cores únicas. Por reverberação, sintonia com o diapasão universal ou atração sintonizada com o perfil do nosso curador ferido, a clínica de cada terapeuta irá expressar ou atrair dores humanas similares àquelas que já nos foram possível enxergar, observar e avançar na cura. É nesse ponto, na perspectiva de abraçar o curador ferido de cada terapeuta que, generosamente, encontramos no Sistema BodyTalk as Ciências da Vida.”

Ciências da Vida é uma família de cursos vivenciais formada pelo MindScape, BreakThrough e Freefall. “Cada um desses é em si um conjunto de técnicas, um espaço para processos terapêuticos e também, uma ferramenta de suporte pessoal e para a prática profissional.”, nos explica Maria.

Em Ciências da Vida do BodyTalk, autodescoberta e o apreço por perguntas significativas, outro artigo cuja proposta é apresentar as três disciplinas a partir de uma experiência pessoal, a autora, Adriana Camilo, também terapeuta do Sistema BodyTalk, reflete sobre a contribuição das Ciências da Vida em sua trajetória: “Viver a vida como prática: reconhecer-se Ser. Não como um caminho para aprimorar-se e tornar-se a referência idealizada de si mesmo, mas como processo de despojar a força e poder que atribuímos a nossas crenças, aos julgamentos sobre como devemos ser e sobre como a Vida deve ser, para receber, perceber, processar e cocriar a Vida no aqui agora, na medida em que o viver simplesmente acontece.”

Adriana nos lembra que “Compartilhar as Ciências da Vida e convidar clientes a participar destes cursos é também uma maneira de estimulá-las(os) na apropriação do caminho de autoconhecimento.”

Seguindo por esta linha de pensamento (e sentimento), Myriam Machado, terapeuta de BodyTalk, nos guia pelos caminhos do FreeFall, disciplina das Ciências da Vida da qual ela é facilitadora. “John Veltheim criou o método FreeFall depois de observar o quanto as constrições criadas por nossas próprias histórias sobre autoimagem e amor próprio – e a carga negativa expressa em nossas roupas – podem perturbar não apenas o equilíbrio físico, mas também mental, emocional e energético. O principal objetivo do método FreeFall é que você possa celebrar a liberdade de Ser Humano.”

Saindo do FreeFall e caminhando em direção a outra disciplina, a própria Esther Veltheim, que idealizou e refinou os 7 passos de autoquestionamento do BreakThrough[2], nos relembra, em seu artigo Questionamento e o processo espiritual, que “nunca houve um tempo em que os seres humanos estivessem mais necessitados de aprimorar a habilidade de questionar” do que agora.

Por último, em MindScape como potencial caminho, Celso Juc e Angie Tourani, ambos instrutores de MindScape, e Carlos Bueno, terapeuta de BodyTalk e assíduo praticante das técnicas do MindScape, discutem, com mediação de Nirvana Marinho e tradução de Adriana Camilao, o uso do MindScape como ferramenta de autoconhecimento. Minha citação favorita desta conversa vem do Carlos Bueno: “MindScape e BodyTalk são geniais e ilimitados. A limitação deles é o praticante.”

Acredito que o autoconhecimento e a organização de nosso mundo interno ultrapassam o campo pessoal e funcionam como ferramentas de organização do coletivo. Não é possível construir uma sociedade saudável se os seus indivíduos estão doentes. Por isso, costumo dizer que o autoconhecimento é um trabalho, quase uma obrigação, social. A autonomia emocional adquirida depois de um fim de semana construindo uma intuição mais estruturada no MindScape ou investigando gatilhos emocionais no BreakThrough é algo que não se perde. Cada insight adquirido, permanece. E cada trabalho interno reverbera no campo familiar, profissional, social e político do indivíduo.


[1] VERENA KACINSKIS é psicóloga, Adv. CBP, CBI e pesquisa as várias formas humanas de se expressar. Produz cursos e conteúdos sobre a calma que surge quando organizamos nosso mundo interno em verenakacinskis.com e fala sobre receitas com plantas + intuição no projeto Minha Cozinha Virou Um Jardim.

[2] Depois da escrita deste Prefácio um novo artigo foi adicionado a esta edição, escrito por Salima J. Lara Resende (ERRATA) e embora não conste do presente texto, também sobre o BreakThrough, faz parte desta edição igualmente. (N.E.)

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Prefácio Ed. 1 Escuta

Convite à escuta

Celia Barboza dos Santos [1]

Quando recebi o convite para prefaciar a primeira edição do periódico Escuta, fiquei extremamente feliz pois o lançamento aglutina dois temas pelos quais sou encantada; o sistema BodyTalk e o pensamento sistêmico. E a melhor maneira de começar um artigo sobre o BodyTalk System é citando o próprio John Veltheim, criador do método, juntamente com Esther Veltheim.

A evolução do BodyTalk começou há quarenta anos com um sonho. A primeira parte do meu sonho era sobre uma terapia que pudesse transcender o modelo do diagnóstico, seguindo a primeira diretriz do corpo sobre seu próprio processo de cura. Nessa terapia, eu tinha visão do corpo na sua total expressão para decidir sobre suas próprias prioridades de tratamento. A função do terapeuta não era mais orquestrar o processo de tratamento de acordo com uma opinião de diagnóstico. Ao invés disso, a função do terapeuta poderia ser honrar e ser guiado pelo corpo de suas prioridades para cura. A segunda parte do meu sonho era a mesma de muitos seres humanos antes de mim: uma terapia que pudesse oferecer resultados tais que poderiam ser exponencialmente benéficos. No meu sonho, o sistema humano pode permanecer dinamicamente no caminho do seu bem-estar e poderia continuar melhorando mesmo depois que o tratamento tivesse acabado. Em outras palavras, o corpo, com sua própria sabedoria, poderia assumir o controle. A primeira parte do meu sonho se realizou através do que nós chamamos de Sistema BodyTalk. (I Had a Dream, John Veltheim e Esther Veltheim, 2016)

Em 2007, quando conheci o sistema BodyTalk, eu não tinha nenhuma noção do que estava por se abrir para a minha vida. Minha trajetória terapêutica dialoga com muitas práticas integrativas e, interessada em conhecer um método que combinava conhecimentos da fisiologia ocidental com os saberes da medicina tradicional chinesa e conceitos da física quântica, parecia que eu iria aprender mais uma técnica; no entanto o que encontrei foi um passaporte para um sistema de saúde baseado em consciência, numa abordagem de tal forma criativa, que trabalhar com este sistema tornou-se a minha universidade pessoal. A partir daí fiz todas as formações básicas e avançadas e segui o  desenvolvimento, certificando-me como praticante regular e integrando-me como membro da IBA Internacional BodyTalk Association, que é p órgão regulador no mundo.   Provavelmente, um dos grandes benefícios diretos que ser terapeuta BodyTalk me causa, é manter-me uma eterna curiosa, sobre temas diversos.

Nos ambientes das terapias integrativas, onde observa-se a energia como substrato causal, sempre ouvi que precisávamos aprender a pensar fora da caixa, que a energia acende a lâmpada, mas não podemos vê-la e então, por essa razão, existe. Sempre foi muito interessante, mas ainda havia um certo contexto de precisar acreditar, usando essas metáforas. As minhas primeiras experiências com o BodyTalk me surpreenderam muito e eu, simplesmente, não tinha explicações para os resultados. A minha enorme surpresa era em razão de que, tudo que eu fazia antes como terapeuta, dependia de mim, de um determinado conhecimento aplicado de uma forma específica, da minha inferência e interferência para que funcionasse; e a prática do BodyTalk me fazia experimentar uma estranha sensação de que não era eu quem estava pilotando. No BodyTalk, quem guia o processo é a própria pessoa, a partir do que se nomeia como Sabedoria Inata, trazendo as prioridades, revelando as informações, os aspectos que serão abordados e todo o processo é realizado por este mesmo princípio inteligente e altamente criativo.

Duas perguntas eram frequentes na minha mente: como era possível e em que tipos de doenças o método era eficaz; porque eu ainda expressava o conceito de que saúde era a ausência de doença. A primeira questão, sobre como era possível que uma pessoa que não tinha conhecimentos de anatomia, pudesse chegar até o aspecto celular de um órgão, foi rapidamente ficando clara, pois o BodyTalk possui protocolos detalhadíssimos, que funcionam como cartas de navegação, levando o terapeuta a observar as prioridades que estão sendo expressas pelo corpo; desde as funções orgânicas, até as formas como as emoções podem interferir na função orgânica, ou como o clima pode afetar o humor de alguém. Esta atenção ao que é prioridade, e não ao que é um sintoma, faz toda a diferença.

No entanto, a segunda questão, que confundia meu conceito antigo de saúde como sendo ausência de doença, exigiu mais esforços para minha compreensão. O BodyTalk me apresentou o pensamento sistêmico, o universo das possibilidades – que eu já começava a estudar, mas não via aplicabilidade – colocando por terra muitos comportamentos rígidos e ideias pré-concebidas. Olhar para um sintoma sem que, no entanto, haja uma investigação mais profunda, sobre os contextos que possibilitam que um determinado sintoma ou comportamento ganhem força para se expressar, equivale a destacar aquela parte do todo e dizer que não está adequada e não deveria ser como é.

O corpo é um sistema; é corpo-mente e todo o tempo está se expressando; então um sintoma local, pode estar comunicando que algo, num outro lugar, está em sofrimento. O que conhecemos como saúde ou doença são as opções disponíveis, dentro de uma infinidade de potenciais, que a sabedoria inata encontra para revelar histórias. É quando se pode observar, evocar consciência sobre o que está envolvido em uma complexa rede de informações, que comumente simplificamos com um nome diagnóstico. Todo sintoma é, no mínimo, uma grande história. E a Sabedoria Inata é a tendência natural do corpo para se auto regular.

Então, o BodyTalk é um grande sistema de saúde, que contém muitas estratégias, para apoiar o corpo no seu processo natural de auto regulação; esta é a proposta mais criativa que alguém pode encontrar para tratar da sua saúde, em todos os níveis. Quando falamos em sistemas, ou sobre a percepção sistêmica, estamos abrindo um espaço natural para observar que uma parte é composta de outras partes, até a infinitesimal partícula sub atômica.

Podemos admitir isso quando colocarmos em perspectiva a família. Nosso corpo não difere em absolutamente nada desta proposta. Somos um corpo alimentar, mas também somos um corpo essencial ou consciencial. A perspectiva de pertencimento é sistêmica, pois só ocorre em razão de uma parte se reconhecer em relação a um todo e a forma como a comunicação, os relacionamentos entre as partes, estão acontecendo. Então, como temos certeza de quem somos? 

Existe uma identidade, porque o meio sistêmico, que inclui família e ambiente, atuam para que a pessoa exista como indivíduo; quer dizer que, todo o tempo, temos muitos referenciais, programações e crenças, nos informando o que deveríamos ser e como precisamos nos comportar para sermos aceitos.

Para que se construa um corpo, uma pessoa, muita coisa aconteceu antes; e muitas delas estão agindo como informações desorganizadoras do equilíbrio. O fato de o BodyTalk ser um sistema, possibilita que esta perspectiva ampla e profunda, com tantos conteúdos diversamente registrados na experiência, se torne observável.

A criatividade no sistema BodyTalk, vem da possibilidade de observar as informações se expressando de modo não linear, não local, independente da lógica de tempo e espaço, apoiando o sistema corpo mente, para que encontre opções mais saudáveis para expressar-se. No BodyTalk, as sessões são conduzidas pelo praticante com total atenção ao que acontece no momento presente; o terapeuta está lá com o cliente, plenamente, sem julgamento de valor, praticando a escuta em níveis amplos. Há uma escuta de fato, daquilo que pode ser dito; mas principalmente, há uma escuta do silêncio; daquilo que nunca pôde ser dito; de histórias de uma vida inteira registradas no corpo; de memórias doloridas, marcantes ou singelas; registros inconscientes que, inúmeras vezes, precisam somente de uma respiração profunda ou de uma lágrima, pois palavra não cabe ali. A experiência em uma sessão de BodyTalk pode ser muito reveladora ou extremamente sutil, sugerindo que nada muito profundo está acontecendo, mas trata-se apenas de como a experiência se dá para cada um. E tudo isso segue, estritamente, os caminhos e ritmos delineados pela sabedoria inata.

Tendo a sentir a terapia como arte, pois antes de ser terapeuta eu dançava. E na escola onde estudei, havia duas meninas surdas que faziam balé clássico. Era um mistério como elas sabiam, no sentido do saber profundo, todos os compassos e ritmos da música! Hoje, eu compreendo mais claramente este jeito de escutar com o corpo inteiro, trata-se de estar com o coração disponível para a experiência, em estado de atenção e presença.

O BodyTalk faz este percurso, de escutar de perspectivas diferentes, já que esta escuta é feita sempre a partir do conjunto cliente/terapeuta, e desta energia única emergem questões sistêmicas; escutar é um “ato contínuo”. Reverberando em ondas para os vários níveis do ser. De uma certa forma o periódico Escuta, convida a todos para esta dança silenciosa. Aqui, terapeutas comparecem como autores, a convite da Nirvana Marinho que é a idealizadora do projeto. Quando a Nirvana se dispôs a ouvir os terapeutas, estava germinando o caminho que resultou neste periódico que, não por acaso, leva o nome de Escuta.
          

A medida em que ela nos ouvia, ondas alcançaram seu cérebro, seu coração e se expandiram em ações que se materializaram num amplo convite à participação integradora de muitos terapeutas, que puderam também expressar suas experiências e percepções sobre o BodyTalk, permitindo um mapeamento inicial da presença do BodyTalk no Brasil, como você  poderá descobrir lendo o artigo BodyTalk no Brasil: uma cartografia de caminhos possíveis – por Ana Marcela Sarria

O artigo A relação do Livro O Ponto de Mutação e o BodyTalk – por Luciano Flehr, aponta para as bases da teoria dos sistêmicas dinâmicos, trazendo informações precisas para a compreensão das interações entre o ambiente e o ser e a influência que o livro de Fritjot Capra teve na perspectiva sistêmica do Dr. John Veltheim.

Enquanto desenvolvemos a prática do BodyTalk, vamos aprendendo que, assim como no corpo, as relações também adoecem e que este adoecimento é a tentativa do sistema inteiro revelar que há algo muito importante acontecendo, no artigo BodyTalk como sistema, é sobre como relacionar-se – por Nirvana Marinho, fica evidente a indivisibilidade do ser, a integração entre ser e ambiente, desde a perspectiva sistêmica.

Para contar um pouco mais sobre pertencimento, o texto que é quase um poema, Sistema BodyTalk – por Claudia Morum Xavier Lapa, nos presenteia com a perspectiva sistêmica familiar. Assim como cada membro da família tem seu lugar, o corpo reflete este processo; ou será que é o contrário?

Observando tudo isso, eu me lembro do sonho do próprio Dr. John, que nos presenteia com uma entrevista imperdível, conduzida e transcrita pela Verena Kacinskis, contando como seus insights foram tomando forma para criar um sistema de saúde baseado em consciência.

O BodyTalk é exatamente assim. Escutamos a fala, escutamos o silêncio, escutamos a diversidade; os conflitos e movimentos criativos que, desde sempre, o sistema corpo-mente quer revelar nas relações com toda a história pessoal e o mundo em que vivemos, estando pronto para melhor se comunicar, sincronizar, equilibrar e caminhar com mais saúde. O convite é para leitura, mas é como uma proposta para ouvir, atentamente, no vibrato profundo do seu coração; assim como aquelas duas meninas no balé. Aproveita a entrada do inverno, se aconchega e escuta o que nosso coração te oferece. Escuta.

Celia Barboza dos Santos

Junho 2020


[1] BodyTalk System (CBP),PaRama Body Talk 1, Eastern Medicine, Master Programação Neurolinguistica, Terapias Integradas da Respiração, Constelação Familiar.

@Celiabarbozaterapeuta
Celia@celiabarboza.com

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Entrevista ao Dr. John Veltheim por Verena Kacinskis

Entrevista[1] ao Dr. John Veltheim[2]

Por Verena Kacinskis[3]

Verena Kacinskis – Olá John, muito obrigada por conceder esta entrevista. Como expliquei por e-mail, essa conversa sairá na primeira edição do periódico “Escuta”. Escolhemos a Teoria dos Sistemas Dinâmicos como tema desta edição. Por isso, trouxe três perguntas em torno desse tema.

John Veltheim – Ótimo! 

VK – Agora sou Instrutora de Fundamentos e, além disso, também traduzi para o Português todos os materiais dos seus cursos nos últimos anos. 

JV – Eu sei. Muito obrigado pelo seu ótimo trabalho. Recomendei você para ser instrutora porque te conheci quando fui ao Brasil e achei que você estava fazendo um ótimo trabalho. 

VK – Muito obrigada! Não sei como é em outras partes do mundo, mas aqui no Brasil as pessoas ainda tendem a dizer coisas como “Bem, eu trabalho com uma técnica chamada BodyTalk”. Costumo começar as minhas aulas esclarecendo para os alunos que o BodyTalk não é uma técnica, é um Sistema. São duas coisas diferentes.  Fico me perguntando de onde veio a ideia, como você soube que não criaria uma nova técnica, que você colocaria coisas juntas e criaria um sistema. Como foi isso? 

JV – Quando estudei na universidade, aprendíamos só técnicas. Com o tempo fui ficando profundamente interessado no trabalho de Fritjof Capra, em “O Ponto de Mutação”, e isso me direcionou à Teoria dos Sistemas Dinâmicos. Naquela época eu ensinava acupuntura e percebi que ela também se baseia na Teoria dos Sistemas Dinâmicos. Você começa a ter um outro olhar para as mesmas coisas e percebe “Eu já estava fazendo isso, afinal!”. Comecei a ler publicações de Física e percebi que toda estrutura, inclusive em nível subatômico, funciona segundo a Teoria dos Sistemas Dinâmicos. É muito mais profundo do que qualquer outra coisa. Naquele filme que fizeram baseado no livro do Fritjof Capra [Mindwalk], deram mais ênfase à ecologia – você sabe, a Teoria dos Sistemas Dinâmicos está na Ecologia. Mas não é só a base da ecologia geral do mundo, é a base da ecologia do corpo também, e de como nós nos relacionamos com o mundo. Portanto, a formação básica do mundo é baseada na Teoria dos Sistemas Dinâmicos. 

Então, comecei a pensar “Tudo bem, quais são os princípios básicos da Teoria dos Sistemas Dinâmicos?”. E foquei em um deles: o princípio da comunicação. A partir daí comecei a praticar a acupuntura a partir dessa perspectiva. Mesmo que eu estivesse usando as agulhas do jeito que eu já costumava usar, na minha mente via sistemas dinâmicos afetando o corpo, e comecei a observar melhoras nos resultados. Então comecei a ensinar acupuntura sob o ponto de vista da Teoria dos Sistemas Dinâmicos nos cursos avançados da faculdade na qual  era Diretor, e isso fez uma grande diferença nos resultados dos tratamentos dos meus alunos. Acho que trouxe um melhor entendimento. Para mim, significava olhar a coluna vertebral, por exemplo, sob a perspectiva dos sistemas dinâmicos, na quiropraxia e osteopatia, entendendo que tudo está conectado e tudo envolve tudo. Ou seja, você podia ter torcido o dedo do pé e isso podia estar te trazendo uma dor na lateral da cabeça.  Passei a sempre olhar para o que estava acontecendo no corpo todo. A pessoa me procurava com dor no ombro e eu acabava tratando o menisco medial do joelho oposto.  Consegui chegar a isso, mesmo antes de usar o Sim e o Não, por estar usando intuitivamente a Teoria dos Sistemas Dinâmicos, o que me levou a encontrar formas diferentes de fazer as mesmas coisas. 

Eu já tinha explorado outros aspectos da cinesiologia aplicada – sabe, se feita de forma apropriada, a cinesiologia aplicada também é um modelo de sistema dinâmico, embora não fosse ensinada sob essa perspectiva naquela época. Atualmente existe na Alemanha uma faculdade ensinando a cinesiologia assim. O diretor dessa faculdade fez seu treinamento comigo. Comecei com trabalho básico, especificamente com os Córtices e coisas afins. Assim que refinei o trabalho a partir da Teoria dos Sistemas Dinâmicos, tudo evoluiu muito rápido. Comecei a ver as coisas por sua relação com as outras. A pessoa vinha com um problema no joelho e eu enxergava o que realmente estava acontecendo ali – um problema no joelho não é um problema apenas no joelho, frequentemente é um problema no meridiano do Rim e toda uma gama de outras coisas que estão relacionadas dinamicamente. Então eu fiquei… bem, não vou dizer que fiquei obcecado, mas digamos que passei a focar no desenvolvimento e aperfeiçoamento da osteopatia e da acupuntura, que eram as disciplinas que eu ensinava na época, e para isso comecei a praticá-las sempre a partir do ponto de vista dos sistemas dinâmicos, ou seja, buscando comunicação, sincronização, etc. 

Depois comecei a desenvolver algumas técnicas – Córtices foi a primeira delas – e comecei a perceber que se fizesse alguns toques básicos, conseguia alguns resultados. Todavia, se eu fizesse a mesma implementação com toques usando os conceitos da Teoria dos Sistemas Dinâmicos, os resultados eram melhores. Foi como uma atitude que passei a usar, e comecei a perceber resultados melhores e mais rápidos. A partir daí, iniciei o desenvolvimento de tudo ao redor da Teoria dos Sistemas Dinâmicos. 

Naquela época, esbarrei com o Fritjof Capra numa conferência, e apesar de só termos tomado um café juntos, eu senti como se ele tivesse me entregado uma energia [risos], o que me deixou ainda mais animado. Nós não chegamos a falar sobre isso, mas me senti inspirado só de estar na presença de Deus em pessoa (pelo menos para mim, porque seu livro o Ponto de Mutação foi, de fato, um ponto de mudança para mim). Eu não gostei do primeiro livro dele, achei muito científico para mim, mas depois ele entrou mais na Teoria dos Sistemas Dinâmicos. 

Portanto, eu sempre voltava para a ideia de que tudo está relacionado e só precisamos chegar a um ponto em que os sistemas interajam entre si, precisamos ajudar o corpo a trabalhar em equipe, basicamente, e perceber que qualquer parte do corpo pode influenciar qualquer outra parte do corpo se você entender esses princípios. E, apesar de nós não irmos tão fundo no BodyTalk básico, ainda assim ensinamos técnicas que estão baseadas nisso. No entanto, conforme você vai se aprofundando no BodyTalk, você começa a ter mais contato com a Teoria dos Sistemas Dinâmicos e percebe que tudo gira ao redor dela, essa é a fundação de tudo. E até nos meus trabalhos mais avançados, aqueles que estou desenvolvendo agora, ainda uso a teoria como base. Claro que eu estudei extensivamente a Física Quântica e coisas assim. 

Você sabe, estive no Brasil algumas vezes, estudei Física Quântica com alguns teóricos importantes lá. Eles ficavam impressionados com o fato de eu estar trabalhando com a Teoria dos Sistemas Dinâmicos. Alguns deles disseram “Sim, nós também estamos nos encaminhando para essa direção, vamos trabalhar cada vez mais a partir dessa perspectiva”. Foi por isso que nos demos tão bem e eles endossaram meu trabalho. 

Então, posso dizer que o processo de criação de BodyTalk foi como uma evolução. Demorou um pouco porque as pessoas ainda estavam fazendo o trabalho básico achando que eram técnicas em vez de dinâmicas. Essas pessoas usavam as técnicas e conseguiam resultados, mesmo que não entendessem completamente a teoria existente por trás. Acho que demora mesmo um pouco e ainda tem bastante gente que faz o trabalho básico do BodyTalk e não o entende completamente, enxergam apenas as técnicas. Não obstante, depois que você está trabalhando com BodyTalk há um tempo,  conforme você vai fazendo o trabalho mais avançado, vai ficando óbvio, já que você se percebe fazendo vínculos que parecem malucos, tipo entre o joelho e a lateral da cabeça – e na verdade você está tratando o fígado. 

Tudo evoluiu bem rápido, na verdade. Demorou um tempinho para que as pessoas às quais eu estava ensinando, principalmente àquelas que tinham formação médica, para que elas entendessem o que estava falando, porque elas eram muito cartesianas. Mesmo que reconhecessem que a Física avançada trabalha muito com a Teoria dos Sistemas Dinâmicos, alguns dos médicos me diziam “Mas a Física avançada não tem nada a ver com a Medicina!” [risos]. Naquela época, quando eu comecei, a Medicina era bem cartesiana, mas isso está mudando bastante agora, principalmente na Europa. Por isso meu trabalho está sendo cada vez mais aceito nesse contexto. 

E agora, conforme vou desenvolvendo trabalhos ainda mais avançados, continuo me apoiando na Teoria dos Sistemas Dinâmicos. Apesar de não ser mais tão óbvio como nos meus trabalhos mais básicos, as técnicas que tenho apresentado nos cursos mais avançados também se apoiam nessa abordagem e quem não percebe tende a não conseguir os mesmo resultados que eu. Mas veja, quando eu coloco a minha mão em cima de uma pessoa, estou colocando a mão sobre um corpo que está em um estado natural de sistema dinâmico consigo e com o seu ambiente, e isso afeta tudo, porque quando você atende um paciente, você está tratando a relação dinâmica dele com sua família, incluindo os familiares que ele nunca conheceu. 

Inclusive, podemos estar influenciando a relação dessa pessoa com o governo. Vocês sabem disso aí no Brasil e nós estamos vivendo isso aqui nos EUA – esses governos que são bem cartesianos, que focam em acumular dinheiro e coisas afins, isso causa uma corrosão em tudo ao redor porque eles não enxergam o mundo como um sistema dinâmico. Tenho notado que em lugares como Holanda e França, os governos estão trabalhando mais baseados na Teoria dos Sistemas Dinâmicos, sabe? E lá as coisas funcionam melhor, como na Noruega, por exemplo. Eles têm o melhor sistema de educação do mundo apesar de os alunos só irem para a escola 3h por dia. Mesmo assim eles estão entre os melhores da Europa porque ensinam as crianças a se relacionarem e interagirem com o mundo, e ao fazerem isso alcançam uma informação que não se aprende nos livros e isso é muito mais útil. Portanto, vejo que o BodyTalk está refletindo o que está acontecendo nos melhores cenários da educação, das ciências políticas, e vejo que as pessoas mais interessadas no meu trabalho são os físicos quânticos. 

A Teoria dos Sistemas Dinâmicos está ficando bem conhecida em círculos científicos, mas do ponto de vista médico, o sistema médico atual está mais direcionado ao modelo cartesiano porque eles trabalham com remédios que não são criados para os indivíduos. No entanto, alguns médicos não gostam desse conceito e estão tentando, em alguns lugares da Europa, por exemplo, incluir a homeopatia e outras coisas que, de alguma forma, estão baseadas na Teoria dos Sistemas Dinâmicos. 

VK – John, tem uma coisa que eu sempre quis te perguntar. Para criar algo como o que você criou – um sistema novo, como o BodyTalk – você precisa abrir espaços dentro de você. A gente precisa abrir espaços internos para poder criar. Como isso funciona para você? O que acontece primeiro: você passa por mudanças e então cria algo novo, ou você cria algo novo e isso te transforma? Ou tudo acontece ao mesmo tempo? Como é o seu processo criativo? 

JV – Na verdade, tenho que dizer que grande parte do meu processo criativo acontece quando estou tratando pessoas e preciso achar respostas para entender o que está acontecendo. Então digamos que eu receba um caso complicado – e recebo muitos casos complicados. Primeiro, preciso me abrir para o que está ali, depois isso se liga ao meu background e aos meus conhecimentos, isso tudo começa a vir intuitivamente, e eu tenho esse dom de saber, quando algo aparece intuitivamente, se vai funcionar ou não. Isso é intuitivo, certo? Então, é bem comum que eu use uma técnica pela primeira vez quando estou tratando um caso bem teimoso, desses que não conseguem bons resultados com outras técnicas.  Consigo fazer isso, em certo nível, por causa da minha experiência – trabalho com saúde há 50 anos, estou acostumado com os pacientes e com as respostas aos tratamentos. Assim, tento algo completamente diferente, baseado naqueles princípios que conheço, e eu vejo as mudanças acontecendo no corpo. Posteriormente, isso se torna um novo curso. Em praticamente todas as coisas que eu crio, não me sento e fico ponderando. 

Quase tudo o que desenvolvi foi feito com as minhas mãos sobre o paciente quando eu estava respondendo a uma situação ou a um caso difícil, para o qual tinha que encontrar uma resposta. Portanto, tudo o que eu preciso fazer é me abrir e levar aquilo para um novo nível.

Existem coisas que eu ainda não ensinei, principalmente no nível da Consciência Coletiva, em que podemos tratar grupos maiores. Um dos temas com os quais tenho estado mais empolgado é a ecologia. Tenho feito muitos trabalhos com ecologia e planejo fazer muito mais. Se você olha para os ecologistas, eles estão trabalhando dentro da Teoria dos Sistemas Dinâmicos. Por exemplo, digamos que você queira plantar alguma coisa. Você precisa saber onde vai plantar baseado em onde vai ser o melhor lugar para que aquele sistema dinâmico funcione. No momento estou trabalhando muito para entender como usar o BodyTalk para a Ecologia e tenho conhecido pessoas interessantes que trabalham com isso. De agora em diante espero me dedicar mais ao planeta do que aos indivíduos porque pela Teoria dos Sistemas Dinâmicos você pode influenciar áreas enormes e encontrar soluções que trazem mudanças consideráveis na ecologia daquela região do mundo. É um trabalho fundamental, de base. 

O que nós aplicamos no corpo também pode ser aplicado à forma de funcionamento de empresas, de uma floresta etc e acho que começa a fazer sentido para as pessoas quando elas entendem como funciona. Algumas pessoas precisam ser convencidas pelos resultados mas tenho percebido que em algum momento faz um clique, porque já faz parte do conhecimento do lado direito do nosso cérebro, já que o cérebro direito definitivamente funciona dessa forma [Teoria dos Sistemas Dinâmicos]. Percebo que as pessoas que se sentem atraídas pelo tipo de trabalho que faço são pessoas que naturalmente estão mais orientadas para o cérebro direito, que estão se movimentando nessa direção e querem entender as coisas pela lógica do cérebro direito. Francamente, em essência, o cérebro direito funciona a partir da Teoria dos Sistemas Dinâmicos e o cérebro esquerdo é cartesiano. 

VK – Tem algo mais que eu percebo. Quando aprendemos BodyTalk nos níveis básicos, aprendemos que estamos sincronizando a pessoa ao ambiente, estamos dissolvendo a influência do ambiente sobre a pessoa etc. Mas agora que já trabalho com BodyTalk há 11 anos, percebo que as pessoas que recebem sessões de BodyTalk há um tempo passam a se organizar dentro de seu próprio campo sistêmico. Acompanho diversos pacientes com BodyTalk que recebem sessão uma vez por mês há 4 ou 5 ou 7 anos. Imagina isso! Receber BodyTalk uma vez por mês há 7 anos! Comecei a ver padrões e a documentá-los e percebo que nos primeiros 8 a 9 meses, aproximadamente, estamos organizando as coisas básicas da vida daquele paciente, colocando as coisas em ordem. 

Depois desse período, vamos mais profundo no trabalho, as pessoas começam a ficar mais autônomas, elas podem cuidar de si mesmas, não dependem mais tanto do BodyTalk para se manterem organizadas. E então, a partir do segundo ano de tratamento, mais ou menos, elas começam a ficar mais sincronizadas e alinhadas com o ambiente, com seu campo sistêmico. É quando um livro chama a atenção na livraria e era justamente o que precisavam ler, quando começam a enxergar os sinais ao seu redor. O que quero dizer é que o BodyTalk atua no ambiente organizando as pessoas com seu campo sistêmico e essa é uma das coisas mais bonitas porque agora essas pessoas não só deixam de ser afetadas pelo ambiente mas passam a ter um efeito positivo sobre ele. Entende? 

JV – Absolutamente, esse sempre foi um dos meus sonhos desde a criação do BodyTalk. 

As pessoas que estão muito envolvidas com BodyTalk hoje, quando começaram a fazer aulas comigo lá no começo, eram bem cartesianas, pensavam “Isto é meio estranho, mas ele parece saber o que está fazendo” [risos]. Elas achavam que estavam apenas implementando fórmulas no cliente e não percebiam que estavam rearranjando todo o processo de como o seu próprio corpo funcionava. Não percebiam que ao tratar as pessoas, elas estavam se tratando. Eu vi esses terapeutas passarem por muitas mudanças. Agora, quando elas vêm conversar comigo, vejo que têm uma percepção diferente e forte dos sistemas dinâmicos. Algumas vezes eu ainda preciso corrigi-las para retirar condicionamentos a respeito da Teoria [dos Sistemas Dinâmicos] mas o BodyTalk muda mesmo a vida das pessoas. Isso é muito legal. Eu recebo emails de pessoas me agradecendo e dizendo que o BodyTalk mudou suas vidas. Elas contam felizes que se divorciaram ou passaram por coisas muito desconfortáveis por causa do BodyTalk [risos]. Essas pessoas se abriram para essas mudanças. 

É claro que outras pessoas não ficam por muito tempo [no BodyTalk] porque costumam estar muito envolvidas com sua cultura local, que é muito cartesiana, e elas não topam passar por essas mudanças. E para elas também é difícil conseguir clientes de BodyTalk, então acabam escolhendo ficar com métodos mais cartesianos. Mas nós plantamos uma semente e algumas vezes elas me relatam que tiveram que parar, que foram estudar isto ou aquilo, 6 anos depois voltaram para o BodyTalk, e finalmente fez sentido para elas. É mesmo muito difícil, o treinamento na maioria das sociedades é muito cartesiano, não leva em conta o todo. Veja o modelo médico. Eu tive o benefício de conhecer pessoas pelo mundo que se entusiasmaram muito com o meu trabalho e isso nos levou à vitalização do BodyTalk. Para ser sincero, a rede de neurônios precisa passar por mudanças. 

VK – Sim, com certeza! 


JV – O que eu percebo é que a maior mudança acontece no meu curso de Energetics, onde fazemos o equilíbrio dos cérebros e melhoramos a comunicação entre eles. Semanas depois, quando encontro alunos do curso, eles me dizem que finalmente estão entendendo a Teoria dos Sistemas Dinâmicos. Porque os cérebros estão trabalhando juntos de novo. 

VK – No curso de Fundamentos aprendemos que o Protocolo é um modelo de sistemas dinâmicos, as fórmulas funcionam como um modelo de sistemas dinâmicos, mas também vejo que quando o terapeuta e o cliente recebem e praticam BodyTalk há um tempo, eles começam a funcionar e a se comportar mais sincronizados com a ideia dos sistemas dinâmicos. É porque começamos a ver que o modelo dos sistemas dinâmicos está em todos os lugares. Está nas fórmulas, está no protocolo, está no Sistema BodyTalk, e também está na forma como as sessões afetam o cliente. Isso é muito interessante. Eu trabalhava como psicóloga, comecei a trabalhar com BodyTalk e me afastei um pouco da psicologia, mas alguns anos depois, quando voltei para a psicologia, percebi que compreendia os conceitos muito melhor do que antes porque, graças ao BodyTalk, havia vividos aqueles conceitos. Eu vivi a sincronicidade e o inconsciente coletivo, da psicologia junguiana, na minha prática, no meu corpo, e os testemunhei com o meu MindScape. Então agora eu entendo a psicologia junguiana melhor do que antes. Na verdade, agora eu realmente entendo o que o Jung estava dizendo. 

JV – Bem, eu conheci alguns cientistas brilhantes, e os que chegam ao topo e se sobressaem, como Elizabeth Rauscher, Fritjof Capra etc, definitivamente entendem a Teoria dos Sistemas Dinâmicos. A Elizabeth Rauscher – acho que ela faleceu recentemente – foi basicamente uma das maiores matemáticas do mundo (NT – pequena correção: ela era PhD em Física). Eu a conheci no Brasil e você deve ter me visto empurrando a cadeira de rodas dela pra lá e pra cá. Eu me oferecia para empurrar sua cadeira de rodas porque queria ficar sempre por perto para poder entrar no cérebro dela, conversar com ela [risos]. Ela tinha um entendimento dramático da Teoria dos Sistemas Dinâmicos. Ela foi Chefe na NASA, ajudou a projetar alguns dos foguetes, ela era uma lenda. Nós conversamos sobre a Teoria dos Sistemas Dinâmicos e era tão natural para ela. Ela me disse “é assim que tudo funciona” e tentou me convencer de que a matemática pura é o que melhor se aproxima da Teoria dos Sistemas Dinâmicos. Ela e o Richard [L. Amoroso] fizeram muitos trabalhos juntos, trabalhos que ficaram bem famosos, e ela me mostrou os emails que eles costumavam trocar todos os dias usando fórmulas matemáticas como linguagem, para poderem expressar a Teoria dos Sistemas Dinâmicos “em sua forma apropriada” [gargalhadas]. É uma linguagem baseada na Teoria dos Sistemas Dinâmicos e esta pode ser chamada por nomes diferentes. Tive o privilégio de conhecer muitos desses cientistas e a maioria deles diz que o Capra os inspirou muito, porque ele foi o cara que realmente entendeu a Teoria dos Sistemas Dinâmicos. Ele está aposentado agora, morando na ilha de Vancouver, perto de Vancouver. Quando tivemos a Conferência lá [Conferência Internacional de BodyTalk de 2013], eu soube que ele e o [Rupert] Sheldrake e todos esses top moram perto uns dos outros e se encontram toda semana. Fui convidado para ir a um desses encontros mas recebi o convite depois que a reunião aconteceu. 

VK – Não acredito!!

JV – Verdade! [risos] O Rupert Sheldrake expressa de forma diferente mas ele também está falando de Teoria dos Sistemas Dinâmicos. 

VK – Eu estou lendo O Ponto de Mutação agora. O livro foi escrito nos anos 80 mas é tão atual! 

JV – Sim, muito. 

VK – John, já estamos terminando a entrevista. Quer dizer algo mais?

JV – Obrigado por falar comigo. Tenho planos de ir ao Brasil porque sinto que estou precisando respirar o ar de vocês [risos]. Eu adoro o Brasil mas não tenho ido por causa do meu acidente. Ainda estou me recuperando porque tive três derrames quase ao mesmo tempo e eu deveria estar morto, segundo os médicos. Tive hemorragia, concussão, por isso não quis viajar ou voar nos últimos anos. Estou melhor, embora eu ainda sinta os efeitos dos derrames (minha memória de curto prazo está comprometida). Mas estou me recuperando e quero voltar a viajar no ano que vem. 

Quero ir para a Índia, porque temos 40 médicos que estudaram Fundamentos lá e eles querem que eu dê um curso avançado. Depois tenho que ir para a Filipinas porque eles estão fazendo um trabalho ótimo com os indígenas. Provavelmente não vou dar aula lá, só quero ver como está esse trabalho. Então no ano que vem pretendo começar com os Estados Unidos e depois quero voltar para o Brasil e rever os alunos. Por enquanto estou em minha casa fazendo sessões à distância e tem sido ótimo porque estou usando as pessoas como cobaias para minhas novas técnicas [risos] e estou vendo ótimos resultados. Tem sido divertido. 


[1] Realizada 21 de abril 2020 por Zoom.

[2] Dr. John Veltheim é o fundador do BodyTalk System e da International BodyTalk Association. O Dr. Veltheim é quiroprático, acupunturista tradicional, filósofo, mestre de Reiki, professor e professor. O sistema BodyTalk foi desenvolvido pela primeira vez nos anos 90 pelo Dr. John Veltheim. Originalmente da Austrália, o Dr. Veltheim administrou uma clínica de muito sucesso em Brisbane por 15 anos. Ele também foi diretor da Faculdade de Acupuntura e Terapias Naturais de Brisbane por cinco anos Seus extensos estudos de pós-graduação incluem cinesiologia aplicada, psicologia bioenergética, osteopatia, física quântica, medicina esportiva, aconselhamento e filosofia e teologia comparadas. Biografia disponível em https://www.bodytalksystem.com/iba/professionals/details.cfm?id=381.

[3] VERENA KACINSKIS é psicóloga, Adv. CBP, CBI e pesquisa as várias formas humanas de se expressar. Produz cursos e conteúdos sobre a calma que surge quando organizamos nosso mundo interno em verenakacinskis.com e fala sobre receitas com plantas + intuição no projeto Minha Cozinha Virou Um Jardim.

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Ensaio poético “Sistema BodyTalk”

Cláudia Morum Xavier Lapa (1)

Sistema. Sistêmico. Partes em um todo. O todo.

Todas as vezes que falamos em partes, olhamos para o todo. As partes que formam o todo estando, cada uma, em seu próprio lugar. Nada falta. Tudo reverbera.
Tudo pertence e tudo completa. Tudo em seu próprio lugar.

Constelar. Conter lar. Constelação. Conter ação. Movimento e fluxo. Ir e vir sem fim.

O Eu, em si, é um sistema. Completo. Pleno. Pronto. E a caminho.

Eu, pronta e a caminho. Parto daqui.

Por que nos colocamos tanto a preencher espaços? Por que tendemos a excluir?
Se nós sabemos parte, por que queremos o todo? E se em nós mesmos somos todos, por que queremos partir?

Somos parte de um todo. Todos nós.
Somos plantados pela fonte da Vida lá no seio, no ventre, e ali somos acolhidos.
Ali, no ventre, passamos a pertencer.

Não fomos escolhidos. Fomos acolhidos.
E passamos a ser parte de um sistema, o familiar, onde pertencemos a um pai e a uma mãe.
Porque não existe pai sem mãe e não existe mãe sem pai.
Ambos pertencem. Em si. No todo.
Já não importa o que se dê entre esse homem e essa mulher. Soprada a vida, um pertence ao outro e ambos se tornam um só em cada célula do que brota, do que nasce. Vida renovada!

Por que tentamos partir?

Pertencemos! E passamos todo o tempo validando esse movimento. Sou.
Pertenço.
Incluo e então integro.

Entrego! Integro!
Integrado ao todo me faço completo, pleno e perfeito. Tudo que fui feito para ser.

Somos soprados pela vida em um momento de Encontro. Sopro. Vento.
Vida!

Existimos a partir de dois e, também por isso, mesmo únicos, somos plurais. Trazemos em nós mesmos os dois, o encontro, a integração. A pertença!

É como se selássemos em nossa existência a completude do Ser. Perfeitos!
Tudo que fomos feitos para ser.

Mas então… por que partimos?
O que nos leva a tentar quebrar as partes se podemos ser o todo, estar no todo? Pertencer!? Parte ser!

Todo ser humano busca pertencer. Talvez seja exatamente por termos existido a partir de um encontro que nos parece vital fazer parte. Mas se entendemos que não há como partir, usufruímos do todo e saboreamos. Ficamos. Não tentamos encaixar em outro espaço. Não precisamos do que é do outro. Porque em mim eu sou pleno.

Porque no que me cabe, eu caibo. E plenifico.

Nascemos pertencentes. Mas mesmo antes de nascer, já somos parte do sistema. Mesmo aqueles que viveram por um curto espaço de tempo, ainda no ventre da mãe, e morreram sem ver a luz deste mundo, pertencem.

Porque tudo que existe, morre. Completa. Porque mesmo quem não nasce morre, e existe. E ninguém deixa de existir porque morreu. Somos todos parte, para sempre. E ninguém muda isso. Nem a Vida. Nem a morte.

Então… por que ainda tentamos partir?

Somos parte. Todos. Da humanidade. Do sistema familiar onde nascemos. E de sistemas que constituímos.
Um, dois, às vezes três ou mais…
Encontros que se perpetuam porque passamos a pertencer um ao sistema do outro. Intercessões. Pertenças.

Não é possível excluir o que pertence. Porque cada parte é do todo. E não há parte que supere o todo. Nunca.
Em qualquer tempo ou lugar.

Por que tentamos excluir?
Por que teimamos em pertencer ao que não nos cabe?

Se existimos, pertencemos. E me pertencem. Os filhos são dos pais e os pais são dos filhos. Para sempre. Nada muda isso. Nem a morte. Nem a vida. Selados por um encontro, pertencemos.

Um encontro entre um homem e uma mulher. Onde ambos são inteiros e completam.
Momentos que se eternizam quando a Vida sopra.
Não há como separar.

Em mim, pai e mãe são um só.

Para sempre.
Um não é maior que o outro. Ambos são partes e juntos são
o todo. Um pertence ao outro, e mesmo que se despeçam como casal, permanecem sistema, e permanecem um em mim. Em cada célula minha. Células que são parte e formam o todo. E a vida segue em frente. Em pleno movimento. Plena. Serena. E soberana.

Assim a vida se dá. Plenificando encontros. Eternizando vidas que pertencem. Multiplicamos. Crescemos. Esparramamos sementes dos frutos colhidos dos que vieram antes. Vida continuada. Sou parte. Colho e semeio. E o que espalho será colhido pelos que vem depois de mim. Porque sou só uma parte do todo que existe desde muito antes e que pode ir em frente, a partir de mim e dos meus encontros. Porque pertenço e selo. Continuo. Permaneço viva naquele a quem dei, nos solos que semeei.

Nasço, cresço, frutifico. Multiplico. Pertenço em partes e ao todo. Participo de novos sistemas.
Trabalho, organizações… sistemas!

Com meu trabalho, sirvo. Me coloco a serviço da Vida, do mundo e da humanidade. Então, mais pertenço!
Como parte, sirvo ao todo.
Esparramo sementes. Multiplico. Mas permaneço um só. Uma parte, de um todo. É só o que posso ser. Parte. Plena. Inteira e íntegra.

E como parte, pertenço e me coloco a serviço. Dou continuidade e crio. Atividade. Movimento.
Sigo em frente.

A serviço da Vida. Dou. Recebo. Troco. Complemento. Colho. Contribuo.

Equilibro no dar e receber a continuidade da Vida plena. Vida que é.
Em mim, em você, em nós, a Vida é.
Plena. Sem complementos.

Se há luta, há luto. Perda. Falta. Exclusão. Negação. Ilusão.
Pertencente, pertence para sempre.
Flui. Em colher e semear. Usufruir. Compartilhar. Organizar. Se dar. E Ser.

E então, volto ao início desse momento. No tempo.

Sistema BodyTalk. Sistema. Pertenço? Pertenço!

Me dou! Coloco a serviço. Colho. Semeio. Observo. Compartilho. Multiplico. Organizo a mim ao estar no meu lugar. Como parte, sou do todo. Pertenço. Recebo. E na medida que dou e colho, sigo em movimento de pertença.
Com o que é meu. Colhendo do outro.
E, do que é meu, usufruo e plenifico.
E do outro, colho e sirvo.

Escuta, revista sobre BodyTalk, ed. 1, inverno, 2020 4

Vai e vem. Em movimento. Sempre pertencendo. Aceitando
da vida. Acolhendo. Fazendo a flor ser. Florescer.
Em mim. No outro. Em todo.
Como parte. A parte que só cabe a mim. E que plenifica o todo em mim. E no outro.

Porque como parte, eu fico. Mesmo se partir.

Então…
Já sou parte. E do meu próprio lugar só eu posso ver. Estar. Observar. Ser.

Pleno Ser. Um só. Único. Especial. Extraordinário!
Como são todas as outras partes que pertencem ao todo. E em todos pertencem.

Que venha o que é meu. Que eu possa fazer boas coisas com isso. Tomar do que o outro oferece. Agradecer. E então, a Graça Ser. Em abundância.

Como lá no princípio da Vida. Soprar. Mover. E ir em frente. Esparramar sementes. Colher frutos. Se dar. Receber.

E assim, a Vida segue em frente. Em movimento.
Plena.
Soberana.

Eu quando eu partir, no momento em que a vida se fizer completa em mim, eu vou em paz. E fico.
Fico nas sementes plantadas.
Fico na existência pertencente.

Tudo está em seu lugar.
A vida flui.
Criatividade. Continuidade. Intimidade.

Vida multiplicada.
Que segue em frente. Em cada parte. No eu, em você, em todos, no TODO.

Usufruamos!
Vida em abundância desde sempre, para sempre. É só colher!

Somos sistêmicos. Sou Sistema.

E isso é BodyTalk.

Cláudia Morum Xavier Lapa Maio de 2020

(1) Cláudia Morum Xavier Lapa é
. Psicóloga clínica (atendimento individual, casal e grupo)
. Consteladora
. Terapeuta BodyTalk CBP e PaRama (certificada pela IBA)
. Palestrante
61 999949791
@claudiamorumxavierlapa

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