BodyTalk: Pensando sobre as sessões remotas e seus embasamentos científicos – um exercício de percepção

Natasha Mesquita

Ao me propor a escrever este artigo para a Revista Escuta, a ideia inicial era elucidar conhecimentos a fim de gerar maior compreensão sobre como fatos científicos esclarecem a possibilidade das sessões de BodyTalk serem também realizadas à distância. O foco do artigo segue sendo este, pois existe em mim um desejo legítimo de informar, a partir das experiências e conhecimentos que tenho, como este sistema tão maravilhoso pode também trazer benefícios a nossa saúde através das sessões remotas efetivamente. 

Mas a ressalva aqui se dá pois quando comecei a escrever e organizar os pensamentos, percebi que o caminho mais coerente parecia ser outro. Começar falando do sistema em si, independente de estar fazendo referência direta a sessões presenciais ou às remotas, refletir a partir do princípio fundamental do BodyTalk, trazendo então à tona embasamentos científicos, filosóficos e teóricos, convidando o leitor a um exercício de percepção, se estabelecia como caminho. Incomum seria falar de BodyTalk sem mexermos com paradigmas e particularmente acredito que só se transforma uma “forma de ver”, abrindo receptivamente os sentidos para o exercício de acessar informações por vários ângulos! Então vamos observar como essencialmente uma sessão presencial ou remota, não tem diferença?! Sigamos refletindo a partir do BodyTalk, elucidando sua definição fundamental e corriqueira: é um sistema de cuidados com a saúde baseado em consciência.

Aposto que esta definição gera de partida muitas perguntas. Afinal o que isso quer dizer? Onde está a consciência? Consciência se encontra em algum local físico? Ora, porque tantos paradigmas sobre a viabilidade de sessão a distância, se a consciência é imaterial? E se é imaterial como acessamos a consciência, esta ciência/conhecimento que não está na memória consciente, mas nas nossas heranças subconscientes? Então de onde vem nossos filtros de conhecimento sobre o que é possível, em se tratando de uma terapia energética, que atua pelo corpo sutil? E onde está expressa a ciência do corpo, o conhecimento dele sobre como agir e funcionar? Existe evidência sobre a localidade da consciência? E mais ainda, porque será que tantas vezes, só o que está atestado cientificamente nos parece válido e possível? 

Perguntas começaram a pipocar na minha mente sem nenhuma linearidade aparente, e fui tentando observar qual seria a relação entre todas estas indagações e o assunto que pretendia abordar aqui; aí lembrei de uma frase: “A ausência da evidência, não é evidência da ausência”; disse o astrônomo americano, cientista planetário, cosmólogo, astrofísico, astrobiólogo, autor e comunicador científico, Carl Sagan. Rapaz, porque será que este senhor foi estudar tantas especialidades? Seria por um desejo de compreender a expressão do todo e não só as partes que as “especialidades” ressaltavam?! 

E dá-lhe interrogações abrindo o espaço criativo!

“A ausência da evidência, não é evidência da ausência”. 

Faz sentido para você? Pra mim faz todo o sentido. O que eu conheço eu reconheço, e o que eu não conheço não existe?! E se o sentido, o direcionamento do nosso olhar e das nossas ações vem mesmo do âmbito sensorial de ser, como posso considerar como real só o que a ciência comprova, se o que eu sinto não se mede? Que conhecimentos e percepções teriam movido o cientista Carl Sagan a trazer à tona tal afirmação, tendo em vista que os procedimentos científicos levam em consideração o que se pode medir, quantificar, ver, pegar, evidenciar?

Pois é, foram as indagações que moveram minha busca no caminho de estruturação deste artigo. E não será sobre trazer respostas para cada uma delas mas ir clareando a proposta de seguirmos num exercício de percepção não linear, movida por elas. 

Então bora! Aterrando um pouquinho estes tantos pensamentos… se é que vou conseguir… inspira… e vamos tirar do ar e trazer para a terra… expira… 

Voltando à definição essencial do BodyTalk: um sistema de cuidados com a saúde baseado em consciência. Então acessamos como terapeutas do Sistema estas informações, esta consciência, este conhecimento sobre si que está além do nível consciente, está principalmente no subconsciente. Quem nunca viu a foto do iceberg só com a pontinha para fora d’água e aquele mundão de gelo submerso, e ouviu sobre a analogia ao subconsciente do indivíduo como a parte do iceberg mergulhada no desconhecido das profundezas. Compreendemos que estas informações todas, sobre o iceberg fora e dentro d’água, são as forças que nos moldam e nos movem, e são a base de toda a expressão corporal do sujeito, nossos padrões essenciais inscritos no comportamento biológico, celular, mental e social. Quando tomamos consciência de algo que estava submerso, abre-se o potencial de movimento entre todas as possibilidades de expressão. O simples ato de observar o que o corpo tem a dizer auxilia ele a mudar de assunto, transformar o condicionamento ampliando sua expressividade como um todo, facilitando assim seu potencial de vida cíclica, natural. 

“Escolhemos livremente quando superamos o ego, dando um salto descontínuo, chamado de salto quântico. (…) A síntese essencial do condicionamento é que, à medida que a consciência se identifica progressivamente com o ego, há uma perda correspondente de liberdade.” Amit Goswami aqui, com base na mecânica quântica, ressalta um pensamento parte do novo paradigma científico que redescobre a espiritualidade ao afirmar que é a consciência, e não a matéria, o substrato de tudo o que existe. 

Então, a consciência é o substrato de tudo o que existe e estes padrões, nossas impressões primárias de base que estão no consciente subconsciente do corpo mente, advindas de nossa cultura e herança assim como de nossa criação, a ciência do corpo expressa nos nossos genes, tudo que nos molda a ser quem somos e não alcança nossa lembrança; toda esta informação contida no corpo que expressa “a dor e a delícia” de ser quem somos estaria transitando por onde mesmo? E a memória genética que diz sobre como seu avô levou a vida dele, esta força que pode desencadear em você certo sintoma? Este conhecimento inato sobre si, que dá ritmo à natureza, está nos trilhões de células compostas por moléculas, partículas sub atômicas, elétrons e prótons, e via vibração se comunicam e compartilham informações. Espera, então esta informação está nas nossas micro partículas celulares que vibram… No fim das contas a comunicação não acontece por via material então? Como acessamos esta informação e “conversamos com o corpo” pelo BodyTalk? Tocando fisicamente no paciente?

Vamos falar então sobre estes registros, memórias e essa transmissão de informação.

Rupert Sheldrake biólogo, bioquímico, parapsicólogo e escritor inglês ficou bem conhecido por sua teoria dos campos morfogenéticos. Morfo significando “forma” e gênese “origem”, os campos morfogenéticos podem ser entendidos como ordens e estruturas que dão forma aos padrões de comportamento. Esta teoria defende que todas as coisas possuem uma auto-organização, determinada por seus próprios modelos estruturais.

Podemos dizer que estes campos mórficos são meios pelos quais circulam informações e não energia, ou seja, por onde comportamentos característicos são disseminados através do tempo e do espaço. Não são campos físicos ou estáticos, uma vez que são invisíveis e mutáveis e que possuem intensidade própria, que não perde força mesmo depois de sua criação.  Deste modo, Rupert defende que tanto pessoas, animais como plantas podem adotar determinados padrões comportamentais herdados de gerações anteriores e, do mesmo modo, podem perpetuá-los para as gerações seguintes.

Segundo o especialista em biologia holística, em se tratando de moléculas, ideias, cristais e sociedades, isso ocorre porque há um tipo de memória presente nestes campos morfogenéticos, advinda do passado, e que estimula a propagação de comportamentos dentro destes ambientes auto-organizados. Ainda de acordo com o especialista, este processo de herdar memórias inconscientes também pode ser chamado de Ressonância Mórfica.

“Os Campos Mórficos funcionam modificando a probabilidade de eventos puramente aleatórios. Em vez de uma grande aleatoriedade, de algum modo eles enfocam isto, de forma que certas coisas acontecem em vez de outras. É deste modo como eu acredito que eles funcionam”, destacou Rupert Sheldrake em seu livro: Uma Nova Ciência da Vida, lançado em 1981. 

A informação do indivíduo (e de tudo) está no espaço, no campo, orientada pelo ambiente auto-organizado que é você. Então a sintonia que ocorre entre paciente e terapeuta BodyTalk se dá pelo campo, a presença física não é necessária. Pelo campo nos conectamos de modo não local com o paciente, e do mesmo modo quando em sessão presencial. Nos sintonizamos com estas informações sobre a “forma de origem”, sua ressonância mórfica. Agregando aqui outras referências, citando de modo muitíssimo pontual, outros conhecimentos que podem corroborar e ampliar o entendimento da teoria de Sheldrake. 

O neurofisiologista Jacob Grinberg realizou o primeiro experimento comprovando a não localidade da consciência de forma inequívoca, usando máquinas objetivas. O físico Alan Aspect por experimentos demonstrou, em 1982, que objetos quânticos são capazes de influenciar-se instantaneamente, caso interajam e fiquem correlacionados por meio da não localidade quântica.

Vamos a um desvio?  Arejar a cabeça e exercitar a percepção?

Aposto que para muitos leitores a teoria do Sheldrake seja uma novidade. Leia novamente; nossos paradigmas não se transformam tão facilmente. Te soa possível? Talvez para alguns, o fato de ser uma teoria e não um fato científico já gere um descrédito imediato. Não se sinta julgado se foi o que aconteceu assim que leu a palavra “teoria”; nossos condicionamentos podem ser “mais fortes do que nós”. Já parou para observar qual a etimologia da palavra ciência? A palavra ciência até mais ou menos 1670, se referia ao conhecimento profundo sobre alguma coisa e a utilização deste conhecimento como fonte de informação. Então até 1670 quando se usava a palavra ciência era sobre conhecimento e ponto. Se eu me referisse à ciência do corpo ou do mundo, isso não tinha nenhuma outra possível conotação se não a de conhecimento. 

Uma nova atribuição à palavra surge em meados de 1725 quando ciência passou a designar “estudos que não incluem as Artes”. Hum… uma mesma palavra significa “conhecimento” e também “um conhecimento que exclui a subjetividade”, excluindo assim um aspecto do conhecimento. Me pareceu muito interessante e pertinente para deixar passar, a sugestão de pensarmos sobre esses significados e nossos filtros de percepção. Despojados de críticas e julgamentos, vamos só refletir sobre o quanto está implícito no uso da palavra “ciência”, uma percepção sobre valia, valor? Se ciência quer dizer conhecimento, quando falamos sobre “a ciência” estaríamos condicionados a perceber que ela é “O conhecimento”? Será? Mas de fato o que é a ciência se não um método, um caminho de observação. 

Mencionei Sheldrake e a ressonância mórfica para compreendermos a partir de sua teoria sobre estas forças que nos moldam essencialmente, e sobre como estão no campo as informações referentes a elas. Refletindo ainda a partir da definição básica do BodyTalk, vamos ao Amit Goswami, físico indiano, filho de um guru hinduísta, Ph.D. em física quântica pela Universidade de Calcutá na Índia, professor emérito do Instituto da Física da Universidade de Oregon nos EUA, e um dos pioneiros nos estudos que buscam conciliar a ciência e a espiritualidade, que defende uma nova visão de mundo em que a origem de tudo o que existe é a consciência e não a matéria. “Antes de qualquer coisa, temos de abandonar essa visão condicionada de que tudo é apenas matéria. Uma percepção materialista da vida serve apenas para denegrir toda a nossa experiência interna.” O autor conceitua a consciência como o fundamento de todo o ser e propõe uma nova ciência dentro da consciência. “O novo paradigma trata sujeitos e objetos, espíritos e matéria, nas mesmas condições”.

“Na ciência materialista existe apenas uma fonte de causação: as interações materiais. Damos a elas o nome de causação ascendente, pois a causa sobe desde o nível básico das partículas elementares até os átomos, as moléculas e a matéria densa que inclui as células vivas e o cérebro. Tudo bem, só que segundo a física quântica, os objetos são ondas de possibilidades, e tudo que as interações materiais conseguem fazer é transformar possibilidade em possibilidade, mas nunca em realidades que experimentamos.(…) 

Para transformar possibilidade em realidade, é necessária uma nova fonte de causação; podemos chamá-la de causação descendente. Quando percebemos que a consciência é a base de toda a existência e que objetos materiais são possibilidades da consciência, então também percebemos a natureza da causação descendente – ela consiste na escolha de uma das facetas do objeto multifacetado da onda de possibilidades, que então se manifesta como uma realidade. Como a consciência está escolhendo uma de suas próprias possibilidades e não algo separado, não existe dualismo.” 

Ressoando com Goswami o pensamento sistêmico propõe, em contraposição aos paradigmas científicos e ainda assim os considerando, os pressupostos da complexidade (vs. Simplicidade) da instabilidade (vs. Estabilidade) e da intersubjetividade (vs. Objetividade), e se aliam a fatos que a mecânica quântica traz à nossa ciência… ciência enquanto conhecimento e método de análise.  Talvez estes conhecimentos que podem ser novos para muitos, elucide possibilidades nunca antes contempladas por nossos filtros, já tão condicionados a ver de determinada forma, e a buscar somente as respostas lineares e cartesianas.

“Os primeiros físicos quânticos notaram que partículas subatômicas como os elétrons estão em comunicação instantânea uns com os outros – frequentemente centenas de vezes à velocidade da luz, e independentemente da distância – resultando no complexo corpo/mente como uma rede dinâmica ou um holograma de realidade e eventos inter-relacionados. Quando algo muda em um local, componentes dentro da rede naturalmente respondem e mudam também. Isto significa que em nível mais profundo, todas as coisas – e pessoas – no universo são interconectados.” John Veltheim, fundador do Sistema BodyTalk.

Na citação acima que é parte de um texto sobre as sessões remotas de BodyTalk, John está também se referindo ao entrelaçamento quântico (ou emaranhamento quântico, como é mais conhecido na comunidade científica). Este é um fenômeno da mecânica quântica que permite que dois ou mais objetos estejam de alguma forma tão ligados que um objeto não possa ser corretamente descrito sem que a sua contra-parte seja mencionada – mesmo que os objetos possam estar espacialmente separados por milhões de anos-luz. Isso leva a correlações muito fortes entre as propriedades físicas observáveis das diversas partículas subatômicas. Essas fortes correlações fazem com que as medidas realizadas numa delas pareçam estar a influenciar instantaneamente à outra com a qual ficou entrelaçada, e sugerem que alguma influência estaria a propagar-se instantaneamente, apesar da separação entre eles. Isto dá a entender que tudo está conectado por “forças” que não vemos e que permanecem no tempo, ou estão fora do sistema que denominamos, entendemos ou concebemos como sistema temporal. Tudo está sistemicamente relacionado e conectado.

A física quântica nos traz ainda, através de experimentos e teorias, que fatos existem sim, mas podem ser subjetivos, que diferentes observadores podem ter acesso a diferentes fatos que podem coexistir entre eles. O observador traz à tona a força de coesão e manifestação das ondas de possibilidade que estão ali no campo. Então quem sabe você é observador de parte de sua história, a que conhece conscientemente, mas partes da sua história subconsciente com registros de informações presentes no seu campo morfogenético podem ser percebidas e observadas por outro observador que não você mesmo, trazendo à tona a força da sua liberdade de expressão natural. 

Vamos respirar um pouco, dar tempo para deixar… só deixar toda essa informação circular. Respirar e parar de tentar entender, deixando a compreensão acontecer, a poeira assentar da forma que for.

Lembrei da Clarice Lispector… do livro Água Viva… “agora é um instante, já é outro agora. (…) viver, ultrapassa qualquer entendimento”. Respirar para processar informação, agora após agora… ressonância mórfica, consciência descendente, pensamento sistêmico, emaranhamento quântico,… teorias e fatos científicos que se complementam no exercício aqui proposto de refletirmos sobre como as sessões remotas de BodyTalk, por princípio essencial, não tem diferença das presenciais. Acessamos pelo campo o que a sabedoria inata do corpo tem como prioridade para nos relatar sobre a consciência que descende, a causa que então se manifesta fisicamente no corpo.

Me valendo da arte mais um pouquinho, dando espaço para esta “ciência do subjetivo”, que tanto se emaranha com a terapia. Sendo a arte uma via de liberação da força criativa assim como é a via terapêutica, segue uma analogia: a informação do artista chega a você, seja através da pintura, da escultura, da dança, do espetáculo televisionado ou ali do palco. Chega de modo não linear o movimento da expressão, a energia que gerou a forma é o que chega, não é em si a forma, mas o potencial que a gerou. Claro que estar presencialmente, fisicamente com alguém é em si uma experiência diferente de não estar, e não poderia ser este comentário mas pertinente à experiência de todo mundo nestes tempos de distanciamento social!!! Mas ainda assim, aqui me refiro à essência da informação que precisa de movimento e como ela pode ser acessada e transmitida, para que o potencial de uma sessão de BodyTalk seja pleno no que se propõe, facilitar comunicação e assim a sincronia do equilíbrio dinâmico do corpo. É complexo? Mas é simples. É dual? Neste mundo tudo é. A simplicidade é a de melhorar a comunicação consigo mesmo para viver a vida de modo mais equilibrado, transitando pelos polos. Este é o foco fundamental do Sistema BodyTalk, e tanto faz a forma.

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BodyTalk e sua ciência, fatos baseados na consciência

Nirvana Marinho

Na pesquisa cartográfica “BodyTalk no Brasil: uma possível cartografia”, realizada com as terapeutas bodytalkers Ana Marcela Sarria e Daniele Pires (2019), foi uma metodologia capaz de nos levar a realizar um desenho cronológico do BodyTalk no Brasil e também nos possibilitou vislumbrar a evolução deste sistema, desde idealização, criação, estabelecimento de uma associação internacional (IBA, International BodyTalk Association). 

Em 2020, outra pesquisa “As articulações e como se faz de um, um todo” reuniu terapeutas bodytalkers em torno da troca de sessões com foco específico, sobre as articulações, embora notadamente qualquer sessão de BodyTalk seja guiada pela prioridade e vínculos que possam aparecer. Foram elas: Alessandra Batistuta, Dani Acosta, Debora Junqueira, Fernanda Marquesin, Rafaela Capote, Myrella Brasil, Nirvana Marinho, Sirlene Aparecida Silva e Soraya Chagas. E desta experiência, surgiu um ensaio que conta de uma metodologia possível para a prática terapêutica que olha para as sessões e sua dinâmica sistêmica e revela quais histórias surgem quando falamos de articulações.

Outra pesquisa ainda, também em 2020-2021, surge para contar do projeto inspirado pela Dra Janet Galipo e encabeçado pela Associação Brasileira de BodyTalk (ABBTS) e cuja coordenação foi guiada por Ana Carolina Vasconcelos, Luciana Pontes, Natasha Mesquita e Nirvana Marinho. O projeto teve o escopo de atendimento com contribuição consciente e variada a pacientes com sintoma ou diagnosticado com COVID-19, em meio a uma pandemia sem precedentes e aumentada pela necessidade de isolamento social. Os atendimentos foram feitos por um grupo de aproximadamente 20 terapeutas de BodyTalk, à distância, entre os meses de junho e setembro de 2020 e a pesquisa que se desdobra daí deve se estender ao longo de 2021.

Essas três citadas pesquisas fazem parte de um cenário importante para o BodyTalk no Brasil. Justamente por se tratar de um sistema de saúde baseado em consciência, BodyTalk é uma abordagem sistêmica que tem sua autorganização, homeostase e evolução constantes.

Muitos terapeutas vêm consolidando na prática clínica do BodyTalk tal perspectiva: suas percepções são evidências da consciência por se tratar de uma abordagem de saúde baseada na expansão do “Eu Sou”. Ou seja, quanto mais conheço do “Eu sou”, da consciência, mais evidências sistêmicas no meu corpo posso perceber, mais holística, mais integrada. 

A prática não dualista da consciência, descrita e inspirada por mestres como Ramish Balsekar (1917-2009), Jiddu Krishamurti (1895-1986) e Mooji (Anthony Paul Moo-Young, 1954-) são uma base consistente para o que o BodyTalk entende como expansão de consciência, autoconhecimento e saúde. E isso, por sua vez, é contemporâneo a uma concepção científica do corpo-mente que deságua nas práticas integrativas. O BodyTalk é uma delas e específica na convergência entre ciência e filosofia. 

Três autores (homens, isso é um parênteses importante) tornam forte a base científica da qual o BodyTalk repousa: Fritjof Capra, James Oschman e Amit Goswami, aqui eleitos por tantas citações que deles existem nos cursos e palestras do universo do BodyTalk, citados pelo Dr John Veltheim, criador do BodyTalk.

Fritjof Capra (1939-) Ph.D., é cientista, educador, ativista e autor de muitos best-sellers internacionais; um físico e teórico de sistemas nascido em Viena, Capra tornou-se popularmente conhecido por seu livro, “O Tao da Física”, que explorou as maneiras pelas quais a física moderna estava mudando nossa visão de mundo de mecanicista para holística e ecológica. Publicado em 1975, hoje ainda é impresso em mais de 40 edições em todo o mundo.

James Oschman é autor de uma série de artigos inovadores sobre “energia de cura” publicada no “Journal of Bodywork and Movement Therapies”. Esses artigos foram agora desenvolvidos em dois livros, “Energy Medicine: The Scientific Basis” (2000) e “Energy Medicine in Therapeutics and Human Performance” (2003). Esses dois livros fornecem aos cientistas acadêmicos mais céticos uma base teórica para explorar a fisiologia e a biofísica dos medicamentos energéticos.

Amit Goswami (1936-) é físico quântico teórico Dr. Amit Goswami é um revolucionário entre um crescente corpo de cientistas renegados que, nos últimos anos, se aventurou no domínio do espiritual na tentativa de interpretar as descobertas aparentemente inexplicáveis ​​de experimentos curiosos e validar intuições sobre a existência de uma dimensão espiritual da vida. Um prolífico escritor, professor e visionário, Dr. Goswami aparece no premiado documentário, The Quantum Activist.

Segundo Capra, nos últimos trinta anos as ciências têm avançado a tal ponto mudar nossa visão de mundo, nosso paradigma, “levando a uma nova visão da realidade e uma nova compreensão das implicações sociais dessa transformação cultural”. A relação do sujeito que observa e do que é observado muda. A medida em que quem observa pode modificar o que é observado, temos uma nova descrição dessa relação. Novos movimentos estão em jogo, que não são observáveis pelos mesmos métodos científicos conhecidos – aqueles da evidência, da contraprova, da precisão do que é observado. 

Capra conta-nos no seu célebre livro “O Tao da Física” (1975, edição original) como a física moderna e atômica acabou por definir não somente toda uma tecnologia de saberes mas também uma cultura de pensamento de muitos decênios e que, no século XX, a ciência subatômica revelou limitações da sua precedente. E foram curiosamente as tradições filosóficas e religiosas do Extremo Oriente que trouxeram luz as descobertas científicas que encontraram limites a descrição do mundo tal como concebia a física moderna. Esse limiar, essa quebra de paradigma trouxe consequências diretas a nossa concepção de corpo, mente e, portanto, saúde e consciência. A descrição científica das propriedades e interações das partículas subatômicas que dizem respeito a composição da matéria vem explicar energia e troca de outros modos, antes descritos lineares na física tal como conhecemos. Os instrumentos e métodos mudaram e a ciência evolui para o encontro com aquilo que chamávamos de místico ou metafísica para um entendimento mais amplo do corpo-mente. 

Uma das principais bases que norteiam a formação do terapeuta de BodyTalk é justamente compreender o salto conceitual da concepção cartesiana do corpo – aquele que o separa de uma substância que o move e a parte movente – para uma concepção holística e sistêmica – a soma das partes é maior que o todo (ou seja, não é dividindo as partes que você pode deduzir sobre o todo) e as partes estão em relações dinâmicas e complexas. Esse salto muda toda a dinâmica de observação do corpo e suas bases científicas desaguam na possibilidade de compreender a história do pensamento corpo-mente desde sua divisão até sua recente integração. Mais complexo que isso, desde as tradições orientais, até a descrição do corpo dos antigos gregos até a fundamentação da ciência moderna, essa elipse de transformação do pensamento encontra no século XX um novo fôlego. 

James Oschman, em “Energy Medicine – The Scientific Basis” (2000), traz uma perspectiva histórica de como atravessar o paradigma da “energia sutil” ou “força da vida” para uma base biológica e científica de como a energia atua no corpo que data do início do século XX com os estudos sobre bioelétrica de Harold Saxton Burr (1889-1973). Suas descobertas e análises do campo eletromagnético do corpo contam-nos como ocorre a trajetória das informações e como o corpo é um complexo de sistemas. Ou seja, o autor é uma base sobre a qual o entendimento da física quântica pode explicar como energia se comunica no corpo-mente: a partir da trajetória das informações na complexidade que o corpo é. Assim a medicina energética se fundamenta.

BodyTalk é justamente sobre como o corpo reestabelece seu potencial de comunicação como potencial de equilíbrio e sincronia. O corpo-mente gosta de estar em harmonia e sabe reconhecer quando seu fator principal de desequilíbrio se instaura, o estresse. Sabe também reconhecer suas prioridades e sua forma de promover a comunicação, que é a sessão propriamente dita de BodyTalk. 

Segundo Goswami: 

“o nosso corpo já tem a sabedoria necessária e o mecanismo de cura: precisamos apenas descobri-lo e manifestá-lo. (….) A consciência possui a sabedoria necessária (no seu compartimento supramental), o mecanismo (a escolha de um novo contexto para o processamento mental do significado das emoções) para a cura. Ela tem também o poder de descobrir o que é preciso (o poder de dar o salto quântico do insight) e tem o poder de manifestar o insight, desbloqueando o programa vital, e assim desbloqueando também os órgãos físicos correlacionados, o que reanima as funções apropriadas dos órgãos. (Goswami, 2006, 231). 

Amit Goswami em “O médico quântico” (2006) diz que o caminho da cura para a inteligência supramental é justamente a compreensão dessa dinâmica energética. Isso porque “a consciência pode curar a doença, desestruturando e reestruturando o sistema de crenças que lhe serve de base” (Goswami, 2006, 66). Vejamos como isso funciona entendendo quais preconceitos estão em questão.

O materialismo estrito é “a ideia de que tudo é feito de matéria e de seus correlatos, a energia e os campos de força”. Dessa forma, mente e consciência são epifenômenos da matéria. Isso tem como consequência a causação ascendente que faz que toda causa se desdobra de baixo para cima, a partir dos níveis das partículas elementares da matéria até a consciência, restringindo e forçando a equiparar a mente com o cérebro. Tudo seria um mecanismo. Não haveria espaço para aspectos extrafísicos como chi ou prana. Seja a consciência um epifenômeno ou mente e corpo como objetos duais separados, como tudo pode interagir? A questão permanece. 

Outro preconceito é a continuidade que orienta tudo para uma causa e que as causas atuam de modo contínuo. Nessa lógica, como explicar as remissõs e curas espontâneas que não são graduais mas repentinas? Outro preconceito ainda diz respeito a crença da localidade que buscam determinar que as causas e efeitos tem um local e que se propagam pelo espaço por meio de sinais num período de tempo finito. 

Sobre tais conceitos preestabelecidos, Goswami cita Chopra em seu livro seminal “Cura Quântica” (1989) conta como a mente interage com o corpo por meio de um corpo quântico e que é a consciência que faz a mediação dessa interação. Conta-nos que, na verdade, é uma causação descendente, que é a consciência que parte a cura, e que, de fato, isso ocorre em saltos quânticos e descontínuos. Goswami afirma que “o colapso quântico das ondas de possibilidade é fundamentalmente descontínuo” (Goswami, 2006, 69), sendo também não-local, o que quer dizer que não é o local que determina a cura, mas sim seus movimentos. Surge aí um novo paradigma de pensamento para a medicina – para a concepção de cura, do corpo e mente – que vem explicar, portanto, esses três novos conceitos: a causação descendente, a não-localidade e a descontinuidade. 

Com esses conceitos, Goswami sintetiza e amplia a visão da medicina energética, a partir da compreensão do quantum – “um pequeno feixe discreto de energia que não pode mais  ser dividido” – e amplifica conceitos já elaborados por seus colegas pesquisadores: que a troca de energia que, antes a física explicava somente linearmente, pode ser observada de outra forma como Capra definiu; que a energia faz parte do processo de cura, organização e comunicação do corpo como observa Oschman. Esses e outros autores compõem uma epistemologia importante das bases científicas de práticas terapêuticas como o BodyTalk.

Concluir esse artigo não é fácil tarefa porque muitas explicações, reflexões e teorias são necessárias para reorientar nossas bases de uma medicina, da ideia de cura, da concepção de corpo mente. Mas convido que seja um primeiro passo para sua curiosidade, para seus sintomas, para suas histórias. O corpo mente pode ter outros caminhos, integrados, para realizar sua “mágica”, seu “mistério” de saber mais de si, de fazer a jornada do “Eu Sou”. 

BodyTalk é uma prática terapêutica de saúde e, sobretudo, baseada em consciência. Por isso, compreender suas bases é revisitar conceitos científicos e também filosofar sobre o todo do corpo e suas partes dinâmicas. 

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Uma breve provocação: para você, o que é saúde?

Por Ana Carolina Medeiros de Vasconcelos

O exercício de escrever esta colaboração para a terceira edição do Escuta nasceu justamente de uma escuta. Minha proposta inicial era ler os textos de meus colegas e, de alguma forma, costurá-los. Só que não fazia ideia de como isto surgiria. 

Foi então que, a partir da leitura prévia dos textos, me escutei indagando: “BodyTalk é um Sistema de Saúde baseado em Consciência, mas, afinal de contas, o que é saúde?“

Esta provocação fez todo sentido, pois saúde é aquela palavra que fica ali no meio, camuflada porque, de maneira geral, supomos que já há uma compreensão anterior sobre ela.

Só que, desta vez, saúde se descamuflou e se mostrou ser a agulha que faltava para essa costura. Resolvi, portanto, provocar em vocês o que esta escuta provocou em mim. 

Me arrisco a dizer que, a maioria das pessoas que procuram atendimento com BodyTalk, chegam em busca de uma melhor qualidade de vida, autoconhecimento, bem estar, ou algo do gênero. De maneira geral, querem ser mais saudáveis. 

Ana Claudia Quintana Arantes, médica geriatra e gerontologista especialista em cuidados paliativos, ressalta que “ser saudável é ser guardião da vida”: “O ser humano é único, não é replicante. Quem trabalha com cuidado paliativo tem menor índice de estresse profissional possível porque nós aprendemos a dar valor à vida”. Ana Claudia Arantes nos relembra que, enquanto há vida pulsante em um corpo-mente, há a guarda da vida, ainda que o corpo físico esteja perecendo.

Dessa forma, somos todos saudáveis, mas “nossa saúde não é fixa nem permanente”, como nos adverte Monja Coen. Por isso, ela nos conecta diretamente com o estado de impermanência e vulnerabilidade. “Nós precisamos saber o que nós podemos fazer e quando temos que parar. O que é conveniente e o que é inconveniente e aí nós podemos manter um estado regular de saúde, mas que não é permanente”. Coen nos dá, então, a dica de que saúde também é guardar a vida observando e respeitando nossos contornos.

Moacyr Scliar vai além e complementa: “o conceito de saúde reflete a conjuntura social, econômica, política e cultural. Ou seja: saúde não representa a mesma coisa para todas as pessoas. Dependerá da época, do lugar, da classe social. Dependerá de valores individuais, dependerá de concepções científicas, religiosas, filosóficas”, isto é, passa por muitos filtros. Portanto, saúde também é ponto de vista. “O mesmo, aliás, pode ser dito das doenças”.

Mas ponto de vista de quem? 

Pelo olhar do BodyTalk, vamos focar no ponto de vista do paciente a partir de um evento de impermanência e vulnerabilidade manifestado através de um sintoma.  

Este ponto de vista conta como a história do sintoma se desenvolveu até se sobrepor ao estado natural do ser e levá-lo a duvidar da sua saúde, da sua habilidade de guardar a vida, independentemente dos sintomas ali manifestados. É como se a sabedoria inata nos desse pistas de uma história que podemos desvendar a fim de integrar este novo estado e retirá-lo da dúvida em relação a sua habilidade inata de curar-se. 

Dessa forma, nossa busca por ser saudável carrega em seu interior a vontade de mudar pontos de vista e se dirigir a um novo estado de percepção do eu.

Saúde também é, portanto, o ponto de vista que integra este estado de percepção.

 “Bem, em termos práticos, é nítido que muitas vezes precisamos de alguma crise a fim de despertar para essa verdade. Sem uma crise pessoal ou social, a tendência é não nos incomodarmos com as mudanças. Para alguns de nós, uma crise de autoconfiança ou uma crise pessoal de infelicidade faz a diferença (…) quando você passa por uma crise como essa, ela lhe dá a tenacidade de que você precisa” – Consciência Quântica, Amit Goswami, pág 182.

Por isso, é mais sobre como estamos guardando esta vida e o que estamos guardando dela. 

Essa reflexão me leva direto a experiência pessoal com as práticas meditativas do Taoísmo que nos orienta a tapar os olhos com a palma das mãos, antes e após a meditação, como forma de guardar a luz de nossos espíritos. 

Dentro do Taoísmo, a meditação é uma prática filosófica que nos realinha com nosso Tao, o nosso Caminho, e nos leva de volta pra casa. Por isso, também é vista como prática de manutenção da saúde. Curioso, né?

Saúde, portanto, também é a habilidade de estarmos cada vez mais alinhados com nosso Caminho, satisfazendo a alma.

“Com frequência, as pessoas me perguntam qual o significado e o propósito de uma existência humana na Terra. O que estamos fazendo aqui? A visão de mundo quântica nos dá pistas sobre esse propósito? Em termos bem simples, a resposta para essas perguntas é que estamos aqui para satisfazer nossa alma. Então, cada pessoa deve se questionar: O que me satisfaz de fato” – Amit, pg 181

Percebo, portanto, que está na hora de voltarmos à frase de definição do Sistema BodyTalk. 

Sendo um Sistema de Saúde baseado em Consciência, as sessões de BodyTalk lembram  ao nosso corpo-mente que ele pode guardar a vida em maior ressonância com a Consciência e ir, aos poucos, voltando para casa sem tantos desvios, satisfazendo, de fato, sua alma.

E, pra você, o que te satisfaz?

Referências audiovisuais

Ana Claudia Quintana Arantes – Aula 1 “O Grito” – Os Inumeráveis Memorial

Ana Claudia Quintana Arantes – A morte é um dia que vale a pena viver

Monja Coen – Nossa saúde não é fixa nem permanente. Como nos cuidamos?

Referências Bibliográficas

História do Conceito de Saúde, Moacyr Scliar

Consciência Quântica, Amit Goswami, 2018, Editora Goyo

Páginas citadas 181 e 182

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O Caminho da Individuação

Márcio Ribeiro

A partir do instante em que nascemos, surge um movimento inconsciente por aceitação. Embora nem todos desenvolvamos a sensação de não sermos amados, desejados e queridos, de acordo com a formação da nossa consciência de separação, todos buscamos ser aceitos. 

Por vezes, observamos que a nossa chegada no mundo traz uma mudança potencialmente agradável, mas que também gera um grande peso para as pessoas que nos recebem. Trata-se de um peso que essas pessoas buscam disfarçar com toda força (seja por valores culturais e éticos ou, simplesmente, pelo cuidado em nos acolher), e assim eventualmente conseguem transformá-lo em amor. Ainda assim, o peso existe.

A partir daí, o que podemos perceber é que no transcorrer de uma vida, o ser humano desenvolve várias máscaras em busca de aceitação, retribuição ou obtenção de alguma recompensa. Pressionados pela intensidade de cada estágio que passamos desde a infância, ouvindo opiniões sobre nos parecermos mais com o pai ou com a mãe, por exemplo, buscamos crescer.

Então, desde o início da jornada, todos nós recebemos uma carga consensual com os códigos para pertencermos. Essa carga evolui para a máscara principal que adotamos e com a qual vivemos, mas que nem por isso torna-se um fardo para todos. Porém, na percepção de alguns, essa máscara cria uma ideia equivocada de que aqueles que nos trouxeram ao mundo deveriam ser responsáveis por nós, cem por cento do tempo. Essa é uma demanda que, por sua vez, passa a se apresentar como um grande obstáculo.

Ao não aprender a lidar com essas máscaras, ou ainda, ao não buscar uma versão individual de nós mesmos, dentro do espaço-tempo da nossa mortalidade, nos distanciamos do sentimento de valor e amor próprio e, principalmente, da individuação.

Enquanto terapeutas de BodyTalk embasados no vasto conhecimento da filosofia Advaita Vedanta, a busca por essa individuação se torna um desmascaramento dos momentos cruéis em que julgamos o outro, ou nos quais nos sentimos julgados. Desta forma, a busca pela individuação nos alimenta com um senso de que é possível sim viver, apesar da impossibilidade de sermos aceitos o tempo inteiro. 

Entendemos que é possível viver com um sentimento de paz, apesar de não termos controle absoluto sobre nada. Compreendemos que precisamos fazer do controle um legado ilusório, porém necessário, para as vivências mundanas do cotidiano. Afinal, esse controle é útil; inclusive para evitar uma reação de emoção exagerada diante dos desafios que surgirão na interação com o outro, a partir do nosso processo de individuação. 

Vale ressaltar que não importa o quanto você se individue, o mundo não precisa acompanhar a sua individuação. Ou seja, o outro não precisa estar bem-resolvido para que você também possa estar em um lugar melhor. Embora o conhecimento seja impessoal, esta é uma jornada pessoal, na medida em que a iluminação é para todos, mesmo que o despertar nunca seja igual para ninguém. 

Tomar esse despertar pode implicar, para alguns mais que para outros, uma sensação de isolamento, de solidão ou, até mesmo, de estar a um passo de uma depressão. Outra percepção que habitualmente acompanha o despertar de consciência é o sentimento de não ser entendido. 

Mas o grande trabalho de um terapeuta de BodyTalk é de somar-se ao entendimento de que o corpo-mente quer essa individuação; todo ser deseja lembrar-se de quem é, na origem. Por esse motivo, devemos sempre ter em mente a analogia da onda no mar. 

A onda, quando se percebe ainda identificada com o mar, ela faz da corrida em direção a praia o seu grande objetivo. Poderíamos dizer que ela traça caminhos e metas para chegar até seu destino: primeiro, vem crescendo como uma marola no meio de um oceano, até tornar-se onda forte, corajosa e capaz. É assim que ela, destemidamente, alcança a praia. Conforme o mar a recolhe para a fusão e ela percebe que a praia não é o fim da jornada, surge a consciência de nunca ter sido separada do oceano. É a partir desse desapontamento egóico que se inicia o despertar espiritual.

Seguindo a mesma linha, ao longo da vida humana passamos por desafios, gestamos motivações, vestimos máscaras para dar conta, buscamos melhorar para sermos aprovados e aceitos. Acreditamos que desta forma vamos conseguir alcançar algum objetivo, que assim que chegarmos lá seremos felizes; e que se não atingimos esse marco, significa então que não fomos ninguém, não fizemos nada, não chegamos em lugar nenhum. Sem contar que muitas vezes projetamos essa felicidade no outro como se fosse um objetivo comum. 

Talvez a nossa grande inflexão possa estar em dar-nos conta de que não é sobre o resultado final e nem sobre ser feliz, mas sim sobre experienciar essa jornada inconstante, impermanente, que nos é dada e tirada, sem aviso prévio. Viver os prazeres, os despertares e os lutos, inclusive da perda dessa efêmera experiência de onda. O ouro está na faísca potencial de despertar para a jornada por si só, como jornada da alma, e não em função de algum resultado egóico final. A experiência da convivência, do diálogo, do afeto, do amor… Isso é o que interessa e faz o exercício da jornada da alma valer a pena.

Portanto, no que diz respeito a nós, terapeutas, que temos o conhecimento das consciências naturais do corpo e as dinâmicas dualísticas que elas nos convidam a viver aqui: quanto mais individuados, mais este ir e vir de vivências será percebido apenas como uma oscilação na onda. 

Para mim, este é o marco zero a partir do qual eu já não me encanto mais com a adrenalina de surfar a crista da onda, pois afinal, sei que a onda também baixa. Tampouco me paraliso quando tudo se silencia. A vida então começa a ser trançada de impermanência, agora bem menos assustadora, e ressalta aquilo que mais temos que reconhecer na nossa história humana: a vulnerabilidade, não como um sinal de fraqueza, mas de humanidade. Afinal, mesmo pertencendo à vasta consciência-oceano, somos apenas seres humanos. 

Na jornada infinita da alma, somos ondas com término determinado, mas expressamos consciência quando nos percebemos conectados ao potencial infinito de possibilidades. Agora, os nossos pais já não são mais responsáveis por nós, a cultura não é responsável por nós, e tampouco há culpa por estarmos atravessando qualquer experiência. A religião, que já não dava todas as respostas, agora ocupa o lugar de nos servir durante a jornada, até o ponto de não servir mais. 

Agora o eu já não segura mais, não julga mais, não critica mais, e não busca ser aceito ou amado quando percebe que não o é. Agora há amor-próprio e auto-aceitação, inclusive diante de outras ondas que, ainda identificadas, se acham separadas do oceano, e assim, de mim mesmo. 

Individuados, livres, ao fim da jornada, temos o potencial de morrermos despertos, quando a faísca de iluminação retorna à essência do todo. Conectados com o todo, individuados, não importa mais que as relações sejam agradáveis ou que tragam felicidade. Agora todos pertencem ao ciclo de múltiplas facetas, sem jeito certo de ser ou de viver, porque toda a expressão do universo é válida.

O importante é manter um caminhar centrado e conectado, na companhia desapegada de todos, buscando viver e resolver aquilo que nos cabe, em homenagem a essa força que governa a todos, dê a ela o nome que quiser: amor, consciência… Pouco importa, desde que o caminho seja aquele da individuação.

Finalizo com Balsekar (1992, p. 200, grifo do autor)

Você não pode evitar estar aqui! Eu não pude evitar estar aqui. Este-que-está-falando e aquele-que-está-escutando precisam estar aqui para que a fala-escuta ocorra como um evento. Você pensa que você está ouvindo, mas a escuta está ocorrendo através do mecanismo do corpo-mente e isto é parte do processo de desidentificação, de iluminação, que acontece. E no processo de desidentificação, no processo evolutivo, isto é um evento. Isto é um evento específico. Portanto, esta escuta está ocorrendo através do mecanismo do corpo-mente porque tinha que ser assim neste momento, neste lugar. Isto é parte do funcionamento da Totalidade.

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Prefácio Ed. 3 Escuta

Renata Ururahy [1]

Tendo praticado e estudado BodyTalk internacionalmente, estou muito honrada em fazer parte da terceira edição do Escuta e desta forma me conectar com a matriz brasileira de terapeutas BodyTalk.  É com muita alegria que vejo o sistema se desenvolver de forma tão profissional e qualificada no país do meu coração.

Acredito que estamos em um momento único na história da humanidade, em que existe a possibilidade de um salto quântico na forma das pessoas entenderem a dinâmica do corpo-mente de forma mais interconectada, que trará uma grande demanda das terapias baseadas em consciência.  

Nesta edição os artigos vêm explorar, em diversos ângulos, o princípio fundamental do BodyTalk como sistema de saúde baseado em consciência e refletir na importância crucial deste princípio para o alcance de um verdadeiro estado de saúde.    

Marcio Ribeiro nos convida a questionar o que faz a jornada da alma realmente valer a pena e como viver essa jornada inconstante e impermanente de forma centrada e conectada. Seu artigo é uma bela descrição da importância do processo de individuação que o BodyTalk facilita ao encontro do amor próprio e autoaceitação. Marcio traça uma trajetória desde o momento onde formamos nossas máscaras em busca da aceitação e pertencimento ao momento em que nos reencontramos como os seres que realmente somos.  O artigo explora a possibilidade de vivermos desapegados de resultados egóicos e “Livres, ao fim da jornada, temos o potencial de morrermos despertos, quando a faísca de iluminação retorna a essência do todo.” afirma Ribeiro. 

Luciano Flehr, em seu artigo divide conosco relatos incríveis de resultados alcançados com o BodyTalk em diferentes etapas de seu crescimento como terapeuta. Fazendo parte do sistema há mais de doze anos, me identifico muito com a forma em que Luciano se apaixona pela modalidade e as possibilidades que ela nos oferece de transcender aquilo que acreditamos ser possível dentro do paradigma da medicina moderna. 

Refletindo na definição fundamental do BodyTalk como sistema de cuidados com a saúde baseado em consciência, Natasha Mesquita nos convida a questionar “Por que tantos paradigmas sobre a viabilidade de sessão a distância, se a consciência é imaterial?”

De forma descontraída e intrigante, o artigo nos desafia a refletir como acessamos as informações nas sessões de BodyTalk e a importância da simples observação do terapeuta do que o corpo tem a dizer como fator causal do processo de transformação. 

Natasha explora o embasamento científico da física quântica para explicar como as sessões de BodyTalk podem ser efetivas tanto pessoalmente como a longa distância, apresentando o conceito de campos morfogenéticos e entrelaçamento quântico usados para descrever a interconexão de todas as coisas no universo. Além disso, o artigo instiga o questionamento de nossas crenças acerca do que é o conhecimento, trazendo a importância da qualidade subjetiva e da experiência interna ao processo de validação do conhecimento. 

Em uma edição da Escuta que reflete novos princípios científicos para entender terapias integrativas e quânticas como o BodyTalk, Nirvana Marinho em seu artigo “BodyTalk e sua ciência, fatos baseados na consciência”, nos apresenta três pesquisas realizadas no Brasil nos últimos dois anos. Nirvana também nos introduz à três autores que fortalecem a base científica do BodyTalk: Fritjof Capra, James Oschman e Amit Goswami que nos oferecem uma ponte entre a ciência e a filosofia e descrevem uma prática não dualista da consciência, nos levando a uma nova visão da realidade.

Em seu artigo, Ana Carolina Medeiros de Vasconcelos provoca o leitor a questionar o verdadeiro significado de saúde e nos convida a incluir o conceito do valor que damos à vida quando pensamos em saúde. O artigo reflete na natureza impermanente do nosso estado de saúde e da importância de práticas (como o BodyTalk) que promovem o alinhamento com a Consciência e buscam satisfazer a alma no caminho de volta para casa como aspectos fundamentais na promoção da saúde.   

Aproveitem a leitura dos artigos desses incríveis profissionais.

[1] Formada em Nutrição pela UnB, Renata se mudou para os EU para expandir seu conhecimento em terapias integartivas, onde completou seu mestrado em Nutrição Holística pela Clayton College of Natural Health. Em busca de se aprofundar na compreensão da interação corpo-mente, se certificou como Terapeuta BodyTalk, Instrutora de Yoga e Reiki Master. Renata realiza atendimentos pessoais e a distância no Brasil e Estados Unidos, além de trabalhar com grupos de mulheres em processo de descoberta espiritual.

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Auto investigação e o caminho espiritual

[1]

Esther Veltheim[2]

Seja paciente na direção de tudo que está insolúvel no seu coração e tente amar as questões elas mesmas, como quartos fechados e como livros que são agora sendo escritos numa língua estrangeira. Não procure respostas, que não podem ser dadas a você porque você não está apto a viver com elas. E o ponto é, viver com tudo isso. Viva as questões agora. Talvez você irá gradualmente, então, sem perceber, viver em algum dia distante em direção ao futuro”. – Rainer Maria Rilke

Pergunte para vinte pessoas diferentes o que duas pequenas palavras “caminho espiritual” significam para elas e você irá provavelmente receber vinte respostas diferentes. Mas tem chance que muitas destas explanações irão conter o termo “ser iluminado”.

Caminho spiritual. Tornar-se iluminado, iluminar. Ser uma pessoa espiritual. Quase qualquer pessoa envolvida em cura alternativa ou algum tipo de yoga irá ter cruzado com essa terminologia ou mesmo regularmente usado esses termos.

Uma coisa é muito certa. Se seu objetivo é tornar-se iluminado, a crença que falta algo em você vai te pegar. O oposto também pode acontecer. Se seu objetivo é tornar-se iluminado, é possível que você esteja resignado com a ideia que existe alguma coisa que você precisa galgar ou antes algo tem que acontecer. Talvez o ego, o Eu, seus pensamentos. Talvez tudo isso.

E então, existem todo tipo de trajetórias espirituais que você pode considerar. E então existem todas as diferentes explicações sobre elas. E então existe o que você sente dentro de você. Talvez uma profunda frustração, uma nostalgia, uma sensação de “isso não é possível?!”, “existe algo mais”, “o que é a vida nisso tudo?”. Se você se relaciona com alguma coisa aqui, você não está sozinho. Espiritualidade é um assunto que tem algo de desconcertante, intrigante, sedutor, desafiador e direciona as pessoas para limite da loucura, provavelmente como nunca antes você experimentou.

Existem alguns maravilhosos ensinamentos e mestres no mundo que inspiram e catalisam nossa jornada espiritual. Alguns dos mais amados e renomados mitologistas e mestre em contar histórias, Joseph Campbell, nos convoca para nossa jornada espiritual chamado Jornada do Herói. E, claramente, nenhuma palavra melhor se aplica do que herói àquele que descreve qualquer um de nós que caminhe através da vida humana. Nada é certo, nada é premeditado, nada é garantido. Mesmo se nós não pensarmos em nós mesmos nessa jornada espiritual, somente ser humano já significa que estamos engajados numa jornada heroica.

Da perspectiva do BreakThrough, a vida espiritual significa: uma aventura de exploração do que é ser humano e viver essa vida humana tão plenamente como possível.

Como você talvez já saiba, existem quadro caminhos principais do Yoga –  Karma Yoga, Bhakti Yoga, Raja Yoga e Jnana Yoga. Esses são os caminhos espirituais usados por aqueles que se engajam numa jornada espiritual. Cada um é diferentemente conduzido para um temperamento particular e abordagem para a vida. Um dos quatro caminhos, Jnana, o caminho do conhecimento, é considerado um dos mais simples e o método mais direto de corte dos nossos equívocos sobre si mesmo. Como uma palavra simples é antítese da outra, o caminho é tradicionalmente o menos percorrido.

Porque o jnana yoga é considerado difícil e não seguido por qualquer um é porque ele requer um intelecto afiado; alguém com a capacidade de cortar através das concepções distorcidas de si. Ao fim, o jnana yoga pode ser bem chamado da yoga do questionamento. Não é que aqueles envolvidos em outro tipo de yoga não se coloquem questões. Ao contrário. O praticante de jnana explora as questões por elas mesmas num caminho que nenhum outro faz. É o caminho do discernimento: procurar diferenciar tão claramente quanto possível o que é real do que é irreal.

Vivendo na era da Informação que nós estamos, nunca antes os seres humanos estiveram expostos a tanto fluxo de informação. Nenhum de nós com um computador ou um smartphone ou televisão estamos disponíveis para sermos bombardeados com informação praticamente o tempo todo. Muito dessa informação parece convincente, até mesmo sedutora. Imagens, palavras, sons, ensinamentos, propagandas… e uma lista vai e vai sem parar.

Os benefícios são muitos, mas os perigos são igualmente numerosos. A habilidade do sistema humano para se adaptar a esse novo caminho de ser tem sido testado a todo momento. Muito do tempo que nós estamos desatentos a essa multiplicidade de instrusões elétricas estressantes, nosso sistema está absorvendo.

Como costuma acontecer quando nossos sistemas estão estressados, nós fazemos o que é mais fácil para nós. Nós queremos alívio imediato e nos preocupamos para que consequências a longo prazo caiam no esquecimento. Um dos mais comuns métodos de estresse que nós temos na era da Informação é presumir. Com tanta informação chegando até nós, é mais fácil ser como uma esponja, absorver a maior parte dela e economizar o tempo de questioná-la.

Em outras palavras, nunca houve um momento em que os seres humanos precisassem tanto aprimorar sua capacidade de questionar. Nunca houve um momento em que nossa vida como seres humanos tivessem tanta necessidade de examinar. Não é porque tempos obscuros e difíceis nunca existiram antes. Ao contrário, tudo que precedeu essa era tem requerido tremenda adaptação humana. Foram estes tipos de adaptações humanas que nos trouxeram a esta era, enfrentando inundações de informações.

Claramente, nunca houve um tempo de maior pressão do que aprender a arte do discernimento. No final das contas, nós precisamos aprender a arte do questionamento. Como uma criança pequena – direta, simples, com questões lógicas, que venham facilmente até nós. Isso significa que é da nossa natureza questionar claramente, simples e logicamente. Em algum lugar desse caminho, perdemos o contato com essa habilidade brilhante.

Entre a infância e o adulto, o intelecto torna-se uma palavra quase suja entre muitos nós. Nós esquecemos que pensar claramente e questionar claramente foi uma das coisas que nós realmente fazíamos muito bem. Vinha naturalmente. Isso significa que é inerente esse dom e que nenhum nós poderíamos ser privados.  Nós simplesmente precisamos nos valer disso.

Isso descreve o trabalho que fazemos no BreakThrough.


[1] Artigo gentilmente cedido pela autora através do site: https://www.breakthroughiba.com/.

[2] Esther is the Creator of the BreakThrough System and Co-Founder of the International BodyTalk Association (IBA). She resides in Europe and teaches advanced, interactive workshops in BreakThrough, in-person and online. She also runs ongoing BreakThrough Instructor Training programs and offers private, online BreakThrough sessions.

Esther is the author of Beyond Concepts – the investigation of who you are not, and Who am I? – the seeker’s guide to nowhere. Mais informações em https://www.breakthroughiba.com/instructors/.

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Ciências da Vida do BodyTalk

autodescoberta e o apreço por perguntas significativas

            Adriana Almeida Camilo[1]

“Onde eu estou, eu estou. Quando eu estou, eu sou.” 

Maria Beatriz Nascimento

O convite para escrever este ensaio sobre as Ciências da Vida para o periódico “Escuta, sobre BodyTalk” veio em um momento de síntese da minha trajetória pessoal e profissional. Em uma singela sincronicidade, havia retornado recentemente de uma residência artística nominada “Práticas de Escuta” que, de certa forma, marcou a celebração da integração de caminhos por mim percorridos nos últimos 25 anos em campos como: terapias, artes do movimento e artes audiovisuais, práticas somáticas, escrita, pesquisa científica, produção de conteúdo intelectual e cultural, ativismo socioambiental, espiritualidade, sistemas familiares e coletividades, ecologia profunda, meditação, estudos e práticas sobre as águas, embriologia, nascimentos, a vida e seus ritos de passagem, inclusive a morte e o morrer.

Compreender e retomar os vínculos entre estes campos aparentemente tão diversos constitui-se uma oportunidade de reconhecer a minha própria existência e de tantos outros organismos como sistemas vivos interrelacionados. Ao longo da vida, meu foco foi se movendo do fazer e da ação voltada para objetivos para reconhecer o Ser Que Sou, estar consciente e presente, ainda que muitas vezes pareça desafiante.

Lembra que falei sobre celebrar? O conceito de celebração autêntica, a partir da Ecologia Profunda e do Dragon Dreaming[2], parte do princípio que celebrar é um movimento introspectivo de observar as experiências e as próprias emoções, em um exercício de presença aqui-agora, colhendo os aprendizados da jornada de tal forma que o processo em si seja tão valorado quanto seu resultado. É a arte de fazer perguntas significativas que geram mais espaço interno do que conclusões. A partir desta escuta interna, as reflexões podem ser socializadas com outras pessoas, em uma tessitura intuitiva sobre o que sei, mas principalmente sobre o que se revela na dimensão do desconhecido sobre si e sobre a vida. É com gratidão, portanto, que compartilho com vocês este mergulho.

As Ciências da Vida do Sistema BodyTalk podem ser compreendidas como um espaço fértil e potente de autodescoberta e integração na relação consigo, com outros e com o mundo. É inegável o quanto MindScape, BreakThrough e FreeFall potencializaram, expandiram e seguem enriquecendo minha prática clínica como terapeuta BodyTalk. Mais do que um conjunto de cursos do sistema BodyTalk, que apoiam a relação terapeuta-cliente e se desdobram em aprimoramento da atuação profissional, estamos aqui diante de jornadas nas quais o foco é o processo de autocura, autoconsciência, autocuidado. Cada mergulho sob a perspectiva do MindScape, BreakThrough e FreeFall foram presentes e oportunidades preciosas que me permitiram contemplar minha natureza essencial e reconhecer essa mesma humanidade em outras pessoas.

Neste sentido, compartilhar as Ciências da Vida e convidar clientes a participar destes cursos é também uma maneira de estimulá-las(os) na apropriação do caminho de autoconhecimento. É uma forma de apoiar cada pessoa que encontro no contexto terapêutico a colocar o espelho diante de si e reconhecer-se para além das crenças, máscaras e condicionamentos que ao longo da vida foram se juntando à autoimagem e à própria noção de realidade. São todos cursos sem pré-requisitos (no nível básico), na medida em que não há pré-requisitos para Ser quem se é e contemplar a própria história com frescor.

As abordagens de saúde baseadas em Consciência partem do princípio que o processo manifesto está relacionado com a sabedoria inata, que no BodyTalk é chamada “Consciência Universal”. A forma como acessamos essa Consciência é por meio da intuição, uma sabedoria que está sempre disponível para todos nós. À medida que refinamos a habilidade de identificar os condicionamentos e crenças desenvolvidos ao longo da vida, que distorcem a escuta sensível da intuição, mais profunda e através da experiência, compreendemos a natureza essencial da sabedoria inata (VELTHEIM, J. 2013).

Como os cursos Ciências da Vida do sistema BodyTalk não tiveram seus nomes traduzidos para português aqui no Brasil, intui que expandir a compreensão semântica dos três eixos poderia trazer alguns insights.

Em uma aula com a instrutora Suffen Paphassarang, revelou-se a compreensão de Mindscape como paisagem mental que integra as qualidades estruturantes do hemisfério esquerdo do cérebro com a natureza intuitiva do hemisfério direito. Quanta riqueza e liberdade contemplar as informações que se apresentam quando sintonizamos com a intuição estruturada como paisagens de grande plasticidade! Com Kris Attard, Andy Spencer e Angela Adkins, compreendi que permitir que o cérebro entre na frequência alpha, reduzindo distrações desnecessárias e filtros baseados no passado, convida a criatividade e a intuição a acessarem informações subconscientes sobre o campo e sobre nós mesmas(os), ancoradas(os) na sabedoria do coração.

A imaginação – que é a intuição não estruturada e inclui visualização, sonhar acordado, pensamentos em geral, sonhos – é fundamental para um saudável funcionamento do cérebro, no estabelecimento de sinapses neuronais diversificadas e fortes, no processamento do estresse, na geração de novas ideias, na criatividade, dentre muitos outros (VELTHEIM, J., 2013). O poder e a complexidade da capacidade de autocura e reequilíbrio do organismo, especialmente a partir de práticas apoiadas na intuição, como meditação, vizualizações e abordagens integrativas baseadas no modelo corpo-mente, são investigados no livro “The Heart of Healing”, do Institute of Noetics Sciences, com riqueza de exemplos clínicos e referências a pesquisas científicas [sem edição traduzida para o português].

De acordo com o dicionário Oxford, breakthrough é “um importante desenvolvimento que poderá guiar a um acordo ou realização (agreement or achievement: 1. algo que alguém fez com sucesso, especialmente usando seus próprios esforços ou habilidades/ 2. o ato ou processo de realizar algo)” [tradução minha]. Nas Ciências da Vida, o BreakThrough é um método de autoinquirição concebido por Esther Veltheim a partir de princípios da Advaita. Em uma jornada pela natureza paradoxal e curadora do conflito e da psique humana, BreakThrough é um convite para transcender uma vida vivida a partir de condicionamentos e comportamentos reativos para uma vida mais consciente e plena (VELTHEIM, J., 2013). As convicções inconscientes deixam de atuar como verdades absolutas e são desveladas como crenças, baseadas no passado, que até então vinham moldando nossa perspectiva da realidade. Neste sentido, “o ato ou processo de realizar algo” que os passos do BreakThrough propiciam não vão em direção de tornar-se uma pessoa melhor ou diferente, mas sim no sentido da autorrealização, reconhecendo o que sempre esteve ali, o estado natural e autêntico do Ser, com toda sua humanidade (VELTHEIM, E., 2001).

FreeFall, por sua vez, traz o sentido semântico de queda livre, sem emprego de força ou de acessórios externos para impulsionar ou frear o movimento. Em termos vivenciais, é um mergulho na consciência de quem somos, compreendendo como nossas máscaras e mecanismos de defesa se expressam no corpo por meio de tensões, rigidez muscular e barreiras de proteção do coração. Temas como autoimagem, a relação com o próprio corpo, sexualidade, controle, dinheiro e vulnerabilidade são abordados com confidencialidade, cuidado e profundidade. Em que medida o que protege daquilo que mais tememos também pode nos separar do contato com o que verdadeiramente somos e amamos, a vitalidade e a presença no aqui-agora?

Sendo o FreeFall uma abordagem terapêutica baseada em consciência, também me parece ilustrativo resgatar a metáfora do iceberg: a pequena ponta como aquilo que somos conscientes, enquanto a maior parte do iceberg está submersa, ou seja, inconsciente. Não obstante, os movimentos do iceberg são geridos por aquilo que está visível e por aquilo que está submerso, por sua totalidade. Neste sentido, ancorar-se na sabedoria do coração, como abordado no módulo Princípios da Consciência do BodyTalk e vivenciado no FreeFall, é uma integração profunda com as dimensões inconscientes do Ser. É a âncora descendo as águas profundas do inconsciente, da sombra, para acessar e abraçar a totalidade do iceberg. Nossas sombras não são necessariamente limitações, mas tudo que não somos conscientes sobre nosso Ser. “O pensamento complexo tenta, efetivamente, perceber o que liga as coisas umas às outras, e não apenas a presença das partes no todo, mas também a presença do todo nas partes.” (MORIN, 2013: 14). Novamente, assim como no BreakThrough, no FreeFall não há um propósito de despojar por completo dos filtros e crenças que criam a realidade experienciada, chegando em uma autoimagem idealizada, neutra, imaculada, perfeita. A natureza do movimento é despojar-se da noção de que sua experiência determina quem você é.  Essa é sua experiência no momento, mas não é você.

O sistema BodyTalk foi inicialmente desenvolvido por John e Esther Veitheim no Mindscape, em estado alpha, integrando a intuição e a capacidade do cérebro de sistematizar e estruturar o conhecimento – com foco no desenvolvimento pessoal e autoconhecimento. Seus expressivos resultados na melhora ou remissão de desequilíbrios no corpo físico foram consequências, desdobramentos de uma abordagem sistêmica e integrativa. O BodyTalk segue em processo de aprofundamento e expansão e vem sendo aprimorado ao longo dos anos com a contribuição de seus sistematizadores, instrutores, terapeutas, estudantes e clientes.

Fritjof Capra[3], reconhecida influência do sistema BodyTalk, a partir de suas inestimáveis contribuições para o pensamento sistêmico e a física quântica, após a publicação de “O ponto de mutação”, “O Tao da física” e “Green politics”, apresentou um quarto livro, onde conta sua história pessoal e os diálogos com mulheres e homens notáveis por trás de suas ideias e conceitos. Em seu livro “Sabedoria Incomum”, traz um instigante relato de seu encontro com o mestre Krishnamurti e seu processo de libertação do aparente conflito entre a autorealização espiritual e sua trajetória como cientista, altamente identificado com o pensamento:

“Examinemos então a questão, […] sem julgarmos, sem condenarmos, sem justificarmos. O que é o medo? Examinemos isso juntos, vocês e eu. Vejamos se conseguimos realmente nos comunicar, estar no mesmo plano, na mesma intensidade, no mesmo momento.” […] E Krishnamurti passava então a tecer uma teia imaculada de conceitos. […] Apresentava uma análise brilhante de como tais problemas existenciais básicos estão inter-relacionados – não na teoria, mas na prática. Krishnamurti não só confrontava cada membro da plateia com os resultados de sua análise, como também instava e convencia cada um a se envolver no processo de análise. No final, ficava uma sensação nítida e forte de que o único meio para se resolver qualquer um dos nossos problemas existenciais é ir além do pensamento, além da linguagem, além do tempo – é ‘libertar-se do conhecido’, como diz no título de um de seus melhores livros, Freedom from the know.” [CAPRA, 1988: 22].

Em que medida as experiências do cotidiano, daquelas consideradas mais banais às valoradas como impactantes, por meio da autobservação, se convertem em vínculos, em suporte para a consciência de si e do mundo?

Consciência é tudo que é. Como separar quem se é do (f)ato de existir? Viver a vida como prática: reconhecer-se Ser. Não como um caminho para aprimorar-se e tornar-se a referência idealizada de si mesmo, mas como processo de despojar a força e poder que atribuímos a nossas crenças, aos julgamentos sobre como devemos ser e sobre como a Vida deve ser, para receber, perceber, processar e co-criar a Vida no aqui agora, na medida em que o viver simplesmente acontece.

Em essência, uma sessão de BodyTalk é uma escuta sensível, atenta e ancorada na consciência do coração, a partir de protocolos que estruturam a intuição, permitindo o desvelar da sabedoria inata do cliente, do terapeuta e, por que não dizer, da sabedoria acumulada coletivamente. A escuta daquilo que está consciente e tangível, mas também dos silêncios, das entrelinhas, dos vazios que se revelam para além das narrativas conhecidas, além das histórias por hábito repetidas tantas vezes sobre si ou sobre a vida. Essa disponibilidade para re(conhecer) o Ser na sua dimensão integral desvela o desconhecido, a sombra, a potência que habita o inconsciente e que igualmente faz parte de quem somos.

Referências

CAPRA, F. (1988). Sabedoria incomum. Conversas com pessoas notáveis. São Paulo: Cultrix Editora.

CYRULNIK, B. & MORIN, E. (2013). Diálogo sobre a natureza humana. São Paulo: Editora Palas Athena.

Institute of Noetic Sciences & POOLE, W. (1993) The Heart of Healing. Atlanta: Turner Publishing.

MACY, J. & JOHNSTONE, C. (2020). Esperança ativa. Rio de Janeiro: Bambual Editora.

OXFORD (2000). Oxford Advanced Learner´s Dictionary of Current English. Oxford University Press (impresso).

VELTHEIM, E. (2001). Who Am I?: The Seeker’s Guide to Nowhere. Florida: PaRama LLC.
VELTHEIM, J. (2013). The Science and Philosophy of BodyTalk, Healthcare Designed by Your Body. Florida: PaRama LLC.

[1] Terapeuta BodyTalk certificada, tendo chegado no sistema BodyTalk em 2011 e desde então mergulhado em todos os módulos avançados, além de outros aprofundamentos, como Medicina Oriental, Ecologia do Corpo e Epigenética. Participou e monitorou cursos como Mindscape Básico e Avançado, Breakthrough, FreeFall 1 e 2, além de satsangs com Esther Veltheim. Contribuiu na organização do primeiro encontro de terapeutas BodyTalk do Brasil, em 2013, tendo facilitado nesta ocasião e em 2018, vivências de grupo para a matriz de terapeutas do sistema. É integrante da equipe do projeto BodyTalk Brasil COVID-19.

Psicóloga, com especialização em psicologia clínica pelo Instituto de Gestalt-Terapia (IGTB) e mestrado em Desenvolvimento Humano e Saúde pela Universidade de Brasília (UnB). Escritora, fotógrafa, artista transdisciplinar, investigadora das artes do movimento, facilitadora de processos em que a dança e as práticas somáticas se encontram e se potencializam, e em pesquisas de improvisação e meditação em ambientes naturais ou aquáticos. Ecologia Profunda, Ecopsicologia e abordagens bioinspiradas, a natureza rítmica e mediadora da Água e Embriologia são seus temas atuais de pesquisa e aprofundamento. Foi professora e coordenadora pedagógica em uma das primeiras formações de doulas no Brasil e desenvolve um projeto chamado Feminino Bem-Viver. adriacamilo@gmail.com site: almamater.art.br

[2] A Ecologia Profunda e o Dragon Dreaming são abordagens que integram o desenvolvimento pessoal, comunitário e ecológico como dimensões interelacionadas e inseparáveis de um sistema vivo. Embora não façam parte do Sistema BodyTalk, bebem de alguns fontes conceituais e filosóficas comuns. “Esperança ativa”, o mais recente livro de Joanna Macy, doutora em ecofilosofia, estudiosa da teoria geral dos sistemas e grande referência em Ecologia Profunda é uma inspiração para este ensaio, que versa sobre as Ciências da Vida do BodyTalk como caminho de autodescoberta.

[3] A primeira edição do periódico Escuta teve como eixo condutor o BodyTalk como Sistema e inclui uma entrevista com o Dr. John Veltheim, na qual se confirma a importância de Fritjof Capra, especialmente o livro Ponto de Mutação, na sistematização do BodyTalk. A entrevista foi conduzida por Verena Kanciskins.

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Prefácio Ed. 2 Escuta

Prefácio

Verena Kacinskis[1]

A edição que você tem diante dos seus olhos é especial. Isso porque o Sistema BodyTalk começou aqui, no que hoje chamamos de Ciências da Vida. Acho simbólico que um sistema de cuidado da saúde tenha surgido em seminários cujo foco não era o bem estar dos pacientes mas sim a organização e desenvolvimento internos dos terapeutas. Isto fala muito do BodyTalk em si. Sem auto-observação e autocuidado, como podemos ousar nos dedicar ao cuidado do outro?

Mas John e Esther Veltheim, estudantes de longa data de Jnana Yoga e intensos praticantes da autoinvestigação, sabiam disso. Eles sabem, até hoje, que a organização do mundo interno é parte do processo de autoconhecimento, e que para nos organizarmos é preciso desenvolver a arte da autoobservação. Por isso, ao fundarem o Sistema BodyTalk nos anos 1990, eles começaram por aqui.

Nesta segunda edição do Escuta, você vai encontrar cinco artigos cuja proposta é apresentar a diversidade fenomenológica das Ciências da Vida a partir das perspectivas das autoras e autores.

Em O ciclo do contato, Maria Fontes, terapeuta de BodyTalk, usa sua experiência pessoal para descrever, por vezes de forma poética, a riqueza dessas disciplinas. “Acontece que as dores humanas são múltiplas e complexas”, afirma Maria. E segue: “Cada um de nós reflete um prisma de cores únicas. Por reverberação, sintonia com o diapasão universal ou atração sintonizada com o perfil do nosso curador ferido, a clínica de cada terapeuta irá expressar ou atrair dores humanas similares àquelas que já nos foram possível enxergar, observar e avançar na cura. É nesse ponto, na perspectiva de abraçar o curador ferido de cada terapeuta que, generosamente, encontramos no Sistema BodyTalk as Ciências da Vida.”

Ciências da Vida é uma família de cursos vivenciais formada pelo MindScape, BreakThrough e Freefall. “Cada um desses é em si um conjunto de técnicas, um espaço para processos terapêuticos e também, uma ferramenta de suporte pessoal e para a prática profissional.”, nos explica Maria.

Em Ciências da Vida do BodyTalk, autodescoberta e o apreço por perguntas significativas, outro artigo cuja proposta é apresentar as três disciplinas a partir de uma experiência pessoal, a autora, Adriana Camilo, também terapeuta do Sistema BodyTalk, reflete sobre a contribuição das Ciências da Vida em sua trajetória: “Viver a vida como prática: reconhecer-se Ser. Não como um caminho para aprimorar-se e tornar-se a referência idealizada de si mesmo, mas como processo de despojar a força e poder que atribuímos a nossas crenças, aos julgamentos sobre como devemos ser e sobre como a Vida deve ser, para receber, perceber, processar e cocriar a Vida no aqui agora, na medida em que o viver simplesmente acontece.”

Adriana nos lembra que “Compartilhar as Ciências da Vida e convidar clientes a participar destes cursos é também uma maneira de estimulá-las(os) na apropriação do caminho de autoconhecimento.”

Seguindo por esta linha de pensamento (e sentimento), Myriam Machado, terapeuta de BodyTalk, nos guia pelos caminhos do FreeFall, disciplina das Ciências da Vida da qual ela é facilitadora. “John Veltheim criou o método FreeFall depois de observar o quanto as constrições criadas por nossas próprias histórias sobre autoimagem e amor próprio – e a carga negativa expressa em nossas roupas – podem perturbar não apenas o equilíbrio físico, mas também mental, emocional e energético. O principal objetivo do método FreeFall é que você possa celebrar a liberdade de Ser Humano.”

Saindo do FreeFall e caminhando em direção a outra disciplina, a própria Esther Veltheim, que idealizou e refinou os 7 passos de autoquestionamento do BreakThrough[2], nos relembra, em seu artigo Questionamento e o processo espiritual, que “nunca houve um tempo em que os seres humanos estivessem mais necessitados de aprimorar a habilidade de questionar” do que agora.

Por último, em MindScape como potencial caminho, Celso Juc e Angie Tourani, ambos instrutores de MindScape, e Carlos Bueno, terapeuta de BodyTalk e assíduo praticante das técnicas do MindScape, discutem, com mediação de Nirvana Marinho e tradução de Adriana Camilao, o uso do MindScape como ferramenta de autoconhecimento. Minha citação favorita desta conversa vem do Carlos Bueno: “MindScape e BodyTalk são geniais e ilimitados. A limitação deles é o praticante.”

Acredito que o autoconhecimento e a organização de nosso mundo interno ultrapassam o campo pessoal e funcionam como ferramentas de organização do coletivo. Não é possível construir uma sociedade saudável se os seus indivíduos estão doentes. Por isso, costumo dizer que o autoconhecimento é um trabalho, quase uma obrigação, social. A autonomia emocional adquirida depois de um fim de semana construindo uma intuição mais estruturada no MindScape ou investigando gatilhos emocionais no BreakThrough é algo que não se perde. Cada insight adquirido, permanece. E cada trabalho interno reverbera no campo familiar, profissional, social e político do indivíduo.


[1] VERENA KACINSKIS é psicóloga, Adv. CBP, CBI e pesquisa as várias formas humanas de se expressar. Produz cursos e conteúdos sobre a calma que surge quando organizamos nosso mundo interno em verenakacinskis.com e fala sobre receitas com plantas + intuição no projeto Minha Cozinha Virou Um Jardim.

[2] Depois da escrita deste Prefácio um novo artigo foi adicionado a esta edição, escrito por Salima J. Lara Resende (ERRATA) e embora não conste do presente texto, também sobre o BreakThrough, faz parte desta edição igualmente. (N.E.)

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Prefácio Ed. 1 Escuta

Convite à escuta

Celia Barboza dos Santos [1]

Quando recebi o convite para prefaciar a primeira edição do periódico Escuta, fiquei extremamente feliz pois o lançamento aglutina dois temas pelos quais sou encantada; o sistema BodyTalk e o pensamento sistêmico. E a melhor maneira de começar um artigo sobre o BodyTalk System é citando o próprio John Veltheim, criador do método, juntamente com Esther Veltheim.

A evolução do BodyTalk começou há quarenta anos com um sonho. A primeira parte do meu sonho era sobre uma terapia que pudesse transcender o modelo do diagnóstico, seguindo a primeira diretriz do corpo sobre seu próprio processo de cura. Nessa terapia, eu tinha visão do corpo na sua total expressão para decidir sobre suas próprias prioridades de tratamento. A função do terapeuta não era mais orquestrar o processo de tratamento de acordo com uma opinião de diagnóstico. Ao invés disso, a função do terapeuta poderia ser honrar e ser guiado pelo corpo de suas prioridades para cura. A segunda parte do meu sonho era a mesma de muitos seres humanos antes de mim: uma terapia que pudesse oferecer resultados tais que poderiam ser exponencialmente benéficos. No meu sonho, o sistema humano pode permanecer dinamicamente no caminho do seu bem-estar e poderia continuar melhorando mesmo depois que o tratamento tivesse acabado. Em outras palavras, o corpo, com sua própria sabedoria, poderia assumir o controle. A primeira parte do meu sonho se realizou através do que nós chamamos de Sistema BodyTalk. (I Had a Dream, John Veltheim e Esther Veltheim, 2016)

Em 2007, quando conheci o sistema BodyTalk, eu não tinha nenhuma noção do que estava por se abrir para a minha vida. Minha trajetória terapêutica dialoga com muitas práticas integrativas e, interessada em conhecer um método que combinava conhecimentos da fisiologia ocidental com os saberes da medicina tradicional chinesa e conceitos da física quântica, parecia que eu iria aprender mais uma técnica; no entanto o que encontrei foi um passaporte para um sistema de saúde baseado em consciência, numa abordagem de tal forma criativa, que trabalhar com este sistema tornou-se a minha universidade pessoal. A partir daí fiz todas as formações básicas e avançadas e segui o  desenvolvimento, certificando-me como praticante regular e integrando-me como membro da IBA Internacional BodyTalk Association, que é p órgão regulador no mundo.   Provavelmente, um dos grandes benefícios diretos que ser terapeuta BodyTalk me causa, é manter-me uma eterna curiosa, sobre temas diversos.

Nos ambientes das terapias integrativas, onde observa-se a energia como substrato causal, sempre ouvi que precisávamos aprender a pensar fora da caixa, que a energia acende a lâmpada, mas não podemos vê-la e então, por essa razão, existe. Sempre foi muito interessante, mas ainda havia um certo contexto de precisar acreditar, usando essas metáforas. As minhas primeiras experiências com o BodyTalk me surpreenderam muito e eu, simplesmente, não tinha explicações para os resultados. A minha enorme surpresa era em razão de que, tudo que eu fazia antes como terapeuta, dependia de mim, de um determinado conhecimento aplicado de uma forma específica, da minha inferência e interferência para que funcionasse; e a prática do BodyTalk me fazia experimentar uma estranha sensação de que não era eu quem estava pilotando. No BodyTalk, quem guia o processo é a própria pessoa, a partir do que se nomeia como Sabedoria Inata, trazendo as prioridades, revelando as informações, os aspectos que serão abordados e todo o processo é realizado por este mesmo princípio inteligente e altamente criativo.

Duas perguntas eram frequentes na minha mente: como era possível e em que tipos de doenças o método era eficaz; porque eu ainda expressava o conceito de que saúde era a ausência de doença. A primeira questão, sobre como era possível que uma pessoa que não tinha conhecimentos de anatomia, pudesse chegar até o aspecto celular de um órgão, foi rapidamente ficando clara, pois o BodyTalk possui protocolos detalhadíssimos, que funcionam como cartas de navegação, levando o terapeuta a observar as prioridades que estão sendo expressas pelo corpo; desde as funções orgânicas, até as formas como as emoções podem interferir na função orgânica, ou como o clima pode afetar o humor de alguém. Esta atenção ao que é prioridade, e não ao que é um sintoma, faz toda a diferença.

No entanto, a segunda questão, que confundia meu conceito antigo de saúde como sendo ausência de doença, exigiu mais esforços para minha compreensão. O BodyTalk me apresentou o pensamento sistêmico, o universo das possibilidades – que eu já começava a estudar, mas não via aplicabilidade – colocando por terra muitos comportamentos rígidos e ideias pré-concebidas. Olhar para um sintoma sem que, no entanto, haja uma investigação mais profunda, sobre os contextos que possibilitam que um determinado sintoma ou comportamento ganhem força para se expressar, equivale a destacar aquela parte do todo e dizer que não está adequada e não deveria ser como é.

O corpo é um sistema; é corpo-mente e todo o tempo está se expressando; então um sintoma local, pode estar comunicando que algo, num outro lugar, está em sofrimento. O que conhecemos como saúde ou doença são as opções disponíveis, dentro de uma infinidade de potenciais, que a sabedoria inata encontra para revelar histórias. É quando se pode observar, evocar consciência sobre o que está envolvido em uma complexa rede de informações, que comumente simplificamos com um nome diagnóstico. Todo sintoma é, no mínimo, uma grande história. E a Sabedoria Inata é a tendência natural do corpo para se auto regular.

Então, o BodyTalk é um grande sistema de saúde, que contém muitas estratégias, para apoiar o corpo no seu processo natural de auto regulação; esta é a proposta mais criativa que alguém pode encontrar para tratar da sua saúde, em todos os níveis. Quando falamos em sistemas, ou sobre a percepção sistêmica, estamos abrindo um espaço natural para observar que uma parte é composta de outras partes, até a infinitesimal partícula sub atômica.

Podemos admitir isso quando colocarmos em perspectiva a família. Nosso corpo não difere em absolutamente nada desta proposta. Somos um corpo alimentar, mas também somos um corpo essencial ou consciencial. A perspectiva de pertencimento é sistêmica, pois só ocorre em razão de uma parte se reconhecer em relação a um todo e a forma como a comunicação, os relacionamentos entre as partes, estão acontecendo. Então, como temos certeza de quem somos? 

Existe uma identidade, porque o meio sistêmico, que inclui família e ambiente, atuam para que a pessoa exista como indivíduo; quer dizer que, todo o tempo, temos muitos referenciais, programações e crenças, nos informando o que deveríamos ser e como precisamos nos comportar para sermos aceitos.

Para que se construa um corpo, uma pessoa, muita coisa aconteceu antes; e muitas delas estão agindo como informações desorganizadoras do equilíbrio. O fato de o BodyTalk ser um sistema, possibilita que esta perspectiva ampla e profunda, com tantos conteúdos diversamente registrados na experiência, se torne observável.

A criatividade no sistema BodyTalk, vem da possibilidade de observar as informações se expressando de modo não linear, não local, independente da lógica de tempo e espaço, apoiando o sistema corpo mente, para que encontre opções mais saudáveis para expressar-se. No BodyTalk, as sessões são conduzidas pelo praticante com total atenção ao que acontece no momento presente; o terapeuta está lá com o cliente, plenamente, sem julgamento de valor, praticando a escuta em níveis amplos. Há uma escuta de fato, daquilo que pode ser dito; mas principalmente, há uma escuta do silêncio; daquilo que nunca pôde ser dito; de histórias de uma vida inteira registradas no corpo; de memórias doloridas, marcantes ou singelas; registros inconscientes que, inúmeras vezes, precisam somente de uma respiração profunda ou de uma lágrima, pois palavra não cabe ali. A experiência em uma sessão de BodyTalk pode ser muito reveladora ou extremamente sutil, sugerindo que nada muito profundo está acontecendo, mas trata-se apenas de como a experiência se dá para cada um. E tudo isso segue, estritamente, os caminhos e ritmos delineados pela sabedoria inata.

Tendo a sentir a terapia como arte, pois antes de ser terapeuta eu dançava. E na escola onde estudei, havia duas meninas surdas que faziam balé clássico. Era um mistério como elas sabiam, no sentido do saber profundo, todos os compassos e ritmos da música! Hoje, eu compreendo mais claramente este jeito de escutar com o corpo inteiro, trata-se de estar com o coração disponível para a experiência, em estado de atenção e presença.

O BodyTalk faz este percurso, de escutar de perspectivas diferentes, já que esta escuta é feita sempre a partir do conjunto cliente/terapeuta, e desta energia única emergem questões sistêmicas; escutar é um “ato contínuo”. Reverberando em ondas para os vários níveis do ser. De uma certa forma o periódico Escuta, convida a todos para esta dança silenciosa. Aqui, terapeutas comparecem como autores, a convite da Nirvana Marinho que é a idealizadora do projeto. Quando a Nirvana se dispôs a ouvir os terapeutas, estava germinando o caminho que resultou neste periódico que, não por acaso, leva o nome de Escuta.
          

A medida em que ela nos ouvia, ondas alcançaram seu cérebro, seu coração e se expandiram em ações que se materializaram num amplo convite à participação integradora de muitos terapeutas, que puderam também expressar suas experiências e percepções sobre o BodyTalk, permitindo um mapeamento inicial da presença do BodyTalk no Brasil, como você  poderá descobrir lendo o artigo BodyTalk no Brasil: uma cartografia de caminhos possíveis – por Ana Marcela Sarria

O artigo A relação do Livro O Ponto de Mutação e o BodyTalk – por Luciano Flehr, aponta para as bases da teoria dos sistêmicas dinâmicos, trazendo informações precisas para a compreensão das interações entre o ambiente e o ser e a influência que o livro de Fritjot Capra teve na perspectiva sistêmica do Dr. John Veltheim.

Enquanto desenvolvemos a prática do BodyTalk, vamos aprendendo que, assim como no corpo, as relações também adoecem e que este adoecimento é a tentativa do sistema inteiro revelar que há algo muito importante acontecendo, no artigo BodyTalk como sistema, é sobre como relacionar-se – por Nirvana Marinho, fica evidente a indivisibilidade do ser, a integração entre ser e ambiente, desde a perspectiva sistêmica.

Para contar um pouco mais sobre pertencimento, o texto que é quase um poema, Sistema BodyTalk – por Claudia Morum Xavier Lapa, nos presenteia com a perspectiva sistêmica familiar. Assim como cada membro da família tem seu lugar, o corpo reflete este processo; ou será que é o contrário?

Observando tudo isso, eu me lembro do sonho do próprio Dr. John, que nos presenteia com uma entrevista imperdível, conduzida e transcrita pela Verena Kacinskis, contando como seus insights foram tomando forma para criar um sistema de saúde baseado em consciência.

O BodyTalk é exatamente assim. Escutamos a fala, escutamos o silêncio, escutamos a diversidade; os conflitos e movimentos criativos que, desde sempre, o sistema corpo-mente quer revelar nas relações com toda a história pessoal e o mundo em que vivemos, estando pronto para melhor se comunicar, sincronizar, equilibrar e caminhar com mais saúde. O convite é para leitura, mas é como uma proposta para ouvir, atentamente, no vibrato profundo do seu coração; assim como aquelas duas meninas no balé. Aproveita a entrada do inverno, se aconchega e escuta o que nosso coração te oferece. Escuta.

Celia Barboza dos Santos

Junho 2020


[1] BodyTalk System (CBP),PaRama Body Talk 1, Eastern Medicine, Master Programação Neurolinguistica, Terapias Integradas da Respiração, Constelação Familiar.

@Celiabarbozaterapeuta
Celia@celiabarboza.com

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Entrevista ao Dr. John Veltheim por Verena Kacinskis

Entrevista[1] ao Dr. John Veltheim[2]

Por Verena Kacinskis[3]

Verena Kacinskis – Olá John, muito obrigada por conceder esta entrevista. Como expliquei por e-mail, essa conversa sairá na primeira edição do periódico “Escuta”. Escolhemos a Teoria dos Sistemas Dinâmicos como tema desta edição. Por isso, trouxe três perguntas em torno desse tema.

John Veltheim – Ótimo! 

VK – Agora sou Instrutora de Fundamentos e, além disso, também traduzi para o Português todos os materiais dos seus cursos nos últimos anos. 

JV – Eu sei. Muito obrigado pelo seu ótimo trabalho. Recomendei você para ser instrutora porque te conheci quando fui ao Brasil e achei que você estava fazendo um ótimo trabalho. 

VK – Muito obrigada! Não sei como é em outras partes do mundo, mas aqui no Brasil as pessoas ainda tendem a dizer coisas como “Bem, eu trabalho com uma técnica chamada BodyTalk”. Costumo começar as minhas aulas esclarecendo para os alunos que o BodyTalk não é uma técnica, é um Sistema. São duas coisas diferentes.  Fico me perguntando de onde veio a ideia, como você soube que não criaria uma nova técnica, que você colocaria coisas juntas e criaria um sistema. Como foi isso? 

JV – Quando estudei na universidade, aprendíamos só técnicas. Com o tempo fui ficando profundamente interessado no trabalho de Fritjof Capra, em “O Ponto de Mutação”, e isso me direcionou à Teoria dos Sistemas Dinâmicos. Naquela época eu ensinava acupuntura e percebi que ela também se baseia na Teoria dos Sistemas Dinâmicos. Você começa a ter um outro olhar para as mesmas coisas e percebe “Eu já estava fazendo isso, afinal!”. Comecei a ler publicações de Física e percebi que toda estrutura, inclusive em nível subatômico, funciona segundo a Teoria dos Sistemas Dinâmicos. É muito mais profundo do que qualquer outra coisa. Naquele filme que fizeram baseado no livro do Fritjof Capra [Mindwalk], deram mais ênfase à ecologia – você sabe, a Teoria dos Sistemas Dinâmicos está na Ecologia. Mas não é só a base da ecologia geral do mundo, é a base da ecologia do corpo também, e de como nós nos relacionamos com o mundo. Portanto, a formação básica do mundo é baseada na Teoria dos Sistemas Dinâmicos. 

Então, comecei a pensar “Tudo bem, quais são os princípios básicos da Teoria dos Sistemas Dinâmicos?”. E foquei em um deles: o princípio da comunicação. A partir daí comecei a praticar a acupuntura a partir dessa perspectiva. Mesmo que eu estivesse usando as agulhas do jeito que eu já costumava usar, na minha mente via sistemas dinâmicos afetando o corpo, e comecei a observar melhoras nos resultados. Então comecei a ensinar acupuntura sob o ponto de vista da Teoria dos Sistemas Dinâmicos nos cursos avançados da faculdade na qual  era Diretor, e isso fez uma grande diferença nos resultados dos tratamentos dos meus alunos. Acho que trouxe um melhor entendimento. Para mim, significava olhar a coluna vertebral, por exemplo, sob a perspectiva dos sistemas dinâmicos, na quiropraxia e osteopatia, entendendo que tudo está conectado e tudo envolve tudo. Ou seja, você podia ter torcido o dedo do pé e isso podia estar te trazendo uma dor na lateral da cabeça.  Passei a sempre olhar para o que estava acontecendo no corpo todo. A pessoa me procurava com dor no ombro e eu acabava tratando o menisco medial do joelho oposto.  Consegui chegar a isso, mesmo antes de usar o Sim e o Não, por estar usando intuitivamente a Teoria dos Sistemas Dinâmicos, o que me levou a encontrar formas diferentes de fazer as mesmas coisas. 

Eu já tinha explorado outros aspectos da cinesiologia aplicada – sabe, se feita de forma apropriada, a cinesiologia aplicada também é um modelo de sistema dinâmico, embora não fosse ensinada sob essa perspectiva naquela época. Atualmente existe na Alemanha uma faculdade ensinando a cinesiologia assim. O diretor dessa faculdade fez seu treinamento comigo. Comecei com trabalho básico, especificamente com os Córtices e coisas afins. Assim que refinei o trabalho a partir da Teoria dos Sistemas Dinâmicos, tudo evoluiu muito rápido. Comecei a ver as coisas por sua relação com as outras. A pessoa vinha com um problema no joelho e eu enxergava o que realmente estava acontecendo ali – um problema no joelho não é um problema apenas no joelho, frequentemente é um problema no meridiano do Rim e toda uma gama de outras coisas que estão relacionadas dinamicamente. Então eu fiquei… bem, não vou dizer que fiquei obcecado, mas digamos que passei a focar no desenvolvimento e aperfeiçoamento da osteopatia e da acupuntura, que eram as disciplinas que eu ensinava na época, e para isso comecei a praticá-las sempre a partir do ponto de vista dos sistemas dinâmicos, ou seja, buscando comunicação, sincronização, etc. 

Depois comecei a desenvolver algumas técnicas – Córtices foi a primeira delas – e comecei a perceber que se fizesse alguns toques básicos, conseguia alguns resultados. Todavia, se eu fizesse a mesma implementação com toques usando os conceitos da Teoria dos Sistemas Dinâmicos, os resultados eram melhores. Foi como uma atitude que passei a usar, e comecei a perceber resultados melhores e mais rápidos. A partir daí, iniciei o desenvolvimento de tudo ao redor da Teoria dos Sistemas Dinâmicos. 

Naquela época, esbarrei com o Fritjof Capra numa conferência, e apesar de só termos tomado um café juntos, eu senti como se ele tivesse me entregado uma energia [risos], o que me deixou ainda mais animado. Nós não chegamos a falar sobre isso, mas me senti inspirado só de estar na presença de Deus em pessoa (pelo menos para mim, porque seu livro o Ponto de Mutação foi, de fato, um ponto de mudança para mim). Eu não gostei do primeiro livro dele, achei muito científico para mim, mas depois ele entrou mais na Teoria dos Sistemas Dinâmicos. 

Portanto, eu sempre voltava para a ideia de que tudo está relacionado e só precisamos chegar a um ponto em que os sistemas interajam entre si, precisamos ajudar o corpo a trabalhar em equipe, basicamente, e perceber que qualquer parte do corpo pode influenciar qualquer outra parte do corpo se você entender esses princípios. E, apesar de nós não irmos tão fundo no BodyTalk básico, ainda assim ensinamos técnicas que estão baseadas nisso. No entanto, conforme você vai se aprofundando no BodyTalk, você começa a ter mais contato com a Teoria dos Sistemas Dinâmicos e percebe que tudo gira ao redor dela, essa é a fundação de tudo. E até nos meus trabalhos mais avançados, aqueles que estou desenvolvendo agora, ainda uso a teoria como base. Claro que eu estudei extensivamente a Física Quântica e coisas assim. 

Você sabe, estive no Brasil algumas vezes, estudei Física Quântica com alguns teóricos importantes lá. Eles ficavam impressionados com o fato de eu estar trabalhando com a Teoria dos Sistemas Dinâmicos. Alguns deles disseram “Sim, nós também estamos nos encaminhando para essa direção, vamos trabalhar cada vez mais a partir dessa perspectiva”. Foi por isso que nos demos tão bem e eles endossaram meu trabalho. 

Então, posso dizer que o processo de criação de BodyTalk foi como uma evolução. Demorou um pouco porque as pessoas ainda estavam fazendo o trabalho básico achando que eram técnicas em vez de dinâmicas. Essas pessoas usavam as técnicas e conseguiam resultados, mesmo que não entendessem completamente a teoria existente por trás. Acho que demora mesmo um pouco e ainda tem bastante gente que faz o trabalho básico do BodyTalk e não o entende completamente, enxergam apenas as técnicas. Não obstante, depois que você está trabalhando com BodyTalk há um tempo,  conforme você vai fazendo o trabalho mais avançado, vai ficando óbvio, já que você se percebe fazendo vínculos que parecem malucos, tipo entre o joelho e a lateral da cabeça – e na verdade você está tratando o fígado. 

Tudo evoluiu bem rápido, na verdade. Demorou um tempinho para que as pessoas às quais eu estava ensinando, principalmente àquelas que tinham formação médica, para que elas entendessem o que estava falando, porque elas eram muito cartesianas. Mesmo que reconhecessem que a Física avançada trabalha muito com a Teoria dos Sistemas Dinâmicos, alguns dos médicos me diziam “Mas a Física avançada não tem nada a ver com a Medicina!” [risos]. Naquela época, quando eu comecei, a Medicina era bem cartesiana, mas isso está mudando bastante agora, principalmente na Europa. Por isso meu trabalho está sendo cada vez mais aceito nesse contexto. 

E agora, conforme vou desenvolvendo trabalhos ainda mais avançados, continuo me apoiando na Teoria dos Sistemas Dinâmicos. Apesar de não ser mais tão óbvio como nos meus trabalhos mais básicos, as técnicas que tenho apresentado nos cursos mais avançados também se apoiam nessa abordagem e quem não percebe tende a não conseguir os mesmo resultados que eu. Mas veja, quando eu coloco a minha mão em cima de uma pessoa, estou colocando a mão sobre um corpo que está em um estado natural de sistema dinâmico consigo e com o seu ambiente, e isso afeta tudo, porque quando você atende um paciente, você está tratando a relação dinâmica dele com sua família, incluindo os familiares que ele nunca conheceu. 

Inclusive, podemos estar influenciando a relação dessa pessoa com o governo. Vocês sabem disso aí no Brasil e nós estamos vivendo isso aqui nos EUA – esses governos que são bem cartesianos, que focam em acumular dinheiro e coisas afins, isso causa uma corrosão em tudo ao redor porque eles não enxergam o mundo como um sistema dinâmico. Tenho notado que em lugares como Holanda e França, os governos estão trabalhando mais baseados na Teoria dos Sistemas Dinâmicos, sabe? E lá as coisas funcionam melhor, como na Noruega, por exemplo. Eles têm o melhor sistema de educação do mundo apesar de os alunos só irem para a escola 3h por dia. Mesmo assim eles estão entre os melhores da Europa porque ensinam as crianças a se relacionarem e interagirem com o mundo, e ao fazerem isso alcançam uma informação que não se aprende nos livros e isso é muito mais útil. Portanto, vejo que o BodyTalk está refletindo o que está acontecendo nos melhores cenários da educação, das ciências políticas, e vejo que as pessoas mais interessadas no meu trabalho são os físicos quânticos. 

A Teoria dos Sistemas Dinâmicos está ficando bem conhecida em círculos científicos, mas do ponto de vista médico, o sistema médico atual está mais direcionado ao modelo cartesiano porque eles trabalham com remédios que não são criados para os indivíduos. No entanto, alguns médicos não gostam desse conceito e estão tentando, em alguns lugares da Europa, por exemplo, incluir a homeopatia e outras coisas que, de alguma forma, estão baseadas na Teoria dos Sistemas Dinâmicos. 

VK – John, tem uma coisa que eu sempre quis te perguntar. Para criar algo como o que você criou – um sistema novo, como o BodyTalk – você precisa abrir espaços dentro de você. A gente precisa abrir espaços internos para poder criar. Como isso funciona para você? O que acontece primeiro: você passa por mudanças e então cria algo novo, ou você cria algo novo e isso te transforma? Ou tudo acontece ao mesmo tempo? Como é o seu processo criativo? 

JV – Na verdade, tenho que dizer que grande parte do meu processo criativo acontece quando estou tratando pessoas e preciso achar respostas para entender o que está acontecendo. Então digamos que eu receba um caso complicado – e recebo muitos casos complicados. Primeiro, preciso me abrir para o que está ali, depois isso se liga ao meu background e aos meus conhecimentos, isso tudo começa a vir intuitivamente, e eu tenho esse dom de saber, quando algo aparece intuitivamente, se vai funcionar ou não. Isso é intuitivo, certo? Então, é bem comum que eu use uma técnica pela primeira vez quando estou tratando um caso bem teimoso, desses que não conseguem bons resultados com outras técnicas.  Consigo fazer isso, em certo nível, por causa da minha experiência – trabalho com saúde há 50 anos, estou acostumado com os pacientes e com as respostas aos tratamentos. Assim, tento algo completamente diferente, baseado naqueles princípios que conheço, e eu vejo as mudanças acontecendo no corpo. Posteriormente, isso se torna um novo curso. Em praticamente todas as coisas que eu crio, não me sento e fico ponderando. 

Quase tudo o que desenvolvi foi feito com as minhas mãos sobre o paciente quando eu estava respondendo a uma situação ou a um caso difícil, para o qual tinha que encontrar uma resposta. Portanto, tudo o que eu preciso fazer é me abrir e levar aquilo para um novo nível.

Existem coisas que eu ainda não ensinei, principalmente no nível da Consciência Coletiva, em que podemos tratar grupos maiores. Um dos temas com os quais tenho estado mais empolgado é a ecologia. Tenho feito muitos trabalhos com ecologia e planejo fazer muito mais. Se você olha para os ecologistas, eles estão trabalhando dentro da Teoria dos Sistemas Dinâmicos. Por exemplo, digamos que você queira plantar alguma coisa. Você precisa saber onde vai plantar baseado em onde vai ser o melhor lugar para que aquele sistema dinâmico funcione. No momento estou trabalhando muito para entender como usar o BodyTalk para a Ecologia e tenho conhecido pessoas interessantes que trabalham com isso. De agora em diante espero me dedicar mais ao planeta do que aos indivíduos porque pela Teoria dos Sistemas Dinâmicos você pode influenciar áreas enormes e encontrar soluções que trazem mudanças consideráveis na ecologia daquela região do mundo. É um trabalho fundamental, de base. 

O que nós aplicamos no corpo também pode ser aplicado à forma de funcionamento de empresas, de uma floresta etc e acho que começa a fazer sentido para as pessoas quando elas entendem como funciona. Algumas pessoas precisam ser convencidas pelos resultados mas tenho percebido que em algum momento faz um clique, porque já faz parte do conhecimento do lado direito do nosso cérebro, já que o cérebro direito definitivamente funciona dessa forma [Teoria dos Sistemas Dinâmicos]. Percebo que as pessoas que se sentem atraídas pelo tipo de trabalho que faço são pessoas que naturalmente estão mais orientadas para o cérebro direito, que estão se movimentando nessa direção e querem entender as coisas pela lógica do cérebro direito. Francamente, em essência, o cérebro direito funciona a partir da Teoria dos Sistemas Dinâmicos e o cérebro esquerdo é cartesiano. 

VK – Tem algo mais que eu percebo. Quando aprendemos BodyTalk nos níveis básicos, aprendemos que estamos sincronizando a pessoa ao ambiente, estamos dissolvendo a influência do ambiente sobre a pessoa etc. Mas agora que já trabalho com BodyTalk há 11 anos, percebo que as pessoas que recebem sessões de BodyTalk há um tempo passam a se organizar dentro de seu próprio campo sistêmico. Acompanho diversos pacientes com BodyTalk que recebem sessão uma vez por mês há 4 ou 5 ou 7 anos. Imagina isso! Receber BodyTalk uma vez por mês há 7 anos! Comecei a ver padrões e a documentá-los e percebo que nos primeiros 8 a 9 meses, aproximadamente, estamos organizando as coisas básicas da vida daquele paciente, colocando as coisas em ordem. 

Depois desse período, vamos mais profundo no trabalho, as pessoas começam a ficar mais autônomas, elas podem cuidar de si mesmas, não dependem mais tanto do BodyTalk para se manterem organizadas. E então, a partir do segundo ano de tratamento, mais ou menos, elas começam a ficar mais sincronizadas e alinhadas com o ambiente, com seu campo sistêmico. É quando um livro chama a atenção na livraria e era justamente o que precisavam ler, quando começam a enxergar os sinais ao seu redor. O que quero dizer é que o BodyTalk atua no ambiente organizando as pessoas com seu campo sistêmico e essa é uma das coisas mais bonitas porque agora essas pessoas não só deixam de ser afetadas pelo ambiente mas passam a ter um efeito positivo sobre ele. Entende? 

JV – Absolutamente, esse sempre foi um dos meus sonhos desde a criação do BodyTalk. 

As pessoas que estão muito envolvidas com BodyTalk hoje, quando começaram a fazer aulas comigo lá no começo, eram bem cartesianas, pensavam “Isto é meio estranho, mas ele parece saber o que está fazendo” [risos]. Elas achavam que estavam apenas implementando fórmulas no cliente e não percebiam que estavam rearranjando todo o processo de como o seu próprio corpo funcionava. Não percebiam que ao tratar as pessoas, elas estavam se tratando. Eu vi esses terapeutas passarem por muitas mudanças. Agora, quando elas vêm conversar comigo, vejo que têm uma percepção diferente e forte dos sistemas dinâmicos. Algumas vezes eu ainda preciso corrigi-las para retirar condicionamentos a respeito da Teoria [dos Sistemas Dinâmicos] mas o BodyTalk muda mesmo a vida das pessoas. Isso é muito legal. Eu recebo emails de pessoas me agradecendo e dizendo que o BodyTalk mudou suas vidas. Elas contam felizes que se divorciaram ou passaram por coisas muito desconfortáveis por causa do BodyTalk [risos]. Essas pessoas se abriram para essas mudanças. 

É claro que outras pessoas não ficam por muito tempo [no BodyTalk] porque costumam estar muito envolvidas com sua cultura local, que é muito cartesiana, e elas não topam passar por essas mudanças. E para elas também é difícil conseguir clientes de BodyTalk, então acabam escolhendo ficar com métodos mais cartesianos. Mas nós plantamos uma semente e algumas vezes elas me relatam que tiveram que parar, que foram estudar isto ou aquilo, 6 anos depois voltaram para o BodyTalk, e finalmente fez sentido para elas. É mesmo muito difícil, o treinamento na maioria das sociedades é muito cartesiano, não leva em conta o todo. Veja o modelo médico. Eu tive o benefício de conhecer pessoas pelo mundo que se entusiasmaram muito com o meu trabalho e isso nos levou à vitalização do BodyTalk. Para ser sincero, a rede de neurônios precisa passar por mudanças. 

VK – Sim, com certeza! 


JV – O que eu percebo é que a maior mudança acontece no meu curso de Energetics, onde fazemos o equilíbrio dos cérebros e melhoramos a comunicação entre eles. Semanas depois, quando encontro alunos do curso, eles me dizem que finalmente estão entendendo a Teoria dos Sistemas Dinâmicos. Porque os cérebros estão trabalhando juntos de novo. 

VK – No curso de Fundamentos aprendemos que o Protocolo é um modelo de sistemas dinâmicos, as fórmulas funcionam como um modelo de sistemas dinâmicos, mas também vejo que quando o terapeuta e o cliente recebem e praticam BodyTalk há um tempo, eles começam a funcionar e a se comportar mais sincronizados com a ideia dos sistemas dinâmicos. É porque começamos a ver que o modelo dos sistemas dinâmicos está em todos os lugares. Está nas fórmulas, está no protocolo, está no Sistema BodyTalk, e também está na forma como as sessões afetam o cliente. Isso é muito interessante. Eu trabalhava como psicóloga, comecei a trabalhar com BodyTalk e me afastei um pouco da psicologia, mas alguns anos depois, quando voltei para a psicologia, percebi que compreendia os conceitos muito melhor do que antes porque, graças ao BodyTalk, havia vividos aqueles conceitos. Eu vivi a sincronicidade e o inconsciente coletivo, da psicologia junguiana, na minha prática, no meu corpo, e os testemunhei com o meu MindScape. Então agora eu entendo a psicologia junguiana melhor do que antes. Na verdade, agora eu realmente entendo o que o Jung estava dizendo. 

JV – Bem, eu conheci alguns cientistas brilhantes, e os que chegam ao topo e se sobressaem, como Elizabeth Rauscher, Fritjof Capra etc, definitivamente entendem a Teoria dos Sistemas Dinâmicos. A Elizabeth Rauscher – acho que ela faleceu recentemente – foi basicamente uma das maiores matemáticas do mundo (NT – pequena correção: ela era PhD em Física). Eu a conheci no Brasil e você deve ter me visto empurrando a cadeira de rodas dela pra lá e pra cá. Eu me oferecia para empurrar sua cadeira de rodas porque queria ficar sempre por perto para poder entrar no cérebro dela, conversar com ela [risos]. Ela tinha um entendimento dramático da Teoria dos Sistemas Dinâmicos. Ela foi Chefe na NASA, ajudou a projetar alguns dos foguetes, ela era uma lenda. Nós conversamos sobre a Teoria dos Sistemas Dinâmicos e era tão natural para ela. Ela me disse “é assim que tudo funciona” e tentou me convencer de que a matemática pura é o que melhor se aproxima da Teoria dos Sistemas Dinâmicos. Ela e o Richard [L. Amoroso] fizeram muitos trabalhos juntos, trabalhos que ficaram bem famosos, e ela me mostrou os emails que eles costumavam trocar todos os dias usando fórmulas matemáticas como linguagem, para poderem expressar a Teoria dos Sistemas Dinâmicos “em sua forma apropriada” [gargalhadas]. É uma linguagem baseada na Teoria dos Sistemas Dinâmicos e esta pode ser chamada por nomes diferentes. Tive o privilégio de conhecer muitos desses cientistas e a maioria deles diz que o Capra os inspirou muito, porque ele foi o cara que realmente entendeu a Teoria dos Sistemas Dinâmicos. Ele está aposentado agora, morando na ilha de Vancouver, perto de Vancouver. Quando tivemos a Conferência lá [Conferência Internacional de BodyTalk de 2013], eu soube que ele e o [Rupert] Sheldrake e todos esses top moram perto uns dos outros e se encontram toda semana. Fui convidado para ir a um desses encontros mas recebi o convite depois que a reunião aconteceu. 

VK – Não acredito!!

JV – Verdade! [risos] O Rupert Sheldrake expressa de forma diferente mas ele também está falando de Teoria dos Sistemas Dinâmicos. 

VK – Eu estou lendo O Ponto de Mutação agora. O livro foi escrito nos anos 80 mas é tão atual! 

JV – Sim, muito. 

VK – John, já estamos terminando a entrevista. Quer dizer algo mais?

JV – Obrigado por falar comigo. Tenho planos de ir ao Brasil porque sinto que estou precisando respirar o ar de vocês [risos]. Eu adoro o Brasil mas não tenho ido por causa do meu acidente. Ainda estou me recuperando porque tive três derrames quase ao mesmo tempo e eu deveria estar morto, segundo os médicos. Tive hemorragia, concussão, por isso não quis viajar ou voar nos últimos anos. Estou melhor, embora eu ainda sinta os efeitos dos derrames (minha memória de curto prazo está comprometida). Mas estou me recuperando e quero voltar a viajar no ano que vem. 

Quero ir para a Índia, porque temos 40 médicos que estudaram Fundamentos lá e eles querem que eu dê um curso avançado. Depois tenho que ir para a Filipinas porque eles estão fazendo um trabalho ótimo com os indígenas. Provavelmente não vou dar aula lá, só quero ver como está esse trabalho. Então no ano que vem pretendo começar com os Estados Unidos e depois quero voltar para o Brasil e rever os alunos. Por enquanto estou em minha casa fazendo sessões à distância e tem sido ótimo porque estou usando as pessoas como cobaias para minhas novas técnicas [risos] e estou vendo ótimos resultados. Tem sido divertido. 


[1] Realizada 21 de abril 2020 por Zoom.

[2] Dr. John Veltheim é o fundador do BodyTalk System e da International BodyTalk Association. O Dr. Veltheim é quiroprático, acupunturista tradicional, filósofo, mestre de Reiki, professor e professor. O sistema BodyTalk foi desenvolvido pela primeira vez nos anos 90 pelo Dr. John Veltheim. Originalmente da Austrália, o Dr. Veltheim administrou uma clínica de muito sucesso em Brisbane por 15 anos. Ele também foi diretor da Faculdade de Acupuntura e Terapias Naturais de Brisbane por cinco anos Seus extensos estudos de pós-graduação incluem cinesiologia aplicada, psicologia bioenergética, osteopatia, física quântica, medicina esportiva, aconselhamento e filosofia e teologia comparadas. Biografia disponível em https://www.bodytalksystem.com/iba/professionals/details.cfm?id=381.

[3] VERENA KACINSKIS é psicóloga, Adv. CBP, CBI e pesquisa as várias formas humanas de se expressar. Produz cursos e conteúdos sobre a calma que surge quando organizamos nosso mundo interno em verenakacinskis.com e fala sobre receitas com plantas + intuição no projeto Minha Cozinha Virou Um Jardim.

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