Ciclo do cuidado

Maria Fontes[1]

O curador ferido é um arquétipo bastante utilizado para falar sobre “o terapeuta” e a capacidade empática que essa tarefa convoca. Esse termo é inspirado na história de Quíron, o Centauro.

Na mitologia grega, Quíron é uma figura que, apesar de possuir corpo de cavalo e, de certa forma, o potencial anímico e instintivo bruto, ele era refinado, bondoso e conhecido por sua habilidade com a Medicina. De fato, era considerado uma autoridade espiritual que tratava as dores humanas. Diz o mito que ele foi, acidentalmente, atingido por uma flecha envenenada lançada por Hércules. Como era imortal, Quíron sobreviveu, mas a ferida incurável se tornou um sofrimento crônico. O desconforto da dor pessoal faz com que Quíron experiencie e busque inúmeros recursos para apaziguar aquela ferida. Ele passa sua existência investigando soluções, caminhos e possibilidades de amenizar sua dor. Reúne em si grande bagagem, o que favorece o entendimento das variadas dimensões das dores humanas que ele curava. Arquetipicamente, ele fala do curador ferido e sua busca ao lidar com a ferida eterna.

Inspirado, ou não, na imagem desse mito, Carl Jung também fala do curador ferido. Segundo ele, um terapeuta pode auxiliar na cura de pessoas por ele ser um doente, ou seja, aqueles marcados por suas dores seriam capazes de ajudar pessoas a reconhecerem, cuidarem e curarem as próprias feridas.

Estar atento e disponível a auxiliar o outro no caminho por vales escuros e doloroso de sua própria alma requer a força e a coragem de buscar a própria cura, o próprio aconchego na dor. Isso é uma arte. De acordo com Julia Cameron (2002, pág. 48) em O caminho do artista,a arte nasce na atenção (…). A arte parece brotar da dor, mas talvez seja porque a dor ajuda a focar nossa atenção em detalhes”. A arte do cuidado parece então se relacionar com a capacidade de observar e avançar nos detalhes da própria dor, conhecer os labirintos internos, lamber feridas das quedas e tropeçadas da vida e, então, disponibilizar um olhar que observe a dor do outro, os detalhes desse outro.

Mas, então, que outro é esse? Sistemicamente falando, minha capacidade de auto-observar e encontrar os pontos da minha dor, auxilia o outro a encontrar também suas dores. Não há separação.

Desde que comecei a estudar e praticar o BodyTalk, em 2012, os conceitos da Advaita Vedanta[2] foram polindo minha observação do mundo, ou minha observação no mundo.

A grande pegadinha de sentir-se separado para entender-se como um indivíduo vem da necessidade de controle: controlar o que se sente, proteger-se de dores e dissabores, minimizar julgamentos ou controlar para programar e planejar uma rota de vida. Então, vem a Vedanta novamente e me conta que controle é “a mãe de todas as crenças limitantes”. O Ser em sua expressão mais amplificada e potente não se separa do outro, nem da vida, nem dos fluxos orgânicos, nem das estações do ano, nem dos mecanismos sociais, nem mesmo das interferências astronômicas e astrológicas, ou seja, o Ser É algo integrado e composto por inúmeras camadas. A cada instante uma vivência, uma sensação de expansão, outra de limitação, uma alegria, uma tristeza, e assim, uma série de experiências de vida que vão constituindo uma experiência que vou acabar chamando de minha. Minha experiência de vida, ou, na Vida!

Não posso controlar quando dói ou quando a vida flui. Quando adoece ou quando cura. Há então, a possibilidade de observar e permitir que a consciência se faça presente, e apenas aguardar o que dela possa brotar para a nova experiência. Parece – ou realmente é – um lançar-se no espaço, lançar-se na vida.

O BodyTalk praticado em nossos consultórios é apenas uma parte de um sistema amplo e sofisticado que promove bem-estar, vida, autoconhecimento e saúde. Esse sistema integral de saúde vai desde técnicas mais simples – como o Córtices –, passando por treinamentos para autocuidados, até oferecer um suporte “filosófico-existencial-transpessoal”, embasado na Advaita Vedanta. E não para por aí.

Como técnica clínica, nos fornece um treinamento preciso com navegação respeitosa que parte da premissa das prioridades do sistema humano de cada cliente. Acontece que as dores humanas são múltiplas e complexas. Cada um de nós reflete um prisma de cores únicas. Por reverberação, sintonia com o diapasão universal ou atração sintonizada com o perfil do nosso curador ferido, a clínica de cada terapeuta irá expressar ou atrair dores humanas similares àquelas que já nos foram possíveis enxergar, observar e avançar na cura. É nesse ponto, na perspectiva de abraçar o curador ferido de cada terapeuta que, generosamente encontramos no Sistema BodyTalk, as Ciências da Vida.

Dizemos que BodyTalk é uma terapia de observação. Observar a prioridade da sabedoria inata do cliente permitindo que a mente consciente participe dessa observação e melhore sua comunicação com os aspectos observados. A partir de onde se observa algo? Só se pode observar algo a partir da própria presença. Adalberto Barreto – nos conceitos da terapia comunitária – nos esclarece que “só reconhecemos fora aquilo que conhecemos dentro” (BARRETO, Adalberto: 2005).

Ser terapeuta me convida constantemente à autoinvestigação!

Nessa jornada pelas trilhas do BodyTalk, vem sendo fundamental resgatar aquele dever de casa dos meus processos pessoais e me disponibilizar para constantes atualizações em mim. Para isso, auto-observação é um ticket de passagem sem volta.

É difícil definir as Ciências da Vida apenas como cursos do sistema BodyTalk, mas, de forma prática, são o conjunto de cursos formados pelo agrupamento do Mindscape, BreakThrough e Freefall. Cada um desses é em si um conjunto de técnicas, um espaço para processos terapêuticos e também, uma ferramenta de suporte pessoal e para a prática profissional.

O BreakThrough me ensina a ser papel de origami: investigar as crenças antigas, como marcas de um formato pessoal que já não me cabem mais e, então, por meio dos 7 passos investigativos, desapegar e deixar ir, para que uma nova “dobradura” possa proporcionar nova direção. Assim, surge uma nova possibilidade de uma nova forma de expressão. Quando reações exageradas nos dominam, gatilhos subconscientes estão nos pressionando. Os 7 passos do BreakThrough nos possibilitam identificar e transformar os gatilhos que, por vezes, sequestram nossa lucidez e apenas reagimos. Esse é um movimento interno que pode mudar nossa direção e ser altamente transformador. Muitas feridas e dores deixam de ser necessárias quando a liberação de uma crença limitante e obsoleta nos possibilita outro olhar sobre as situações e sobre nós.

Outro parceiro fundamental na prática da auto-observação é o Mindscape. Ele é o espaço dentro das Ciências da Vida que fornece um cenário seguro, como meu anjo da guarda. Fornece uma base, um apoio para os passos pessoais, relacionais e profissionais. Ali nada é por acaso. Ao alcance dos olhos fechados, alinhado com a respiração profunda, “a casa dos pensamentos malucos” se torna um lugar em que, qualquer “maluquês” ganha contornos bem desenhado e pode ser traduzida em uma linguagem cheia de informações. Mais nítido ou mais simbólico, cada elemento informa algo essencial.  A relação azeitada com a oficina vem trazendo, dia após dia, enorme clareza, e, consequentemente, confiança nos processos intuitivos.

E então, temos o Freefall.

Pausa para um suspiro… Suspiro com sensação de colo, carinho, cuidado e muito sacolejo no Serzinho que vos escreve.

Na tradução, Queda Livre!

Ao longo da vida, fui passando por vários processos terapêuticos, mas sempre me sentia “à paisana” nesse campo. Deixei locais internos, que me doíam e custavam caro reconhecer e transformar, sempre para um futuro, para o depois, como se magicamente padrões e dores fossem se curar com um toque divino. Quando me tornei terapeuta, foi necessário mergulhar mais profundo, olhar para as feridas do curador ferido com maior lucidez. Neste caminho, cheguei até o FreeFall.

FreeFall é o processo terapêutico mais ousado e, ao mesmo tempo, acolhedor e gentil que conheço até hoje. A proposta é que, dentro de um círculo invisível de confidencialidade, confiança e autorresponsabilidade, os participantes possam despir as camadas e irem em direção ao Ser. De fato, despimos. A metodologia é a nudez. Tiramos a roupa, sim, e com ela muitos preconceitos e personagens. Nesse ato simbólico cada peça de roupa pode carregar para o chão o que ela tenta esconder ou tenta dizer sobre nós. Traz a possibilidade de revelar quem somos diante de nós mesmos.

A nudez carrega em si muitos elementos ligados à sexualidade. Socialmente são raros os momentos em que a nudez é bem-vinda. Ela está relacionada a momentos íntimos e ao sexo. A energia sexual é a base da energia vital, é a energia de cura e a própria pulsão de vida. Sabemos que existimos a partir do sexo dos nossos pais. A simples menção a essa realidade nos mobiliza. Para muitos de nós, um desconforto ou sensação de preferir não lembrar dessa parte. FreeFall parte desses desconfortos com a sexualidade moldada e nos guia rumo a uma queda livre para dentro de nossa potência de vida, presente em cada célula, apenas porque estamos vivos, aqui e agora.

Na jornada FreeFall, caminhamos de mãos dadas com nossa história de vida e temos espaço para olhar de frente, no espelho, tudo o que somos ou que podemos ser ao nos despirmos dos medos, culpas, vergonhas e limitações autoimpostas. A repressão sexual está no corpo, na mente, nas emoções e até no espiritual. Ela nos formata, modela, cria camadas de dores e distanciamento de nossa força vital. FreeFall é sobre nos recuperarmos para nós mesmos.

A intensidade dessa jornada depende do ritmo de cada um consigo, com seu curador ferido e com as permissões pessoais de avançar ou se reconhecer no limite do que é possível a cada momento. É também sobre respeito, especialmente o autorrespeito. Não existe obrigatoriedade em passos pré-definidos, o que encontramos é uma guiança dentro de um processo seguro e pessoalizado. As propostas são para o grupo, e cada indivíduo tem a oportunidade de indagar-se sobre o tamanho do passo a ser dado. Apesar de estarmos em grupo, o caminho não é em direção ao outro, senão, em direção a si.

Despir-se para acessar a vestimenta mais correspondente ao Ser. Abrir os olhos e enxergar para além da imagem refletida no espelho.

Por etapas, atravessamos as camadas que foram necessárias serem moldadas diante das repressões, abusos e distorções. Ao enxergar no corpo as dores e ao possibilitar uma experiência corporal real e segura, podemos viver insights, prazeres e alegrias que liberam couraças antigas. Soltar o que estava congelado em nós reverbera de forma incrível no corpo e na vida.

É claro que esbarramos em obstáculos, mas é possível abraçar os monstros escondidos em nossas temidas sombras.

Contatar a essência é um caminho pessoal, um ritmo único. Sutilmente a poesia pessoal ganha espaço para se manifestar. Os contornos de cada um aparecem nos limites pessoais. Já falei do respeito e do acolhimento únicos? Uma dança em que cada peça de roupa deixada pelo corpo e pela persona revelam o nu de uma alma disponível a se enxergar e, às vezes, também ser vista.

Em 2016, saltei no primeiro Freefall Brasil. Encontrei, sim, muito sacolejo. A poeira que deixei pousada “para depois” foi se levantando. Um turbilhão de transformação a partir dali. Desde então, busco “saltar” em queda livre nesse ambiente terapêutico pelo menos uma vez ao ano. Assim, o repertório do meu curador ferido foi alcançando o alicerce da energia sexual de olhos abertos e mais atentos.

Em minha prática clínica, percebo mais energia vital disponível. Abundância em forma de energia básica, sexual, kundalini, que é a base de quase toda energia requisitada para a manutenção do fluxo de vida no sistema humano. Essa observação se estende aos meus clientes, mais profundos e dispostos a observar junto ao BodyTalk locais primordiais de desconfortos antigos.

Em tempo de pandemia, as feridas humanas e da humanidade estão abertas e quase inconsoláveis. O arquétipo quirônico está exposto: “o grande cuidador é aquele que possui a maior ferida”. Para cuidar é preciso cuidado, autocuidado.

FreeFall toca e abraça as feridas da alma. Constitui por si um espaço espiritual. Afinal, não há nada mais sagrado do que reconhecer e abraçar a própria dor, a própria sombra. Passo a passo, o cuidado vai se estabelecendo em esferas que pareciam intocáveis e, assim, um ciclo lindo de cuidado e atenção gentil pode nos habitar.

Onde está escuro em você?  Topa levar vida até lá?

Fluxo de vida em queda livre!

Namastê.

Maria Fontes


[1] Mulher latino-americana, filha, mãe, amiga, poetisa e sonhadora. Antropóloga e Socióloga pela UnB (Universidade de Brasília), mestrado em Psicologia Comunitária no ISPA (Instituto de Psicologia Aplicada – Lisboa), Instrutora de Yoga desde 2007, Terapeuta BodyTalk, CBP (Certified BodyTalk Practitioner) desde 2012. Apaixonada pelo Freefall desde 2016. Coordenando grupos de estudos desde 2018. O maior interesse de pesquisa pessoal é a interação indivíduo e sociedade. Encaro o BodyTalk como um sistema importante no balanceamento sustentável da vida e o azeitamento das engrenagens entre os níveis pessoal, social, ambiental, econômico, político e espiritual. Contato: fontes.mandala@gmail.com

instagram: @fontes.mandala

#(61)981012401

[2] Filosofia de raiz hindu dentro das tradições de pensamento e espiritualidade indianas cujas recentes mestres podem ser destacados como Balsekar, Krishamurti, Mooji, com os quais a concepção e leitura dos Vedas, escritos antigos sobre corpo, mente, espírito são de não-dualidade. (N.E.)

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(ink atualizado em maio 2021)

Prefácio Ed. 2 Escuta

Prefácio

Verena Kacinskis[1]

A edição que você tem diante dos seus olhos é especial. Isso porque o Sistema BodyTalk começou aqui, no que hoje chamamos de Ciências da Vida. Acho simbólico que um sistema de cuidado da saúde tenha surgido em seminários cujo foco não era o bem estar dos pacientes mas sim a organização e desenvolvimento internos dos terapeutas. Isto fala muito do BodyTalk em si. Sem auto-observação e autocuidado, como podemos ousar nos dedicar ao cuidado do outro?

Mas John e Esther Veltheim, estudantes de longa data de Jnana Yoga e intensos praticantes da autoinvestigação, sabiam disso. Eles sabem, até hoje, que a organização do mundo interno é parte do processo de autoconhecimento, e que para nos organizarmos é preciso desenvolver a arte da autoobservação. Por isso, ao fundarem o Sistema BodyTalk nos anos 1990, eles começaram por aqui.

Nesta segunda edição do Escuta, você vai encontrar cinco artigos cuja proposta é apresentar a diversidade fenomenológica das Ciências da Vida a partir das perspectivas das autoras e autores.

Em O ciclo do contato, Maria Fontes, terapeuta de BodyTalk, usa sua experiência pessoal para descrever, por vezes de forma poética, a riqueza dessas disciplinas. “Acontece que as dores humanas são múltiplas e complexas”, afirma Maria. E segue: “Cada um de nós reflete um prisma de cores únicas. Por reverberação, sintonia com o diapasão universal ou atração sintonizada com o perfil do nosso curador ferido, a clínica de cada terapeuta irá expressar ou atrair dores humanas similares àquelas que já nos foram possível enxergar, observar e avançar na cura. É nesse ponto, na perspectiva de abraçar o curador ferido de cada terapeuta que, generosamente, encontramos no Sistema BodyTalk as Ciências da Vida.”

Ciências da Vida é uma família de cursos vivenciais formada pelo MindScape, BreakThrough e Freefall. “Cada um desses é em si um conjunto de técnicas, um espaço para processos terapêuticos e também, uma ferramenta de suporte pessoal e para a prática profissional.”, nos explica Maria.

Em Ciências da Vida do BodyTalk, autodescoberta e o apreço por perguntas significativas, outro artigo cuja proposta é apresentar as três disciplinas a partir de uma experiência pessoal, a autora, Adriana Camilo, também terapeuta do Sistema BodyTalk, reflete sobre a contribuição das Ciências da Vida em sua trajetória: “Viver a vida como prática: reconhecer-se Ser. Não como um caminho para aprimorar-se e tornar-se a referência idealizada de si mesmo, mas como processo de despojar a força e poder que atribuímos a nossas crenças, aos julgamentos sobre como devemos ser e sobre como a Vida deve ser, para receber, perceber, processar e cocriar a Vida no aqui agora, na medida em que o viver simplesmente acontece.”

Adriana nos lembra que “Compartilhar as Ciências da Vida e convidar clientes a participar destes cursos é também uma maneira de estimulá-las(os) na apropriação do caminho de autoconhecimento.”

Seguindo por esta linha de pensamento (e sentimento), Myriam Machado, terapeuta de BodyTalk, nos guia pelos caminhos do FreeFall, disciplina das Ciências da Vida da qual ela é facilitadora. “John Veltheim criou o método FreeFall depois de observar o quanto as constrições criadas por nossas próprias histórias sobre autoimagem e amor próprio – e a carga negativa expressa em nossas roupas – podem perturbar não apenas o equilíbrio físico, mas também mental, emocional e energético. O principal objetivo do método FreeFall é que você possa celebrar a liberdade de Ser Humano.”

Saindo do FreeFall e caminhando em direção a outra disciplina, a própria Esther Veltheim, que idealizou e refinou os 7 passos de autoquestionamento do BreakThrough[2], nos relembra, em seu artigo Questionamento e o processo espiritual, que “nunca houve um tempo em que os seres humanos estivessem mais necessitados de aprimorar a habilidade de questionar” do que agora.

Por último, em MindScape como potencial caminho, Celso Juc e Angie Tourani, ambos instrutores de MindScape, e Carlos Bueno, terapeuta de BodyTalk e assíduo praticante das técnicas do MindScape, discutem, com mediação de Nirvana Marinho e tradução de Adriana Camilao, o uso do MindScape como ferramenta de autoconhecimento. Minha citação favorita desta conversa vem do Carlos Bueno: “MindScape e BodyTalk são geniais e ilimitados. A limitação deles é o praticante.”

Acredito que o autoconhecimento e a organização de nosso mundo interno ultrapassam o campo pessoal e funcionam como ferramentas de organização do coletivo. Não é possível construir uma sociedade saudável se os seus indivíduos estão doentes. Por isso, costumo dizer que o autoconhecimento é um trabalho, quase uma obrigação, social. A autonomia emocional adquirida depois de um fim de semana construindo uma intuição mais estruturada no MindScape ou investigando gatilhos emocionais no BreakThrough é algo que não se perde. Cada insight adquirido, permanece. E cada trabalho interno reverbera no campo familiar, profissional, social e político do indivíduo.


[1] VERENA KACINSKIS é psicóloga, Adv. CBP, CBI e pesquisa as várias formas humanas de se expressar. Produz cursos e conteúdos sobre a calma que surge quando organizamos nosso mundo interno em verenakacinskis.com e fala sobre receitas com plantas + intuição no projeto Minha Cozinha Virou Um Jardim.

[2] Depois da escrita deste Prefácio um novo artigo foi adicionado a esta edição, escrito por Salima J. Lara Resende (ERRATA) e embora não conste do presente texto, também sobre o BreakThrough, faz parte desta edição igualmente. (N.E.)

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(link atualizado em maio 2021)

Prefácio Ed. 1 Escuta

Convite à escuta

Celia Barboza dos Santos [1]

Quando recebi o convite para prefaciar a primeira edição do periódico Escuta, fiquei extremamente feliz pois o lançamento aglutina dois temas pelos quais sou encantada; o sistema BodyTalk e o pensamento sistêmico. E a melhor maneira de começar um artigo sobre o BodyTalk System é citando o próprio John Veltheim, criador do método, juntamente com Esther Veltheim.

A evolução do BodyTalk começou há quarenta anos com um sonho. A primeira parte do meu sonho era sobre uma terapia que pudesse transcender o modelo do diagnóstico, seguindo a primeira diretriz do corpo sobre seu próprio processo de cura. Nessa terapia, eu tinha visão do corpo na sua total expressão para decidir sobre suas próprias prioridades de tratamento. A função do terapeuta não era mais orquestrar o processo de tratamento de acordo com uma opinião de diagnóstico. Ao invés disso, a função do terapeuta poderia ser honrar e ser guiado pelo corpo de suas prioridades para cura. A segunda parte do meu sonho era a mesma de muitos seres humanos antes de mim: uma terapia que pudesse oferecer resultados tais que poderiam ser exponencialmente benéficos. No meu sonho, o sistema humano pode permanecer dinamicamente no caminho do seu bem-estar e poderia continuar melhorando mesmo depois que o tratamento tivesse acabado. Em outras palavras, o corpo, com sua própria sabedoria, poderia assumir o controle. A primeira parte do meu sonho se realizou através do que nós chamamos de Sistema BodyTalk. (I Had a Dream, John Veltheim e Esther Veltheim, 2016)

Em 2007, quando conheci o sistema BodyTalk, eu não tinha nenhuma noção do que estava por se abrir para a minha vida. Minha trajetória terapêutica dialoga com muitas práticas integrativas e, interessada em conhecer um método que combinava conhecimentos da fisiologia ocidental com os saberes da medicina tradicional chinesa e conceitos da física quântica, parecia que eu iria aprender mais uma técnica; no entanto o que encontrei foi um passaporte para um sistema de saúde baseado em consciência, numa abordagem de tal forma criativa, que trabalhar com este sistema tornou-se a minha universidade pessoal. A partir daí fiz todas as formações básicas e avançadas e segui o  desenvolvimento, certificando-me como praticante regular e integrando-me como membro da IBA Internacional BodyTalk Association, que é p órgão regulador no mundo.   Provavelmente, um dos grandes benefícios diretos que ser terapeuta BodyTalk me causa, é manter-me uma eterna curiosa, sobre temas diversos.

Nos ambientes das terapias integrativas, onde observa-se a energia como substrato causal, sempre ouvi que precisávamos aprender a pensar fora da caixa, que a energia acende a lâmpada, mas não podemos vê-la e então, por essa razão, existe. Sempre foi muito interessante, mas ainda havia um certo contexto de precisar acreditar, usando essas metáforas. As minhas primeiras experiências com o BodyTalk me surpreenderam muito e eu, simplesmente, não tinha explicações para os resultados. A minha enorme surpresa era em razão de que, tudo que eu fazia antes como terapeuta, dependia de mim, de um determinado conhecimento aplicado de uma forma específica, da minha inferência e interferência para que funcionasse; e a prática do BodyTalk me fazia experimentar uma estranha sensação de que não era eu quem estava pilotando. No BodyTalk, quem guia o processo é a própria pessoa, a partir do que se nomeia como Sabedoria Inata, trazendo as prioridades, revelando as informações, os aspectos que serão abordados e todo o processo é realizado por este mesmo princípio inteligente e altamente criativo.

Duas perguntas eram frequentes na minha mente: como era possível e em que tipos de doenças o método era eficaz; porque eu ainda expressava o conceito de que saúde era a ausência de doença. A primeira questão, sobre como era possível que uma pessoa que não tinha conhecimentos de anatomia, pudesse chegar até o aspecto celular de um órgão, foi rapidamente ficando clara, pois o BodyTalk possui protocolos detalhadíssimos, que funcionam como cartas de navegação, levando o terapeuta a observar as prioridades que estão sendo expressas pelo corpo; desde as funções orgânicas, até as formas como as emoções podem interferir na função orgânica, ou como o clima pode afetar o humor de alguém. Esta atenção ao que é prioridade, e não ao que é um sintoma, faz toda a diferença.

No entanto, a segunda questão, que confundia meu conceito antigo de saúde como sendo ausência de doença, exigiu mais esforços para minha compreensão. O BodyTalk me apresentou o pensamento sistêmico, o universo das possibilidades – que eu já começava a estudar, mas não via aplicabilidade – colocando por terra muitos comportamentos rígidos e ideias pré-concebidas. Olhar para um sintoma sem que, no entanto, haja uma investigação mais profunda, sobre os contextos que possibilitam que um determinado sintoma ou comportamento ganhem força para se expressar, equivale a destacar aquela parte do todo e dizer que não está adequada e não deveria ser como é.

O corpo é um sistema; é corpo-mente e todo o tempo está se expressando; então um sintoma local, pode estar comunicando que algo, num outro lugar, está em sofrimento. O que conhecemos como saúde ou doença são as opções disponíveis, dentro de uma infinidade de potenciais, que a sabedoria inata encontra para revelar histórias. É quando se pode observar, evocar consciência sobre o que está envolvido em uma complexa rede de informações, que comumente simplificamos com um nome diagnóstico. Todo sintoma é, no mínimo, uma grande história. E a Sabedoria Inata é a tendência natural do corpo para se auto regular.

Então, o BodyTalk é um grande sistema de saúde, que contém muitas estratégias, para apoiar o corpo no seu processo natural de auto regulação; esta é a proposta mais criativa que alguém pode encontrar para tratar da sua saúde, em todos os níveis. Quando falamos em sistemas, ou sobre a percepção sistêmica, estamos abrindo um espaço natural para observar que uma parte é composta de outras partes, até a infinitesimal partícula sub atômica.

Podemos admitir isso quando colocarmos em perspectiva a família. Nosso corpo não difere em absolutamente nada desta proposta. Somos um corpo alimentar, mas também somos um corpo essencial ou consciencial. A perspectiva de pertencimento é sistêmica, pois só ocorre em razão de uma parte se reconhecer em relação a um todo e a forma como a comunicação, os relacionamentos entre as partes, estão acontecendo. Então, como temos certeza de quem somos? 

Existe uma identidade, porque o meio sistêmico, que inclui família e ambiente, atuam para que a pessoa exista como indivíduo; quer dizer que, todo o tempo, temos muitos referenciais, programações e crenças, nos informando o que deveríamos ser e como precisamos nos comportar para sermos aceitos.

Para que se construa um corpo, uma pessoa, muita coisa aconteceu antes; e muitas delas estão agindo como informações desorganizadoras do equilíbrio. O fato de o BodyTalk ser um sistema, possibilita que esta perspectiva ampla e profunda, com tantos conteúdos diversamente registrados na experiência, se torne observável.

A criatividade no sistema BodyTalk, vem da possibilidade de observar as informações se expressando de modo não linear, não local, independente da lógica de tempo e espaço, apoiando o sistema corpo mente, para que encontre opções mais saudáveis para expressar-se. No BodyTalk, as sessões são conduzidas pelo praticante com total atenção ao que acontece no momento presente; o terapeuta está lá com o cliente, plenamente, sem julgamento de valor, praticando a escuta em níveis amplos. Há uma escuta de fato, daquilo que pode ser dito; mas principalmente, há uma escuta do silêncio; daquilo que nunca pôde ser dito; de histórias de uma vida inteira registradas no corpo; de memórias doloridas, marcantes ou singelas; registros inconscientes que, inúmeras vezes, precisam somente de uma respiração profunda ou de uma lágrima, pois palavra não cabe ali. A experiência em uma sessão de BodyTalk pode ser muito reveladora ou extremamente sutil, sugerindo que nada muito profundo está acontecendo, mas trata-se apenas de como a experiência se dá para cada um. E tudo isso segue, estritamente, os caminhos e ritmos delineados pela sabedoria inata.

Tendo a sentir a terapia como arte, pois antes de ser terapeuta eu dançava. E na escola onde estudei, havia duas meninas surdas que faziam balé clássico. Era um mistério como elas sabiam, no sentido do saber profundo, todos os compassos e ritmos da música! Hoje, eu compreendo mais claramente este jeito de escutar com o corpo inteiro, trata-se de estar com o coração disponível para a experiência, em estado de atenção e presença.

O BodyTalk faz este percurso, de escutar de perspectivas diferentes, já que esta escuta é feita sempre a partir do conjunto cliente/terapeuta, e desta energia única emergem questões sistêmicas; escutar é um “ato contínuo”. Reverberando em ondas para os vários níveis do ser. De uma certa forma o periódico Escuta, convida a todos para esta dança silenciosa. Aqui, terapeutas comparecem como autores, a convite da Nirvana Marinho que é a idealizadora do projeto. Quando a Nirvana se dispôs a ouvir os terapeutas, estava germinando o caminho que resultou neste periódico que, não por acaso, leva o nome de Escuta.
          

A medida em que ela nos ouvia, ondas alcançaram seu cérebro, seu coração e se expandiram em ações que se materializaram num amplo convite à participação integradora de muitos terapeutas, que puderam também expressar suas experiências e percepções sobre o BodyTalk, permitindo um mapeamento inicial da presença do BodyTalk no Brasil, como você  poderá descobrir lendo o artigo BodyTalk no Brasil: uma cartografia de caminhos possíveis – por Ana Marcela Sarria

O artigo A relação do Livro O Ponto de Mutação e o BodyTalk – por Luciano Flehr, aponta para as bases da teoria dos sistêmicas dinâmicos, trazendo informações precisas para a compreensão das interações entre o ambiente e o ser e a influência que o livro de Fritjot Capra teve na perspectiva sistêmica do Dr. John Veltheim.

Enquanto desenvolvemos a prática do BodyTalk, vamos aprendendo que, assim como no corpo, as relações também adoecem e que este adoecimento é a tentativa do sistema inteiro revelar que há algo muito importante acontecendo, no artigo BodyTalk como sistema, é sobre como relacionar-se – por Nirvana Marinho, fica evidente a indivisibilidade do ser, a integração entre ser e ambiente, desde a perspectiva sistêmica.

Para contar um pouco mais sobre pertencimento, o texto que é quase um poema, Sistema BodyTalk – por Claudia Morum Xavier Lapa, nos presenteia com a perspectiva sistêmica familiar. Assim como cada membro da família tem seu lugar, o corpo reflete este processo; ou será que é o contrário?

Observando tudo isso, eu me lembro do sonho do próprio Dr. John, que nos presenteia com uma entrevista imperdível, conduzida e transcrita pela Verena Kacinskis, contando como seus insights foram tomando forma para criar um sistema de saúde baseado em consciência.

O BodyTalk é exatamente assim. Escutamos a fala, escutamos o silêncio, escutamos a diversidade; os conflitos e movimentos criativos que, desde sempre, o sistema corpo-mente quer revelar nas relações com toda a história pessoal e o mundo em que vivemos, estando pronto para melhor se comunicar, sincronizar, equilibrar e caminhar com mais saúde. O convite é para leitura, mas é como uma proposta para ouvir, atentamente, no vibrato profundo do seu coração; assim como aquelas duas meninas no balé. Aproveita a entrada do inverno, se aconchega e escuta o que nosso coração te oferece. Escuta.

Celia Barboza dos Santos

Junho 2020


[1] BodyTalk System (CBP),PaRama Body Talk 1, Eastern Medicine, Master Programação Neurolinguistica, Terapias Integradas da Respiração, Constelação Familiar.

@Celiabarbozaterapeuta
Celia@celiabarboza.com

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(link atualizado em maio 2021)

Ensaio poético “Sistema BodyTalk”

Cláudia Morum Xavier Lapa (1)

Sistema. Sistêmico. Partes em um todo. O todo.

Todas as vezes que falamos em partes, olhamos para o todo. As partes que formam o todo estando, cada uma, em seu próprio lugar. Nada falta. Tudo reverbera.
Tudo pertence e tudo completa. Tudo em seu próprio lugar.

Constelar. Conter lar. Constelação. Conter ação. Movimento e fluxo. Ir e vir sem fim.

O Eu, em si, é um sistema. Completo. Pleno. Pronto. E a caminho.

Eu, pronta e a caminho. Parto daqui.

Por que nos colocamos tanto a preencher espaços? Por que tendemos a excluir?
Se nós sabemos parte, por que queremos o todo? E se em nós mesmos somos todos, por que queremos partir?

Somos parte de um todo. Todos nós.
Somos plantados pela fonte da Vida lá no seio, no ventre, e ali somos acolhidos.
Ali, no ventre, passamos a pertencer.

Não fomos escolhidos. Fomos acolhidos.
E passamos a ser parte de um sistema, o familiar, onde pertencemos a um pai e a uma mãe.
Porque não existe pai sem mãe e não existe mãe sem pai.
Ambos pertencem. Em si. No todo.
Já não importa o que se dê entre esse homem e essa mulher. Soprada a vida, um pertence ao outro e ambos se tornam um só em cada célula do que brota, do que nasce. Vida renovada!

Por que tentamos partir?

Pertencemos! E passamos todo o tempo validando esse movimento. Sou.
Pertenço.
Incluo e então integro.

Entrego! Integro!
Integrado ao todo me faço completo, pleno e perfeito. Tudo que fui feito para ser.

Somos soprados pela vida em um momento de Encontro. Sopro. Vento.
Vida!

Existimos a partir de dois e, também por isso, mesmo únicos, somos plurais. Trazemos em nós mesmos os dois, o encontro, a integração. A pertença!

É como se selássemos em nossa existência a completude do Ser. Perfeitos!
Tudo que fomos feitos para ser.

Mas então… por que partimos?
O que nos leva a tentar quebrar as partes se podemos ser o todo, estar no todo? Pertencer!? Parte ser!

Todo ser humano busca pertencer. Talvez seja exatamente por termos existido a partir de um encontro que nos parece vital fazer parte. Mas se entendemos que não há como partir, usufruímos do todo e saboreamos. Ficamos. Não tentamos encaixar em outro espaço. Não precisamos do que é do outro. Porque em mim eu sou pleno.

Porque no que me cabe, eu caibo. E plenifico.

Nascemos pertencentes. Mas mesmo antes de nascer, já somos parte do sistema. Mesmo aqueles que viveram por um curto espaço de tempo, ainda no ventre da mãe, e morreram sem ver a luz deste mundo, pertencem.

Porque tudo que existe, morre. Completa. Porque mesmo quem não nasce morre, e existe. E ninguém deixa de existir porque morreu. Somos todos parte, para sempre. E ninguém muda isso. Nem a Vida. Nem a morte.

Então… por que ainda tentamos partir?

Somos parte. Todos. Da humanidade. Do sistema familiar onde nascemos. E de sistemas que constituímos.
Um, dois, às vezes três ou mais…
Encontros que se perpetuam porque passamos a pertencer um ao sistema do outro. Intercessões. Pertenças.

Não é possível excluir o que pertence. Porque cada parte é do todo. E não há parte que supere o todo. Nunca.
Em qualquer tempo ou lugar.

Por que tentamos excluir?
Por que teimamos em pertencer ao que não nos cabe?

Se existimos, pertencemos. E me pertencem. Os filhos são dos pais e os pais são dos filhos. Para sempre. Nada muda isso. Nem a morte. Nem a vida. Selados por um encontro, pertencemos.

Um encontro entre um homem e uma mulher. Onde ambos são inteiros e completam.
Momentos que se eternizam quando a Vida sopra.
Não há como separar.

Em mim, pai e mãe são um só.

Para sempre.
Um não é maior que o outro. Ambos são partes e juntos são
o todo. Um pertence ao outro, e mesmo que se despeçam como casal, permanecem sistema, e permanecem um em mim. Em cada célula minha. Células que são parte e formam o todo. E a vida segue em frente. Em pleno movimento. Plena. Serena. E soberana.

Assim a vida se dá. Plenificando encontros. Eternizando vidas que pertencem. Multiplicamos. Crescemos. Esparramamos sementes dos frutos colhidos dos que vieram antes. Vida continuada. Sou parte. Colho e semeio. E o que espalho será colhido pelos que vem depois de mim. Porque sou só uma parte do todo que existe desde muito antes e que pode ir em frente, a partir de mim e dos meus encontros. Porque pertenço e selo. Continuo. Permaneço viva naquele a quem dei, nos solos que semeei.

Nasço, cresço, frutifico. Multiplico. Pertenço em partes e ao todo. Participo de novos sistemas.
Trabalho, organizações… sistemas!

Com meu trabalho, sirvo. Me coloco a serviço da Vida, do mundo e da humanidade. Então, mais pertenço!
Como parte, sirvo ao todo.
Esparramo sementes. Multiplico. Mas permaneço um só. Uma parte, de um todo. É só o que posso ser. Parte. Plena. Inteira e íntegra.

E como parte, pertenço e me coloco a serviço. Dou continuidade e crio. Atividade. Movimento.
Sigo em frente.

A serviço da Vida. Dou. Recebo. Troco. Complemento. Colho. Contribuo.

Equilibro no dar e receber a continuidade da Vida plena. Vida que é.
Em mim, em você, em nós, a Vida é.
Plena. Sem complementos.

Se há luta, há luto. Perda. Falta. Exclusão. Negação. Ilusão.
Pertencente, pertence para sempre.
Flui. Em colher e semear. Usufruir. Compartilhar. Organizar. Se dar. E Ser.

E então, volto ao início desse momento. No tempo.

Sistema BodyTalk. Sistema. Pertenço? Pertenço!

Me dou! Coloco a serviço. Colho. Semeio. Observo. Compartilho. Multiplico. Organizo a mim ao estar no meu lugar. Como parte, sou do todo. Pertenço. Recebo. E na medida que dou e colho, sigo em movimento de pertença.
Com o que é meu. Colhendo do outro.
E, do que é meu, usufruo e plenifico.
E do outro, colho e sirvo.

Escuta, revista sobre BodyTalk, ed. 1, inverno, 2020 4

Vai e vem. Em movimento. Sempre pertencendo. Aceitando
da vida. Acolhendo. Fazendo a flor ser. Florescer.
Em mim. No outro. Em todo.
Como parte. A parte que só cabe a mim. E que plenifica o todo em mim. E no outro.

Porque como parte, eu fico. Mesmo se partir.

Então…
Já sou parte. E do meu próprio lugar só eu posso ver. Estar. Observar. Ser.

Pleno Ser. Um só. Único. Especial. Extraordinário!
Como são todas as outras partes que pertencem ao todo. E em todos pertencem.

Que venha o que é meu. Que eu possa fazer boas coisas com isso. Tomar do que o outro oferece. Agradecer. E então, a Graça Ser. Em abundância.

Como lá no princípio da Vida. Soprar. Mover. E ir em frente. Esparramar sementes. Colher frutos. Se dar. Receber.

E assim, a Vida segue em frente. Em movimento.
Plena.
Soberana.

Eu quando eu partir, no momento em que a vida se fizer completa em mim, eu vou em paz. E fico.
Fico nas sementes plantadas.
Fico na existência pertencente.

Tudo está em seu lugar.
A vida flui.
Criatividade. Continuidade. Intimidade.

Vida multiplicada.
Que segue em frente. Em cada parte. No eu, em você, em todos, no TODO.

Usufruamos!
Vida em abundância desde sempre, para sempre. É só colher!

Somos sistêmicos. Sou Sistema.

E isso é BodyTalk.

Cláudia Morum Xavier Lapa Maio de 2020

(1) Cláudia Morum Xavier Lapa é
. Psicóloga clínica (atendimento individual, casal e grupo)
. Consteladora
. Terapeuta BodyTalk CBP e PaRama (certificada pela IBA)
. Palestrante
61 999949791
@claudiamorumxavierlapa

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(link atualizado em maio 2021)

“BodyTalk como sistema, é sobre relacionar-se”

Nirvana Marinho (1)

Ao conhecer o BodyTalk como paciente, vivenciei a surpresa do bem-estar contínuo. Revisei crenças difíceis da mente racional, venho observando como se desprendem pouco a pouco e experimentei a força que emergiu para lidar com as decisões que a vida convida – ou impõe, depende do ponto de vista. Naquele tempo, não podia perceber o quanto essas melhorias estavam em relação: autocuidado, mente propositiva e serena e corpo pronto para realizar, decidir. Pouco a pouco, foi ficando nítido o quanto as sessões reverberam em mim, como um todo, sendo minha vida não mais em campos separados – profissão, afetos, família, sexualidade, dinheiro, sociedade – mas uma contiguidade.

Já conhecia os conceitos teóricos da Teoria Geral dos Sistemas, uma das precursoras do entendimento de complexidade e pensamento sistêmico, a partir do doutorado em Comunicação e Semiótica na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, em meados de 2002. Encontrar uma terapia que tem por base a teoria dos sistemas dinâmicos foi uma surpresa. Na pós-graduação, foi o Professor Jorge Albuquerque Vieira o anfitrião do pensamento sistêmico, cujos livros são extremamente inspiradores e ele é amplamente estudado no campo das artes.

Ademais de toda conceitualização densa, importante considerar que Jorge Vieira parte dos estudos de Mário Bunge (cuja data da publicação referência é 1979), cujos estudos focavam em compreender a ciência em sua complexidade chamada ontologia, ou seja, o que são as coisas, como as define, como
suas ações no mundo desenham modos de compreensão, ou seja, epistemologias. Esse emaranhado conceitual pode ser importante aqui para termos uma visão de como a teoria dos sistemas dinâmicas compõem a base filosófica e científica do BodyTalk.

Jorge Vieira, a partir de Bunge, nos conta em seu artigo “Organização e Sistemas” (2000), que ontologia é o estudo de conceitos – o que é – de substância, probabilidade, acaso, mudança, evento e processo, tempo e espaço, ou seja, questões que observamos na psique tal como se propõe o BodyTalk. Adverte mesmo que utilizamos tais conceitos sem termos parado para pensar o que eles realmente significam, pois isso depende da nossa visão de mundo. Por isso, vale ressaltar como é importante a revisão de percepção que Dr. John Veltheim, idealizador da abordagem, nos orienta quando é necessária uma visão não mais cartesiana, mas sim sistêmica do corpo-mente.

Ver corpo sob ponto de vista cartesiano é distinguir as partes e investir na mecânica de funcionamento, enquanto ver de forma sistêmica é observar as relações complexas entre as partes, às vezes visíveis, às vezes não, às vezes evidentes às vezes confusas ou não racionais, às vezes causais e muitas vezes não tão definidas assim em sua justificativa ou explicação racional, pois operam em níveis mais profundos do corpo-mente.

Jorge Vieira aprofunda ainda mais tais conceitos e torna-se aqui fundamental lembrarmos que, a partir de seu olhar sobre parâmetros sistêmicos, considerarmos que os sistemas observáveis são abertos e que suas propriedades fundamentais assim o estabelecem: segundo sua permanência, diante do seu ambiente, e dada sua autonomia. Isso quer dizer que “todas as coisas tendem a permanecer”; “sistemas trocam energia, matéria e informação com outros sistemas”, portanto o fazem em seus ambientes entrelaçados; e que os estoques armazenados ao longo do tempo se acumulam e criam uma narrativa (ele diz uma característica discursiva). Daí nascem sua função de memória, fundamental ao sistema. O autor ainda falará, neste artigo, sobre os parâmetros evolutivos, dentre eles a complexidade, cuja derivação é a reflexão sobre auto-organização.

No entanto, vejamos, por hora, como tal desenho teórico pode nos ajudar na dinâmica do BodyTalk. Vale pontuar que a teoria geral dos sistemas é uma das teorias sistêmicas clássicas que puderam problematizar as teorias que se seguiram, como a teoria dos sistemas dinâmicos. O que se assemelha aqui é o pensamento sistêmico em questão.

A contribuição fundamental do pensamento ontológico a que se baseia a teoria geral dos sistemas, pautando grande parte do pensamento sistêmico, é olhar os movimentos como sistemas abertos, buscando sua complexidade, pois para permanecer, trocar, armazenar – ter memória e narrativa, os sistemas buscam auto-organização.

Isso seria, justamente, uma das bases fundantes do BodyTalk. No meu entender, esse diálogo interteórico e prático – no pensamento científico atual e este aqui pensamento terapêutico do corpo-mente – é justamente essa compreensão dos sistemas abertos, sua complexidade e auto organização que fazem o BodyTalk ser como é: uma prática de escuta, prezando pela prioridade, observando vínculos e lendo a complexidade vinda do que chamamos de Inato.

Sistemas dinâmicos e BodyTalk

Dr John pontua em vários de seus escritos a relação entre a teoria dos sistemas dinâmicos e o BodyTalk. Vejamos algumas das citações:

No artigo de 2012, “BodyTalk: the journey”, ele cita:

“O sistema BodyTalk é baseado em alguns princípios diferentes que envolvem ciência (inclusive a física), filosofia, técnicas e fórmulas para usar medicina alternativa científica e segura e eficaz. (…) A principal base do sistema BodyTalk básico é a Teoria de Sistemas Dinâmicos. Esse modelo científico existe há mais de 40 anos e é maravilhosamente explicado por cientistas, como Fritjof Capra em seus escritos” (Veltheim, 2012, 279)

Escuta, revista sobre BodyTalk, ed. 1, inverno, 2020 4

“Eu sempre entendi completamente que (…) toda a energia do
universo era uma série ou coleção de matrizes morfogênicas que estão todas inter-relacionadas e interdependentes. Isso significa que o único sistema que faz total sentido para mim é a teoria de sistemas dinâmicos. O autor, Fritjof Capra, tem uma influência profunda no meu pensamento em seu livro, “O Ponto de Mutação”. (Veltheim, 2012, 283)

No livro “The Science and Philosophy of BodyTalk – Healthcare designed by your body” (2013), o capítulo 4 explica sobre “A sabedoria inata” e sua aplicação prática e cita:

“Para facilitar a condução de uma sessão do BodyTalk, é utilizada uma abordagem da teoria de sistemas dinâmicos. Isso significa que um protocolo para o cérebro esquerdo é estabelecido para que todo o conhecimento essencial da função da mente-corpo possa ser consultado, como um blueprint. No BodyTalk SystemTM, esse blueprint é incorporado ao Protocolo de Atendimento que reconhece as informações acumuladas de todos os níveis da mente corporal, desde a anatomia física, os corpos energéticos e a consciência localizada”. (Veltheim, 2013, 45)

No livro, “The BodyTalk System”, o capítulo 4 sobre “Reestabelecer a comunicação”, ele comenta:

“Através da Teoria dos Sistemas Dinâmicos, todos os ramos da medicina alternativa têm o potencial de desenvolver uma estrutura teórica sólida para trabalhar com o corpo como um sistema de energia. A Teoria dos Sistemas Dinâmicos também ajuda bastante a explicar as nuances do relacionamento entre o corpo e a mente, particularmente em relação à cura pela energia. As diversas e controversas descobertas e observações do sistema energético humano são finalmente explicáveis em termos relativos”. (Veltheim, 1999: 23)

Outra maneira de contextualizar Teoria dos Sistemas Dinâmicos é visitar fontes bibliográficas como Fritjof Capra, autor muito citado por Dr. John Veltheim como inspiração para sua visão do corpo-mente, de forma sistêmica. Em “A visão sistêmica da vida – uma concepção unificada e suas implicações filosóficas, políticas, sociais e econômicas”, Fritjof Capra diz:

Escuta, revista sobre BodyTalk, ed. 1, inverno, 2020 5

“As principais características do pensamento sistêmico emergiram na Europa durante a década de 20 em várias disciplinas. Os pioneiros em abordar o pensamento o pensamento sistêmico foram os biólogos, que enfatizaram a visão dos organismos vivos com totalidades integradas. Posteriormente, ele foi enriquecido pela psicologia da Gestalt e pela nova ciência da ecologia, e teve talvez os seus efeitos mais dramáticos na física quântica”. (Capra, 2014: 93)

Importante ressaltar que a chamada Teoria dos Sistemas Dinâmicos é também conhecida como “teoria dos sistemas não lineares” e é pautada no arcabouço matemático coerente que só foi possível com o avanço da matemática das décadas de 80 e 90. Capra comenta:

“A visão dos sistemas vivos como redes auto organizadoras cujos componentes estão, todos eles, interconectados e são interdependentes tem sido expressa repetidas vezes, de um maneira ou de outra, ao longo de toda a história da filosofia e da ciência. No entanto, modelos detalhados de sistemas auto organizadores poderiam ser formulados só muito recentemente, quanto se tornaram disponíveis novas ferramentas matemáticas que permitiram aos cientistas, pela primeira vez, descrever e modelar matematicamente a interconexidade fundamental das redes vivas”. (Capra, 2014: 134)

A teoria da complexidade surge nesse contexto. Sendo uma espécie de “mãe” do pensamento não linear, filosofia e matemática confluem na compreensão e descrição de relações e padrões de fenômenos não lineares, sobretudo aqueles dos seres vivos. Assim, tornou-se possível uma mudança de perspectiva do próprio pensamento sistêmico.

Assim também parece ser com a terapia sistêmica e integrativa do BodyTalk. Quando o que chamamos de fórmula – de prioridades e vínculos – na prática terapêutica permite a observação da não linearidade das histórias por detrás dos sintomas – é isso que muda completamente a visão de saúde sistêmica e medicina integrativa.

Escuta, revista sobre BodyTalk, ed. 1, inverno, 2020 6 BodyTalk como sistema

Dada tal contextualização, sabemos que o BodyTalk convida o corpo-mente à observação e escuta de suas prioridades baseadas na sabedoria inata do corpo. E isso tem a habilidade de trazer auto-organização, homeostase, saúde e consciência, o que expande sua complexidade e revela a dinâmica sistêmica que o caracteriza. A questão é: como isso acontece? Compreender como a teoria dos sistemas dinâmicos pode nortear tamanha complexidade no atendimento terapêutico, assim como as implicações desse olhar. Essa é nossa tarefa maior neste artigo.

A observação é uma das chaves da prática do BodyTalk. Conceitualmente apoiada na física quântica, a relação entre observador e observado é, na verdade, a percepção de como se influem mutuamente. É da característica dinâmica dos sistemas a vontade de conhecer seus movimentos, seus fluxos, seus ritmos, suas tendências. Se o sistema é dinâmico e aberto, seus movimentos serão conhecidos a medida em que o sistema se faz ele próprio. Assim, parece ser o corpo-mente em relação ao ambiente e, portanto, de certa forma, o processo terapêutico que o BodyTalk convoca. Observação é uma prática na qual nem prévio julgamento e nem dados a priori estão em pauta, pois é no acontecimento que a sessão se revela.

Dr John Veltheim deduziu que, uma vez uma qualidade de observação dada, o sistema aberto e vivo tende a sua organização não por sequenciar sua complexidade, ou seja, o corpo no BodyTalk não é uma leitura linear; tende a sua organização justamente porque é um sistema dinâmico, ou seja, suas partes não tem uma relação causal – não olhamos o sintoma para determinar um diagnóstico – nem olhamos para o sintoma nele mesmo mas nas suas relações complexas possíveis – ao que podemos chamar das várias técnicas que compõem o sistema integral. O que chamamos de fórmula no BodyTalk é sistêmico porque se revela na medida em que uma prioridade é estabelecida.

Isso nos leva a perceber que uma das peculiaridades do sistema BodyTalk é que a complexidade do corpo está em não diminuir ou elevar nenhuma história que

Escuta, revista sobre BodyTalk, ed. 1, inverno, 2020 7

aparece em sessão – não tem nada mais importante do que o
vínculo, a relação, as formas de coesão que, se ressignificadas, podem ganhar novas dinâmicas. E uma das características dessa dinâmica é a coerência, ou seja, o que realmente faz sentido, ao que chamamos de consciência. Não é uma mente que ordena o que é mais importante, porque isso seria uma forma de ordenação linear de um conjunto de fatores.

Sistema assim tem a tarefa de nos fazer repensar as relações complexas. Uma das implicações terapêuticas é de considerar a sessão como um sistema complexo, considerar a relação entre terapeuta e paciente com outras variáveis que deixa ambos abertos ao que virá.

Dessa maneira, a dinâmica sistêmica do BodyTalk é, em certa medida, em busca da homeostase, ou seja, do funcionamento do corpo e de suas potencialidades tal como são: nem estagnados na doença, nem apegados a sua história, mas em constante movimento porque justamente são lidos como sistemas abertos e complexos. Isso inclui os seus desequilíbrios como forma provisória de equilíbrio, o que abre uma longa jornada para entender a aceitação vinda do coração. Isso inclui também considerar que seus desequilíbrios não podem ser a submissão à doença ou à crença, mas, ao contrário, é um convite ao enfrentamento saudável.

A principal implicação do BodyTalk ser tido como uma prática sistêmica é justamente a possibilidade de observá-lo em sua complexidade e em constante dinâmica de coerência. Isso que o caracteriza como uma medicina integrativa singular. Saúde, do ponto de vista sistêmico, exige de nós a auto responsabilidade do olhar, da empatia e da atenção plena da mente.

Nirvana Marinho Março 2020

(1) Graduada em Dança (1999, UNICAMP), Doutora em Comunicação e Semiótica (2006, PUC-SP), terapeuta certificada de BodyTalk (CBP, desde dez 2015), atua em São Paulo. Atualmente tem como principais iniciativas e projetos com BodyTalk: estudos para implementação de BodyTalk nas Escolas, Grupo de estudos Mindscape – inclusive voltado a jovens estudantes, idealizadora e parte da Comissão Editorial do periódico sobre BodyTalk “Escuta” com Verena Kacinskis, idealizadora das entrevistas BodyTalkers falando de BodyTalk e pesquisadora da cartografia “BodyTalk no Brasil: cartografia de caminhos possíveis” com Ana Marcela Sarria e Daniele Pires, organizadora das Sessões de Matriz BodyTalk Br (nov 2019-2020) e idealizadora e pesquisadora da atual Estudo de Caso Coletivo sobre Articulações. Em tempo, concluiu seu treinamento para tornar-se Instrutora de BodyTalk Acesso em junho 2020 e é uma das coordenadoras do projeto comunitário BodyTalk Covid. Email: nirvana.bodytalk@gmail.com. Site: http://www.corpoconsciencia.net.

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(link atualizado em maio 2021)

“A relação do livro “O ponto de Mutação” e o BodyTalk”

Luciano Flehr (1)

“Os novos conceitos em física provocaram uma profunda mudança em nossa visão do mundo: passou-se da concepção mecanicista de Descartes e Newton para uma visão holística e ecológica, que reputo semelhante às visões dos místicos de todas as épocas e tradições”. CAPRA, F., 1983:15

Com esta introdução adentramos no livro de Fritjof Capra, O ponto de mutação, que traz dados detalhados da evolução da física, da biomedicina, da psiquiatria ao longo dos anos. O livro é rico em detalhes sobre nomes e datas de acontecimentos no mundo da ciência, vem num crescente sobre a visão de Descartes, sobre o olhar mecanicista (que separava matéria e mente) da ciência, fazendo uma ponte com a visão de Newton, que aprofundou esta visão com seus cálculos matemáticos e uma base de tradições esotéricas, trazendo um pouco mais de substância para a visão mecanicista. Passa o olhar pela física moderna de Albert Einstein, mostrando que o seu trabalho foi de grande relevância, porém, não conseguindo fazer a interconexão entre matéria/mente/energia. Deixando este legado para a teoria quântica. Vamos focar na parte sobre a visão do livro que fala sobre saúde, terapias e técnicas holísticas e integração com o conceito sistêmico de tratamento.

No capítulo sobre Holismo e Saúde, traz um aprofundamento pelas diversas técnicas e terapias aplicadas há milênios. Iniciando pela avaliação do Xamanismo, sua importância dentro do contexto social e ambiental. Mostra o quão profundo é a Medicina Tradicional Chinesa, explicando o conceito de Yin e Yang, falando um pouco sobre os cinco elementos, que ele considera ser mais correto dizer “Cinco Fases”, trazendo a ideia de que o organismo humano é um microcosmo do universo e que é influenciado por eventos estressantes nas esferas psicológica e social, que impactam de forma reconhecida para a formação de doenças.

Percorre a medicina no Japão e mostra que lá há uma tendência a unir o conhecimento da Medicina Tradicional Chinesa com a medicina ocidental, criando assim uma denominação de Medicina tradicional do leste asiático, um sistema eficiente de assistência médica. Lá eles se interessam pelo conhecimento subjetivo,

que consideram tão valioso quanto o pensamento dedutivo racional.
Capra comenta que na medicina a intuição e o conhecimento subjetivo deveria ser usado por todo bom médico, porém não é validado e nem tem o reconhecimento na literatura profissional e nem é estimulado nos ensinos das escolas médicas. Em nenhum momento o livro se posiciona contra a medicina Hipocrática ocidental, mas nos mostra que deveria tomar um outro rumo, com relação à visão que tem do “doente e da doença”. Capra também traz a importância da inserção do trabalho de psicologia para acompanhar a pessoa que está adoentada, porque pela visão sistêmica, a parte emocional e social trás uma influência tamanha no adoecimento ou cura do indivíduo. O livro nos leva pelo campo da homeopatia, informando que a origem da filosofia desta terapia remonta aos ensinamentos de Paracelso e Hipócrates, tendo o sistema terapêutico formal fundado no final do século XVIII por Samuel Hahnemann. Trazendo o princípio que a finalidade da homeopatia é estimular os níveis de energia da pessoa. Através da identificação dos padrões de vibração do indivíduo e dos problemas, apregoa o princípio de que o semelhante cura o semelhante. Usando uma afirmação e colocação de George Vithoulkas, o maior expoente da nova homeopatia, podemos colocar que a relação entre o paciente e o homeopata/terapeuta, é uma interação íntima para ambos. “Não há como ser um mero observador passivo, é preciso haver esta interação, para que ocorra o crescimento tanto no profissional quanto no Paciente/Cliente” (CAPRA, F., 1983: 334).
Neste capítulo sobre Holismo e terapias, encontramos conhecimento sobre as técnicas de Wilhelm Reich, sobre a terapia Reichiana, que fala das couraças musculares. Nos mostra sobre a importância da meditação e relaxamento e o quanto a respirar correto é importante para manter os padrões de equilíbrio do corpo-mente. Vai discorrendo sobre as outras técnicas como Quiropraxia, Bioenergética, Técnica de Alexander, Feldenkrais, Rolf. Menciona que todas essas abordagens se baseiam na noção Reichiana de que “a tensão emocional se manifesta na forma de bloqueios na estrutura e no tecido musculares, mas diferem nos métodos empregados para desfazer esses bloqueios psicossomáticos” (CAPRA, F., 1983: 339).
O capítulo leva a entender que o conceito e princípio de saúde não deveria ser separado da integração com o ambiente, corpo-mente e campos energéticos. E faz análises e observações para mostrar que para ocorrer esta integração, precisamos ter uma visão sistêmica do universo a nossa volta. “A nova visão da realidade, de que vimos falando, baseia-se na consciência do estado de inter-relação e interdependência essencial de todos os fenômenos – físicos, biológicos, psicológicos, sociais e culturais” (CAPRA, F., 1983: 259).

Necessita-se ter clareza que os sistemas estão interligados, que os genes, não são os determinantes, exclusivos do funcionamento de um
organismo e que são partes integrantes de um todo ordenado e, portanto, adaptam-se à sua organização sistêmica.
E que todo ordenado é este? Capra cita a auto-organização, dividida em auto renovação e auto transcendência (capacidade de se dirigir criativamente para além das fronteiras físicas e mentais, nos processos de aprendizagem, desenvolvimento e evolução), e que estes princípios trazem uma dinâmica para a auto-organização do organismo. Mas, também nos mostra o quanto complexo é manter um organismo em equilíbrio. Isto nos leva a um entendimento de variáveis nos quais os sistemas estão inseridos. Questões ambientais, sociais, culturais, emocionais e constitucionais do corpo. É importante perceber que a dinâmica do corpo, não está restrita somente a ele. Precisamos ampliar nossa mente e percepção dessa visão sistêmica. Perceber o quanto o fator ambiental, tem um impacto tremendo sobre as reações químicas e emocionais e consequentemente físicas em nós.A influência do ambiente no nosso corpo/mente, foi bem explicada no livro A Biologia da Crença de Bruce H. Lipton, Ed. Butterfly, e Capra a descreve nesta frase de forma precisa “Cada criatura está, de alguma forma, ligada ao resto e dele depende”.


Ele nos mostra que se faz urgente trazer esta visão para as atividades de saúde: médicos, psicólogos, enfermeiros. O Ser não deve ser dividido, ele está integrado, não só em si, mas com tudo. Para ilustrar: “Do ponto de vista sistêmico, a vida não é uma substância ou uma força, e a mente não é entidade que interage com a matéria. Vida e mente são manifestações do mesmo conjunto de propriedades sistêmicas, um conjunto de processos que representam a dinâmica da auto-organização” (CAPRA, F., 1983: 284).
No livro, Capra descreve que esta auto-organização pode ser denominada com o termo Sabedoria Inata do corpo-mente. Neste ponto chegamos ao BodyTalk. A técnica do BodyTalk é denominada sistema de tratamento, porque o criador da técnica John Veltheim, tendo o livro O Ponto de Mutação, como uma de suas referências, conseguiu sintonizar com o princípio da visão sistêmica. No BodyTalk tudo está interligado. Parte física, emocional, ambiental, energética, cósmica. Trazendo fortes bases na Medicina Tradicional Chinesa e filosofia Vedanta, o BodyTalk se destaca por acessar a Sabedoria Inata do cliente para que possamos restabelecer o equilíbrio das energias, das emoções, influências ambientais, corpo físico e mente. John conseguiu unir os fundamentos da Medicina Tradicional Chinesa, Medicina Ocidental tradicional, pela anatomia e fisiologia do corpo, Yoga, Cinesiologia, Física Quântica e Bioenergética, formando um sistema de tratamento Sistêmico. Aonde tudo está interligado. Não deve haver separação, o Ser não é uma máquina fria, estática. Há uma dinâmica e interligação. Partindo do princípio de que o Sistema Corpo-
mente tem o poder de se auto curar, o Sistema BodyTalk acessa as informações através de um sistema de perguntas e respostas de biofeedback, para que possa restabelecer as diversas comunicações necessárias para se desfazer o estresse instaurado no corpo. Capra traz uma definição para estresse: “O estresse é um desequilíbrio do organismo em resposta a influências ambientais” (CAPRA, F., 1983: 317).
Como falei anteriormente, já é sabido hoje que o ambiente influencia grande parte das desarmonias que acontecem no individuo. Nossos genes vêm com todos os marcadores para adoecermos, o que faz para que um desses marcadores seja ativado, é sua reação ao ambiente e vice-versa. Na visão sistêmica, do sistema BodyTalk entendemos esta influência e através de um olhar cuidadoso e intuitivo do terapeuta, vamos acessando as informações nos detalhes, nas dinâmicas de como aquele indivíduo lida com estas oscilações. Para que através da técnica possamos restaurar o equilíbrio ou como citado no livro a capacidade de auto-organização do corpo-mente.
Transcrevo aqui algumas citações do livro O Ponto de Mutação, que fiz um paralelo com o Sistema BodyTalk, por se tratar de uma terapia que traz e incorpora esta visão Sistêmica para o Ser.

“Ser saudável significa, portanto, estar em sincronia consigo mesmo – física e mentalmente – e também com o mundo circundante” (CAPRA, F., 1983: 317).

“A doença pode ser física ou mental, ou manifestar-se como comportamento violento e temerário, incluindo crimes, abuso de tóxicos, acidentes e suicídios, a que se pode licitamente dar o nome de doenças sociais. Todas estas “vias de fuga” são formas de saúde precária, sendo a doença física apenas uma das numerosas formas patológicas de enfrentar situações estressantes na vida” (CAPRA, F., 1983: 319).

“É fato que o estresse prolongado anula o sistema imunológico do corpo e suas defesas naturais contra infecções e outras doenças. O pleno reconhecimento desse fato ocasionará uma importante mudança na pesquisa médica, fazendo com que ela deixe de lado a preocupação com microorganismos e passe a estudar cuidadosamente o organismo hospedeiro e seu meio ambiente” (CAPRA, F., 1983: 318).

Luciano Flehr Junho 2020

(1) Formado em Medicina Chinesa pelo Instituto de Acupuntura do Rio de Janeiro, Reiki I e II, Silva Mind Control, MindScape I e II , BreakThrough, tem todos os módulos do BodyTalk Prático e Avançado, Formação em Parama I e II. Foi organizador do curso de BodyTalk entre 2005 a 2007. Trouxe a Dra Janet Galipo para o primeiro curso de BodyTalk em Belo Horizonte em 2006. Atua com o BodyTalk há 16 anos. Email: lucianoflehr@gmail.com. Site: http://www.lucianobodytalk.com.

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