Uma breve provocação: para você, o que é saúde?

Por Ana Carolina Medeiros de Vasconcelos

O exercício de escrever esta colaboração para a terceira edição do Escuta nasceu justamente de uma escuta. Minha proposta inicial era ler os textos de meus colegas e, de alguma forma, costurá-los. Só que não fazia ideia de como isto surgiria. 

Foi então que, a partir da leitura prévia dos textos, me escutei indagando: “BodyTalk é um Sistema de Saúde baseado em Consciência, mas, afinal de contas, o que é saúde?“

Esta provocação fez todo sentido, pois saúde é aquela palavra que fica ali no meio, camuflada porque, de maneira geral, supomos que já há uma compreensão anterior sobre ela.

Só que, desta vez, saúde se descamuflou e se mostrou ser a agulha que faltava para essa costura. Resolvi, portanto, provocar em vocês o que esta escuta provocou em mim. 

Me arrisco a dizer que, a maioria das pessoas que procuram atendimento com BodyTalk, chegam em busca de uma melhor qualidade de vida, autoconhecimento, bem estar, ou algo do gênero. De maneira geral, querem ser mais saudáveis. 

Ana Claudia Quintana Arantes, médica geriatra e gerontologista especialista em cuidados paliativos, ressalta que “ser saudável é ser guardião da vida”: “O ser humano é único, não é replicante. Quem trabalha com cuidado paliativo tem menor índice de estresse profissional possível porque nós aprendemos a dar valor à vida”. Ana Claudia Arantes nos relembra que, enquanto há vida pulsante em um corpo-mente, há a guarda da vida, ainda que o corpo físico esteja perecendo.

Dessa forma, somos todos saudáveis, mas “nossa saúde não é fixa nem permanente”, como nos adverte Monja Coen. Por isso, ela nos conecta diretamente com o estado de impermanência e vulnerabilidade. “Nós precisamos saber o que nós podemos fazer e quando temos que parar. O que é conveniente e o que é inconveniente e aí nós podemos manter um estado regular de saúde, mas que não é permanente”. Coen nos dá, então, a dica de que saúde também é guardar a vida observando e respeitando nossos contornos.

Moacyr Scliar vai além e complementa: “o conceito de saúde reflete a conjuntura social, econômica, política e cultural. Ou seja: saúde não representa a mesma coisa para todas as pessoas. Dependerá da época, do lugar, da classe social. Dependerá de valores individuais, dependerá de concepções científicas, religiosas, filosóficas”, isto é, passa por muitos filtros. Portanto, saúde também é ponto de vista. “O mesmo, aliás, pode ser dito das doenças”.

Mas ponto de vista de quem? 

Pelo olhar do BodyTalk, vamos focar no ponto de vista do paciente a partir de um evento de impermanência e vulnerabilidade manifestado através de um sintoma.  

Este ponto de vista conta como a história do sintoma se desenvolveu até se sobrepor ao estado natural do ser e levá-lo a duvidar da sua saúde, da sua habilidade de guardar a vida, independentemente dos sintomas ali manifestados. É como se a sabedoria inata nos desse pistas de uma história que podemos desvendar a fim de integrar este novo estado e retirá-lo da dúvida em relação a sua habilidade inata de curar-se. 

Dessa forma, nossa busca por ser saudável carrega em seu interior a vontade de mudar pontos de vista e se dirigir a um novo estado de percepção do eu.

Saúde também é, portanto, o ponto de vista que integra este estado de percepção.

 “Bem, em termos práticos, é nítido que muitas vezes precisamos de alguma crise a fim de despertar para essa verdade. Sem uma crise pessoal ou social, a tendência é não nos incomodarmos com as mudanças. Para alguns de nós, uma crise de autoconfiança ou uma crise pessoal de infelicidade faz a diferença (…) quando você passa por uma crise como essa, ela lhe dá a tenacidade de que você precisa” – Consciência Quântica, Amit Goswami, pág 182.

Por isso, é mais sobre como estamos guardando esta vida e o que estamos guardando dela. 

Essa reflexão me leva direto a experiência pessoal com as práticas meditativas do Taoísmo que nos orienta a tapar os olhos com a palma das mãos, antes e após a meditação, como forma de guardar a luz de nossos espíritos. 

Dentro do Taoísmo, a meditação é uma prática filosófica que nos realinha com nosso Tao, o nosso Caminho, e nos leva de volta pra casa. Por isso, também é vista como prática de manutenção da saúde. Curioso, né?

Saúde, portanto, também é a habilidade de estarmos cada vez mais alinhados com nosso Caminho, satisfazendo a alma.

“Com frequência, as pessoas me perguntam qual o significado e o propósito de uma existência humana na Terra. O que estamos fazendo aqui? A visão de mundo quântica nos dá pistas sobre esse propósito? Em termos bem simples, a resposta para essas perguntas é que estamos aqui para satisfazer nossa alma. Então, cada pessoa deve se questionar: O que me satisfaz de fato” – Amit, pg 181

Percebo, portanto, que está na hora de voltarmos à frase de definição do Sistema BodyTalk. 

Sendo um Sistema de Saúde baseado em Consciência, as sessões de BodyTalk lembram  ao nosso corpo-mente que ele pode guardar a vida em maior ressonância com a Consciência e ir, aos poucos, voltando para casa sem tantos desvios, satisfazendo, de fato, sua alma.

E, pra você, o que te satisfaz?

Referências audiovisuais

Ana Claudia Quintana Arantes – Aula 1 “O Grito” – Os Inumeráveis Memorial

Ana Claudia Quintana Arantes – A morte é um dia que vale a pena viver

Monja Coen – Nossa saúde não é fixa nem permanente. Como nos cuidamos?

Referências Bibliográficas

História do Conceito de Saúde, Moacyr Scliar

Consciência Quântica, Amit Goswami, 2018, Editora Goyo

Páginas citadas 181 e 182

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O Caminho da Individuação

Márcio Ribeiro

A partir do instante em que nascemos, surge um movimento inconsciente por aceitação. Embora nem todos desenvolvamos a sensação de não sermos amados, desejados e queridos, de acordo com a formação da nossa consciência de separação, todos buscamos ser aceitos. 

Por vezes, observamos que a nossa chegada no mundo traz uma mudança potencialmente agradável, mas que também gera um grande peso para as pessoas que nos recebem. Trata-se de um peso que essas pessoas buscam disfarçar com toda força (seja por valores culturais e éticos ou, simplesmente, pelo cuidado em nos acolher), e assim eventualmente conseguem transformá-lo em amor. Ainda assim, o peso existe.

A partir daí, o que podemos perceber é que no transcorrer de uma vida, o ser humano desenvolve várias máscaras em busca de aceitação, retribuição ou obtenção de alguma recompensa. Pressionados pela intensidade de cada estágio que passamos desde a infância, ouvindo opiniões sobre nos parecermos mais com o pai ou com a mãe, por exemplo, buscamos crescer.

Então, desde o início da jornada, todos nós recebemos uma carga consensual com os códigos para pertencermos. Essa carga evolui para a máscara principal que adotamos e com a qual vivemos, mas que nem por isso torna-se um fardo para todos. Porém, na percepção de alguns, essa máscara cria uma ideia equivocada de que aqueles que nos trouxeram ao mundo deveriam ser responsáveis por nós, cem por cento do tempo. Essa é uma demanda que, por sua vez, passa a se apresentar como um grande obstáculo.

Ao não aprender a lidar com essas máscaras, ou ainda, ao não buscar uma versão individual de nós mesmos, dentro do espaço-tempo da nossa mortalidade, nos distanciamos do sentimento de valor e amor próprio e, principalmente, da individuação.

Enquanto terapeutas de BodyTalk embasados no vasto conhecimento da filosofia Advaita Vedanta, a busca por essa individuação se torna um desmascaramento dos momentos cruéis em que julgamos o outro, ou nos quais nos sentimos julgados. Desta forma, a busca pela individuação nos alimenta com um senso de que é possível sim viver, apesar da impossibilidade de sermos aceitos o tempo inteiro. 

Entendemos que é possível viver com um sentimento de paz, apesar de não termos controle absoluto sobre nada. Compreendemos que precisamos fazer do controle um legado ilusório, porém necessário, para as vivências mundanas do cotidiano. Afinal, esse controle é útil; inclusive para evitar uma reação de emoção exagerada diante dos desafios que surgirão na interação com o outro, a partir do nosso processo de individuação. 

Vale ressaltar que não importa o quanto você se individue, o mundo não precisa acompanhar a sua individuação. Ou seja, o outro não precisa estar bem-resolvido para que você também possa estar em um lugar melhor. Embora o conhecimento seja impessoal, esta é uma jornada pessoal, na medida em que a iluminação é para todos, mesmo que o despertar nunca seja igual para ninguém. 

Tomar esse despertar pode implicar, para alguns mais que para outros, uma sensação de isolamento, de solidão ou, até mesmo, de estar a um passo de uma depressão. Outra percepção que habitualmente acompanha o despertar de consciência é o sentimento de não ser entendido. 

Mas o grande trabalho de um terapeuta de BodyTalk é de somar-se ao entendimento de que o corpo-mente quer essa individuação; todo ser deseja lembrar-se de quem é, na origem. Por esse motivo, devemos sempre ter em mente a analogia da onda no mar. 

A onda, quando se percebe ainda identificada com o mar, ela faz da corrida em direção a praia o seu grande objetivo. Poderíamos dizer que ela traça caminhos e metas para chegar até seu destino: primeiro, vem crescendo como uma marola no meio de um oceano, até tornar-se onda forte, corajosa e capaz. É assim que ela, destemidamente, alcança a praia. Conforme o mar a recolhe para a fusão e ela percebe que a praia não é o fim da jornada, surge a consciência de nunca ter sido separada do oceano. É a partir desse desapontamento egóico que se inicia o despertar espiritual.

Seguindo a mesma linha, ao longo da vida humana passamos por desafios, gestamos motivações, vestimos máscaras para dar conta, buscamos melhorar para sermos aprovados e aceitos. Acreditamos que desta forma vamos conseguir alcançar algum objetivo, que assim que chegarmos lá seremos felizes; e que se não atingimos esse marco, significa então que não fomos ninguém, não fizemos nada, não chegamos em lugar nenhum. Sem contar que muitas vezes projetamos essa felicidade no outro como se fosse um objetivo comum. 

Talvez a nossa grande inflexão possa estar em dar-nos conta de que não é sobre o resultado final e nem sobre ser feliz, mas sim sobre experienciar essa jornada inconstante, impermanente, que nos é dada e tirada, sem aviso prévio. Viver os prazeres, os despertares e os lutos, inclusive da perda dessa efêmera experiência de onda. O ouro está na faísca potencial de despertar para a jornada por si só, como jornada da alma, e não em função de algum resultado egóico final. A experiência da convivência, do diálogo, do afeto, do amor… Isso é o que interessa e faz o exercício da jornada da alma valer a pena.

Portanto, no que diz respeito a nós, terapeutas, que temos o conhecimento das consciências naturais do corpo e as dinâmicas dualísticas que elas nos convidam a viver aqui: quanto mais individuados, mais este ir e vir de vivências será percebido apenas como uma oscilação na onda. 

Para mim, este é o marco zero a partir do qual eu já não me encanto mais com a adrenalina de surfar a crista da onda, pois afinal, sei que a onda também baixa. Tampouco me paraliso quando tudo se silencia. A vida então começa a ser trançada de impermanência, agora bem menos assustadora, e ressalta aquilo que mais temos que reconhecer na nossa história humana: a vulnerabilidade, não como um sinal de fraqueza, mas de humanidade. Afinal, mesmo pertencendo à vasta consciência-oceano, somos apenas seres humanos. 

Na jornada infinita da alma, somos ondas com término determinado, mas expressamos consciência quando nos percebemos conectados ao potencial infinito de possibilidades. Agora, os nossos pais já não são mais responsáveis por nós, a cultura não é responsável por nós, e tampouco há culpa por estarmos atravessando qualquer experiência. A religião, que já não dava todas as respostas, agora ocupa o lugar de nos servir durante a jornada, até o ponto de não servir mais. 

Agora o eu já não segura mais, não julga mais, não critica mais, e não busca ser aceito ou amado quando percebe que não o é. Agora há amor-próprio e auto-aceitação, inclusive diante de outras ondas que, ainda identificadas, se acham separadas do oceano, e assim, de mim mesmo. 

Individuados, livres, ao fim da jornada, temos o potencial de morrermos despertos, quando a faísca de iluminação retorna à essência do todo. Conectados com o todo, individuados, não importa mais que as relações sejam agradáveis ou que tragam felicidade. Agora todos pertencem ao ciclo de múltiplas facetas, sem jeito certo de ser ou de viver, porque toda a expressão do universo é válida.

O importante é manter um caminhar centrado e conectado, na companhia desapegada de todos, buscando viver e resolver aquilo que nos cabe, em homenagem a essa força que governa a todos, dê a ela o nome que quiser: amor, consciência… Pouco importa, desde que o caminho seja aquele da individuação.

Finalizo com Balsekar (1992, p. 200, grifo do autor)

Você não pode evitar estar aqui! Eu não pude evitar estar aqui. Este-que-está-falando e aquele-que-está-escutando precisam estar aqui para que a fala-escuta ocorra como um evento. Você pensa que você está ouvindo, mas a escuta está ocorrendo através do mecanismo do corpo-mente e isto é parte do processo de desidentificação, de iluminação, que acontece. E no processo de desidentificação, no processo evolutivo, isto é um evento. Isto é um evento específico. Portanto, esta escuta está ocorrendo através do mecanismo do corpo-mente porque tinha que ser assim neste momento, neste lugar. Isto é parte do funcionamento da Totalidade.

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Prefácio Ed. 3 Escuta

Renata Ururahy [1]

Tendo praticado e estudado BodyTalk internacionalmente, estou muito honrada em fazer parte da terceira edição do Escuta e desta forma me conectar com a matriz brasileira de terapeutas BodyTalk.  É com muita alegria que vejo o sistema se desenvolver de forma tão profissional e qualificada no país do meu coração.

Acredito que estamos em um momento único na história da humanidade, em que existe a possibilidade de um salto quântico na forma das pessoas entenderem a dinâmica do corpo-mente de forma mais interconectada, que trará uma grande demanda das terapias baseadas em consciência.  

Nesta edição os artigos vêm explorar, em diversos ângulos, o princípio fundamental do BodyTalk como sistema de saúde baseado em consciência e refletir na importância crucial deste princípio para o alcance de um verdadeiro estado de saúde.    

Marcio Ribeiro nos convida a questionar o que faz a jornada da alma realmente valer a pena e como viver essa jornada inconstante e impermanente de forma centrada e conectada. Seu artigo é uma bela descrição da importância do processo de individuação que o BodyTalk facilita ao encontro do amor próprio e autoaceitação. Marcio traça uma trajetória desde o momento onde formamos nossas máscaras em busca da aceitação e pertencimento ao momento em que nos reencontramos como os seres que realmente somos.  O artigo explora a possibilidade de vivermos desapegados de resultados egóicos e “Livres, ao fim da jornada, temos o potencial de morrermos despertos, quando a faísca de iluminação retorna a essência do todo.” afirma Ribeiro. 

Luciano Flehr, em seu artigo divide conosco relatos incríveis de resultados alcançados com o BodyTalk em diferentes etapas de seu crescimento como terapeuta. Fazendo parte do sistema há mais de doze anos, me identifico muito com a forma em que Luciano se apaixona pela modalidade e as possibilidades que ela nos oferece de transcender aquilo que acreditamos ser possível dentro do paradigma da medicina moderna. 

Refletindo na definição fundamental do BodyTalk como sistema de cuidados com a saúde baseado em consciência, Natasha Mesquita nos convida a questionar “Por que tantos paradigmas sobre a viabilidade de sessão a distância, se a consciência é imaterial?”

De forma descontraída e intrigante, o artigo nos desafia a refletir como acessamos as informações nas sessões de BodyTalk e a importância da simples observação do terapeuta do que o corpo tem a dizer como fator causal do processo de transformação. 

Natasha explora o embasamento científico da física quântica para explicar como as sessões de BodyTalk podem ser efetivas tanto pessoalmente como a longa distância, apresentando o conceito de campos morfogenéticos e entrelaçamento quântico usados para descrever a interconexão de todas as coisas no universo. Além disso, o artigo instiga o questionamento de nossas crenças acerca do que é o conhecimento, trazendo a importância da qualidade subjetiva e da experiência interna ao processo de validação do conhecimento. 

Em uma edição da Escuta que reflete novos princípios científicos para entender terapias integrativas e quânticas como o BodyTalk, Nirvana Marinho em seu artigo “BodyTalk e sua ciência, fatos baseados na consciência”, nos apresenta três pesquisas realizadas no Brasil nos últimos dois anos. Nirvana também nos introduz à três autores que fortalecem a base científica do BodyTalk: Fritjof Capra, James Oschman e Amit Goswami que nos oferecem uma ponte entre a ciência e a filosofia e descrevem uma prática não dualista da consciência, nos levando a uma nova visão da realidade.

Em seu artigo, Ana Carolina Medeiros de Vasconcelos provoca o leitor a questionar o verdadeiro significado de saúde e nos convida a incluir o conceito do valor que damos à vida quando pensamos em saúde. O artigo reflete na natureza impermanente do nosso estado de saúde e da importância de práticas (como o BodyTalk) que promovem o alinhamento com a Consciência e buscam satisfazer a alma no caminho de volta para casa como aspectos fundamentais na promoção da saúde.   

Aproveitem a leitura dos artigos desses incríveis profissionais.

[1] Formada em Nutrição pela UnB, Renata se mudou para os EU para expandir seu conhecimento em terapias integartivas, onde completou seu mestrado em Nutrição Holística pela Clayton College of Natural Health. Em busca de se aprofundar na compreensão da interação corpo-mente, se certificou como Terapeuta BodyTalk, Instrutora de Yoga e Reiki Master. Renata realiza atendimentos pessoais e a distância no Brasil e Estados Unidos, além de trabalhar com grupos de mulheres em processo de descoberta espiritual.

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O BreakThrough e o encontro da sua própria Rainha de Copas

Salima J. Lara Resende[1]

Como nos convida a refletir Esther Veltheim, criadora do Sistema Breakthrough: espiritualidade talvez seja a total aceitação de nossa humanidade, aqui e agora, em um mundo complexo. A aceitação de eu e você irrequietos, às vezes meio loucos. Onde achamos o sagrado e também partições, o prazer, a separação e, quando há muita (muita) sorte, reencontros com coisas mais leves do que o que nos fazem sentir jargões espirituais – ou desespirituais (esta última palavra aqui fui eu que inventei, mesmo).

Jargões como Alcançar a Iluminação; Curar a Criança Ferida; Ser Fit; Ser saudável; Desapegar do passado; Ser um grande terapeuta; Ser alguém bem resolvido; Evoluir. São jargões que geram metas que destroem o senso de confiança em si mesmo de alguém. Aumentam a arrogância e a desconexão com nossa clareza e humanidade – simples, vulnerável, espiritualizada.

Netflix e o Mestre

Esta semana assisti um filme no Netflix. A tradução do nome do filme seria, na íntegra: “Polvo, meu professor”. Era sobre um homem comum correndo contra o tempo, trabalhando com algo que não lhe era natural para a própria saúde. Decidiu mudar o rumo e passou a visitar diariamente um polvo que conheceu enquanto praticava mergulho livre na baía onde cresceu – sim, um polvo; o animal marinho mesmo, daqueles que se serve ou come em bons restaurantes. Meu Deus: que história. Difícil encontrar espiritualidade – ou humanidade – melhor descrita. História sobre devoção e clareza.

O que você acha que aconteceria a você se assistisse ao seu melhor amigo, a quem você se dedicou diariamente por um ano e que te ensinou a se encontrar livre e despido, e quem te deu o sentido de vida que você havia perdido, ser devorado por um tubarão enquanto você prende o ar debaixo d`agua, numa temperatura a 10 graus Celcius? Conseguiria só filmar a cena sem intervir, em entrega e sem necessidade de construir explicação – mental, espiritual, emocional ou desapegada? Eu não sei se conseguiria. E também não consegui não cair na armadilha de me envolver com expectativas irreais que me fizeram segurar minha própria energia na busca de uma evolução desconexa. Outras pessoas, pelo que vejo na prática, seguram a própria energia na tentativa de viverem o que se acredita ser uma Boa Vida. Mas o resultado é o mesmo: a queda.

Foi o questionamento ensinado pelo Sistema BreakThrough, junto com a graça do meu Mestre (sim, meu Mestre – vivo), que me possibilitou levantar. Mesmo com a graça de encontrar uma relação com um Mestre vivo real que me guia. Mestre é alguém que já desaprendeu tudo o que não é; não se diz saber e não precisa de nada além de relaxar e tomar sorvete de sobremesa, ou outras coisas assim. Observo o BreakThrough como ferramenta das mais preciosas dentre o que estudei nos últimos 18 anos em Psicologia. Explico agora o porquê, com parte da história de Alice no país das Maravilhas, de Lewis Carroll.

Se quisermos ir fundo no buraco da Alice e de fato conhecer a nós mesmos, temos que encontrar uma Rainha de Copas Interna. Essa rainha deve ser pronta a nos cortar a cabeça; nos resgatar das rasteiras que a cabeça (ou os Sistemas de Crenças), às vezes, nos dá. O rastro delas – tanto da Rainha Interna quanto das rasteiras da Crença – é dos mais difíceis de se decifrar. Somos sortudos se encontramos preciosos recursos de ajuda para a jornada. O BreakThrough é um deles.

Comecemos do começo

O BreakThrough é um sistema que nos leva a conhecer nossas crenças inconscientes. São elas o que gera em nós, em nosso corpo emocional, carga desnecessária e que acaba – cedo ou tarde – pesando. O peso pode ser por um senso de sofrimento, por estresse, por doenças físicas ou pela insistência em situações ou relações que não são nutritivas (que não ajudam a relaxar).

O significado do Símbolo de Copas, com o desenho de um coração, nos leva à lembrança das emoções. Se você já foi tomado por uma delas – as cinco emoções básicas: alegria/tristeza, preocupação, luto, medo ou raiva – e não conseguiu agir de forma prática naquele momento, você sabe o poder que tem o nosso Corpo Emocional. E pode se beneficiar com o BreakThrough. Conhecer essas energias emocionais, saber de onde vêm quando por elas somos tomados (Sistemas de Crenças inconscientes) facilita a vida. Encontrar estabilidade emocional, ou cortar a própria cabeça, é ser capaz de responder a vida em lugar de apenas reagir a ela. Ser capaz de parar de perder energia com o que não é importante; não nos deixa dormir ou não é aceito. Estabilidade emocional é a capacidade de não se envolver com o que dificulta o relaxamento – possível, por natureza, a qualquer Ser Humano. O mesmo relaxamento enaltecido pela força, poder e vivacidade que descrevem a existência de um animal selvagem – livre e intocado, como o polvo professor do filme. O BreakThrough pode nos ajudar a reaver relaxamento. O BreakThrough relaxa. Mas calma: quão fundo no buraco da Alice você quer ir?

De volta às origens: Quem sou Eu?

A jnana yoga é, dentre os caminhos espirituais, aquele que mais requer clareza intelectual. Uma capacidade de se fazer perguntas certas (muitas vezes tácitas) que ajudam a separar o joio do trigo; ou o que é real do que é irreal; ou a nossa clareza dos Sistemas de Crença. A jnana yoga é o fundamento do Sistema BreakThrough. É a arte de questionar até que se chegue a essência – o que não pode ser percebido, nem descrito – mas É. Aqui, onde as coisas são como são, relaxamento e alívio são possíveis. A resposta à pergunta “Qual o sentido da vida” é degustada, e não apenas entendida.

Ramana Maharishi, mestre indiano que usou a jnana yoga e morreu em 1954 (dia do meu aniversário, mas isso não importa – nem para mim nem para você) nos deu de presente a Auto-Investigação. A sugestão de prática que ele dava a milhares de alunos, pessoas que lhe procuravam na busca de alívio, aos seus mais próximos discípulos ou a sua mãe, era a mesma. A recomendação de se fazer, repetidamente e a si mesmo, a simples pergunta “Quem Sou Eu”. Quem é você que se encontrou ou está no caminho? Quem é você que não entende como outras pessoas conseguem viver daquele jeito? Quem é você que não sabe? Quem é você que tem raiva, frustração ou não consegue sair do lugar? Quem é você que se arrependeu ou que, finalmente, acertou? Quem é você que errou? Quem é você que faz o que pode? Quem é você que é amoroso? Quem é você que é egoísta? Quem é você que é agressivo, calmo ou pacífico? Quem é você que é demais, ou que não é bom o suficiente?

Ramana foi um ser humano extraordinário. Não só por ter sido simplesmente humano, até o talo. Mas por ter catalizado o processo espiritual (ou o processo de voltar a ser humano) de pessoas que hoje, ainda vivas, inspiram ou ensinam. Inclusive o meu Mestre, que tem Ramana como seu ParaGuru. E pessoas como a Esther Veltheim – que criou e nos ensinou o Sistema BreakThrough. Tenho o Breakthrough como uma versão mastigada para nós do Ocidente do exercício de AutoInvestigação de Ramana Maharishi. O BreakThrough é preciso, impressionante, simples. Funciona. Traz alívio, clareza, lembra-nos da necessidade de devoção e compaixão por nós mesmos, se quisermos ser humanos.

Autoperdão

Com o uso do BreakThrough na clínica (agora também online) testemunho centenas de pacientes, muitos dos quais recebem sessões mensais de BodyTalk, a dar significativos saltos na direção do alívio e do autoperdão. Com o uso do BreakThrough já experimentei clareza sobre mim mesma e sobre o que me segurou por meses a fio em situação justa demais. É uma daquelas coisas que vale se dar de presente: receber uma sessão de BreakThrough, ou estudar o Sistema. O único pré-requisito é você já ter sentido uma emoção exageradamente e querer – por saber o peso que uma emoção exagerada traz – ser a sua única e própria Rainha de Copas.


[1] Salima J. Lara Resende é Terapeura BodyTalk Avançada e Parama, Psicóloga, Terapeuta Floral e Alquimista. Mantém sua clínica em Brasília; atende por consultas online (em português e Inglês) e também em Florianópolis e Garopaba. Ensina o BodyTalk Acesso desde 2009; trabalha com o Breakthough desde 2010. Dedica-se `a meditação desde 2012. Contato: sensis.bodytalk@gmail.com / +5561998420477

Crédito da imagem: Ramanaashram, Tiruvannamalai, Índia, 2018. Foto: Salima J. Lara Resende

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Auto investigação e o caminho espiritual

[1]

Esther Veltheim[2]

Seja paciente na direção de tudo que está insolúvel no seu coração e tente amar as questões elas mesmas, como quartos fechados e como livros que são agora sendo escritos numa língua estrangeira. Não procure respostas, que não podem ser dadas a você porque você não está apto a viver com elas. E o ponto é, viver com tudo isso. Viva as questões agora. Talvez você irá gradualmente, então, sem perceber, viver em algum dia distante em direção ao futuro”. – Rainer Maria Rilke

Pergunte para vinte pessoas diferentes o que duas pequenas palavras “caminho espiritual” significam para elas e você irá provavelmente receber vinte respostas diferentes. Mas tem chance que muitas destas explanações irão conter o termo “ser iluminado”.

Caminho spiritual. Tornar-se iluminado, iluminar. Ser uma pessoa espiritual. Quase qualquer pessoa envolvida em cura alternativa ou algum tipo de yoga irá ter cruzado com essa terminologia ou mesmo regularmente usado esses termos.

Uma coisa é muito certa. Se seu objetivo é tornar-se iluminado, a crença que falta algo em você vai te pegar. O oposto também pode acontecer. Se seu objetivo é tornar-se iluminado, é possível que você esteja resignado com a ideia que existe alguma coisa que você precisa galgar ou antes algo tem que acontecer. Talvez o ego, o Eu, seus pensamentos. Talvez tudo isso.

E então, existem todo tipo de trajetórias espirituais que você pode considerar. E então existem todas as diferentes explicações sobre elas. E então existe o que você sente dentro de você. Talvez uma profunda frustração, uma nostalgia, uma sensação de “isso não é possível?!”, “existe algo mais”, “o que é a vida nisso tudo?”. Se você se relaciona com alguma coisa aqui, você não está sozinho. Espiritualidade é um assunto que tem algo de desconcertante, intrigante, sedutor, desafiador e direciona as pessoas para limite da loucura, provavelmente como nunca antes você experimentou.

Existem alguns maravilhosos ensinamentos e mestres no mundo que inspiram e catalisam nossa jornada espiritual. Alguns dos mais amados e renomados mitologistas e mestre em contar histórias, Joseph Campbell, nos convoca para nossa jornada espiritual chamado Jornada do Herói. E, claramente, nenhuma palavra melhor se aplica do que herói àquele que descreve qualquer um de nós que caminhe através da vida humana. Nada é certo, nada é premeditado, nada é garantido. Mesmo se nós não pensarmos em nós mesmos nessa jornada espiritual, somente ser humano já significa que estamos engajados numa jornada heroica.

Da perspectiva do BreakThrough, a vida espiritual significa: uma aventura de exploração do que é ser humano e viver essa vida humana tão plenamente como possível.

Como você talvez já saiba, existem quadro caminhos principais do Yoga –  Karma Yoga, Bhakti Yoga, Raja Yoga e Jnana Yoga. Esses são os caminhos espirituais usados por aqueles que se engajam numa jornada espiritual. Cada um é diferentemente conduzido para um temperamento particular e abordagem para a vida. Um dos quatro caminhos, Jnana, o caminho do conhecimento, é considerado um dos mais simples e o método mais direto de corte dos nossos equívocos sobre si mesmo. Como uma palavra simples é antítese da outra, o caminho é tradicionalmente o menos percorrido.

Porque o jnana yoga é considerado difícil e não seguido por qualquer um é porque ele requer um intelecto afiado; alguém com a capacidade de cortar através das concepções distorcidas de si. Ao fim, o jnana yoga pode ser bem chamado da yoga do questionamento. Não é que aqueles envolvidos em outro tipo de yoga não se coloquem questões. Ao contrário. O praticante de jnana explora as questões por elas mesmas num caminho que nenhum outro faz. É o caminho do discernimento: procurar diferenciar tão claramente quanto possível o que é real do que é irreal.

Vivendo na era da Informação que nós estamos, nunca antes os seres humanos estiveram expostos a tanto fluxo de informação. Nenhum de nós com um computador ou um smartphone ou televisão estamos disponíveis para sermos bombardeados com informação praticamente o tempo todo. Muito dessa informação parece convincente, até mesmo sedutora. Imagens, palavras, sons, ensinamentos, propagandas… e uma lista vai e vai sem parar.

Os benefícios são muitos, mas os perigos são igualmente numerosos. A habilidade do sistema humano para se adaptar a esse novo caminho de ser tem sido testado a todo momento. Muito do tempo que nós estamos desatentos a essa multiplicidade de instrusões elétricas estressantes, nosso sistema está absorvendo.

Como costuma acontecer quando nossos sistemas estão estressados, nós fazemos o que é mais fácil para nós. Nós queremos alívio imediato e nos preocupamos para que consequências a longo prazo caiam no esquecimento. Um dos mais comuns métodos de estresse que nós temos na era da Informação é presumir. Com tanta informação chegando até nós, é mais fácil ser como uma esponja, absorver a maior parte dela e economizar o tempo de questioná-la.

Em outras palavras, nunca houve um momento em que os seres humanos precisassem tanto aprimorar sua capacidade de questionar. Nunca houve um momento em que nossa vida como seres humanos tivessem tanta necessidade de examinar. Não é porque tempos obscuros e difíceis nunca existiram antes. Ao contrário, tudo que precedeu essa era tem requerido tremenda adaptação humana. Foram estes tipos de adaptações humanas que nos trouxeram a esta era, enfrentando inundações de informações.

Claramente, nunca houve um tempo de maior pressão do que aprender a arte do discernimento. No final das contas, nós precisamos aprender a arte do questionamento. Como uma criança pequena – direta, simples, com questões lógicas, que venham facilmente até nós. Isso significa que é da nossa natureza questionar claramente, simples e logicamente. Em algum lugar desse caminho, perdemos o contato com essa habilidade brilhante.

Entre a infância e o adulto, o intelecto torna-se uma palavra quase suja entre muitos nós. Nós esquecemos que pensar claramente e questionar claramente foi uma das coisas que nós realmente fazíamos muito bem. Vinha naturalmente. Isso significa que é inerente esse dom e que nenhum nós poderíamos ser privados.  Nós simplesmente precisamos nos valer disso.

Isso descreve o trabalho que fazemos no BreakThrough.


[1] Artigo gentilmente cedido pela autora através do site: https://www.breakthroughiba.com/.

[2] Esther is the Creator of the BreakThrough System and Co-Founder of the International BodyTalk Association (IBA). She resides in Europe and teaches advanced, interactive workshops in BreakThrough, in-person and online. She also runs ongoing BreakThrough Instructor Training programs and offers private, online BreakThrough sessions.

Esther is the author of Beyond Concepts – the investigation of who you are not, and Who am I? – the seeker’s guide to nowhere. Mais informações em https://www.breakthroughiba.com/instructors/.

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Ciclo do cuidado

Maria Fontes[1]

O curador ferido é um arquétipo bastante utilizado para falar sobre “o terapeuta” e a capacidade empática que essa tarefa convoca. Esse termo é inspirado na história de Quíron, o Centauro.

Na mitologia grega, Quíron é uma figura que, apesar de possuir corpo de cavalo e, de certa forma, o potencial anímico e instintivo bruto, ele era refinado, bondoso e conhecido por sua habilidade com a Medicina. De fato, era considerado uma autoridade espiritual que tratava as dores humanas. Diz o mito que ele foi, acidentalmente, atingido por uma flecha envenenada lançada por Hércules. Como era imortal, Quíron sobreviveu, mas a ferida incurável se tornou um sofrimento crônico. O desconforto da dor pessoal faz com que Quíron experiencie e busque inúmeros recursos para apaziguar aquela ferida. Ele passa sua existência investigando soluções, caminhos e possibilidades de amenizar sua dor. Reúne em si grande bagagem, o que favorece o entendimento das variadas dimensões das dores humanas que ele curava. Arquetipicamente, ele fala do curador ferido e sua busca ao lidar com a ferida eterna.

Inspirado, ou não, na imagem desse mito, Carl Jung também fala do curador ferido. Segundo ele, um terapeuta pode auxiliar na cura de pessoas por ele ser um doente, ou seja, aqueles marcados por suas dores seriam capazes de ajudar pessoas a reconhecerem, cuidarem e curarem as próprias feridas.

Estar atento e disponível a auxiliar o outro no caminho por vales escuros e doloroso de sua própria alma requer a força e a coragem de buscar a própria cura, o próprio aconchego na dor. Isso é uma arte. De acordo com Julia Cameron (2002, pág. 48) em O caminho do artista,a arte nasce na atenção (…). A arte parece brotar da dor, mas talvez seja porque a dor ajuda a focar nossa atenção em detalhes”. A arte do cuidado parece então se relacionar com a capacidade de observar e avançar nos detalhes da própria dor, conhecer os labirintos internos, lamber feridas das quedas e tropeçadas da vida e, então, disponibilizar um olhar que observe a dor do outro, os detalhes desse outro.

Mas, então, que outro é esse? Sistemicamente falando, minha capacidade de auto-observar e encontrar os pontos da minha dor, auxilia o outro a encontrar também suas dores. Não há separação.

Desde que comecei a estudar e praticar o BodyTalk, em 2012, os conceitos da Advaita Vedanta[2] foram polindo minha observação do mundo, ou minha observação no mundo.

A grande pegadinha de sentir-se separado para entender-se como um indivíduo vem da necessidade de controle: controlar o que se sente, proteger-se de dores e dissabores, minimizar julgamentos ou controlar para programar e planejar uma rota de vida. Então, vem a Vedanta novamente e me conta que controle é “a mãe de todas as crenças limitantes”. O Ser em sua expressão mais amplificada e potente não se separa do outro, nem da vida, nem dos fluxos orgânicos, nem das estações do ano, nem dos mecanismos sociais, nem mesmo das interferências astronômicas e astrológicas, ou seja, o Ser É algo integrado e composto por inúmeras camadas. A cada instante uma vivência, uma sensação de expansão, outra de limitação, uma alegria, uma tristeza, e assim, uma série de experiências de vida que vão constituindo uma experiência que vou acabar chamando de minha. Minha experiência de vida, ou, na Vida!

Não posso controlar quando dói ou quando a vida flui. Quando adoece ou quando cura. Há então, a possibilidade de observar e permitir que a consciência se faça presente, e apenas aguardar o que dela possa brotar para a nova experiência. Parece – ou realmente é – um lançar-se no espaço, lançar-se na vida.

O BodyTalk praticado em nossos consultórios é apenas uma parte de um sistema amplo e sofisticado que promove bem-estar, vida, autoconhecimento e saúde. Esse sistema integral de saúde vai desde técnicas mais simples – como o Córtices –, passando por treinamentos para autocuidados, até oferecer um suporte “filosófico-existencial-transpessoal”, embasado na Advaita Vedanta. E não para por aí.

Como técnica clínica, nos fornece um treinamento preciso com navegação respeitosa que parte da premissa das prioridades do sistema humano de cada cliente. Acontece que as dores humanas são múltiplas e complexas. Cada um de nós reflete um prisma de cores únicas. Por reverberação, sintonia com o diapasão universal ou atração sintonizada com o perfil do nosso curador ferido, a clínica de cada terapeuta irá expressar ou atrair dores humanas similares àquelas que já nos foram possíveis enxergar, observar e avançar na cura. É nesse ponto, na perspectiva de abraçar o curador ferido de cada terapeuta que, generosamente encontramos no Sistema BodyTalk, as Ciências da Vida.

Dizemos que BodyTalk é uma terapia de observação. Observar a prioridade da sabedoria inata do cliente permitindo que a mente consciente participe dessa observação e melhore sua comunicação com os aspectos observados. A partir de onde se observa algo? Só se pode observar algo a partir da própria presença. Adalberto Barreto – nos conceitos da terapia comunitária – nos esclarece que “só reconhecemos fora aquilo que conhecemos dentro” (BARRETO, Adalberto: 2005).

Ser terapeuta me convida constantemente à autoinvestigação!

Nessa jornada pelas trilhas do BodyTalk, vem sendo fundamental resgatar aquele dever de casa dos meus processos pessoais e me disponibilizar para constantes atualizações em mim. Para isso, auto-observação é um ticket de passagem sem volta.

É difícil definir as Ciências da Vida apenas como cursos do sistema BodyTalk, mas, de forma prática, são o conjunto de cursos formados pelo agrupamento do Mindscape, BreakThrough e Freefall. Cada um desses é em si um conjunto de técnicas, um espaço para processos terapêuticos e também, uma ferramenta de suporte pessoal e para a prática profissional.

O BreakThrough me ensina a ser papel de origami: investigar as crenças antigas, como marcas de um formato pessoal que já não me cabem mais e, então, por meio dos 7 passos investigativos, desapegar e deixar ir, para que uma nova “dobradura” possa proporcionar nova direção. Assim, surge uma nova possibilidade de uma nova forma de expressão. Quando reações exageradas nos dominam, gatilhos subconscientes estão nos pressionando. Os 7 passos do BreakThrough nos possibilitam identificar e transformar os gatilhos que, por vezes, sequestram nossa lucidez e apenas reagimos. Esse é um movimento interno que pode mudar nossa direção e ser altamente transformador. Muitas feridas e dores deixam de ser necessárias quando a liberação de uma crença limitante e obsoleta nos possibilita outro olhar sobre as situações e sobre nós.

Outro parceiro fundamental na prática da auto-observação é o Mindscape. Ele é o espaço dentro das Ciências da Vida que fornece um cenário seguro, como meu anjo da guarda. Fornece uma base, um apoio para os passos pessoais, relacionais e profissionais. Ali nada é por acaso. Ao alcance dos olhos fechados, alinhado com a respiração profunda, “a casa dos pensamentos malucos” se torna um lugar em que, qualquer “maluquês” ganha contornos bem desenhado e pode ser traduzida em uma linguagem cheia de informações. Mais nítido ou mais simbólico, cada elemento informa algo essencial.  A relação azeitada com a oficina vem trazendo, dia após dia, enorme clareza, e, consequentemente, confiança nos processos intuitivos.

E então, temos o Freefall.

Pausa para um suspiro… Suspiro com sensação de colo, carinho, cuidado e muito sacolejo no Serzinho que vos escreve.

Na tradução, Queda Livre!

Ao longo da vida, fui passando por vários processos terapêuticos, mas sempre me sentia “à paisana” nesse campo. Deixei locais internos, que me doíam e custavam caro reconhecer e transformar, sempre para um futuro, para o depois, como se magicamente padrões e dores fossem se curar com um toque divino. Quando me tornei terapeuta, foi necessário mergulhar mais profundo, olhar para as feridas do curador ferido com maior lucidez. Neste caminho, cheguei até o FreeFall.

FreeFall é o processo terapêutico mais ousado e, ao mesmo tempo, acolhedor e gentil que conheço até hoje. A proposta é que, dentro de um círculo invisível de confidencialidade, confiança e autorresponsabilidade, os participantes possam despir as camadas e irem em direção ao Ser. De fato, despimos. A metodologia é a nudez. Tiramos a roupa, sim, e com ela muitos preconceitos e personagens. Nesse ato simbólico cada peça de roupa pode carregar para o chão o que ela tenta esconder ou tenta dizer sobre nós. Traz a possibilidade de revelar quem somos diante de nós mesmos.

A nudez carrega em si muitos elementos ligados à sexualidade. Socialmente são raros os momentos em que a nudez é bem-vinda. Ela está relacionada a momentos íntimos e ao sexo. A energia sexual é a base da energia vital, é a energia de cura e a própria pulsão de vida. Sabemos que existimos a partir do sexo dos nossos pais. A simples menção a essa realidade nos mobiliza. Para muitos de nós, um desconforto ou sensação de preferir não lembrar dessa parte. FreeFall parte desses desconfortos com a sexualidade moldada e nos guia rumo a uma queda livre para dentro de nossa potência de vida, presente em cada célula, apenas porque estamos vivos, aqui e agora.

Na jornada FreeFall, caminhamos de mãos dadas com nossa história de vida e temos espaço para olhar de frente, no espelho, tudo o que somos ou que podemos ser ao nos despirmos dos medos, culpas, vergonhas e limitações autoimpostas. A repressão sexual está no corpo, na mente, nas emoções e até no espiritual. Ela nos formata, modela, cria camadas de dores e distanciamento de nossa força vital. FreeFall é sobre nos recuperarmos para nós mesmos.

A intensidade dessa jornada depende do ritmo de cada um consigo, com seu curador ferido e com as permissões pessoais de avançar ou se reconhecer no limite do que é possível a cada momento. É também sobre respeito, especialmente o autorrespeito. Não existe obrigatoriedade em passos pré-definidos, o que encontramos é uma guiança dentro de um processo seguro e pessoalizado. As propostas são para o grupo, e cada indivíduo tem a oportunidade de indagar-se sobre o tamanho do passo a ser dado. Apesar de estarmos em grupo, o caminho não é em direção ao outro, senão, em direção a si.

Despir-se para acessar a vestimenta mais correspondente ao Ser. Abrir os olhos e enxergar para além da imagem refletida no espelho.

Por etapas, atravessamos as camadas que foram necessárias serem moldadas diante das repressões, abusos e distorções. Ao enxergar no corpo as dores e ao possibilitar uma experiência corporal real e segura, podemos viver insights, prazeres e alegrias que liberam couraças antigas. Soltar o que estava congelado em nós reverbera de forma incrível no corpo e na vida.

É claro que esbarramos em obstáculos, mas é possível abraçar os monstros escondidos em nossas temidas sombras.

Contatar a essência é um caminho pessoal, um ritmo único. Sutilmente a poesia pessoal ganha espaço para se manifestar. Os contornos de cada um aparecem nos limites pessoais. Já falei do respeito e do acolhimento únicos? Uma dança em que cada peça de roupa deixada pelo corpo e pela persona revelam o nu de uma alma disponível a se enxergar e, às vezes, também ser vista.

Em 2016, saltei no primeiro Freefall Brasil. Encontrei, sim, muito sacolejo. A poeira que deixei pousada “para depois” foi se levantando. Um turbilhão de transformação a partir dali. Desde então, busco “saltar” em queda livre nesse ambiente terapêutico pelo menos uma vez ao ano. Assim, o repertório do meu curador ferido foi alcançando o alicerce da energia sexual de olhos abertos e mais atentos.

Em minha prática clínica, percebo mais energia vital disponível. Abundância em forma de energia básica, sexual, kundalini, que é a base de quase toda energia requisitada para a manutenção do fluxo de vida no sistema humano. Essa observação se estende aos meus clientes, mais profundos e dispostos a observar junto ao BodyTalk locais primordiais de desconfortos antigos.

Em tempo de pandemia, as feridas humanas e da humanidade estão abertas e quase inconsoláveis. O arquétipo quirônico está exposto: “o grande cuidador é aquele que possui a maior ferida”. Para cuidar é preciso cuidado, autocuidado.

FreeFall toca e abraça as feridas da alma. Constitui por si um espaço espiritual. Afinal, não há nada mais sagrado do que reconhecer e abraçar a própria dor, a própria sombra. Passo a passo, o cuidado vai se estabelecendo em esferas que pareciam intocáveis e, assim, um ciclo lindo de cuidado e atenção gentil pode nos habitar.

Onde está escuro em você?  Topa levar vida até lá?

Fluxo de vida em queda livre!

Namastê.

Maria Fontes


[1] Mulher latino-americana, filha, mãe, amiga, poetisa e sonhadora. Antropóloga e Socióloga pela UnB (Universidade de Brasília), mestrado em Psicologia Comunitária no ISPA (Instituto de Psicologia Aplicada – Lisboa), Instrutora de Yoga desde 2007, Terapeuta BodyTalk, CBP (Certified BodyTalk Practitioner) desde 2012. Apaixonada pelo Freefall desde 2016. Coordenando grupos de estudos desde 2018. O maior interesse de pesquisa pessoal é a interação indivíduo e sociedade. Encaro o BodyTalk como um sistema importante no balanceamento sustentável da vida e o azeitamento das engrenagens entre os níveis pessoal, social, ambiental, econômico, político e espiritual. Contato: fontes.mandala@gmail.com

instagram: @fontes.mandala

#(61)981012401

[2] Filosofia de raiz hindu dentro das tradições de pensamento e espiritualidade indianas cujas recentes mestres podem ser destacados como Balsekar, Krishamurti, Mooji, com os quais a concepção e leitura dos Vedas, escritos antigos sobre corpo, mente, espírito são de não-dualidade. (N.E.)

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Prefácio Ed. 2 Escuta

Prefácio

Verena Kacinskis[1]

A edição que você tem diante dos seus olhos é especial. Isso porque o Sistema BodyTalk começou aqui, no que hoje chamamos de Ciências da Vida. Acho simbólico que um sistema de cuidado da saúde tenha surgido em seminários cujo foco não era o bem estar dos pacientes mas sim a organização e desenvolvimento internos dos terapeutas. Isto fala muito do BodyTalk em si. Sem auto-observação e autocuidado, como podemos ousar nos dedicar ao cuidado do outro?

Mas John e Esther Veltheim, estudantes de longa data de Jnana Yoga e intensos praticantes da autoinvestigação, sabiam disso. Eles sabem, até hoje, que a organização do mundo interno é parte do processo de autoconhecimento, e que para nos organizarmos é preciso desenvolver a arte da autoobservação. Por isso, ao fundarem o Sistema BodyTalk nos anos 1990, eles começaram por aqui.

Nesta segunda edição do Escuta, você vai encontrar cinco artigos cuja proposta é apresentar a diversidade fenomenológica das Ciências da Vida a partir das perspectivas das autoras e autores.

Em O ciclo do contato, Maria Fontes, terapeuta de BodyTalk, usa sua experiência pessoal para descrever, por vezes de forma poética, a riqueza dessas disciplinas. “Acontece que as dores humanas são múltiplas e complexas”, afirma Maria. E segue: “Cada um de nós reflete um prisma de cores únicas. Por reverberação, sintonia com o diapasão universal ou atração sintonizada com o perfil do nosso curador ferido, a clínica de cada terapeuta irá expressar ou atrair dores humanas similares àquelas que já nos foram possível enxergar, observar e avançar na cura. É nesse ponto, na perspectiva de abraçar o curador ferido de cada terapeuta que, generosamente, encontramos no Sistema BodyTalk as Ciências da Vida.”

Ciências da Vida é uma família de cursos vivenciais formada pelo MindScape, BreakThrough e Freefall. “Cada um desses é em si um conjunto de técnicas, um espaço para processos terapêuticos e também, uma ferramenta de suporte pessoal e para a prática profissional.”, nos explica Maria.

Em Ciências da Vida do BodyTalk, autodescoberta e o apreço por perguntas significativas, outro artigo cuja proposta é apresentar as três disciplinas a partir de uma experiência pessoal, a autora, Adriana Camilo, também terapeuta do Sistema BodyTalk, reflete sobre a contribuição das Ciências da Vida em sua trajetória: “Viver a vida como prática: reconhecer-se Ser. Não como um caminho para aprimorar-se e tornar-se a referência idealizada de si mesmo, mas como processo de despojar a força e poder que atribuímos a nossas crenças, aos julgamentos sobre como devemos ser e sobre como a Vida deve ser, para receber, perceber, processar e cocriar a Vida no aqui agora, na medida em que o viver simplesmente acontece.”

Adriana nos lembra que “Compartilhar as Ciências da Vida e convidar clientes a participar destes cursos é também uma maneira de estimulá-las(os) na apropriação do caminho de autoconhecimento.”

Seguindo por esta linha de pensamento (e sentimento), Myriam Machado, terapeuta de BodyTalk, nos guia pelos caminhos do FreeFall, disciplina das Ciências da Vida da qual ela é facilitadora. “John Veltheim criou o método FreeFall depois de observar o quanto as constrições criadas por nossas próprias histórias sobre autoimagem e amor próprio – e a carga negativa expressa em nossas roupas – podem perturbar não apenas o equilíbrio físico, mas também mental, emocional e energético. O principal objetivo do método FreeFall é que você possa celebrar a liberdade de Ser Humano.”

Saindo do FreeFall e caminhando em direção a outra disciplina, a própria Esther Veltheim, que idealizou e refinou os 7 passos de autoquestionamento do BreakThrough[2], nos relembra, em seu artigo Questionamento e o processo espiritual, que “nunca houve um tempo em que os seres humanos estivessem mais necessitados de aprimorar a habilidade de questionar” do que agora.

Por último, em MindScape como potencial caminho, Celso Juc e Angie Tourani, ambos instrutores de MindScape, e Carlos Bueno, terapeuta de BodyTalk e assíduo praticante das técnicas do MindScape, discutem, com mediação de Nirvana Marinho e tradução de Adriana Camilao, o uso do MindScape como ferramenta de autoconhecimento. Minha citação favorita desta conversa vem do Carlos Bueno: “MindScape e BodyTalk são geniais e ilimitados. A limitação deles é o praticante.”

Acredito que o autoconhecimento e a organização de nosso mundo interno ultrapassam o campo pessoal e funcionam como ferramentas de organização do coletivo. Não é possível construir uma sociedade saudável se os seus indivíduos estão doentes. Por isso, costumo dizer que o autoconhecimento é um trabalho, quase uma obrigação, social. A autonomia emocional adquirida depois de um fim de semana construindo uma intuição mais estruturada no MindScape ou investigando gatilhos emocionais no BreakThrough é algo que não se perde. Cada insight adquirido, permanece. E cada trabalho interno reverbera no campo familiar, profissional, social e político do indivíduo.


[1] VERENA KACINSKIS é psicóloga, Adv. CBP, CBI e pesquisa as várias formas humanas de se expressar. Produz cursos e conteúdos sobre a calma que surge quando organizamos nosso mundo interno em verenakacinskis.com e fala sobre receitas com plantas + intuição no projeto Minha Cozinha Virou Um Jardim.

[2] Depois da escrita deste Prefácio um novo artigo foi adicionado a esta edição, escrito por Salima J. Lara Resende (ERRATA) e embora não conste do presente texto, também sobre o BreakThrough, faz parte desta edição igualmente. (N.E.)

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Prefácio Ed. 1 Escuta

Convite à escuta

Celia Barboza dos Santos [1]

Quando recebi o convite para prefaciar a primeira edição do periódico Escuta, fiquei extremamente feliz pois o lançamento aglutina dois temas pelos quais sou encantada; o sistema BodyTalk e o pensamento sistêmico. E a melhor maneira de começar um artigo sobre o BodyTalk System é citando o próprio John Veltheim, criador do método, juntamente com Esther Veltheim.

A evolução do BodyTalk começou há quarenta anos com um sonho. A primeira parte do meu sonho era sobre uma terapia que pudesse transcender o modelo do diagnóstico, seguindo a primeira diretriz do corpo sobre seu próprio processo de cura. Nessa terapia, eu tinha visão do corpo na sua total expressão para decidir sobre suas próprias prioridades de tratamento. A função do terapeuta não era mais orquestrar o processo de tratamento de acordo com uma opinião de diagnóstico. Ao invés disso, a função do terapeuta poderia ser honrar e ser guiado pelo corpo de suas prioridades para cura. A segunda parte do meu sonho era a mesma de muitos seres humanos antes de mim: uma terapia que pudesse oferecer resultados tais que poderiam ser exponencialmente benéficos. No meu sonho, o sistema humano pode permanecer dinamicamente no caminho do seu bem-estar e poderia continuar melhorando mesmo depois que o tratamento tivesse acabado. Em outras palavras, o corpo, com sua própria sabedoria, poderia assumir o controle. A primeira parte do meu sonho se realizou através do que nós chamamos de Sistema BodyTalk. (I Had a Dream, John Veltheim e Esther Veltheim, 2016)

Em 2007, quando conheci o sistema BodyTalk, eu não tinha nenhuma noção do que estava por se abrir para a minha vida. Minha trajetória terapêutica dialoga com muitas práticas integrativas e, interessada em conhecer um método que combinava conhecimentos da fisiologia ocidental com os saberes da medicina tradicional chinesa e conceitos da física quântica, parecia que eu iria aprender mais uma técnica; no entanto o que encontrei foi um passaporte para um sistema de saúde baseado em consciência, numa abordagem de tal forma criativa, que trabalhar com este sistema tornou-se a minha universidade pessoal. A partir daí fiz todas as formações básicas e avançadas e segui o  desenvolvimento, certificando-me como praticante regular e integrando-me como membro da IBA Internacional BodyTalk Association, que é p órgão regulador no mundo.   Provavelmente, um dos grandes benefícios diretos que ser terapeuta BodyTalk me causa, é manter-me uma eterna curiosa, sobre temas diversos.

Nos ambientes das terapias integrativas, onde observa-se a energia como substrato causal, sempre ouvi que precisávamos aprender a pensar fora da caixa, que a energia acende a lâmpada, mas não podemos vê-la e então, por essa razão, existe. Sempre foi muito interessante, mas ainda havia um certo contexto de precisar acreditar, usando essas metáforas. As minhas primeiras experiências com o BodyTalk me surpreenderam muito e eu, simplesmente, não tinha explicações para os resultados. A minha enorme surpresa era em razão de que, tudo que eu fazia antes como terapeuta, dependia de mim, de um determinado conhecimento aplicado de uma forma específica, da minha inferência e interferência para que funcionasse; e a prática do BodyTalk me fazia experimentar uma estranha sensação de que não era eu quem estava pilotando. No BodyTalk, quem guia o processo é a própria pessoa, a partir do que se nomeia como Sabedoria Inata, trazendo as prioridades, revelando as informações, os aspectos que serão abordados e todo o processo é realizado por este mesmo princípio inteligente e altamente criativo.

Duas perguntas eram frequentes na minha mente: como era possível e em que tipos de doenças o método era eficaz; porque eu ainda expressava o conceito de que saúde era a ausência de doença. A primeira questão, sobre como era possível que uma pessoa que não tinha conhecimentos de anatomia, pudesse chegar até o aspecto celular de um órgão, foi rapidamente ficando clara, pois o BodyTalk possui protocolos detalhadíssimos, que funcionam como cartas de navegação, levando o terapeuta a observar as prioridades que estão sendo expressas pelo corpo; desde as funções orgânicas, até as formas como as emoções podem interferir na função orgânica, ou como o clima pode afetar o humor de alguém. Esta atenção ao que é prioridade, e não ao que é um sintoma, faz toda a diferença.

No entanto, a segunda questão, que confundia meu conceito antigo de saúde como sendo ausência de doença, exigiu mais esforços para minha compreensão. O BodyTalk me apresentou o pensamento sistêmico, o universo das possibilidades – que eu já começava a estudar, mas não via aplicabilidade – colocando por terra muitos comportamentos rígidos e ideias pré-concebidas. Olhar para um sintoma sem que, no entanto, haja uma investigação mais profunda, sobre os contextos que possibilitam que um determinado sintoma ou comportamento ganhem força para se expressar, equivale a destacar aquela parte do todo e dizer que não está adequada e não deveria ser como é.

O corpo é um sistema; é corpo-mente e todo o tempo está se expressando; então um sintoma local, pode estar comunicando que algo, num outro lugar, está em sofrimento. O que conhecemos como saúde ou doença são as opções disponíveis, dentro de uma infinidade de potenciais, que a sabedoria inata encontra para revelar histórias. É quando se pode observar, evocar consciência sobre o que está envolvido em uma complexa rede de informações, que comumente simplificamos com um nome diagnóstico. Todo sintoma é, no mínimo, uma grande história. E a Sabedoria Inata é a tendência natural do corpo para se auto regular.

Então, o BodyTalk é um grande sistema de saúde, que contém muitas estratégias, para apoiar o corpo no seu processo natural de auto regulação; esta é a proposta mais criativa que alguém pode encontrar para tratar da sua saúde, em todos os níveis. Quando falamos em sistemas, ou sobre a percepção sistêmica, estamos abrindo um espaço natural para observar que uma parte é composta de outras partes, até a infinitesimal partícula sub atômica.

Podemos admitir isso quando colocarmos em perspectiva a família. Nosso corpo não difere em absolutamente nada desta proposta. Somos um corpo alimentar, mas também somos um corpo essencial ou consciencial. A perspectiva de pertencimento é sistêmica, pois só ocorre em razão de uma parte se reconhecer em relação a um todo e a forma como a comunicação, os relacionamentos entre as partes, estão acontecendo. Então, como temos certeza de quem somos? 

Existe uma identidade, porque o meio sistêmico, que inclui família e ambiente, atuam para que a pessoa exista como indivíduo; quer dizer que, todo o tempo, temos muitos referenciais, programações e crenças, nos informando o que deveríamos ser e como precisamos nos comportar para sermos aceitos.

Para que se construa um corpo, uma pessoa, muita coisa aconteceu antes; e muitas delas estão agindo como informações desorganizadoras do equilíbrio. O fato de o BodyTalk ser um sistema, possibilita que esta perspectiva ampla e profunda, com tantos conteúdos diversamente registrados na experiência, se torne observável.

A criatividade no sistema BodyTalk, vem da possibilidade de observar as informações se expressando de modo não linear, não local, independente da lógica de tempo e espaço, apoiando o sistema corpo mente, para que encontre opções mais saudáveis para expressar-se. No BodyTalk, as sessões são conduzidas pelo praticante com total atenção ao que acontece no momento presente; o terapeuta está lá com o cliente, plenamente, sem julgamento de valor, praticando a escuta em níveis amplos. Há uma escuta de fato, daquilo que pode ser dito; mas principalmente, há uma escuta do silêncio; daquilo que nunca pôde ser dito; de histórias de uma vida inteira registradas no corpo; de memórias doloridas, marcantes ou singelas; registros inconscientes que, inúmeras vezes, precisam somente de uma respiração profunda ou de uma lágrima, pois palavra não cabe ali. A experiência em uma sessão de BodyTalk pode ser muito reveladora ou extremamente sutil, sugerindo que nada muito profundo está acontecendo, mas trata-se apenas de como a experiência se dá para cada um. E tudo isso segue, estritamente, os caminhos e ritmos delineados pela sabedoria inata.

Tendo a sentir a terapia como arte, pois antes de ser terapeuta eu dançava. E na escola onde estudei, havia duas meninas surdas que faziam balé clássico. Era um mistério como elas sabiam, no sentido do saber profundo, todos os compassos e ritmos da música! Hoje, eu compreendo mais claramente este jeito de escutar com o corpo inteiro, trata-se de estar com o coração disponível para a experiência, em estado de atenção e presença.

O BodyTalk faz este percurso, de escutar de perspectivas diferentes, já que esta escuta é feita sempre a partir do conjunto cliente/terapeuta, e desta energia única emergem questões sistêmicas; escutar é um “ato contínuo”. Reverberando em ondas para os vários níveis do ser. De uma certa forma o periódico Escuta, convida a todos para esta dança silenciosa. Aqui, terapeutas comparecem como autores, a convite da Nirvana Marinho que é a idealizadora do projeto. Quando a Nirvana se dispôs a ouvir os terapeutas, estava germinando o caminho que resultou neste periódico que, não por acaso, leva o nome de Escuta.
          

A medida em que ela nos ouvia, ondas alcançaram seu cérebro, seu coração e se expandiram em ações que se materializaram num amplo convite à participação integradora de muitos terapeutas, que puderam também expressar suas experiências e percepções sobre o BodyTalk, permitindo um mapeamento inicial da presença do BodyTalk no Brasil, como você  poderá descobrir lendo o artigo BodyTalk no Brasil: uma cartografia de caminhos possíveis – por Ana Marcela Sarria

O artigo A relação do Livro O Ponto de Mutação e o BodyTalk – por Luciano Flehr, aponta para as bases da teoria dos sistêmicas dinâmicos, trazendo informações precisas para a compreensão das interações entre o ambiente e o ser e a influência que o livro de Fritjot Capra teve na perspectiva sistêmica do Dr. John Veltheim.

Enquanto desenvolvemos a prática do BodyTalk, vamos aprendendo que, assim como no corpo, as relações também adoecem e que este adoecimento é a tentativa do sistema inteiro revelar que há algo muito importante acontecendo, no artigo BodyTalk como sistema, é sobre como relacionar-se – por Nirvana Marinho, fica evidente a indivisibilidade do ser, a integração entre ser e ambiente, desde a perspectiva sistêmica.

Para contar um pouco mais sobre pertencimento, o texto que é quase um poema, Sistema BodyTalk – por Claudia Morum Xavier Lapa, nos presenteia com a perspectiva sistêmica familiar. Assim como cada membro da família tem seu lugar, o corpo reflete este processo; ou será que é o contrário?

Observando tudo isso, eu me lembro do sonho do próprio Dr. John, que nos presenteia com uma entrevista imperdível, conduzida e transcrita pela Verena Kacinskis, contando como seus insights foram tomando forma para criar um sistema de saúde baseado em consciência.

O BodyTalk é exatamente assim. Escutamos a fala, escutamos o silêncio, escutamos a diversidade; os conflitos e movimentos criativos que, desde sempre, o sistema corpo-mente quer revelar nas relações com toda a história pessoal e o mundo em que vivemos, estando pronto para melhor se comunicar, sincronizar, equilibrar e caminhar com mais saúde. O convite é para leitura, mas é como uma proposta para ouvir, atentamente, no vibrato profundo do seu coração; assim como aquelas duas meninas no balé. Aproveita a entrada do inverno, se aconchega e escuta o que nosso coração te oferece. Escuta.

Celia Barboza dos Santos

Junho 2020


[1] BodyTalk System (CBP),PaRama Body Talk 1, Eastern Medicine, Master Programação Neurolinguistica, Terapias Integradas da Respiração, Constelação Familiar.

@Celiabarbozaterapeuta
Celia@celiabarboza.com

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Ensaio poético “Sistema BodyTalk”

Cláudia Morum Xavier Lapa (1)

Sistema. Sistêmico. Partes em um todo. O todo.

Todas as vezes que falamos em partes, olhamos para o todo. As partes que formam o todo estando, cada uma, em seu próprio lugar. Nada falta. Tudo reverbera.
Tudo pertence e tudo completa. Tudo em seu próprio lugar.

Constelar. Conter lar. Constelação. Conter ação. Movimento e fluxo. Ir e vir sem fim.

O Eu, em si, é um sistema. Completo. Pleno. Pronto. E a caminho.

Eu, pronta e a caminho. Parto daqui.

Por que nos colocamos tanto a preencher espaços? Por que tendemos a excluir?
Se nós sabemos parte, por que queremos o todo? E se em nós mesmos somos todos, por que queremos partir?

Somos parte de um todo. Todos nós.
Somos plantados pela fonte da Vida lá no seio, no ventre, e ali somos acolhidos.
Ali, no ventre, passamos a pertencer.

Não fomos escolhidos. Fomos acolhidos.
E passamos a ser parte de um sistema, o familiar, onde pertencemos a um pai e a uma mãe.
Porque não existe pai sem mãe e não existe mãe sem pai.
Ambos pertencem. Em si. No todo.
Já não importa o que se dê entre esse homem e essa mulher. Soprada a vida, um pertence ao outro e ambos se tornam um só em cada célula do que brota, do que nasce. Vida renovada!

Por que tentamos partir?

Pertencemos! E passamos todo o tempo validando esse movimento. Sou.
Pertenço.
Incluo e então integro.

Entrego! Integro!
Integrado ao todo me faço completo, pleno e perfeito. Tudo que fui feito para ser.

Somos soprados pela vida em um momento de Encontro. Sopro. Vento.
Vida!

Existimos a partir de dois e, também por isso, mesmo únicos, somos plurais. Trazemos em nós mesmos os dois, o encontro, a integração. A pertença!

É como se selássemos em nossa existência a completude do Ser. Perfeitos!
Tudo que fomos feitos para ser.

Mas então… por que partimos?
O que nos leva a tentar quebrar as partes se podemos ser o todo, estar no todo? Pertencer!? Parte ser!

Todo ser humano busca pertencer. Talvez seja exatamente por termos existido a partir de um encontro que nos parece vital fazer parte. Mas se entendemos que não há como partir, usufruímos do todo e saboreamos. Ficamos. Não tentamos encaixar em outro espaço. Não precisamos do que é do outro. Porque em mim eu sou pleno.

Porque no que me cabe, eu caibo. E plenifico.

Nascemos pertencentes. Mas mesmo antes de nascer, já somos parte do sistema. Mesmo aqueles que viveram por um curto espaço de tempo, ainda no ventre da mãe, e morreram sem ver a luz deste mundo, pertencem.

Porque tudo que existe, morre. Completa. Porque mesmo quem não nasce morre, e existe. E ninguém deixa de existir porque morreu. Somos todos parte, para sempre. E ninguém muda isso. Nem a Vida. Nem a morte.

Então… por que ainda tentamos partir?

Somos parte. Todos. Da humanidade. Do sistema familiar onde nascemos. E de sistemas que constituímos.
Um, dois, às vezes três ou mais…
Encontros que se perpetuam porque passamos a pertencer um ao sistema do outro. Intercessões. Pertenças.

Não é possível excluir o que pertence. Porque cada parte é do todo. E não há parte que supere o todo. Nunca.
Em qualquer tempo ou lugar.

Por que tentamos excluir?
Por que teimamos em pertencer ao que não nos cabe?

Se existimos, pertencemos. E me pertencem. Os filhos são dos pais e os pais são dos filhos. Para sempre. Nada muda isso. Nem a morte. Nem a vida. Selados por um encontro, pertencemos.

Um encontro entre um homem e uma mulher. Onde ambos são inteiros e completam.
Momentos que se eternizam quando a Vida sopra.
Não há como separar.

Em mim, pai e mãe são um só.

Para sempre.
Um não é maior que o outro. Ambos são partes e juntos são
o todo. Um pertence ao outro, e mesmo que se despeçam como casal, permanecem sistema, e permanecem um em mim. Em cada célula minha. Células que são parte e formam o todo. E a vida segue em frente. Em pleno movimento. Plena. Serena. E soberana.

Assim a vida se dá. Plenificando encontros. Eternizando vidas que pertencem. Multiplicamos. Crescemos. Esparramamos sementes dos frutos colhidos dos que vieram antes. Vida continuada. Sou parte. Colho e semeio. E o que espalho será colhido pelos que vem depois de mim. Porque sou só uma parte do todo que existe desde muito antes e que pode ir em frente, a partir de mim e dos meus encontros. Porque pertenço e selo. Continuo. Permaneço viva naquele a quem dei, nos solos que semeei.

Nasço, cresço, frutifico. Multiplico. Pertenço em partes e ao todo. Participo de novos sistemas.
Trabalho, organizações… sistemas!

Com meu trabalho, sirvo. Me coloco a serviço da Vida, do mundo e da humanidade. Então, mais pertenço!
Como parte, sirvo ao todo.
Esparramo sementes. Multiplico. Mas permaneço um só. Uma parte, de um todo. É só o que posso ser. Parte. Plena. Inteira e íntegra.

E como parte, pertenço e me coloco a serviço. Dou continuidade e crio. Atividade. Movimento.
Sigo em frente.

A serviço da Vida. Dou. Recebo. Troco. Complemento. Colho. Contribuo.

Equilibro no dar e receber a continuidade da Vida plena. Vida que é.
Em mim, em você, em nós, a Vida é.
Plena. Sem complementos.

Se há luta, há luto. Perda. Falta. Exclusão. Negação. Ilusão.
Pertencente, pertence para sempre.
Flui. Em colher e semear. Usufruir. Compartilhar. Organizar. Se dar. E Ser.

E então, volto ao início desse momento. No tempo.

Sistema BodyTalk. Sistema. Pertenço? Pertenço!

Me dou! Coloco a serviço. Colho. Semeio. Observo. Compartilho. Multiplico. Organizo a mim ao estar no meu lugar. Como parte, sou do todo. Pertenço. Recebo. E na medida que dou e colho, sigo em movimento de pertença.
Com o que é meu. Colhendo do outro.
E, do que é meu, usufruo e plenifico.
E do outro, colho e sirvo.

Escuta, revista sobre BodyTalk, ed. 1, inverno, 2020 4

Vai e vem. Em movimento. Sempre pertencendo. Aceitando
da vida. Acolhendo. Fazendo a flor ser. Florescer.
Em mim. No outro. Em todo.
Como parte. A parte que só cabe a mim. E que plenifica o todo em mim. E no outro.

Porque como parte, eu fico. Mesmo se partir.

Então…
Já sou parte. E do meu próprio lugar só eu posso ver. Estar. Observar. Ser.

Pleno Ser. Um só. Único. Especial. Extraordinário!
Como são todas as outras partes que pertencem ao todo. E em todos pertencem.

Que venha o que é meu. Que eu possa fazer boas coisas com isso. Tomar do que o outro oferece. Agradecer. E então, a Graça Ser. Em abundância.

Como lá no princípio da Vida. Soprar. Mover. E ir em frente. Esparramar sementes. Colher frutos. Se dar. Receber.

E assim, a Vida segue em frente. Em movimento.
Plena.
Soberana.

Eu quando eu partir, no momento em que a vida se fizer completa em mim, eu vou em paz. E fico.
Fico nas sementes plantadas.
Fico na existência pertencente.

Tudo está em seu lugar.
A vida flui.
Criatividade. Continuidade. Intimidade.

Vida multiplicada.
Que segue em frente. Em cada parte. No eu, em você, em todos, no TODO.

Usufruamos!
Vida em abundância desde sempre, para sempre. É só colher!

Somos sistêmicos. Sou Sistema.

E isso é BodyTalk.

Cláudia Morum Xavier Lapa Maio de 2020

(1) Cláudia Morum Xavier Lapa é
. Psicóloga clínica (atendimento individual, casal e grupo)
. Consteladora
. Terapeuta BodyTalk CBP e PaRama (certificada pela IBA)
. Palestrante
61 999949791
@claudiamorumxavierlapa

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“BodyTalk como sistema, é sobre relacionar-se”

Nirvana Marinho (1)

Ao conhecer o BodyTalk como paciente, vivenciei a surpresa do bem-estar contínuo. Revisei crenças difíceis da mente racional, venho observando como se desprendem pouco a pouco e experimentei a força que emergiu para lidar com as decisões que a vida convida – ou impõe, depende do ponto de vista. Naquele tempo, não podia perceber o quanto essas melhorias estavam em relação: autocuidado, mente propositiva e serena e corpo pronto para realizar, decidir. Pouco a pouco, foi ficando nítido o quanto as sessões reverberam em mim, como um todo, sendo minha vida não mais em campos separados – profissão, afetos, família, sexualidade, dinheiro, sociedade – mas uma contiguidade.

Já conhecia os conceitos teóricos da Teoria Geral dos Sistemas, uma das precursoras do entendimento de complexidade e pensamento sistêmico, a partir do doutorado em Comunicação e Semiótica na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, em meados de 2002. Encontrar uma terapia que tem por base a teoria dos sistemas dinâmicos foi uma surpresa. Na pós-graduação, foi o Professor Jorge Albuquerque Vieira o anfitrião do pensamento sistêmico, cujos livros são extremamente inspiradores e ele é amplamente estudado no campo das artes.

Ademais de toda conceitualização densa, importante considerar que Jorge Vieira parte dos estudos de Mário Bunge (cuja data da publicação referência é 1979), cujos estudos focavam em compreender a ciência em sua complexidade chamada ontologia, ou seja, o que são as coisas, como as define, como
suas ações no mundo desenham modos de compreensão, ou seja, epistemologias. Esse emaranhado conceitual pode ser importante aqui para termos uma visão de como a teoria dos sistemas dinâmicas compõem a base filosófica e científica do BodyTalk.

Jorge Vieira, a partir de Bunge, nos conta em seu artigo “Organização e Sistemas” (2000), que ontologia é o estudo de conceitos – o que é – de substância, probabilidade, acaso, mudança, evento e processo, tempo e espaço, ou seja, questões que observamos na psique tal como se propõe o BodyTalk. Adverte mesmo que utilizamos tais conceitos sem termos parado para pensar o que eles realmente significam, pois isso depende da nossa visão de mundo. Por isso, vale ressaltar como é importante a revisão de percepção que Dr. John Veltheim, idealizador da abordagem, nos orienta quando é necessária uma visão não mais cartesiana, mas sim sistêmica do corpo-mente.

Ver corpo sob ponto de vista cartesiano é distinguir as partes e investir na mecânica de funcionamento, enquanto ver de forma sistêmica é observar as relações complexas entre as partes, às vezes visíveis, às vezes não, às vezes evidentes às vezes confusas ou não racionais, às vezes causais e muitas vezes não tão definidas assim em sua justificativa ou explicação racional, pois operam em níveis mais profundos do corpo-mente.

Jorge Vieira aprofunda ainda mais tais conceitos e torna-se aqui fundamental lembrarmos que, a partir de seu olhar sobre parâmetros sistêmicos, considerarmos que os sistemas observáveis são abertos e que suas propriedades fundamentais assim o estabelecem: segundo sua permanência, diante do seu ambiente, e dada sua autonomia. Isso quer dizer que “todas as coisas tendem a permanecer”; “sistemas trocam energia, matéria e informação com outros sistemas”, portanto o fazem em seus ambientes entrelaçados; e que os estoques armazenados ao longo do tempo se acumulam e criam uma narrativa (ele diz uma característica discursiva). Daí nascem sua função de memória, fundamental ao sistema. O autor ainda falará, neste artigo, sobre os parâmetros evolutivos, dentre eles a complexidade, cuja derivação é a reflexão sobre auto-organização.

No entanto, vejamos, por hora, como tal desenho teórico pode nos ajudar na dinâmica do BodyTalk. Vale pontuar que a teoria geral dos sistemas é uma das teorias sistêmicas clássicas que puderam problematizar as teorias que se seguiram, como a teoria dos sistemas dinâmicos. O que se assemelha aqui é o pensamento sistêmico em questão.

A contribuição fundamental do pensamento ontológico a que se baseia a teoria geral dos sistemas, pautando grande parte do pensamento sistêmico, é olhar os movimentos como sistemas abertos, buscando sua complexidade, pois para permanecer, trocar, armazenar – ter memória e narrativa, os sistemas buscam auto-organização.

Isso seria, justamente, uma das bases fundantes do BodyTalk. No meu entender, esse diálogo interteórico e prático – no pensamento científico atual e este aqui pensamento terapêutico do corpo-mente – é justamente essa compreensão dos sistemas abertos, sua complexidade e auto organização que fazem o BodyTalk ser como é: uma prática de escuta, prezando pela prioridade, observando vínculos e lendo a complexidade vinda do que chamamos de Inato.

Sistemas dinâmicos e BodyTalk

Dr John pontua em vários de seus escritos a relação entre a teoria dos sistemas dinâmicos e o BodyTalk. Vejamos algumas das citações:

No artigo de 2012, “BodyTalk: the journey”, ele cita:

“O sistema BodyTalk é baseado em alguns princípios diferentes que envolvem ciência (inclusive a física), filosofia, técnicas e fórmulas para usar medicina alternativa científica e segura e eficaz. (…) A principal base do sistema BodyTalk básico é a Teoria de Sistemas Dinâmicos. Esse modelo científico existe há mais de 40 anos e é maravilhosamente explicado por cientistas, como Fritjof Capra em seus escritos” (Veltheim, 2012, 279)

Escuta, revista sobre BodyTalk, ed. 1, inverno, 2020 4

“Eu sempre entendi completamente que (…) toda a energia do
universo era uma série ou coleção de matrizes morfogênicas que estão todas inter-relacionadas e interdependentes. Isso significa que o único sistema que faz total sentido para mim é a teoria de sistemas dinâmicos. O autor, Fritjof Capra, tem uma influência profunda no meu pensamento em seu livro, “O Ponto de Mutação”. (Veltheim, 2012, 283)

No livro “The Science and Philosophy of BodyTalk – Healthcare designed by your body” (2013), o capítulo 4 explica sobre “A sabedoria inata” e sua aplicação prática e cita:

“Para facilitar a condução de uma sessão do BodyTalk, é utilizada uma abordagem da teoria de sistemas dinâmicos. Isso significa que um protocolo para o cérebro esquerdo é estabelecido para que todo o conhecimento essencial da função da mente-corpo possa ser consultado, como um blueprint. No BodyTalk SystemTM, esse blueprint é incorporado ao Protocolo de Atendimento que reconhece as informações acumuladas de todos os níveis da mente corporal, desde a anatomia física, os corpos energéticos e a consciência localizada”. (Veltheim, 2013, 45)

No livro, “The BodyTalk System”, o capítulo 4 sobre “Reestabelecer a comunicação”, ele comenta:

“Através da Teoria dos Sistemas Dinâmicos, todos os ramos da medicina alternativa têm o potencial de desenvolver uma estrutura teórica sólida para trabalhar com o corpo como um sistema de energia. A Teoria dos Sistemas Dinâmicos também ajuda bastante a explicar as nuances do relacionamento entre o corpo e a mente, particularmente em relação à cura pela energia. As diversas e controversas descobertas e observações do sistema energético humano são finalmente explicáveis em termos relativos”. (Veltheim, 1999: 23)

Outra maneira de contextualizar Teoria dos Sistemas Dinâmicos é visitar fontes bibliográficas como Fritjof Capra, autor muito citado por Dr. John Veltheim como inspiração para sua visão do corpo-mente, de forma sistêmica. Em “A visão sistêmica da vida – uma concepção unificada e suas implicações filosóficas, políticas, sociais e econômicas”, Fritjof Capra diz:

Escuta, revista sobre BodyTalk, ed. 1, inverno, 2020 5

“As principais características do pensamento sistêmico emergiram na Europa durante a década de 20 em várias disciplinas. Os pioneiros em abordar o pensamento o pensamento sistêmico foram os biólogos, que enfatizaram a visão dos organismos vivos com totalidades integradas. Posteriormente, ele foi enriquecido pela psicologia da Gestalt e pela nova ciência da ecologia, e teve talvez os seus efeitos mais dramáticos na física quântica”. (Capra, 2014: 93)

Importante ressaltar que a chamada Teoria dos Sistemas Dinâmicos é também conhecida como “teoria dos sistemas não lineares” e é pautada no arcabouço matemático coerente que só foi possível com o avanço da matemática das décadas de 80 e 90. Capra comenta:

“A visão dos sistemas vivos como redes auto organizadoras cujos componentes estão, todos eles, interconectados e são interdependentes tem sido expressa repetidas vezes, de um maneira ou de outra, ao longo de toda a história da filosofia e da ciência. No entanto, modelos detalhados de sistemas auto organizadores poderiam ser formulados só muito recentemente, quanto se tornaram disponíveis novas ferramentas matemáticas que permitiram aos cientistas, pela primeira vez, descrever e modelar matematicamente a interconexidade fundamental das redes vivas”. (Capra, 2014: 134)

A teoria da complexidade surge nesse contexto. Sendo uma espécie de “mãe” do pensamento não linear, filosofia e matemática confluem na compreensão e descrição de relações e padrões de fenômenos não lineares, sobretudo aqueles dos seres vivos. Assim, tornou-se possível uma mudança de perspectiva do próprio pensamento sistêmico.

Assim também parece ser com a terapia sistêmica e integrativa do BodyTalk. Quando o que chamamos de fórmula – de prioridades e vínculos – na prática terapêutica permite a observação da não linearidade das histórias por detrás dos sintomas – é isso que muda completamente a visão de saúde sistêmica e medicina integrativa.

Escuta, revista sobre BodyTalk, ed. 1, inverno, 2020 6 BodyTalk como sistema

Dada tal contextualização, sabemos que o BodyTalk convida o corpo-mente à observação e escuta de suas prioridades baseadas na sabedoria inata do corpo. E isso tem a habilidade de trazer auto-organização, homeostase, saúde e consciência, o que expande sua complexidade e revela a dinâmica sistêmica que o caracteriza. A questão é: como isso acontece? Compreender como a teoria dos sistemas dinâmicos pode nortear tamanha complexidade no atendimento terapêutico, assim como as implicações desse olhar. Essa é nossa tarefa maior neste artigo.

A observação é uma das chaves da prática do BodyTalk. Conceitualmente apoiada na física quântica, a relação entre observador e observado é, na verdade, a percepção de como se influem mutuamente. É da característica dinâmica dos sistemas a vontade de conhecer seus movimentos, seus fluxos, seus ritmos, suas tendências. Se o sistema é dinâmico e aberto, seus movimentos serão conhecidos a medida em que o sistema se faz ele próprio. Assim, parece ser o corpo-mente em relação ao ambiente e, portanto, de certa forma, o processo terapêutico que o BodyTalk convoca. Observação é uma prática na qual nem prévio julgamento e nem dados a priori estão em pauta, pois é no acontecimento que a sessão se revela.

Dr John Veltheim deduziu que, uma vez uma qualidade de observação dada, o sistema aberto e vivo tende a sua organização não por sequenciar sua complexidade, ou seja, o corpo no BodyTalk não é uma leitura linear; tende a sua organização justamente porque é um sistema dinâmico, ou seja, suas partes não tem uma relação causal – não olhamos o sintoma para determinar um diagnóstico – nem olhamos para o sintoma nele mesmo mas nas suas relações complexas possíveis – ao que podemos chamar das várias técnicas que compõem o sistema integral. O que chamamos de fórmula no BodyTalk é sistêmico porque se revela na medida em que uma prioridade é estabelecida.

Isso nos leva a perceber que uma das peculiaridades do sistema BodyTalk é que a complexidade do corpo está em não diminuir ou elevar nenhuma história que

Escuta, revista sobre BodyTalk, ed. 1, inverno, 2020 7

aparece em sessão – não tem nada mais importante do que o
vínculo, a relação, as formas de coesão que, se ressignificadas, podem ganhar novas dinâmicas. E uma das características dessa dinâmica é a coerência, ou seja, o que realmente faz sentido, ao que chamamos de consciência. Não é uma mente que ordena o que é mais importante, porque isso seria uma forma de ordenação linear de um conjunto de fatores.

Sistema assim tem a tarefa de nos fazer repensar as relações complexas. Uma das implicações terapêuticas é de considerar a sessão como um sistema complexo, considerar a relação entre terapeuta e paciente com outras variáveis que deixa ambos abertos ao que virá.

Dessa maneira, a dinâmica sistêmica do BodyTalk é, em certa medida, em busca da homeostase, ou seja, do funcionamento do corpo e de suas potencialidades tal como são: nem estagnados na doença, nem apegados a sua história, mas em constante movimento porque justamente são lidos como sistemas abertos e complexos. Isso inclui os seus desequilíbrios como forma provisória de equilíbrio, o que abre uma longa jornada para entender a aceitação vinda do coração. Isso inclui também considerar que seus desequilíbrios não podem ser a submissão à doença ou à crença, mas, ao contrário, é um convite ao enfrentamento saudável.

A principal implicação do BodyTalk ser tido como uma prática sistêmica é justamente a possibilidade de observá-lo em sua complexidade e em constante dinâmica de coerência. Isso que o caracteriza como uma medicina integrativa singular. Saúde, do ponto de vista sistêmico, exige de nós a auto responsabilidade do olhar, da empatia e da atenção plena da mente.

Nirvana Marinho Março 2020

(1) Graduada em Dança (1999, UNICAMP), Doutora em Comunicação e Semiótica (2006, PUC-SP), terapeuta certificada de BodyTalk (CBP, desde dez 2015), atua em São Paulo. Atualmente tem como principais iniciativas e projetos com BodyTalk: estudos para implementação de BodyTalk nas Escolas, Grupo de estudos Mindscape – inclusive voltado a jovens estudantes, idealizadora e parte da Comissão Editorial do periódico sobre BodyTalk “Escuta” com Verena Kacinskis, idealizadora das entrevistas BodyTalkers falando de BodyTalk e pesquisadora da cartografia “BodyTalk no Brasil: cartografia de caminhos possíveis” com Ana Marcela Sarria e Daniele Pires, organizadora das Sessões de Matriz BodyTalk Br (nov 2019-2020) e idealizadora e pesquisadora da atual Estudo de Caso Coletivo sobre Articulações. Em tempo, concluiu seu treinamento para tornar-se Instrutora de BodyTalk Acesso em junho 2020 e é uma das coordenadoras do projeto comunitário BodyTalk Covid. Email: nirvana.bodytalk@gmail.com. Site: http://www.corpoconsciencia.net.

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