Pandemia 2020 – Projeto BodyTalk Covid 19

Pandemia 2020 – Projeto Covid19 BodyTalk Brasil 

Alessandra Batistuta e Rafaela Capote

Como nos livros de histórias, num dia comum de 2020, acordamos submersos em um novo mundo. Para alguns de nós, um pesadelo sem precedentes, enquanto que, para outros, uma grande oportunidade de transformação e crescimento. Um despertar! Como no Livro de Isaías, estamos vendo e vivendo nitidamente, realidades paralelas de um mesmo evento. Um mundo onde o contato físico foi amplamente proibido, como parte da solução de um “inimigo” que estava descaradamente camuflado em todos os lugares. 

Abraçar? Só com nossas vulnerabilidades! 

A morte se fazendo presente, sem opções de fuga… como se algum dia tivesse havido! As cores pareceram se fundir em meio ao irrespirável ar que nos dá vida!
Um mundo onde os medos, as inseguranças e incertezas surgiram, como se nunca antes estivessem aqui. 

Fomos forçados a olhar para o “nosso próprio umbigo”, nos conectando com as emoções e situações que antes “não tínhamos tempo para olhar”. Aliás, essa é a desculpa perfeita para uma sociedade individualista e criadora de subterfúgios que justifiquem suas ausências do contato social sadio e criativo e ainda nos dá status! 

A falta de tempo foi tirada debaixo do tapete! 

A falta de cuidados com o próximo e a falta de amor consigo mesmo, também. 

Tivemos que olhar para as quatro paredes que nos cercam e todos que nela habitam; assumir nossos medos e receios mais profundos. Olhar para as nossas sombras. Olhar para os nossos pares. Olhar para as mortes de muitas parcerias, muitos negócios, muitas pessoas… Porque a verdade é que não estávamos sabendo quais calos estavam sendo apertados pelos nossos sapatos e agora estamos aprendendo o que deve ser feito para trazer alívio. 

Estamos caminhando pela sexta e sétima casas astrológicas!
Aprendendo a cuidar da saúde de si e enriquecer a convivência com o outro. 

A questão é que arregaçar as mangas e mudar a forma de se perceber, de perceber o outro e de viver em sociedade não é e nem nunca será uma tarefa fácil. O processo de transformação exige muita coragem, muita energia de amor e um grupo de apoio com as ferramentas certas. 

E é aqui que a gente entra! 

O BodyTalk não é apenas uma dessas ferramentas mágicas de super poder. É um estilo de vida, um sistema de empoderamento em todos os níveis, em todos os sentidos do Ser. Principalmente os sentidos do coração, aqueles que nos movem. 

Voltando a Isaías, e suas duplas realidades, escolhemos estar criando a realidade que traz soluções e amparo para as transformações saudáveis. Entrando na oitava casa astrológica, acolhendo a morte do ego e permitindo o surgimento de um Eu Social, o Todo mais saudável. 

Em março de 2020, Dra Janet Galipo e Dra Laura Stuve iniciaram nos Estados Unidos, um grupo de atendimento emergencial de BodyTalk a distância para pacientes com Covid19. Escolhemos dar as mãos neste projeto de assistência à vida e dignidade à morte. Pois com ambas andamos de mãos dadas. Caminhamos juntos com o projeto americano, no período de maio de 2020 até fevereiro de 2021, quatro coordenadoras e um total de 20 terapeutas certificados. Inclusive nós duas que aqui vos falamos! 

Acontece que o projeto amadureceu, tomou características do nosso local e passou por uma reformulação que permitiu a criação de uma nova diretriz . Com o apoio da ABBTS, coordenação de Giancarlo Stefanuto e Rafaela Capote, ancoramento de Alessandra Batistuta, orientações e apoio de Myriam Baker, instrutora avançada de BodyTalk, iniciamos uma nova fase com atendimento em duplas, somando 42 terapeutas certificados oferecendo três sessões de BodyTalk com o foco específico na resiliência ao paciente com COVID 19. Um trabalho voluntário, onde as sessões são pagas ou não pelos clientes, em contribuição solidária e os recursos adquiridos estão sendo investidos no próprio projeto, na criação de um site para ABBTS e na divulgação do BodyTalk. 

Até esse momento, já acolhemos e demos apoio a mais de 500 pessoas. Alimentando de forma saudável a matriz do BodyTalk no Brasil.
E, com o coração cheio de alegria, estamos aqui! 

Usando a pandemia como um trampolim quântico, oferecendo assistência física, emocional e psicológica aos inscritos e seus familiares, permitindo crescimento pessoal e profissional aos terapeutas, coletando e organizando um banco de dados que fortalece a eficiência e difundindo a maravilhosa abordagem do BodyTalk pelo país e pelo mundo. 

Projeto Covid19 BodyTalk Brasil: nós escolhemos dar as mãos neste projeto de assistência. Você também pode!  

1 Alessandra Batistuta é pediatra há 28 anos. Terapeuta de BodyTalk Certificada desde 2012, PaRama BodyTalk. Casada há 23 anos com Whodson Figueiredo (meu grande incentivador) e mãe do Henrique 21 e da Helena 18, meus melhores trabalhos em execução. 

2 Rafaela Capote é terapeuta há 17anos, certificada BodyTalk desde 2017. Artista plástica e mãe solo do Cauê há 16 anos, a melhor obra de arte da sua vida. 

As pequenas mortes

As pequenas mortes que nos preparam para voltar para Ela

Ana Paula Malagueta Gondim 1

“Somos feitos do corpo da Mãe Terra e para o seu ventre todos retornaremos; 

entoe sua canção da morte e celebre voltar para a casa.”

– provérbio dos índios shawnee

Ela. Quem seria Ela? Na verdade, a melhor pergunta seria: quem não é Ela? Porque tudo é Ela. Ela é a Grande Deusa, a Divindade Feminina que foi esquecida, excluída, diminuída, suprimida e até mesmo, demonizada na história da nossa humanidade. Ela que representa uma tríade importantíssima que é a vida-morte-vida, como já bem disse Clarissa Pinkolá Estés, autora do clássico “Mulheres que correm com os lobos”. Mas, por que falar dEla? Porque falar dela é falar das deusas e falar das Deusas é falar de vida, mas também é falar de morte. E falar de morte pelo olhar das deusas é falar de um lugar bem particular e peculiar, um lugar que esquecemos.

Eu cresci acreditando que a morte era algo incrível ao qual tínhamos que aspirar. Porém, muito pautado em minha experiência pessoal com a mitologia e cultura egípcia, eu chorava e me emocionava com as imagens, histórias e com toda a construção de uma história pensando no momento da passagem e na busca pelo que vinha depois da vida. Na minha cabeça infantil, a morte era uma viagem luxuosa que faríamos e iríamos encontrar os deuses e as deusas e seguiríamos viagem. A vida não acabaria, ela apenas continuaria de outra forma e em um outro lugar. “O sol se levanta todos os dias em renovada força e vigor, e a renovação da juventude em uma vida futura era a meta e o objeto de todo crente egípcio.”1 Sendo assim, era um processo de renovação, pois a vida é eterna apenas a nossa existência corpórea é transitória e impermanente.

Esse foi meu primeiro contato com uma cultura e crença diferente da qual estava inserida e que na verdade ainda não tinha consciência. Só a tive quando as primeiras mortes próximas a mim começaram a acontecer. Senti-me dilacerada, partida ao meio e sem chão. Tive clareza que uma morte significa perder uma referência. Como uma ilha ou cidade que é engolida pelo mar e pela terra que deixa de existir. Tomei consciência de como a morte é temida, negada, ignorada, evitada e malvista em nossa cultura ocidental no geral, que é onde estou inserida. E só posso falar por mim e pelo que conheço. As mortes foram vindo e não eram daquele lugar bonito que eu vislumbrava antes. Cheio de celebrações, honrarias e “festas”. Era um lugar onde ninguém podia falar sobre, um lugar que se evitava ou um lugar que se temia. Ao ponto de ouvir de pessoas familiares próximas: bate na boca, não fala sobre isso. Como se a morte fosse uma convidada que ninguém queria receber. Ao mesmo tempo, que via por um outro lado, uma certa banalização. Tudo mundo vai morrer, para que dar atenção a isso? A morte é inevitável, então, não vou perder meu tempo com isso. “As pessoas frequentemente comentem o erro de ser frívolas em relação à morte e pensam: Ora, a morte chega para todo mundo. Não é nada de mais, é apenas natural. Tudo irá bem para mim. Essa é uma bela teoria; até que se esteja morrendo.”2

Evitação e temor versus banalidade e desconsideração. É confuso. Fiquei dividia ao meio. Por um lado, via ao meu redor essa incompreensão e visão bem negativa. Por outro lado, tinha os registros da tradição egípcia toda focada na morte e no que viria após. O que se seguiu foi que, aos 18 anos, comecei a praticar yoga e, ao virar professora, comecei a aprofundar nestas temáticas. No entendimento da transitoriedade, mas, ao mesmo tempo, na compreensão tântrica não-dual de que tudo, absolutamente tudo, é sagrado e divino. Sendo assim, a morte também seria. Certo, somos transitórios como materialidade de um corpo que experimenta uma existência, mas somos eternos, porque a existência é um único fio que segue por toda a eternidade da alma. Ela começou no instante da criação e nunca terminou. Porque “a morte não existe, é apenas uma mudança de mundos,” diz o provérbio dos índios duwamish. Ou seja, ela não existe no conceito ou forma como a compreendemos: como uma separação ou como um fim total – uma aniquilação. Mas, sim, como parte de um grande processo de vida-morte-vida. 

Isso ficou absolutamente mais claro quando mergulhei no universo das deusas e compreendi que isso não acontece de forma linear, mas de forma espiral. Portanto, não há uma vida ou uma morte, há vida-morte-vida, realmente. E nós experimentamos isso o tempo todo em nossas vidas. Há diversas perspectivas e formas de se viver a morte e, ao compreender isso, ela já não é mais temida, mas sim, incorporada ao viver e aprendida diariamente. As deusas me ensinaram a olhar a morte de forma mais ampla. Não apenas como algo que irá acontecer uma única e determinante vez, mas como pequenas mortes que vão acontecendo várias vezes ao longo da vida para irmos aprendendo a nos relacionar melhor com elas.

O primeiro ponto de partida, veio da compreensão de que a primeira forma de ritual que houve na humanidade foi durante o sepultamento. Desde a forma como o corpo era colocado, seja na posição fetal, seja com a cabeça e os pés em direções específicas (que vamos encontrar no Egito também), até objetos e oferendas enterradas juntas. Desde os primórdios, podemos ver que a morte era reverenciada e que o morrer era voltar para o ponto inicial de onde havíamos vindo: o ventre da própria terra. Dela viemos e para ela voltamos ao final. Junto com os rituais de sepultamento temos outro ponto de conexão que é a ancestralidade. A concepção de que parte de nós está ali findando-se, ao mesmo tempo que segue junto de nós. A ideia de que tenham uma boa partida e que sejam bem recebidos e deem continuidade a suas caminhadas.

Os ritos funerários então, existem desde o início dos tempos e foram variando ao longo da passagem do tempo de cultura para cultura. Porém, ambas tinham algo em comum, que era enterrar ou utilizar objetos e símbolos nesses rituais que iriam ajudar o espírito a encontrar seu caminho no outro mundo, como “lamparinas (dacas, greco-romanas), barcos (egípcios, escandinavos), carruagens (celtas), máscaras de proteção, amuletos e imagens (egípcios, gregos, astecas, nativos norte-americanos), armas, moedas para pagar os guardiões e objetos sagrados (escandinavos, celtas, egípcios, citas, gregos).”3 Algo que foi mudando ao longo do tempo e cruzando-se com diferentes crenças como as dos hindus e de algumas tribos nativas e, até mesmo, entre os vikings, que acreditavam que a cremação era a melhor opção para o corpo (matéria) e que, até mesmo os bens pessoais destas pessoas deveriam ser queimados, para auxiliar na libertação do espírito.

Sendo assim, aprendemos olhando para a nossa história, que a primeira forma de ritual foi o sepultamento, que seguiu importante por muito tempo e ainda o é em diversas tradições. Sendo que temos algumas, que são inclusive motivo de festa, alegria e comemoração, como o Dia dos Muertos no México e em diversas culturas asiáticas. É importante conhecermos e entrarmos em contato com culturas diferentes das nossas, para termos outros símbolos e referências para confrontar nossas próprias crenças e serem pontos de encontro, reflexão e até mesmo tomada de consciência. A diversidade é muito grandiosa e libertadora. 

Como a morte era de extrema importância para os povos primordiais da terra, as pequenas mortes também o eram. Elas aconteciam durante os ritos de passagem das mulheres e dos homens. Rituais que aconteciam, por exemplo, em cavernas (que também representam o útero da terra, o ventre da Deusa) que também simboliza uma pequena morte – uma transição. Aconteciam também dentro de templos em câmaras profundas e até mesmo, em lugares inóspitos da natureza. Onde a pessoa é largada a própria sorte e precisa morrer de diversas formas para realmente viver. A morte pode ser compreendida também como pequenas transições que vão acontecendo ao longo de nossas vidas. 

Nestes dois primeiros pontos, já podemos observar dois temas importantes, que foram esquecidos quando o paradigma patriarcal se estabeleceu e trouxe consigo, entre tantas coisas, a negação da morte (o desejo da vida eterna, da fonte do rejuvenescimento e como “enganar” a morte), assim como a ausência de rituais significativos que ajudavam as pessoas a transitarem com mais facilidade entre momentos importante de transformação interna quanto externa e até mesmo social. Hoje, vivemos em uma cultura que perdeu seus ritos de passagem e proximidade com a morte. Antes, a gente convivia de perto com os nascimentos e com os processos de morte. Eles tinham um significado maior e nós éramos preparados para eles, a vida toda! Hoje, a morte fica relegada muitas vezes a um lugar distante e asséptico, quase que “controlado” e nós temos que lidar a própria sorte com nossas mortes, enquanto vamos “evitando” a morte ao máximo. 

Porém, nem tudo está perdido. Além de termos muitas outras culturas diferentes das nossas que podem nos ensinar sobre a morte de outras perspectivas, como o próprio Budismo, Hinduísmo e o Yoga, assim como outras culturas aqui mesmo da América Latina e dos povos tradicionais da terra, podemos aprender sobre ela dentro de nós. 

Na tradição da Deusa, a morte é um dos seus aspectos. Ela é a deusa criadora, mas também é a deusa da Morte. As coisas não estão separadas e caminham sempre juntas. Viver é se preparar para morrer ou viver é saber morrer quantas vezes forem necessárias. É interessante notar, que esse lado escuro da Deusa que contém os mistérios da morte e os aprendizados que ela traz, foi conjuntamente com o patriarcado, negada e excluída. Muitas das deusas que tinham essa função e qualidade foram transformadas em demônio e até mesmo mal-ditas. O que diz muito sobre a forma como lidamos com a morte. Como se fosse uma punição ou derrota e não mais como parte natural da espiral da vida ou até mesmo como uma grande conquista e vitória. Desaprendemos a lidar com a escuridão e, assim também, com as deusas escuras. Sendo que, até mesmo Jesus precisou passar pela escuridão para, só depois, ressuscitar. A ressurreição não acontece sem as deusas escuras. Porque luz e escuridão são a mesma coisa.

Através das Deusas e em meu papel como Doula, aprendi que a morte está conosco desde o momento do nascimento. A mulher precisa morrer para que o bebê possa nascer. Tanto que as deusas que estão relacionadas com o parto, são as deusas escuras, como Hécate, por exemplo. Entendemos assim que, a tradição das deusas e seu legado e o mundo como era antes do patriarcado, períodos neolítico e paleolítico até a destruição da deusa pelas culturas patriarcais, o entendimento do mundo era de uma divindade imanente. Sendo assim, tudo era divino e sagrado e a compreensão era mais não-dual. O que facilitava a compreensão da vida, inclusive da morte. É através delas que voltei a tirar de baixo do tapete onde estavam escondidas as deusas escuras e, sendo assim, uma diferente compreensão da morte. Deusas como Hécate, Baba Yaga, Cerridwen, Hel, Kali, Morrigan, Néftis e Auset (Ísis), Deméter e Perséfone, Coatlicue, Arianrhod, Nanã, entre tantas outras.

Elas já passaram tempo demais temidas e excluídas. E enquanto ficarem ali, vamos seguir tendo dificuldade de fluir na vida. De passar pelas mortes de uma forma melhor e mais construtiva e seguir tentando controlar o impossível. É um alívio quando elas voltam a pertencer. Porque, com elas, volta a nossa memória. A memória de que, de fato, todo dia é um bom dia para morrer, como já diziam os hopis. Ao inclui-las, voltamos a aceitar os ciclos naturais da roda da vida. Voltamos a aceitar o feminino e as deusas em nossa realidade, tão sedenta delas. Tão imersas apenas no mundo do pai e dos deuses ou deus. Uma vida que volta a girar sem medo porque a morte volta a ser familiar e, com ela ao nosso lado, a forma de viver é inclusive melhor. 

Todas as antigas tradições centradas na Deusa e no feminino honravam tanto a vida e seu poder de criação e geração quanto a morte, pois entendia-se que não há vida ou renascimento sem a morte. Que não podemos evitar ou pular uma etapa do fluxo da vida e nem querer prolongar algo por puro apego ou medo. “Ao aceitarmos com naturalidade tanto a beleza quanto a decadência do ser, damos o mesmo valor aos poderes sagrados da vida e da morte, vendo as duas polaridades como as portas de entrada e saída do espírito na sua eterna dança espiral.”4 O que traz uma aceitação de todos os processos de mudança da vida. Veja como hoje não conseguimos aceitar o envelhecimento? Como, principalmente as mulheres, passam por procedimentos que colocam inclusive sua vida em risco para não envelhecer. Nem os cabelos brancos ainda são bem-vistos. Eu trabalho com mulheres todos os dias e vejo o quanto ainda há resistência em deixar os cabelos brancos, com a idade chegando, com as mudanças na vida. É um tema ainda cheio de tabus e que carrega muita dor. Nós conversamos muito e procuramos, através das deusas, gerar reflexão para mudança. Porque não é a mesma coisa envelhecer para uma mulher ou para um homem em nossa sociedade e isso é fato. 

Vivemos em um mundo que quer dominar e controlar tudo. E esse controle é a opressão do feminino e, junto disso, de tudo que faz parte das tradições do feminino. Queremos controlar a natureza, os animais, as mulheres e a expressão do feminino em nós. Ao fazer isso, não permitimos que o fluxo da vida, que é um círculo sem começo e nem fim, faça seu trabalho. Queremos apenas viver a qualquer custo e chegamos à loucura de destruir tudo, para não morrer e, ao mesmo tempo, matamos tudo e inclusive as possibilidades de viver bem de forma natural e orgânica. Está tudo atrelado. Ao negar a morte, fazemos o mesmo com tudo ao nosso redor e só adoecemos. Estamos cada dia mais doentes sem as deusas escuras, parteiras da morte, podendo exercer seu trabalho de forma louvável e respeitável ao nosso redor.

A pandemia do coronavírus está aqui para nos ensinar sobre isso também. A morte toma proporções absurdas e, ainda assim, estamos tento muita dificuldade em aceitá-la e incluí-la. Veja só como o negacionismo cresceu assim como o pensamento fantasioso. Não respeitamos mais as deusas da morte. Não respeitamos mais a morte. Não respeitamos mais nada porque perdemos a maturidade e responsabilidade com a vida que elas nos trazem. Por isso, vamos nos colocando e colocando o outro em risco, vamos negando a realidade, vamos desmerecendo a vida e a morte vai se tornando banal. Imaginem o que os homens dos tempos primitivos iriam achar disso. Da forma como estamos tratando cada ser humano que se vai e da forma como não estamos contribuindo para que a vida se mantenha? Já parou para pensar nisso?

Isso acontece porque a Deusa ainda não está totalmente vista e incluída. Era e ainda é dela que vem o respeito, as preparações e as diversas formas de se preservar a vida. O feminino que guarda a vida e assim também guarda a morte. “Como parteiras – não somente para os nascimentos, mas também para as mortes – as mulheres reverenciavam a Deusa como a Grande Transformadora, que ao assumir seu aspecto de Destruidora prenunciava também as promessas da Criadora.”5Ser parteira e doula da vida é também ser da morte. “Os antigos rituais funerários – considerados os ritos finais de passagem – visavam tanto a orientação da alma no seu novo caminho quanto o consolo daqueles que choravam na sua partida. A ênfase, no entanto, não era na perda irremediável, mas na preparação do espírito e a sua integração no mundo dos mortos, despedindo-se dos familiares com a esperança de um novo encontro. Assim, aceitava-se a dor com compreensão e sabedoria. Mesmo acreditando na sobrevivência do espírito, não existiam palavras mágicas ou gestos ritualísticos que pudessem retirar a dor pela morte de um ente querido. Por isso, encorajava-se a expressão da dor durante a vigília e o enterro, mas não depois, para não prender o espírito pelas lamentações e saudade.”6

Hoje, muitas vezes, há uma pressa em ficar bem rapidamente e em processar o luto em um ritmo otimizado. Temos que ser produtivos e ter excelência na performance até do luto. Não temos sossego ao mesmo tempo que não temos um rito que nos conduza ao entendimento que precisamos do que aconteceu. E isso, precisa ser respeitado. A Deusa Escura precisa ser respeitada. 

E como podemos fazer isso? Bem, há diversas formas de irmos incluindo novamente a morte e as deusas escuras em nossas vidas. A primeira é reconhecer que ela existiu e ainda existe mesmo em uma sociedade patriarcal que faz de tudo para mantê-la enterrada. Precisamos saber da nossa história, pois conhecimento liberta. Então, leia histórias das deusas e acima de tudo, resgate a história delas na sua própria trajetória de vida, por exemplo, lendo O Cálice e a Espada, da Riane Eisler. Segundamente, podemos voltar a fazer o culto aos ancestrais que é o culto dos mortos. É uma bela forma de reconhecer aqueles que se foram e te dar a oportunidade de ir processando o que ficou deles em você e gerar um outro entendimento da partida deles. Culturas que compreendem a morte, geralmente tem um forte culto aos ancestrais.

Uma outra forma que temos de lidar com a morte mês a mês e está a nossa disposição durante a fase da menstruação do ciclo menstrual é durante a lua nova, no ciclo mensal da lua. Ali, ficamos frente-a-frente com as deusas escuras e com a morte. Ritualizar esse momento pode ajudar a compreender e passar por ele de uma forma melhor. Perceba quantas de nós sofremos nesse período. Está tudo interligado: sofremos com as mortes físicas e sofremos com as mortes simbólicas. Já diz um dos princípios herméticos: assim como em cima também embaixo, assim como dentro também fora. Todos os processos irão ajudar, mesmo que pequenos. Aprender a lidar com a menstruação que está correlacionada com a bruxa-anciã (aspecto escuro da deusa), com a lua nova e com o inverno, é começar a aprender a tatear no escuro e olhar para suas próprias questões com a morte e tudo que ela significa.

Você pode fazer anotações na Mandala Lunar para acompanhar sentimentos, sonhos, sensações e questões físicas durante todo o ciclo menstrual, especialmente durante a menstruação. E isso pode ser feito mesmo para quem não tem ciclo menstrual. Basta anotar e acompanhar as suas mudanças durante o ciclo lunar, nas diferentes fases da lua, especialmente na minguante-nova. Os mistérios das deusas escuras estão ali, tentando dialogar e mostrar para nós o que precisa ser revelado. Podemos conhecer os mistérios da morte dentro de nós mesmas o tempo todo. Basta querer.

Outra coisa que precisamos olhar é para a velhice. Seja através das nossas avós e avôs, seja aprender com o inverno (estação e da alma), seja com a passagem do tempo. E hoje, na sociedade patriarcal, vivemos em um mundo que deseja eternamente ser jovem. Estamos, desde pequenas, imersas em um mundo de produtos para rejuvenescer e retardar o envelhecimento. Isso não é estranho? O patriarcado tem obsessão pela juventude, congelar-se no tempo e mascarar todo e qualquer sinal de velhice. Tanto que as mulheres, se não pintam os cabelos, são ditas serem desleixadas, velhas e sem utilidade. Enquanto os homens, aos primeiros sinais de cabelos brancos, já são sexys e charmosos. Não há algo muito errado aqui? A mulher tem que esconder as marcas de expressão e sua idade com uma infinidade de cremes, produtos e até mesmo plástica, enquanto os homens vão cada vez mais, buscando meninas jovens para se relacionar. Por quê? Porque a velha assusta. A velha lembra daquilo que não é verdadeiramente controlável. A velha tira do patriarcado a ideia de que são invencíveis e que podem tudo. Frente à morte, ninguém pode nada. Ou como Barbara Walker diz: “A velhice realmente enfraquece até os mais fortes e a morte vence realmente até os maiores”. E, por conta disso, algo realmente grave acontece em nossa sociedade, principalmente a Ocidental – ninguém prepara a mulher para a velhice. Ninguém ensina essa mulher a envelhecer. Ninguém vai instruindo-a ao longo da vida para essa grande transição e rito de passagem feminino. E com isso, não aprende a desenvolver seus recursos internos, dons e capacidades para entender o processo. Porque são ensinadas a vida toda a retardar e evitar o processo a toda custa. E realmente sai bem caro, literalmente e subjetivamente!

Uma última coisa, é colocar-se em processo de encontro e mergulho na morte através das pequenas mortes aos quais somos convidadas. Para mim, o processo do BodyTalk é um ir de encontro com a morte o tempo todo. Assim, como também é uma terapia bem conduzida. Somos confrontadas com a morte em momentos de proximidade de grandes transformações. Podemos resistir, negar e sair correndo ou podemos encarar, sabendo que estamos sendo guiadas por alguém que, como uma doula ou parteira da morte, nos acompanha em nossos processos. 

Procure se expor mais aos símbolos, ensinamentos, perspectivas, rituais, deusas, objetos e pessoas que tragam diferentes perspectivas sobre a morte. O dia que visitei as cavernas do Petar foi uma experiência bem impactante! Quando nos damos oportunidades dessas experiências, somos confrontadas com nosso mundo interno. Quem vem à tona e podemos tomar consciência dos nossos conteúdos internos e trabalhar com eles. Todas as experiências são bem-vindas e importantes. Desde se expor a imagens de deusas, deuses e pessoas mais velhas, para que você se acostume e comece a mudar a forma de olhar. Porque ao final é isso: um olhar diferente. Tudo isso foi e ainda é o que mais me ajuda. 

Eu usei como embasamento para este texto dois dos meus livros de cabeceira que são O Livro dos mortos egípcio e O Livro Tibetano do viver e morrer. São duas preciosidades, que sem dúvida, vai abalar seu sistema de crenças! Há práticas de meditação focadas neste tema, por exemplo, e se esta é uma questão difícil para você, traga para sua sessão e converse com seu terapeuta. Estamos todos em desconstrução e ainda temos muito que aprender com a morte e com as deusas escuras. A natureza está tentando nos mostrar o tempo todo, inclusive essa tragédia que é a pandemia que estamos vivendo.

Até quando vamos ignorar o chamado das Deusas Escuras?

Referências:

1. Budge, E.A.Wallis. The book of the dead. The Papyrus of Any. New York: Dover Publications, INC.

2. Rinpoche, Sogyal. O livro tibetano do viver e do morrer. São Paulo: Talento: Palas Athena, 1999.

3. Faur, Mirella. O legado da Deusa. Rio de Janeiro: Record: Rosa dos Tempos, 2003.

4. Idem 3

5. Idem 3

6. Idem 3

1 Ana Paula Malagueta Gondim é terapeuta certificada de BodyTalk e idealizadora do Devi Shala®️ e do Método Devi Shala®️ de Jornadas da Heroína pelas Deusas, Deuses e pelo Sagrado Ser. 
Facebook: @devisshala
Instagram: @devishala

Mortes invisíveis

(e um pequeno manual de renascimento, para acompanhar)

Isadora Ferreira 1

A medida de confinamento, devido à pandemia, abre uma porta reveladora ao ensejar a percepção de aspectos abusivos ou decepcionantes nas relações. Estes são capazes de causar, no longo prazo, tanto dano e tanto luto quando a perda de um ente querido.

Podemos, então, falar sobre as pequenas mortes? As mortes invisíveis? Aquelas que só a gente percebe, quando, em uma fração de segundo dentro da gente, tudo muda? As mortes veladas. Eu não sei como é para você. Mas, para mim, que já enterrei várias pessoas muito importantes, as pequenas mortes invisíveis doem diferente. 

Talvez porque elas sejam privadas (e solitárias), silenciosas (e silenciadas), individuais (e profundas). Será que importa mapear o porquê disso, ao certo? Confesso que me interesso pouco pela razão precisa, ainda mais diante de um prato tão cheio de emoções. 

Quando se trata de morte invisível, a métrica é outra. A morte não é anunciada, o enterro não é palpável, o luto não é reconhecido, a reconstrução interna não é linear e a referência de base não existe. Como lidar, então, com algo sem nome que a gente percebe como consequência de um “antes confuso, permeado de sentimentos ambivalentes? 

Quando digo “algo” estou me referindo ao instante imediato que sucede à vergonha, à humilhação, ao medo e/ou à avalanche de culpa. São instantes, reconhecidos apenas por nós, que calamos por falta de opção. Infelizmente, fazemos isso sem perceber que cada silêncio é uma violência para conosco. 

VIOLÊNCIAS INVISÍVEIS

Para cada violência, uma estrela que brilha no nosso olhar morre. Mas, assim como na astronomia, até percebermos que ela parou de brilhar aqui, demora. E é por conta dessa defasagem que levamos meses, anos – às vezes décadas – para perceber o que aconteceu. Demoramos para entender, demoramos para chorar, demoramos para nos perdoar pelo tempo que passamos sem chorar. Demoramos para transformar. A verdade é que ficamos presos  àquele instante no tempo-espaço. O tempo pode até passar, mas nós ficamos congelados ali, sem sairmos do lugar.

A esse fenômeno, damos o nome de trauma. Tudo o que foi vivido, pensado, sentido e desencadeado a partir de um ápice biográfico é resumido em uma única palavra. Reconheço, obviamente, a importância e a utilidade da linguagem em nomear os acontecimentos. Sem esse primeiro passo, não há jornada.

Porém, quero ressaltar que precisamos urgentemente construir uma ponte dentro de nós; uma ponte de entendimento que vincula a palavra ao sentir. Sem o questionamento do que aquela violência, experiência traumática ou morte de estrela no olhar realmenteimplica, nossa humanidade e empatia vão deixar a desejar. Não haverá gentileza. Nem com o outro, nem com nós mesmos.

Enquanto as palavras forem reduzidas a uma combinação de letras vazias processadas pelo intelecto, elas serão apenas falsos recipientes, incapazes de fazerem caber dentro de si sentimentos tão complexos. 

Quando eu te conto que “aos seis anos, por um tempo, eu adormecia no silêncio que sucedia o som de metralhadoras silenciando o choro de mulheres e bebês durante a guerra civil no Haiti”, você sente algo para além do entendimento intelectual dessas palavras? E se eu te contar que, décadas depois, me tornei doula, educadora perinatal e intuo regularmente sinergias de aromaterapia para crianças?

Quando eu te conto que “um dia qualquer, quando eu tinha sete anos, vieram me buscar na escola para me contar que minha mãe tinha morrido em um acidente de carro”, você sente algo? E se eu te contar que, décadas depois, fui mãe em um parto domiciliar em êxtase (orgástico), onde eu mesma peguei a bebê enquanto a equipe aguardava na sala?

Quando eu te conto que “na adolescência, minha irmãzinha de seis meses passou por uma cirurgia de peito aberto e não resistiu após a terceira intervenção”, você sente algo? E se eu te contar que hoje uma parte do meu trabalho envolve estar a serviço da saúde integral das crianças? 

Estes são exemplos de lutos meus. Mas, você, que não necessariamente tenha perdido pessoas queridas, mas que tenha tido sua vida transtornada com a crise sanitária mundial ou que tenha sofrido o impacto de outras tragédias, pode, no seu tempo, precisar de um bálsamo.

Pois bem, quando a gente morre um pouquinho, sem ser por completo…. só nos resta renascer e encontrar um senso de propósito em tudo que aconteceu. De forma resumida, consigo ver dois caminhos para esse renascimento acontecer. O processo interno de transformação vai depender do grau de visibilidade e legitimação social do trauma-violência.

MANUAL DE RENASCIMENTO PARTE 1

Os exemplos citados acima referem-se ao primeiro caminho de renascimento, em que a visibilidade do trauma-violência é grande. Gosto de chamá-lo de “a arte de transformar excremento em fertilizante” (mas quem me conhece sabe que a versão raiz dessa frase é muito mais a minha cara). 


Essa transformação se dá em três passos: 

  1. Viver a coisa (o excremento)
  2. Nomear, estudar até crescer e perder o medo da coisa; e
  3. Reconhecer-se “especialista por experiência”, e então passar a fazer algo bom com a coisa (transformando o excremento em fertilizante)

Agora, vamos abordar os danos que as pequenas mortes invisíveis, advindas da violência cotidiana, acarretam a nossa integridade e dignidade. [ALERTA DE GATILHO] 

Esses danos ocorrem quando expressamos uma necessidade humana, como por exemplo:

  • querer um relacionamento mais profundo, afetuoso e consistente… e isso é invalidado como necessidade de atenção / carência / birra.
    Exemplo:
    “O que você está me pedindo não existe. É impossível te agradar. Você está achando que é fácil assim me substituir? Vai, tenta..! Quero ver alguém te tratar melhor. Se eu soubesse que você reagiria assim, eu não teria te contado. Você não faz ideia de como foi difícil para mim. Precisei de muita coragem mas, no fundo, eu sabia que você merecia saber.”
  • querer ser vista(o), amada(o), aceita(o) e merecedora de um diálogo respeitoso de alinhamento (com, sem e apesar de todas as nossas questões pessoais)… e isso é automaticamente triangulado com uma terceira pessoa que é motivo do seu ciúme / drama /exagero / comportamento desequilibrado / sentimento de inveja / projeção.
    Exemplo:
    “Fala a verdade, você só está falando isso porque ficou com ciúme que eu fiz X com outra pessoa. Como você exagera, é só um X! Quer saber, eu estou achando que é você está mentindo e só está criando essa cena para me despistar. Afinal, de onde você tira essas idéias? Ah, você não está mentindo pra mim? Então me prova!”
  • repassar calmamente os pontos de um acordo para destacar uma incoerência ou uma quebra no combinado… e isso é recebido pelo outro com raiva, sarcasmo, projeção ou perda de memória.
    Exemplo:
    “Eu nunca disse isso. E outra, você está me julgando. Depois de tudo que eu fiz por você, você poderia ser menos ingrata(o). O que te custa me apoiar? Será que é pedir tanto assim? Verdade, esqueci. Desde que aconteceu X, você não consegue mais fazer nada. Outras pessoas conseguem, mas você não, porque você é diferente, né? Quero ver o que pensariam de você se o mundo soubesse como você me trata.”
  • defender um posicionamento pessoal… e os fatos são distorcidos, invertendo totalmente a narrativa real, e gerando acusações difamatórias, persecução, desgaste, ansiedade, depressão etc.
    Exemplo:
    Neste caso, nada mais elucidativo do que este comercial da Folha de São Paulo veiculado em 1989, sobre Adolf Hitler: “Este homem pegou uma nação destruída, recuperou sua economia e devolveu o orgulho ao seu povo. Em seus quatro primeiros anos de governo, o número de desempregados caiu de seis milhões para novecentas mil pessoas. Este homem fez o produto bruto interno crescer 102% e a renda per capita dobrar. Aumentou os lucros das empresas de 175 milhões para 5 bilhões de marcos. E reduziu uma hiperinflação a, no máximo, 25% ao ano. Este homem adorava música e pintura e, quando jovem, imaginava seguir a carreira artística.” E o comercial conclui: “É possível contar um monte de mentiras dizendo só a verdade.”
    Para quem consegue transformar Adolf Hitler em herói, transformar um herói em vilão é fácil: basta selecionar umas três ou quatro histórias em que você pisou na bola e contar todas elas de uma só vez.

Retomando, quando expressamos a necessidade humana de estabelecer uma relação saudável e passamos repetidamente por uma lavagem cerebral, isso fere a nossa dignidade. Em um instante, mesmo que seja confuso, sutil, inexplicável… Mesmo que seja invisível para qualquer outra pessoa, a gente sente na alma a perda de vitalidade.

O MANUAL DE RENASCIMENTO PARTE 2

Esse segundo tipo de morte, pequena e invisível, requer uma outra estratégia de renascimento que poderíamos chamar de “acerto de contas retroativo”.

Essa transformação também se dá em três passos, a serem repetidos conforme for necessário:

  1. Recapitular o dia com foco específico em discussões, criando uma ponte entre o que aconteceu (fato) e o sentimento gerado.
  2. Decretar e implementar uma mudança imediata de comportamento da sua parte (acerto de contas), mesmo que contra-intuitiva, que inviabilize a repetição da violência. (Lembre-se: traumas atuam como uma lavagem cerebral e a única referência confiável agora será observar o efeito que a mudança no seu comportamento produz); e
  3. No dia seguinte, recapitular o dia e também a semana anterior, e assim sucessivamente até conseguir mapear eventos do mês, do ano e além. Dessa forma você poderá continuar constatando situações que se repetem, seja no formato de causa e efeito (ex: sempre que acontece x, a consequência é y), como um paralelo (ex: algo que já aconteceu antes e está acontecendo de novo agora), e/ou enquanto futuro oposto (ex: quando uma experiência atual é completamente oposta ao que já foi vivido em circunstâncias semelhantes no passado). Esse último passo é a parte retroativa da estratégia.

CONSCIÊNCIA E TRAVESSIA

Sou eternamente grata às pontes internas que construí e sigo construindo, graças à filosofia que embasa o Sistema BodyTalk, assim como as sessões de BodyTalk que recebi de terapeutas competentes e dedicadas(os) ao longo de todos esses anos.

O autoconhecimento refina a nossa capacidade de olhar compassivamente para o outro e seus processos atemporais, como o do luto por exemplo. Considero um privilégio e uma honra acompanhar pessoas nessa jornada e desejo que você, que está lendo este texto, também consiga construir muitas pontes internas.

Torço para elas vinculem os desafios que você viveu no passado com o renascimento que você precisa para a sua individuação hoje. Ficam aqui os meus sinceros votos de que, depois da travessia, você possa parar para descansar e apreciar as águas do luto, que correm por baixo de todas essas pontes, dando a elas uma razão de ser e uma certa beleza colateral.

1 Depois de ter percorrido mais de 25 países e aprendido seis idiomas, Isadora Ferreira se descobriu apaixonada pelas diferenças de conteúdo interno que carregamos de acordo com a nossa cultura e bagagem pessoal. Atuando como palestrante, estrategista emocional e coordenadora de cursos de saúde e desenvolvimento pessoal há mais de 10 anos, realizando diversos projetos-chave em seu meio. Hoje, seu maior foco é promover o autoconhecimento, pois acredita que esta seja a grande chave mestre e organizadora da vida.

A morte de mim, Terryan Nikides

A morte de mim

The Death of “me”

Terryann Nikides 1

Tradução Ana Carolina Vasconcelos e Natasha Mesquita 2

At 11 years old my Grandmother’s brother, a tall, strong, handsome man of only 48 years old, came to visit. I sensed something was wrong. My Grandmother and Mother were not home. He left. My Mother arrived to find me panicking. She said she would see him later. I was not relieved. 

Aos 11 anos de idade, o irmão de minha avó, um homem alto, forte e bonito de apenas 48 anos veio nos visitar. Eu senti que algo estranho estava no ar. Minha avó e minha mãe não estavam em casa. Ele foi embora. Minha mãe chegou e me encontrou em pânico. Ela disse que iria encontrá-lo mais tarde. Mas eu não fiquei aliviada.

The moment is frozen in my mind. My bedroom was next to where the green rotary phone was kept. It was ringing in the wee hours of the morning. My Mother picked up the phone. Her voice said: “What? What happened?” I knew he was gone. I had known it all day that this was the feeling of loss, death’s smell permeated the air, even before it happened. She continued: “A car accident? He is dead!” I lay in bed crying, my chest heavy with loss. Not only the loss of my uncle but the loss of childhood and the fleeting moment where I might have warned him. 

Esse momento congelou na minha mente. Meu quarto ficava ao lado de onde ficava o telefone verde da casa. Ele estava tocando nas primeiras horas do dia. Minha mãe atendeu e disse: “O quê? O que aconteceu?” Eu sabia que ele tinha morrido. Ao longo do dia inteiro eu sabia que esse era a sensação de perda, o cheiro de morte estava permanentemente no ar, mesmo antes de acontecer. Ela continuou: “Um acidente de carro? Ele está morto!” Eu deitei na cama chorando, meu peito estava pesado de luto. Eu não tinha apenas perdido meu tio, mas tinha perdido a infância e o momento fugaz em que eu poderia tê-lo avisado. 

Not only was my Mother’s family impacted by the loss of my Uncle but my Father had his own story of grief to transmute. My Father’s Father died, at 48, when my Father was only 6 years old. My Great Uncle and Father had become dear friends. My Great Uncle’s death was at the exact same age as my Grandfather’s! I grieved for my Father’s loss of both men in his life.

Não só a família da minha mãe estava impactada com a morte do meu tio, mas meu pai também estava transmutando sua própria história de luto. Meu avô paterno morreu aos 48 anos, quando meu pai tinha seis anos de idade. Meu tio e meu pai, então, se tornaram amigos íntimos. A morte do meu tio foi na mesma idade que a do meu avô! Eu sofri pela perda do meu pai, dos dois grandes homens de sua vida.

At this point in life I began to prepare myself for the death of my grandparents. We lived in the same home. They seemed to me old at my young age, of course they were not. They had many years to live. But I was driven to prepare for their death at the tender age of 11.

Neste momento, eu comecei a me preparar para a morte dos meus avós. Nós morávamos na mesma casa. Eles pareciam velhos para mim na minha tenra idade, mas obviamente não eram. Ainda tinham muitos anos pela frente. Mas eu fui levada a me preparar para a morte deles aos meus 11 anos.

As I passed through the death of childhood and teen years subsequently born into young adulthood, fantastical notions of life died as well. Death as a finality became fodder for birth. Awareness of death made its way into my daily life, including the death of how I used my intuition.

Tendo passado pela morte da infância e adolescência e dez anos depois renascido na vida adulta, noções fantásticas sobre a vida morreram também nesse processo. A morte como finalidade tornou-se estofo para o renascimento. A consciência de mortalidade fez seu próprio caminho em minha vida, incluindo a morte de como eu usava a minha intuição.
The use of intuition had, since 3 years old, been limited to: “If I knew something was going to happen then I could prevent it.” My intuition and the death of my uncle rigidified the notion that “I could control an outcome.” Life clearly demonstrated that this was not possible. 

O uso da intuição, desde os três anos de idade, estava limitado a “se eu soubesse que algo estava para acontecer, eu iria preveni-lo”. Minha intuição e a morte do meu tio enrijeceram a minha noção de que “eu poderia controlar um resultado”. A vida claramente me demonstrou que isso não era possível.

In my 20’s I began meditating for 8 hours a night and practicing different forms of manipulating my intuition, such as Silva’s Method of mind control and channeling. My greatest nemesis was the mind’s contents: “thoughts”. The greatest suffering I experienced was in my thinking. I mistakenly thought that I could resolve each conflict in my mind with opposing thoughts. What resulted was further conflicting thoughts! 

Pelos meus 20 anos, comecei a meditar por oito horas a noite e praticar diferentes formas de manipular minha intuição, como o Método Silva de controle mental e canalização. Meus maiores inimigos eram os conteúdos da mente: os pensamentos. O maior sofrimento que eu experimentei estava nos meus pensamentos. Eu erroneamente pensava que eu poderia resolver todos os conflitos na minha mente com pensamentos opostos. O resultado foram pensamentos conflitantes ainda mais profundos!

I kept thinking: I need to die to the old thinking, to the old me. Then and only then will I be free. But how?

Eu seguia pensando: preciso morrer para esta antiga forma de pensar, esse velho eu. Só assim e apenas assim eu estarei livre. Mas como?

In one of the moments, wherein I melodramatically felt pity for myself, falling deeper and deeper into desperation, something alchemical occurred. I saw clearly what needed to be done. I was to meditate on DEATH. Each day I was to awaken to: “today is my last day”. My first experience was alleviation of conflict. 

Em um desses momentos, quando eu melodramaticamente senti pena de mim mesma, entrando mais e mais no desespero, algo alquímico aconteceu. Eu vi claramente o que precisava ser feito. Eu precisava meditar sobre MORTE. A cada dia, eu deveria acordar para: “hoje é o meu último dia”. Minha primeira experiência foi o alívio de conflitos.

At the time I was working in the family business. It was a very hard time. I had been inexplicably fainting for 5 years. It had become quite dangerous. I had fainted, smashing my face on a steel bar, fallen under a moving bus, and been found at an elevator with the doors opening and closing on me. 

Neste momento, eu estava trabalhando nos negócios da minha família. Foi um momento muito difícil. Eu tive episódios inexplicáveis de desmaios por cinco anos. Tornou-se bastante perigoso. Eu havia desmaiado, batendo meu rosto em uma barra de metal, caí sob um ônibus em movimento e fui encontrada em um elevador com as portas se abrindo e fechando batendo em mim.

After a few years of meditating on death. As a result the death of the concept of “me” was birthing. I awoke without the need to outperform the previous day to please my Father. I awoke without the need for security. I awoke without the NEED for anything. The single day marked my resignation from the family business and stopped fainting entirely. 

Após alguns anos meditando sobre a morte, como resultado, a morte do conceito sobre o “Eu” estava nascendo. Eu acordei sem a necessidade de superar a performance do dia anterior só para gratificar meu pai. Eu acordei sem a NECESSIDADE de segurança. Eu acordei sem a necessidade de nada. Em um único dia, ficou marcante a minha renúncia aos negócios da família e parei de desmaiar completamente.

In one fell swoop my old life, the old notions of “me” died and something new was born: adventure. Life had become real unimpeded by delusions of “what if”. The past chimeras were exposed to sunlight to be disinfected.  

De uma vez só, minha velha vida, as velhas noções de “eu” morreram e algo novo nasceu: aventura. A vida havia se tornado real, desimpedida por delírios sobre “e se”. As quimeras anteriores foram expostas à luz do sol para serem desinfectadas.

I continued to meditate daily on death. I lived every day as though it was my last. After years of practice what became evident was that I had not killed the concept of “me”. The “me” concept continued to plague my mind. In my teen years, I would dramatically tell my Mother I wanted to kill myself. In my melodrama I omitted telling her it was my mind’s concept of myself that I wanted to die not my Self! Ah the drama of a Greek teenager. 

Continuei meditando diariamente sobre morte. Vivi todos os dias como se fosse meu último dia. Depois de anos de prática, o que ficou evidente foi que eu não tinha matado o conceito do “Eu”. O conceito “Eu” continuou atormentando minha mente. Na minha adolescência, eu teria contado dramaticamente a minha mãe que eu queria me matar. No meu melodrama, eu omiti dizer a ela que eram os meus conceitos mentais sobre mim que eu queria que morressem, não eu mesma. Ah, o drama grego de uma adolescente!

As I approached my 40’s I had been an energy practitioner for several years. What struck me most was the ubiquitous focus on symptomatology, rather than the “source” of symptoms. The mind and its contents takes precedence over the complexity of multiple sources of apparent symptoms. The mind’s inability to grasp paradoxical sources of a symptom ONLY focused on the symptom. The attending to a symptom precludes the capacity to be present to “what is” but focuses on “what isn’t”.  This harkens back to my childhood thinking that “If I knew something might happen then I could control the outcome.” Horizontal thinking clearly omits the complexity of life. For example, as a child, if I knew a relationship would ultimately not work out then I should help prevent the relationship. The latter presumes that life, death and rebirth should be eliminated. Stilted, neurotic, childish thinking cannot bear the complexity of a relationship such as: children will be born to the couple, the good times and bad times, the love and hate, the new awareness’, death of old patterns, the birth of learning, exploring and adventure. All part of the journey. 

Me aproximando dos 40 anos, eu já era uma terapeuta energética há alguns anos. O que mais me impressionou foi o foco onipresente na sintomatologia e não na “origem” dos sintomas. A mente e seus conteúdos precede a complexidade de múltiplas origens dos sintomas aparentes. A inabilidade da mente de pescar as fontes paradoxais de um sintoma nos leva a focar APENAS e exclusivamente no sintoma. Atender a um sintoma impede a capacidade de se estar presente no “o que é” e foca no que “não é”. Isso me leva de volta aos pensamentos da minha infância, “se eu soubesse que algo poderia acontecer, então eu podia controlar seu resultado.” Pensamentos horizontais claramente omitem a complexidade da vida. Por exemplo, quando criança, se eu soubesse que uma relação poderia não funcionar, então eu deveria evitar a relação. Presume-se que a vida, a morte e o renascimento deveriam ser eliminados. O pensamento afetado, neurótico e infantil não pode suportar a complexidade de relações como as seguintes: filhos que nascem para o casal, os bons e maus momentos, o amor e o ódio, o novo despertar, a morte de antigos padrões, o nascimento de um aprendizado, explorações e aventura. Tudo faz parte da jornada.

Horizontal, linear, neurotic thinking tries to eliminate the journey and witnesses ONLY on the symptom, in this case, the relationship will ultimately not work. Of course prognostication, running around like Cassandra yelling “Troy” is burning, has rarely catalyzed transformation. Ultimately, living life without death is anathema to living life. I finally awakened to the journey. Death will come to everyone and everything as it is the nature of life. 

O pensamento horizontal, linear e neurótico tenta eliminar a jornada e testemunha apenas o sintoma, neste caso, a relação em última análise não irá funcionar. Claro que a prognosticação, correr de um lado pro outro como Cassandra gritando “Tróia está em chamas!”, tem raramente catalisado alguma transformação. Em última análise, viver a vida sem a morte é uma anátema a própria vida. Eu finalmente acordei para a jornada. A morte irá aparecer para todos e para tudo ela é a natureza da vida. 

Despite my realization that the journey was all there is, I did not like, to say the least, the part of the journey that contained mental conflict. It all came down to the concept of what I thought was “me”. The massively agonizing addiction to my thoughts. Of course, at the time, I only wanted the concept of “me” to die without the awareness of my identification with the contents of my mind. 

Apesar da minha realização sobre a jornada ser tudo o que existe, eu não gosto, para dizer o mínimo, da parte da jornada que contém conflitos mentais. Tudo se resumia ao conceito do que eu pensava ser “eu”. O vício massivamente agonizante com os pensamentos. Claro que, nesse momento, eu apenas queria que o conceito do “eu” morresse sem ter consciência da minha identificação com os conceitos da minha mente.

My journey took me to a BreakThrough course with the founder Esther Veltheim. Throughout the class I grieved as the “me” concept began its death rumble. I had not yet been reborn, though, the pleasure I experienced whilst I grieved, not for the loss of the “me” concept, but a lifetime of grief caused by the “me” concept, was profound. 

Minha jornada me levou ao curso de BreakThrough com a fundadora da técnica Esther Veltheim. Ao longo da aula, me entristeci na medida em que o conceito do “eu” iniciou sua morte estrondosa. Eu não havia renascido, porém, o prazer que eu experimentei enquanto me enlutava, não pela morte do conceito do “eu”, mas pelo pesar de uma vida causado pelo conceito do “eu”, foi profundo.

I quickly became a BreakThrough Instructor, during this time I have described BreakThrough as the French describe an orgasm; “le petit mort”. Each time the “me” concept loses its grip a little piece of the old dies to be reborn into the adventure of life. Or as Esther Veltheim describes it: “breaking the spell of the mind.” 

Eu rapidamente me transformei em uma instrutora de BreakThrough. Naquele tempo descrevi o BreakThrough como o francês descreve o orgasmo: “a pequena morte”. Cada vez que o conceito do “eu” perde o controle, um pequeno pedaço do velho morre para renascer na aventura da vida. Como Esther Veltheim descreve: “quebrando o feitiço da mente”.

It took many years for the spell of the mind to break. Of course the complexity of the human psyche and my unconscious involvement continues to be part of my journey. It will continue until it too dies and something new is born. For the present, what has been born is my awareness of each moment, that heretofore gone unnoticed, and its concomitant grief, then the joyous birth of the next moment. This cycle repeats ever and always till I am no longer.

Levou muitos anos para o feitiço da mente quebrar. Claro que a complexidade da psique humana e meu envolvimento inconsciente continuam sendo parte da jornada. E continuará até que eles mesmos morram e algo novo renasça. Neste momento presente, o que renasceu foi minha consciência de cada momento, que até então passava despercebida e a sua dor concomitante, para enfim, sentir o alegre renascimento do momento seguinte . Este ciclo se repete sempre e para sempre até eu não existir mais.

1

B.A.Psych. SrBrI, BrI, ParBP, CBP, Reiki Master, SRI, Tarot Mastery

Bacharelado em Psicologia, Instrutora de BreakThrough Senior, Instrutora de BreakThrough, Terapeuta Certificada de BodyTalk, Instrutora Senior e mestre em Tarot.

www.leurbanretreat.com

2 Co-editoras da Revista Escuta. NT: optou-se por manter o texto em inglês e português.

“Texto encomendado e cedido à Revista Escuta (5a edição) e publicado também

na Newsletter da Associação Internacional de BodyTalk (IBA, outubro 2021)”

Prefácio 5a edição

“Acompanhando a morte”

Ana Carolina Vasconcelos1

Pra quê falar sobre a morte e de qual morte estamos falando, afinal?

De todas. Estamos falando de todas as mortes e de seus desdobramentos físicos, emocionais, psíquicos, energéticos e espirituais. Ocidentalmente acostumados a negligenciar este tema por temer o passar do tempo e a perda de quem amamos, fomos catapultados pela pandemia da Covid-19 a uma experiência coletiva de perdas e lutos que nos mostrou o quanto este tema precisa ser abordado para que possamos nos apoiar enquanto coletivo humano.

Então, esta edição é para você que perdeu alguém querido e quer ler sobre esta emoção que te acompanha. Esta edição também é para você que sente que morreu em vida e que, pouco a pouco, está se recompondo, juntando pedaços para se regenerar em uma nova forma de vida.

Esta edição fala pra você que quer saber mais sobre como nosso corpo 2sico está em morte constante para nos manter vivos e se pergunta se, tendo mais consciência destas mortes em vida, conseguiremos compreender mais sobre nossos apegos e medos.

Esta edição traz pra você outros olhares sobre a morte e outras mortes para além das 2sicas.

Esta edição é pra você que quer um abraço, quer ler experiências de outras pessoas que também morrem em vida e que querem compar;lhar isso com você.

Porque, no final das contas, falamos da morte para falar da vida. E de como podemos nos apoiar nesta caminhada. Vamos juntos?

“A primeira coisa que é preciso saber é que a morte não é o contrário à vida, a morte é o contrário ao nascimento. A vida é o contiuum entre nascimento e morte.”

Deepak Chopra

1 Praticante Certificada de BodyTalk (CBP) desde 2018 e jornalista pós-graduada em Comunicação pela Universidade de Barcelona, direciona há mais de 15 anos sua trajetória profissional para abordagens voltadas às pessoas e suas histórias de vida. Encontrou no Sistema BodyTalk, em 2016, uma interseção intensa entre a Comunicação e a abordagem terapêutica. Concluiu todos os estudos avançados dentro do Sistema, assim como estudos em outras áreas, incluindo Astrologia, Constelações Oníricas, Artes, Fluxonomia 4D, Taoísmo e outras práticas espirituais. Percebe que o processo de autoconhecimento por uma via criativa pode nos levar a um encontro coerente entre essência e jornada de vida para assim navegarmos nesta existência de forma mais consciente.

Quantas vezes eu morri

Arte: Mariana da Veiga, terapeuta certificada de BodyTalk e artista visual

Edição e pós-produção: Amália Gonçalves

Decidi criar essa série de desenhos autobiográficos sobre o luto mesmo tendo resistência à palavra escrita se misturar com o grafismo. Adianto que todos os demais planos que fiz para ela foram em vão. O que ficou foram as sensações, e a narrativa de algo estranho e híbrido, entre uma história em quadrinhos – fragmentos poéticos breves, inspirados nos ´haikus´ japoneses. O caos cria, o caos destrói, e dentro dele, o que é que fica? Minha proposta não é necessariamente fazer sentido, mas trazer à luz os movimentos mentais que eu experimentei revisitando a minha experiência com lutos marcantes. Ao convidar os leitores para observar esta dança, quem sabe possamos celebrar juntxs a vida e a morte em suas várias dimensões.