Como o BodyTalk transformou a minha vida e a de milhares de pessoas

Luciano Flehr

Minha trajetória no BodyTalk se iniciou por meio de uma ida minha a uma pessoa muito querida que faz meu mapa astral. Na época, eu havia acabado de me formar em medicina chinesa pelo Instituto de Acupuntura do Rio de Janeiro (IARJ) e pensava como me veria dali a dez anos, se eu teria corpo para aplicar a massoterapia nas pessoas. Comecei a pensar que precisava encontrar alguma técnica que me proporcionasse trabalhar sem me exigir tanto fisicamente quando eu estivesse mais velho.

Fui à leitura do mapa, e a astróloga me disse que eu deveria olhar com carinho para aquela técnica que era nova no Brasil, e me deu um folheto de uma palestra sobre o BodyTalk. Telefonei e informei meu nome para reservar o lugar. No dia da palestra, caiu um temporal no Rio de Janeiro, e eu não consegui ir. Confiando no que a astróloga havia me falado, resolvi me inscrever no curso. Logo de início, a pessoa que fazia a tradução simultânea dizia que o BodyTalk poderia ajudar a curar mazelas, questões físicas e emocionais. Pensei: “Joguei meu dinheiro fora, mas, já que estou aqui, vamos ver aonde isso vai”. 

Na prática de uma técnica do Sistema BodyTalk, uma pessoa que eu nunca tinha visto na vida começou a chorar na maca pelo que eu estava falando, ao acessar a “sabedoria inata” dela. Chamei a instrutora, a dra. Janet Galipo, e ela me disse: “Se está chorando, é porque precisava sair. Está tudo ok”. Executei a técnica e, à medida que prosseguia, a pessoa ia relatando que tudo o que eu falava fazia todo o sentido e que as datas batiam com a história dela. Fiquei espantado e pensei que deveria olhar com mais carinho para a técnica. O que se seguiu foi uma grande paixão pelo Sistema BodyTalk.

Foi importante fazer essa introdução para compartilhar que o que aconteceu depois desse dia só me mostrou que fiz a escolha certa e isso me faz ser grato por esse dia e pelas palavras da minha astróloga.

A seguir, relato o que ocorreu em tratamentos surpreendentes e maravilhosos ao longo desses 16 anos de trabalho com o BodyTalk.

Uma senhora, mostrando-se muito agressiva, que volta e meia tinha crises de herpes me procurou. Fiz uma anamnese com ela, e começamos a sessão. Na época, eu só havia feito os modelos básicos. A sessão transcorreu, e relatei a essa senhora o que havia sido feito. Ela olhava para mim espantada. Havia situações da convivência dela com o pai, a falta, a revolta. Depois daquela sessão, quando retornou para a próxima, me disse que, naquele mês, não havia tido nenhuma crise de herpes, se sentia mais leve, mais feliz e que as crises haviam cessado.

Em outro atendimento, chegou uma senhora em cadeira de rodas. Na época, eu atendia em um consultório em que havia escadas para se chegar até a minha sala. Eu desci e fui atendê-la na parte de baixo. Ela relatou dores no corpo todo, sentia muitas dores. Realizei a sessão e, uma semana depois, ela me ligou dizendo que, no dia seguinte, as dores haviam parado e resolveu fazer pilates. No entanto, abusou nos exercícios, e as dores acabaram voltando. Em situações como essa, sempre recomendo que a pessoa com dores tenha calma e não exagere. O corpo precisa de tempo para se ajustar ao equilíbrio e, em muitos casos, há uma luta interna em querer manter um estado já conhecido, mesmo que seja o de desarmonia.

Em outra situação, atendi uma senhora por questões de equilíbrio, mas o que ela queria mesmo era levar o marido. Depois de umas duas sessões nela, o marido percebeu uma diferença em sua vitalidade e alegria, e ela conseguiu levá-lo. 

Fiz a anamnese, como de praxe, e ele me falou sobre sua questão, uma depressão profunda. A frase que mais me marcou foi: “Eu tenho vontade de morrer todos os dias”. Muito impactante. Fiz a sessão, conversamos um pouco mais, e ele se foi. Voltou para uma segunda sessão, e eu perguntei como ele estava. Disse que ainda sentia vontade de morrer. Expliquei que cada corpo é um ser diferente, que cada pessoa responde de forma diferente ao trabalho, que ele tivesse paciência porque eu tinha certeza de que o trabalho o ajudaria. Na terceira sessão, perguntei: “E então, como ficou e está?”. Ele abriu um sorriso que iluminou a sala e, olhando nos meus olhos, disse: “Agora eu sinto vontade de viver!”. Foi tão marcante aquela cena que a carrego comigo até hoje. 

Passado algum tempo, comecei a atender em Belo Horizonte por um certo período. Organizei o primeiro curso de BodyTalk na cidade em 2006. Mantive um consultório lá e me dividia a cada 15 dias entre Belo Horizonte e o Rio de Janeiro. Tenho dois casos interessantes dessa época na capital mineira.

O primeiro foi de um senhor que me procurou porque estava com diabetes. Sua taxa de glicose era entre 200 e 300 mg/dl. Fazia tratamento médico, mas a taxa sempre oscilava, e a glicose baixava até 150 mg/dl mais ou menos, não diminuía mais do que isso. Iniciamos o tratamento, e um dia, quando telefonei para confirmar a sessão, ele me disse: “Luciano, está confirmado, não sei o que você faz, não entendo, mas vamos continuar, porque, nesses últimos cinco anos, minha glicose nunca chegou em 99 como nesses dias”. Ele queria parar o tratamento médico, mas eu disse que não deveria fazê-lo, pois o acompanhamento do médico era importante. Depois que voltei para ficar em definitivo no Rio, soube que a taxa de glicose dele se mantinha entre 125 e 99 mg/dl. Para quem estava com uma taxa que atingia os 300, ele ficou muito bem.

Também em Belo Horizonte, atendi uma moça que sofria com enxaquecas absurdas, tinha crises que a deixavam inoperante por dias. Eu fazia as sessões nela, mas parecia que o trabalho não ia adiante, não conseguíamos obter nenhum resultado. Até que um dia ela chegou à sessão com uma crise muito forte. Durante o trabalho, tivemos de interromper algumas vezes para que ela vomitasse, tamanha era a náusea que a enxaqueca lhe provocava. No final da sessão, a dor estava em um nível de 40%. Ela foi para casa e, alguns dias depois, disse que a dor havia cessado e que, desde então, nunca mais havia tido aquelas crises. Um bom tempo depois, entrei em contato com ela e soube que continuava bem, sem crises, somente cefaleias comuns.

Outro atendimento bem interessante foi o de uma moça que me procurou porque tinha crises de pânico severas. Eu a atendi e, uns três dias depois, a terapeuta dela me telefonou perguntando o que eu havia feito com a moça. Disse que ela havia vivenciado um intenso tiroteio, dentro de um túnel e não tinha sofrido nenhuma crise de pânico diante do acontecimento. Expliquei à terapeuta o Sistema BodyTalk, e a terapeuta marcou uma sessão. Ficou tão impressionada que queria experimentar essa técnica.

Tenho muitas histórias, muitos relatos, muita gente se transformando com esse trabalho tão maravilhoso e encantador que é o Sistema BodyTalk.

Tudo o que relatei aqui foi para incentivar as pessoas que estão começando no BodyTalk a ir adiante. Nem sempre as respostas serão rápidas, mas uma coisa que sempre digo a cada cliente que atendo é: “Não posso afirmar nada, mas o que eu afirmo é que, a partir do momento em que você recebe uma sessão de BodyTalk, ela está atuando no seu corpo-mente, quer você perceba, quer não”.

Espero que esses relatos ajudem as pessoas a ter uma visão mais clara sobre o que é o BodyTalk no dia a dia de atendimento. Tanto para o cliente quanto para o terapeuta. Afinal, considerando o pensamento sistêmico, estamos todos interconectados.

Para ler em pdf clique aqui

(link atualizado em maio 2021)

BodyTalk: Pensando sobre as sessões remotas e seus embasamentos científicos – um exercício de percepção

Natasha Mesquita

Ao me propor a escrever este artigo para a Revista Escuta, a ideia inicial era elucidar conhecimentos a fim de gerar maior compreensão sobre como fatos científicos esclarecem a possibilidade das sessões de BodyTalk serem também realizadas à distância. O foco do artigo segue sendo este, pois existe em mim um desejo legítimo de informar, a partir das experiências e conhecimentos que tenho, como este sistema tão maravilhoso pode também trazer benefícios a nossa saúde através das sessões remotas efetivamente. 

Mas a ressalva aqui se dá pois quando comecei a escrever e organizar os pensamentos, percebi que o caminho mais coerente parecia ser outro. Começar falando do sistema em si, independente de estar fazendo referência direta a sessões presenciais ou às remotas, refletir a partir do princípio fundamental do BodyTalk, trazendo então à tona embasamentos científicos, filosóficos e teóricos, convidando o leitor a um exercício de percepção, se estabelecia como caminho. Incomum seria falar de BodyTalk sem mexermos com paradigmas e particularmente acredito que só se transforma uma “forma de ver”, abrindo receptivamente os sentidos para o exercício de acessar informações por vários ângulos! Então vamos observar como essencialmente uma sessão presencial ou remota, não tem diferença?! Sigamos refletindo a partir do BodyTalk, elucidando sua definição fundamental e corriqueira: é um sistema de cuidados com a saúde baseado em consciência.

Aposto que esta definição gera de partida muitas perguntas. Afinal o que isso quer dizer? Onde está a consciência? Consciência se encontra em algum local físico? Ora, porque tantos paradigmas sobre a viabilidade de sessão a distância, se a consciência é imaterial? E se é imaterial como acessamos a consciência, esta ciência/conhecimento que não está na memória consciente, mas nas nossas heranças subconscientes? Então de onde vem nossos filtros de conhecimento sobre o que é possível, em se tratando de uma terapia energética, que atua pelo corpo sutil? E onde está expressa a ciência do corpo, o conhecimento dele sobre como agir e funcionar? Existe evidência sobre a localidade da consciência? E mais ainda, porque será que tantas vezes, só o que está atestado cientificamente nos parece válido e possível? 

Perguntas começaram a pipocar na minha mente sem nenhuma linearidade aparente, e fui tentando observar qual seria a relação entre todas estas indagações e o assunto que pretendia abordar aqui; aí lembrei de uma frase: “A ausência da evidência, não é evidência da ausência”; disse o astrônomo americano, cientista planetário, cosmólogo, astrofísico, astrobiólogo, autor e comunicador científico, Carl Sagan. Rapaz, porque será que este senhor foi estudar tantas especialidades? Seria por um desejo de compreender a expressão do todo e não só as partes que as “especialidades” ressaltavam?! 

E dá-lhe interrogações abrindo o espaço criativo!

“A ausência da evidência, não é evidência da ausência”. 

Faz sentido para você? Pra mim faz todo o sentido. O que eu conheço eu reconheço, e o que eu não conheço não existe?! E se o sentido, o direcionamento do nosso olhar e das nossas ações vem mesmo do âmbito sensorial de ser, como posso considerar como real só o que a ciência comprova, se o que eu sinto não se mede? Que conhecimentos e percepções teriam movido o cientista Carl Sagan a trazer à tona tal afirmação, tendo em vista que os procedimentos científicos levam em consideração o que se pode medir, quantificar, ver, pegar, evidenciar?

Pois é, foram as indagações que moveram minha busca no caminho de estruturação deste artigo. E não será sobre trazer respostas para cada uma delas mas ir clareando a proposta de seguirmos num exercício de percepção não linear, movida por elas. 

Então bora! Aterrando um pouquinho estes tantos pensamentos… se é que vou conseguir… inspira… e vamos tirar do ar e trazer para a terra… expira… 

Voltando à definição essencial do BodyTalk: um sistema de cuidados com a saúde baseado em consciência. Então acessamos como terapeutas do Sistema estas informações, esta consciência, este conhecimento sobre si que está além do nível consciente, está principalmente no subconsciente. Quem nunca viu a foto do iceberg só com a pontinha para fora d’água e aquele mundão de gelo submerso, e ouviu sobre a analogia ao subconsciente do indivíduo como a parte do iceberg mergulhada no desconhecido das profundezas. Compreendemos que estas informações todas, sobre o iceberg fora e dentro d’água, são as forças que nos moldam e nos movem, e são a base de toda a expressão corporal do sujeito, nossos padrões essenciais inscritos no comportamento biológico, celular, mental e social. Quando tomamos consciência de algo que estava submerso, abre-se o potencial de movimento entre todas as possibilidades de expressão. O simples ato de observar o que o corpo tem a dizer auxilia ele a mudar de assunto, transformar o condicionamento ampliando sua expressividade como um todo, facilitando assim seu potencial de vida cíclica, natural. 

“Escolhemos livremente quando superamos o ego, dando um salto descontínuo, chamado de salto quântico. (…) A síntese essencial do condicionamento é que, à medida que a consciência se identifica progressivamente com o ego, há uma perda correspondente de liberdade.” Amit Goswami aqui, com base na mecânica quântica, ressalta um pensamento parte do novo paradigma científico que redescobre a espiritualidade ao afirmar que é a consciência, e não a matéria, o substrato de tudo o que existe. 

Então, a consciência é o substrato de tudo o que existe e estes padrões, nossas impressões primárias de base que estão no consciente subconsciente do corpo mente, advindas de nossa cultura e herança assim como de nossa criação, a ciência do corpo expressa nos nossos genes, tudo que nos molda a ser quem somos e não alcança nossa lembrança; toda esta informação contida no corpo que expressa “a dor e a delícia” de ser quem somos estaria transitando por onde mesmo? E a memória genética que diz sobre como seu avô levou a vida dele, esta força que pode desencadear em você certo sintoma? Este conhecimento inato sobre si, que dá ritmo à natureza, está nos trilhões de células compostas por moléculas, partículas sub atômicas, elétrons e prótons, e via vibração se comunicam e compartilham informações. Espera, então esta informação está nas nossas micro partículas celulares que vibram… No fim das contas a comunicação não acontece por via material então? Como acessamos esta informação e “conversamos com o corpo” pelo BodyTalk? Tocando fisicamente no paciente?

Vamos falar então sobre estes registros, memórias e essa transmissão de informação.

Rupert Sheldrake biólogo, bioquímico, parapsicólogo e escritor inglês ficou bem conhecido por sua teoria dos campos morfogenéticos. Morfo significando “forma” e gênese “origem”, os campos morfogenéticos podem ser entendidos como ordens e estruturas que dão forma aos padrões de comportamento. Esta teoria defende que todas as coisas possuem uma auto-organização, determinada por seus próprios modelos estruturais.

Podemos dizer que estes campos mórficos são meios pelos quais circulam informações e não energia, ou seja, por onde comportamentos característicos são disseminados através do tempo e do espaço. Não são campos físicos ou estáticos, uma vez que são invisíveis e mutáveis e que possuem intensidade própria, que não perde força mesmo depois de sua criação.  Deste modo, Rupert defende que tanto pessoas, animais como plantas podem adotar determinados padrões comportamentais herdados de gerações anteriores e, do mesmo modo, podem perpetuá-los para as gerações seguintes.

Segundo o especialista em biologia holística, em se tratando de moléculas, ideias, cristais e sociedades, isso ocorre porque há um tipo de memória presente nestes campos morfogenéticos, advinda do passado, e que estimula a propagação de comportamentos dentro destes ambientes auto-organizados. Ainda de acordo com o especialista, este processo de herdar memórias inconscientes também pode ser chamado de Ressonância Mórfica.

“Os Campos Mórficos funcionam modificando a probabilidade de eventos puramente aleatórios. Em vez de uma grande aleatoriedade, de algum modo eles enfocam isto, de forma que certas coisas acontecem em vez de outras. É deste modo como eu acredito que eles funcionam”, destacou Rupert Sheldrake em seu livro: Uma Nova Ciência da Vida, lançado em 1981. 

A informação do indivíduo (e de tudo) está no espaço, no campo, orientada pelo ambiente auto-organizado que é você. Então a sintonia que ocorre entre paciente e terapeuta BodyTalk se dá pelo campo, a presença física não é necessária. Pelo campo nos conectamos de modo não local com o paciente, e do mesmo modo quando em sessão presencial. Nos sintonizamos com estas informações sobre a “forma de origem”, sua ressonância mórfica. Agregando aqui outras referências, citando de modo muitíssimo pontual, outros conhecimentos que podem corroborar e ampliar o entendimento da teoria de Sheldrake. 

O neurofisiologista Jacob Grinberg realizou o primeiro experimento comprovando a não localidade da consciência de forma inequívoca, usando máquinas objetivas. O físico Alan Aspect por experimentos demonstrou, em 1982, que objetos quânticos são capazes de influenciar-se instantaneamente, caso interajam e fiquem correlacionados por meio da não localidade quântica.

Vamos a um desvio?  Arejar a cabeça e exercitar a percepção?

Aposto que para muitos leitores a teoria do Sheldrake seja uma novidade. Leia novamente; nossos paradigmas não se transformam tão facilmente. Te soa possível? Talvez para alguns, o fato de ser uma teoria e não um fato científico já gere um descrédito imediato. Não se sinta julgado se foi o que aconteceu assim que leu a palavra “teoria”; nossos condicionamentos podem ser “mais fortes do que nós”. Já parou para observar qual a etimologia da palavra ciência? A palavra ciência até mais ou menos 1670, se referia ao conhecimento profundo sobre alguma coisa e a utilização deste conhecimento como fonte de informação. Então até 1670 quando se usava a palavra ciência era sobre conhecimento e ponto. Se eu me referisse à ciência do corpo ou do mundo, isso não tinha nenhuma outra possível conotação se não a de conhecimento. 

Uma nova atribuição à palavra surge em meados de 1725 quando ciência passou a designar “estudos que não incluem as Artes”. Hum… uma mesma palavra significa “conhecimento” e também “um conhecimento que exclui a subjetividade”, excluindo assim um aspecto do conhecimento. Me pareceu muito interessante e pertinente para deixar passar, a sugestão de pensarmos sobre esses significados e nossos filtros de percepção. Despojados de críticas e julgamentos, vamos só refletir sobre o quanto está implícito no uso da palavra “ciência”, uma percepção sobre valia, valor? Se ciência quer dizer conhecimento, quando falamos sobre “a ciência” estaríamos condicionados a perceber que ela é “O conhecimento”? Será? Mas de fato o que é a ciência se não um método, um caminho de observação. 

Mencionei Sheldrake e a ressonância mórfica para compreendermos a partir de sua teoria sobre estas forças que nos moldam essencialmente, e sobre como estão no campo as informações referentes a elas. Refletindo ainda a partir da definição básica do BodyTalk, vamos ao Amit Goswami, físico indiano, filho de um guru hinduísta, Ph.D. em física quântica pela Universidade de Calcutá na Índia, professor emérito do Instituto da Física da Universidade de Oregon nos EUA, e um dos pioneiros nos estudos que buscam conciliar a ciência e a espiritualidade, que defende uma nova visão de mundo em que a origem de tudo o que existe é a consciência e não a matéria. “Antes de qualquer coisa, temos de abandonar essa visão condicionada de que tudo é apenas matéria. Uma percepção materialista da vida serve apenas para denegrir toda a nossa experiência interna.” O autor conceitua a consciência como o fundamento de todo o ser e propõe uma nova ciência dentro da consciência. “O novo paradigma trata sujeitos e objetos, espíritos e matéria, nas mesmas condições”.

“Na ciência materialista existe apenas uma fonte de causação: as interações materiais. Damos a elas o nome de causação ascendente, pois a causa sobe desde o nível básico das partículas elementares até os átomos, as moléculas e a matéria densa que inclui as células vivas e o cérebro. Tudo bem, só que segundo a física quântica, os objetos são ondas de possibilidades, e tudo que as interações materiais conseguem fazer é transformar possibilidade em possibilidade, mas nunca em realidades que experimentamos.(…) 

Para transformar possibilidade em realidade, é necessária uma nova fonte de causação; podemos chamá-la de causação descendente. Quando percebemos que a consciência é a base de toda a existência e que objetos materiais são possibilidades da consciência, então também percebemos a natureza da causação descendente – ela consiste na escolha de uma das facetas do objeto multifacetado da onda de possibilidades, que então se manifesta como uma realidade. Como a consciência está escolhendo uma de suas próprias possibilidades e não algo separado, não existe dualismo.” 

Ressoando com Goswami o pensamento sistêmico propõe, em contraposição aos paradigmas científicos e ainda assim os considerando, os pressupostos da complexidade (vs. Simplicidade) da instabilidade (vs. Estabilidade) e da intersubjetividade (vs. Objetividade), e se aliam a fatos que a mecânica quântica traz à nossa ciência… ciência enquanto conhecimento e método de análise.  Talvez estes conhecimentos que podem ser novos para muitos, elucide possibilidades nunca antes contempladas por nossos filtros, já tão condicionados a ver de determinada forma, e a buscar somente as respostas lineares e cartesianas.

“Os primeiros físicos quânticos notaram que partículas subatômicas como os elétrons estão em comunicação instantânea uns com os outros – frequentemente centenas de vezes à velocidade da luz, e independentemente da distância – resultando no complexo corpo/mente como uma rede dinâmica ou um holograma de realidade e eventos inter-relacionados. Quando algo muda em um local, componentes dentro da rede naturalmente respondem e mudam também. Isto significa que em nível mais profundo, todas as coisas – e pessoas – no universo são interconectados.” John Veltheim, fundador do Sistema BodyTalk.

Na citação acima que é parte de um texto sobre as sessões remotas de BodyTalk, John está também se referindo ao entrelaçamento quântico (ou emaranhamento quântico, como é mais conhecido na comunidade científica). Este é um fenômeno da mecânica quântica que permite que dois ou mais objetos estejam de alguma forma tão ligados que um objeto não possa ser corretamente descrito sem que a sua contra-parte seja mencionada – mesmo que os objetos possam estar espacialmente separados por milhões de anos-luz. Isso leva a correlações muito fortes entre as propriedades físicas observáveis das diversas partículas subatômicas. Essas fortes correlações fazem com que as medidas realizadas numa delas pareçam estar a influenciar instantaneamente à outra com a qual ficou entrelaçada, e sugerem que alguma influência estaria a propagar-se instantaneamente, apesar da separação entre eles. Isto dá a entender que tudo está conectado por “forças” que não vemos e que permanecem no tempo, ou estão fora do sistema que denominamos, entendemos ou concebemos como sistema temporal. Tudo está sistemicamente relacionado e conectado.

A física quântica nos traz ainda, através de experimentos e teorias, que fatos existem sim, mas podem ser subjetivos, que diferentes observadores podem ter acesso a diferentes fatos que podem coexistir entre eles. O observador traz à tona a força de coesão e manifestação das ondas de possibilidade que estão ali no campo. Então quem sabe você é observador de parte de sua história, a que conhece conscientemente, mas partes da sua história subconsciente com registros de informações presentes no seu campo morfogenético podem ser percebidas e observadas por outro observador que não você mesmo, trazendo à tona a força da sua liberdade de expressão natural. 

Vamos respirar um pouco, dar tempo para deixar… só deixar toda essa informação circular. Respirar e parar de tentar entender, deixando a compreensão acontecer, a poeira assentar da forma que for.

Lembrei da Clarice Lispector… do livro Água Viva… “agora é um instante, já é outro agora. (…) viver, ultrapassa qualquer entendimento”. Respirar para processar informação, agora após agora… ressonância mórfica, consciência descendente, pensamento sistêmico, emaranhamento quântico,… teorias e fatos científicos que se complementam no exercício aqui proposto de refletirmos sobre como as sessões remotas de BodyTalk, por princípio essencial, não tem diferença das presenciais. Acessamos pelo campo o que a sabedoria inata do corpo tem como prioridade para nos relatar sobre a consciência que descende, a causa que então se manifesta fisicamente no corpo.

Me valendo da arte mais um pouquinho, dando espaço para esta “ciência do subjetivo”, que tanto se emaranha com a terapia. Sendo a arte uma via de liberação da força criativa assim como é a via terapêutica, segue uma analogia: a informação do artista chega a você, seja através da pintura, da escultura, da dança, do espetáculo televisionado ou ali do palco. Chega de modo não linear o movimento da expressão, a energia que gerou a forma é o que chega, não é em si a forma, mas o potencial que a gerou. Claro que estar presencialmente, fisicamente com alguém é em si uma experiência diferente de não estar, e não poderia ser este comentário mas pertinente à experiência de todo mundo nestes tempos de distanciamento social!!! Mas ainda assim, aqui me refiro à essência da informação que precisa de movimento e como ela pode ser acessada e transmitida, para que o potencial de uma sessão de BodyTalk seja pleno no que se propõe, facilitar comunicação e assim a sincronia do equilíbrio dinâmico do corpo. É complexo? Mas é simples. É dual? Neste mundo tudo é. A simplicidade é a de melhorar a comunicação consigo mesmo para viver a vida de modo mais equilibrado, transitando pelos polos. Este é o foco fundamental do Sistema BodyTalk, e tanto faz a forma.

Para ler em pdf clique aqui

(link atualizado em maio 2021)

BodyTalk e sua ciência, fatos baseados na consciência

Nirvana Marinho

Na pesquisa cartográfica “BodyTalk no Brasil: uma possível cartografia”, realizada com as terapeutas bodytalkers Ana Marcela Sarria e Daniele Pires (2019), foi uma metodologia capaz de nos levar a realizar um desenho cronológico do BodyTalk no Brasil e também nos possibilitou vislumbrar a evolução deste sistema, desde idealização, criação, estabelecimento de uma associação internacional (IBA, International BodyTalk Association). 

Em 2020, outra pesquisa “As articulações e como se faz de um, um todo” reuniu terapeutas bodytalkers em torno da troca de sessões com foco específico, sobre as articulações, embora notadamente qualquer sessão de BodyTalk seja guiada pela prioridade e vínculos que possam aparecer. Foram elas: Alessandra Batistuta, Dani Acosta, Debora Junqueira, Fernanda Marquesin, Rafaela Capote, Myrella Brasil, Nirvana Marinho, Sirlene Aparecida Silva e Soraya Chagas. E desta experiência, surgiu um ensaio que conta de uma metodologia possível para a prática terapêutica que olha para as sessões e sua dinâmica sistêmica e revela quais histórias surgem quando falamos de articulações.

Outra pesquisa ainda, também em 2020-2021, surge para contar do projeto inspirado pela Dra Janet Galipo e encabeçado pela Associação Brasileira de BodyTalk (ABBTS) e cuja coordenação foi guiada por Ana Carolina Vasconcelos, Luciana Pontes, Natasha Mesquita e Nirvana Marinho. O projeto teve o escopo de atendimento com contribuição consciente e variada a pacientes com sintoma ou diagnosticado com COVID-19, em meio a uma pandemia sem precedentes e aumentada pela necessidade de isolamento social. Os atendimentos foram feitos por um grupo de aproximadamente 20 terapeutas de BodyTalk, à distância, entre os meses de junho e setembro de 2020 e a pesquisa que se desdobra daí deve se estender ao longo de 2021.

Essas três citadas pesquisas fazem parte de um cenário importante para o BodyTalk no Brasil. Justamente por se tratar de um sistema de saúde baseado em consciência, BodyTalk é uma abordagem sistêmica que tem sua autorganização, homeostase e evolução constantes.

Muitos terapeutas vêm consolidando na prática clínica do BodyTalk tal perspectiva: suas percepções são evidências da consciência por se tratar de uma abordagem de saúde baseada na expansão do “Eu Sou”. Ou seja, quanto mais conheço do “Eu sou”, da consciência, mais evidências sistêmicas no meu corpo posso perceber, mais holística, mais integrada. 

A prática não dualista da consciência, descrita e inspirada por mestres como Ramish Balsekar (1917-2009), Jiddu Krishamurti (1895-1986) e Mooji (Anthony Paul Moo-Young, 1954-) são uma base consistente para o que o BodyTalk entende como expansão de consciência, autoconhecimento e saúde. E isso, por sua vez, é contemporâneo a uma concepção científica do corpo-mente que deságua nas práticas integrativas. O BodyTalk é uma delas e específica na convergência entre ciência e filosofia. 

Três autores (homens, isso é um parênteses importante) tornam forte a base científica da qual o BodyTalk repousa: Fritjof Capra, James Oschman e Amit Goswami, aqui eleitos por tantas citações que deles existem nos cursos e palestras do universo do BodyTalk, citados pelo Dr John Veltheim, criador do BodyTalk.

Fritjof Capra (1939-) Ph.D., é cientista, educador, ativista e autor de muitos best-sellers internacionais; um físico e teórico de sistemas nascido em Viena, Capra tornou-se popularmente conhecido por seu livro, “O Tao da Física”, que explorou as maneiras pelas quais a física moderna estava mudando nossa visão de mundo de mecanicista para holística e ecológica. Publicado em 1975, hoje ainda é impresso em mais de 40 edições em todo o mundo.

James Oschman é autor de uma série de artigos inovadores sobre “energia de cura” publicada no “Journal of Bodywork and Movement Therapies”. Esses artigos foram agora desenvolvidos em dois livros, “Energy Medicine: The Scientific Basis” (2000) e “Energy Medicine in Therapeutics and Human Performance” (2003). Esses dois livros fornecem aos cientistas acadêmicos mais céticos uma base teórica para explorar a fisiologia e a biofísica dos medicamentos energéticos.

Amit Goswami (1936-) é físico quântico teórico Dr. Amit Goswami é um revolucionário entre um crescente corpo de cientistas renegados que, nos últimos anos, se aventurou no domínio do espiritual na tentativa de interpretar as descobertas aparentemente inexplicáveis ​​de experimentos curiosos e validar intuições sobre a existência de uma dimensão espiritual da vida. Um prolífico escritor, professor e visionário, Dr. Goswami aparece no premiado documentário, The Quantum Activist.

Segundo Capra, nos últimos trinta anos as ciências têm avançado a tal ponto mudar nossa visão de mundo, nosso paradigma, “levando a uma nova visão da realidade e uma nova compreensão das implicações sociais dessa transformação cultural”. A relação do sujeito que observa e do que é observado muda. A medida em que quem observa pode modificar o que é observado, temos uma nova descrição dessa relação. Novos movimentos estão em jogo, que não são observáveis pelos mesmos métodos científicos conhecidos – aqueles da evidência, da contraprova, da precisão do que é observado. 

Capra conta-nos no seu célebre livro “O Tao da Física” (1975, edição original) como a física moderna e atômica acabou por definir não somente toda uma tecnologia de saberes mas também uma cultura de pensamento de muitos decênios e que, no século XX, a ciência subatômica revelou limitações da sua precedente. E foram curiosamente as tradições filosóficas e religiosas do Extremo Oriente que trouxeram luz as descobertas científicas que encontraram limites a descrição do mundo tal como concebia a física moderna. Esse limiar, essa quebra de paradigma trouxe consequências diretas a nossa concepção de corpo, mente e, portanto, saúde e consciência. A descrição científica das propriedades e interações das partículas subatômicas que dizem respeito a composição da matéria vem explicar energia e troca de outros modos, antes descritos lineares na física tal como conhecemos. Os instrumentos e métodos mudaram e a ciência evolui para o encontro com aquilo que chamávamos de místico ou metafísica para um entendimento mais amplo do corpo-mente. 

Uma das principais bases que norteiam a formação do terapeuta de BodyTalk é justamente compreender o salto conceitual da concepção cartesiana do corpo – aquele que o separa de uma substância que o move e a parte movente – para uma concepção holística e sistêmica – a soma das partes é maior que o todo (ou seja, não é dividindo as partes que você pode deduzir sobre o todo) e as partes estão em relações dinâmicas e complexas. Esse salto muda toda a dinâmica de observação do corpo e suas bases científicas desaguam na possibilidade de compreender a história do pensamento corpo-mente desde sua divisão até sua recente integração. Mais complexo que isso, desde as tradições orientais, até a descrição do corpo dos antigos gregos até a fundamentação da ciência moderna, essa elipse de transformação do pensamento encontra no século XX um novo fôlego. 

James Oschman, em “Energy Medicine – The Scientific Basis” (2000), traz uma perspectiva histórica de como atravessar o paradigma da “energia sutil” ou “força da vida” para uma base biológica e científica de como a energia atua no corpo que data do início do século XX com os estudos sobre bioelétrica de Harold Saxton Burr (1889-1973). Suas descobertas e análises do campo eletromagnético do corpo contam-nos como ocorre a trajetória das informações e como o corpo é um complexo de sistemas. Ou seja, o autor é uma base sobre a qual o entendimento da física quântica pode explicar como energia se comunica no corpo-mente: a partir da trajetória das informações na complexidade que o corpo é. Assim a medicina energética se fundamenta.

BodyTalk é justamente sobre como o corpo reestabelece seu potencial de comunicação como potencial de equilíbrio e sincronia. O corpo-mente gosta de estar em harmonia e sabe reconhecer quando seu fator principal de desequilíbrio se instaura, o estresse. Sabe também reconhecer suas prioridades e sua forma de promover a comunicação, que é a sessão propriamente dita de BodyTalk. 

Segundo Goswami: 

“o nosso corpo já tem a sabedoria necessária e o mecanismo de cura: precisamos apenas descobri-lo e manifestá-lo. (….) A consciência possui a sabedoria necessária (no seu compartimento supramental), o mecanismo (a escolha de um novo contexto para o processamento mental do significado das emoções) para a cura. Ela tem também o poder de descobrir o que é preciso (o poder de dar o salto quântico do insight) e tem o poder de manifestar o insight, desbloqueando o programa vital, e assim desbloqueando também os órgãos físicos correlacionados, o que reanima as funções apropriadas dos órgãos. (Goswami, 2006, 231). 

Amit Goswami em “O médico quântico” (2006) diz que o caminho da cura para a inteligência supramental é justamente a compreensão dessa dinâmica energética. Isso porque “a consciência pode curar a doença, desestruturando e reestruturando o sistema de crenças que lhe serve de base” (Goswami, 2006, 66). Vejamos como isso funciona entendendo quais preconceitos estão em questão.

O materialismo estrito é “a ideia de que tudo é feito de matéria e de seus correlatos, a energia e os campos de força”. Dessa forma, mente e consciência são epifenômenos da matéria. Isso tem como consequência a causação ascendente que faz que toda causa se desdobra de baixo para cima, a partir dos níveis das partículas elementares da matéria até a consciência, restringindo e forçando a equiparar a mente com o cérebro. Tudo seria um mecanismo. Não haveria espaço para aspectos extrafísicos como chi ou prana. Seja a consciência um epifenômeno ou mente e corpo como objetos duais separados, como tudo pode interagir? A questão permanece. 

Outro preconceito é a continuidade que orienta tudo para uma causa e que as causas atuam de modo contínuo. Nessa lógica, como explicar as remissõs e curas espontâneas que não são graduais mas repentinas? Outro preconceito ainda diz respeito a crença da localidade que buscam determinar que as causas e efeitos tem um local e que se propagam pelo espaço por meio de sinais num período de tempo finito. 

Sobre tais conceitos preestabelecidos, Goswami cita Chopra em seu livro seminal “Cura Quântica” (1989) conta como a mente interage com o corpo por meio de um corpo quântico e que é a consciência que faz a mediação dessa interação. Conta-nos que, na verdade, é uma causação descendente, que é a consciência que parte a cura, e que, de fato, isso ocorre em saltos quânticos e descontínuos. Goswami afirma que “o colapso quântico das ondas de possibilidade é fundamentalmente descontínuo” (Goswami, 2006, 69), sendo também não-local, o que quer dizer que não é o local que determina a cura, mas sim seus movimentos. Surge aí um novo paradigma de pensamento para a medicina – para a concepção de cura, do corpo e mente – que vem explicar, portanto, esses três novos conceitos: a causação descendente, a não-localidade e a descontinuidade. 

Com esses conceitos, Goswami sintetiza e amplia a visão da medicina energética, a partir da compreensão do quantum – “um pequeno feixe discreto de energia que não pode mais  ser dividido” – e amplifica conceitos já elaborados por seus colegas pesquisadores: que a troca de energia que, antes a física explicava somente linearmente, pode ser observada de outra forma como Capra definiu; que a energia faz parte do processo de cura, organização e comunicação do corpo como observa Oschman. Esses e outros autores compõem uma epistemologia importante das bases científicas de práticas terapêuticas como o BodyTalk.

Concluir esse artigo não é fácil tarefa porque muitas explicações, reflexões e teorias são necessárias para reorientar nossas bases de uma medicina, da ideia de cura, da concepção de corpo mente. Mas convido que seja um primeiro passo para sua curiosidade, para seus sintomas, para suas histórias. O corpo mente pode ter outros caminhos, integrados, para realizar sua “mágica”, seu “mistério” de saber mais de si, de fazer a jornada do “Eu Sou”. 

BodyTalk é uma prática terapêutica de saúde e, sobretudo, baseada em consciência. Por isso, compreender suas bases é revisitar conceitos científicos e também filosofar sobre o todo do corpo e suas partes dinâmicas. 

Para ler em pdf clique aqui

(link atualizado em maio 2021)

Uma breve provocação: para você, o que é saúde?

Por Ana Carolina Medeiros de Vasconcelos

O exercício de escrever esta colaboração para a terceira edição do Escuta nasceu justamente de uma escuta. Minha proposta inicial era ler os textos de meus colegas e, de alguma forma, costurá-los. Só que não fazia ideia de como isto surgiria. 

Foi então que, a partir da leitura prévia dos textos, me escutei indagando: “BodyTalk é um Sistema de Saúde baseado em Consciência, mas, afinal de contas, o que é saúde?“

Esta provocação fez todo sentido, pois saúde é aquela palavra que fica ali no meio, camuflada porque, de maneira geral, supomos que já há uma compreensão anterior sobre ela.

Só que, desta vez, saúde se descamuflou e se mostrou ser a agulha que faltava para essa costura. Resolvi, portanto, provocar em vocês o que esta escuta provocou em mim. 

Me arrisco a dizer que, a maioria das pessoas que procuram atendimento com BodyTalk, chegam em busca de uma melhor qualidade de vida, autoconhecimento, bem estar, ou algo do gênero. De maneira geral, querem ser mais saudáveis. 

Ana Claudia Quintana Arantes, médica geriatra e gerontologista especialista em cuidados paliativos, ressalta que “ser saudável é ser guardião da vida”: “O ser humano é único, não é replicante. Quem trabalha com cuidado paliativo tem menor índice de estresse profissional possível porque nós aprendemos a dar valor à vida”. Ana Claudia Arantes nos relembra que, enquanto há vida pulsante em um corpo-mente, há a guarda da vida, ainda que o corpo físico esteja perecendo.

Dessa forma, somos todos saudáveis, mas “nossa saúde não é fixa nem permanente”, como nos adverte Monja Coen. Por isso, ela nos conecta diretamente com o estado de impermanência e vulnerabilidade. “Nós precisamos saber o que nós podemos fazer e quando temos que parar. O que é conveniente e o que é inconveniente e aí nós podemos manter um estado regular de saúde, mas que não é permanente”. Coen nos dá, então, a dica de que saúde também é guardar a vida observando e respeitando nossos contornos.

Moacyr Scliar vai além e complementa: “o conceito de saúde reflete a conjuntura social, econômica, política e cultural. Ou seja: saúde não representa a mesma coisa para todas as pessoas. Dependerá da época, do lugar, da classe social. Dependerá de valores individuais, dependerá de concepções científicas, religiosas, filosóficas”, isto é, passa por muitos filtros. Portanto, saúde também é ponto de vista. “O mesmo, aliás, pode ser dito das doenças”.

Mas ponto de vista de quem? 

Pelo olhar do BodyTalk, vamos focar no ponto de vista do paciente a partir de um evento de impermanência e vulnerabilidade manifestado através de um sintoma.  

Este ponto de vista conta como a história do sintoma se desenvolveu até se sobrepor ao estado natural do ser e levá-lo a duvidar da sua saúde, da sua habilidade de guardar a vida, independentemente dos sintomas ali manifestados. É como se a sabedoria inata nos desse pistas de uma história que podemos desvendar a fim de integrar este novo estado e retirá-lo da dúvida em relação a sua habilidade inata de curar-se. 

Dessa forma, nossa busca por ser saudável carrega em seu interior a vontade de mudar pontos de vista e se dirigir a um novo estado de percepção do eu.

Saúde também é, portanto, o ponto de vista que integra este estado de percepção.

 “Bem, em termos práticos, é nítido que muitas vezes precisamos de alguma crise a fim de despertar para essa verdade. Sem uma crise pessoal ou social, a tendência é não nos incomodarmos com as mudanças. Para alguns de nós, uma crise de autoconfiança ou uma crise pessoal de infelicidade faz a diferença (…) quando você passa por uma crise como essa, ela lhe dá a tenacidade de que você precisa” – Consciência Quântica, Amit Goswami, pág 182.

Por isso, é mais sobre como estamos guardando esta vida e o que estamos guardando dela. 

Essa reflexão me leva direto a experiência pessoal com as práticas meditativas do Taoísmo que nos orienta a tapar os olhos com a palma das mãos, antes e após a meditação, como forma de guardar a luz de nossos espíritos. 

Dentro do Taoísmo, a meditação é uma prática filosófica que nos realinha com nosso Tao, o nosso Caminho, e nos leva de volta pra casa. Por isso, também é vista como prática de manutenção da saúde. Curioso, né?

Saúde, portanto, também é a habilidade de estarmos cada vez mais alinhados com nosso Caminho, satisfazendo a alma.

“Com frequência, as pessoas me perguntam qual o significado e o propósito de uma existência humana na Terra. O que estamos fazendo aqui? A visão de mundo quântica nos dá pistas sobre esse propósito? Em termos bem simples, a resposta para essas perguntas é que estamos aqui para satisfazer nossa alma. Então, cada pessoa deve se questionar: O que me satisfaz de fato” – Amit, pg 181

Percebo, portanto, que está na hora de voltarmos à frase de definição do Sistema BodyTalk. 

Sendo um Sistema de Saúde baseado em Consciência, as sessões de BodyTalk lembram  ao nosso corpo-mente que ele pode guardar a vida em maior ressonância com a Consciência e ir, aos poucos, voltando para casa sem tantos desvios, satisfazendo, de fato, sua alma.

E, pra você, o que te satisfaz?

Referências audiovisuais

Ana Claudia Quintana Arantes – Aula 1 “O Grito” – Os Inumeráveis Memorial

Ana Claudia Quintana Arantes – A morte é um dia que vale a pena viver

Monja Coen – Nossa saúde não é fixa nem permanente. Como nos cuidamos?

Referências Bibliográficas

História do Conceito de Saúde, Moacyr Scliar

Consciência Quântica, Amit Goswami, 2018, Editora Goyo

Páginas citadas 181 e 182

Para ler em pdf clique aqui

(link atualizado em maio 2021)

O Caminho da Individuação

Márcio Ribeiro

A partir do instante em que nascemos, surge um movimento inconsciente por aceitação. Embora nem todos desenvolvamos a sensação de não sermos amados, desejados e queridos, de acordo com a formação da nossa consciência de separação, todos buscamos ser aceitos. 

Por vezes, observamos que a nossa chegada no mundo traz uma mudança potencialmente agradável, mas que também gera um grande peso para as pessoas que nos recebem. Trata-se de um peso que essas pessoas buscam disfarçar com toda força (seja por valores culturais e éticos ou, simplesmente, pelo cuidado em nos acolher), e assim eventualmente conseguem transformá-lo em amor. Ainda assim, o peso existe.

A partir daí, o que podemos perceber é que no transcorrer de uma vida, o ser humano desenvolve várias máscaras em busca de aceitação, retribuição ou obtenção de alguma recompensa. Pressionados pela intensidade de cada estágio que passamos desde a infância, ouvindo opiniões sobre nos parecermos mais com o pai ou com a mãe, por exemplo, buscamos crescer.

Então, desde o início da jornada, todos nós recebemos uma carga consensual com os códigos para pertencermos. Essa carga evolui para a máscara principal que adotamos e com a qual vivemos, mas que nem por isso torna-se um fardo para todos. Porém, na percepção de alguns, essa máscara cria uma ideia equivocada de que aqueles que nos trouxeram ao mundo deveriam ser responsáveis por nós, cem por cento do tempo. Essa é uma demanda que, por sua vez, passa a se apresentar como um grande obstáculo.

Ao não aprender a lidar com essas máscaras, ou ainda, ao não buscar uma versão individual de nós mesmos, dentro do espaço-tempo da nossa mortalidade, nos distanciamos do sentimento de valor e amor próprio e, principalmente, da individuação.

Enquanto terapeutas de BodyTalk embasados no vasto conhecimento da filosofia Advaita Vedanta, a busca por essa individuação se torna um desmascaramento dos momentos cruéis em que julgamos o outro, ou nos quais nos sentimos julgados. Desta forma, a busca pela individuação nos alimenta com um senso de que é possível sim viver, apesar da impossibilidade de sermos aceitos o tempo inteiro. 

Entendemos que é possível viver com um sentimento de paz, apesar de não termos controle absoluto sobre nada. Compreendemos que precisamos fazer do controle um legado ilusório, porém necessário, para as vivências mundanas do cotidiano. Afinal, esse controle é útil; inclusive para evitar uma reação de emoção exagerada diante dos desafios que surgirão na interação com o outro, a partir do nosso processo de individuação. 

Vale ressaltar que não importa o quanto você se individue, o mundo não precisa acompanhar a sua individuação. Ou seja, o outro não precisa estar bem-resolvido para que você também possa estar em um lugar melhor. Embora o conhecimento seja impessoal, esta é uma jornada pessoal, na medida em que a iluminação é para todos, mesmo que o despertar nunca seja igual para ninguém. 

Tomar esse despertar pode implicar, para alguns mais que para outros, uma sensação de isolamento, de solidão ou, até mesmo, de estar a um passo de uma depressão. Outra percepção que habitualmente acompanha o despertar de consciência é o sentimento de não ser entendido. 

Mas o grande trabalho de um terapeuta de BodyTalk é de somar-se ao entendimento de que o corpo-mente quer essa individuação; todo ser deseja lembrar-se de quem é, na origem. Por esse motivo, devemos sempre ter em mente a analogia da onda no mar. 

A onda, quando se percebe ainda identificada com o mar, ela faz da corrida em direção a praia o seu grande objetivo. Poderíamos dizer que ela traça caminhos e metas para chegar até seu destino: primeiro, vem crescendo como uma marola no meio de um oceano, até tornar-se onda forte, corajosa e capaz. É assim que ela, destemidamente, alcança a praia. Conforme o mar a recolhe para a fusão e ela percebe que a praia não é o fim da jornada, surge a consciência de nunca ter sido separada do oceano. É a partir desse desapontamento egóico que se inicia o despertar espiritual.

Seguindo a mesma linha, ao longo da vida humana passamos por desafios, gestamos motivações, vestimos máscaras para dar conta, buscamos melhorar para sermos aprovados e aceitos. Acreditamos que desta forma vamos conseguir alcançar algum objetivo, que assim que chegarmos lá seremos felizes; e que se não atingimos esse marco, significa então que não fomos ninguém, não fizemos nada, não chegamos em lugar nenhum. Sem contar que muitas vezes projetamos essa felicidade no outro como se fosse um objetivo comum. 

Talvez a nossa grande inflexão possa estar em dar-nos conta de que não é sobre o resultado final e nem sobre ser feliz, mas sim sobre experienciar essa jornada inconstante, impermanente, que nos é dada e tirada, sem aviso prévio. Viver os prazeres, os despertares e os lutos, inclusive da perda dessa efêmera experiência de onda. O ouro está na faísca potencial de despertar para a jornada por si só, como jornada da alma, e não em função de algum resultado egóico final. A experiência da convivência, do diálogo, do afeto, do amor… Isso é o que interessa e faz o exercício da jornada da alma valer a pena.

Portanto, no que diz respeito a nós, terapeutas, que temos o conhecimento das consciências naturais do corpo e as dinâmicas dualísticas que elas nos convidam a viver aqui: quanto mais individuados, mais este ir e vir de vivências será percebido apenas como uma oscilação na onda. 

Para mim, este é o marco zero a partir do qual eu já não me encanto mais com a adrenalina de surfar a crista da onda, pois afinal, sei que a onda também baixa. Tampouco me paraliso quando tudo se silencia. A vida então começa a ser trançada de impermanência, agora bem menos assustadora, e ressalta aquilo que mais temos que reconhecer na nossa história humana: a vulnerabilidade, não como um sinal de fraqueza, mas de humanidade. Afinal, mesmo pertencendo à vasta consciência-oceano, somos apenas seres humanos. 

Na jornada infinita da alma, somos ondas com término determinado, mas expressamos consciência quando nos percebemos conectados ao potencial infinito de possibilidades. Agora, os nossos pais já não são mais responsáveis por nós, a cultura não é responsável por nós, e tampouco há culpa por estarmos atravessando qualquer experiência. A religião, que já não dava todas as respostas, agora ocupa o lugar de nos servir durante a jornada, até o ponto de não servir mais. 

Agora o eu já não segura mais, não julga mais, não critica mais, e não busca ser aceito ou amado quando percebe que não o é. Agora há amor-próprio e auto-aceitação, inclusive diante de outras ondas que, ainda identificadas, se acham separadas do oceano, e assim, de mim mesmo. 

Individuados, livres, ao fim da jornada, temos o potencial de morrermos despertos, quando a faísca de iluminação retorna à essência do todo. Conectados com o todo, individuados, não importa mais que as relações sejam agradáveis ou que tragam felicidade. Agora todos pertencem ao ciclo de múltiplas facetas, sem jeito certo de ser ou de viver, porque toda a expressão do universo é válida.

O importante é manter um caminhar centrado e conectado, na companhia desapegada de todos, buscando viver e resolver aquilo que nos cabe, em homenagem a essa força que governa a todos, dê a ela o nome que quiser: amor, consciência… Pouco importa, desde que o caminho seja aquele da individuação.

Finalizo com Balsekar (1992, p. 200, grifo do autor)

Você não pode evitar estar aqui! Eu não pude evitar estar aqui. Este-que-está-falando e aquele-que-está-escutando precisam estar aqui para que a fala-escuta ocorra como um evento. Você pensa que você está ouvindo, mas a escuta está ocorrendo através do mecanismo do corpo-mente e isto é parte do processo de desidentificação, de iluminação, que acontece. E no processo de desidentificação, no processo evolutivo, isto é um evento. Isto é um evento específico. Portanto, esta escuta está ocorrendo através do mecanismo do corpo-mente porque tinha que ser assim neste momento, neste lugar. Isto é parte do funcionamento da Totalidade.

Para ler em pdf clique aqui

(link atualizado em maio 2021)

Prefácio Ed. 3 Escuta

Renata Ururahy [1]

Tendo praticado e estudado BodyTalk internacionalmente, estou muito honrada em fazer parte da terceira edição do Escuta e desta forma me conectar com a matriz brasileira de terapeutas BodyTalk.  É com muita alegria que vejo o sistema se desenvolver de forma tão profissional e qualificada no país do meu coração.

Acredito que estamos em um momento único na história da humanidade, em que existe a possibilidade de um salto quântico na forma das pessoas entenderem a dinâmica do corpo-mente de forma mais interconectada, que trará uma grande demanda das terapias baseadas em consciência.  

Nesta edição os artigos vêm explorar, em diversos ângulos, o princípio fundamental do BodyTalk como sistema de saúde baseado em consciência e refletir na importância crucial deste princípio para o alcance de um verdadeiro estado de saúde.    

Marcio Ribeiro nos convida a questionar o que faz a jornada da alma realmente valer a pena e como viver essa jornada inconstante e impermanente de forma centrada e conectada. Seu artigo é uma bela descrição da importância do processo de individuação que o BodyTalk facilita ao encontro do amor próprio e autoaceitação. Marcio traça uma trajetória desde o momento onde formamos nossas máscaras em busca da aceitação e pertencimento ao momento em que nos reencontramos como os seres que realmente somos.  O artigo explora a possibilidade de vivermos desapegados de resultados egóicos e “Livres, ao fim da jornada, temos o potencial de morrermos despertos, quando a faísca de iluminação retorna a essência do todo.” afirma Ribeiro. 

Luciano Flehr, em seu artigo divide conosco relatos incríveis de resultados alcançados com o BodyTalk em diferentes etapas de seu crescimento como terapeuta. Fazendo parte do sistema há mais de doze anos, me identifico muito com a forma em que Luciano se apaixona pela modalidade e as possibilidades que ela nos oferece de transcender aquilo que acreditamos ser possível dentro do paradigma da medicina moderna. 

Refletindo na definição fundamental do BodyTalk como sistema de cuidados com a saúde baseado em consciência, Natasha Mesquita nos convida a questionar “Por que tantos paradigmas sobre a viabilidade de sessão a distância, se a consciência é imaterial?”

De forma descontraída e intrigante, o artigo nos desafia a refletir como acessamos as informações nas sessões de BodyTalk e a importância da simples observação do terapeuta do que o corpo tem a dizer como fator causal do processo de transformação. 

Natasha explora o embasamento científico da física quântica para explicar como as sessões de BodyTalk podem ser efetivas tanto pessoalmente como a longa distância, apresentando o conceito de campos morfogenéticos e entrelaçamento quântico usados para descrever a interconexão de todas as coisas no universo. Além disso, o artigo instiga o questionamento de nossas crenças acerca do que é o conhecimento, trazendo a importância da qualidade subjetiva e da experiência interna ao processo de validação do conhecimento. 

Em uma edição da Escuta que reflete novos princípios científicos para entender terapias integrativas e quânticas como o BodyTalk, Nirvana Marinho em seu artigo “BodyTalk e sua ciência, fatos baseados na consciência”, nos apresenta três pesquisas realizadas no Brasil nos últimos dois anos. Nirvana também nos introduz à três autores que fortalecem a base científica do BodyTalk: Fritjof Capra, James Oschman e Amit Goswami que nos oferecem uma ponte entre a ciência e a filosofia e descrevem uma prática não dualista da consciência, nos levando a uma nova visão da realidade.

Em seu artigo, Ana Carolina Medeiros de Vasconcelos provoca o leitor a questionar o verdadeiro significado de saúde e nos convida a incluir o conceito do valor que damos à vida quando pensamos em saúde. O artigo reflete na natureza impermanente do nosso estado de saúde e da importância de práticas (como o BodyTalk) que promovem o alinhamento com a Consciência e buscam satisfazer a alma no caminho de volta para casa como aspectos fundamentais na promoção da saúde.   

Aproveitem a leitura dos artigos desses incríveis profissionais.

[1] Formada em Nutrição pela UnB, Renata se mudou para os EU para expandir seu conhecimento em terapias integartivas, onde completou seu mestrado em Nutrição Holística pela Clayton College of Natural Health. Em busca de se aprofundar na compreensão da interação corpo-mente, se certificou como Terapeuta BodyTalk, Instrutora de Yoga e Reiki Master. Renata realiza atendimentos pessoais e a distância no Brasil e Estados Unidos, além de trabalhar com grupos de mulheres em processo de descoberta espiritual.

Para ler em pdf clique aqui

(link atualizado em maio 2021)