Prefácio Ed. 1 Escuta

Convite à escuta

Celia Barboza dos Santos [1]

Quando recebi o convite para prefaciar a primeira edição do periódico Escuta, fiquei extremamente feliz pois o lançamento aglutina dois temas pelos quais sou encantada; o sistema BodyTalk e o pensamento sistêmico. E a melhor maneira de começar um artigo sobre o BodyTalk System é citando o próprio John Veltheim, criador do método, juntamente com Esther Veltheim.

A evolução do BodyTalk começou há quarenta anos com um sonho. A primeira parte do meu sonho era sobre uma terapia que pudesse transcender o modelo do diagnóstico, seguindo a primeira diretriz do corpo sobre seu próprio processo de cura. Nessa terapia, eu tinha visão do corpo na sua total expressão para decidir sobre suas próprias prioridades de tratamento. A função do terapeuta não era mais orquestrar o processo de tratamento de acordo com uma opinião de diagnóstico. Ao invés disso, a função do terapeuta poderia ser honrar e ser guiado pelo corpo de suas prioridades para cura. A segunda parte do meu sonho era a mesma de muitos seres humanos antes de mim: uma terapia que pudesse oferecer resultados tais que poderiam ser exponencialmente benéficos. No meu sonho, o sistema humano pode permanecer dinamicamente no caminho do seu bem-estar e poderia continuar melhorando mesmo depois que o tratamento tivesse acabado. Em outras palavras, o corpo, com sua própria sabedoria, poderia assumir o controle. A primeira parte do meu sonho se realizou através do que nós chamamos de Sistema BodyTalk. (I Had a Dream, John Veltheim e Esther Veltheim, 2016)

Em 2007, quando conheci o sistema BodyTalk, eu não tinha nenhuma noção do que estava por se abrir para a minha vida. Minha trajetória terapêutica dialoga com muitas práticas integrativas e, interessada em conhecer um método que combinava conhecimentos da fisiologia ocidental com os saberes da medicina tradicional chinesa e conceitos da física quântica, parecia que eu iria aprender mais uma técnica; no entanto o que encontrei foi um passaporte para um sistema de saúde baseado em consciência, numa abordagem de tal forma criativa, que trabalhar com este sistema tornou-se a minha universidade pessoal. A partir daí fiz todas as formações básicas e avançadas e segui o  desenvolvimento, certificando-me como praticante regular e integrando-me como membro da IBA Internacional BodyTalk Association, que é p órgão regulador no mundo.   Provavelmente, um dos grandes benefícios diretos que ser terapeuta BodyTalk me causa, é manter-me uma eterna curiosa, sobre temas diversos.

Nos ambientes das terapias integrativas, onde observa-se a energia como substrato causal, sempre ouvi que precisávamos aprender a pensar fora da caixa, que a energia acende a lâmpada, mas não podemos vê-la e então, por essa razão, existe. Sempre foi muito interessante, mas ainda havia um certo contexto de precisar acreditar, usando essas metáforas. As minhas primeiras experiências com o BodyTalk me surpreenderam muito e eu, simplesmente, não tinha explicações para os resultados. A minha enorme surpresa era em razão de que, tudo que eu fazia antes como terapeuta, dependia de mim, de um determinado conhecimento aplicado de uma forma específica, da minha inferência e interferência para que funcionasse; e a prática do BodyTalk me fazia experimentar uma estranha sensação de que não era eu quem estava pilotando. No BodyTalk, quem guia o processo é a própria pessoa, a partir do que se nomeia como Sabedoria Inata, trazendo as prioridades, revelando as informações, os aspectos que serão abordados e todo o processo é realizado por este mesmo princípio inteligente e altamente criativo.

Duas perguntas eram frequentes na minha mente: como era possível e em que tipos de doenças o método era eficaz; porque eu ainda expressava o conceito de que saúde era a ausência de doença. A primeira questão, sobre como era possível que uma pessoa que não tinha conhecimentos de anatomia, pudesse chegar até o aspecto celular de um órgão, foi rapidamente ficando clara, pois o BodyTalk possui protocolos detalhadíssimos, que funcionam como cartas de navegação, levando o terapeuta a observar as prioridades que estão sendo expressas pelo corpo; desde as funções orgânicas, até as formas como as emoções podem interferir na função orgânica, ou como o clima pode afetar o humor de alguém. Esta atenção ao que é prioridade, e não ao que é um sintoma, faz toda a diferença.

No entanto, a segunda questão, que confundia meu conceito antigo de saúde como sendo ausência de doença, exigiu mais esforços para minha compreensão. O BodyTalk me apresentou o pensamento sistêmico, o universo das possibilidades – que eu já começava a estudar, mas não via aplicabilidade – colocando por terra muitos comportamentos rígidos e ideias pré-concebidas. Olhar para um sintoma sem que, no entanto, haja uma investigação mais profunda, sobre os contextos que possibilitam que um determinado sintoma ou comportamento ganhem força para se expressar, equivale a destacar aquela parte do todo e dizer que não está adequada e não deveria ser como é.

O corpo é um sistema; é corpo-mente e todo o tempo está se expressando; então um sintoma local, pode estar comunicando que algo, num outro lugar, está em sofrimento. O que conhecemos como saúde ou doença são as opções disponíveis, dentro de uma infinidade de potenciais, que a sabedoria inata encontra para revelar histórias. É quando se pode observar, evocar consciência sobre o que está envolvido em uma complexa rede de informações, que comumente simplificamos com um nome diagnóstico. Todo sintoma é, no mínimo, uma grande história. E a Sabedoria Inata é a tendência natural do corpo para se auto regular.

Então, o BodyTalk é um grande sistema de saúde, que contém muitas estratégias, para apoiar o corpo no seu processo natural de auto regulação; esta é a proposta mais criativa que alguém pode encontrar para tratar da sua saúde, em todos os níveis. Quando falamos em sistemas, ou sobre a percepção sistêmica, estamos abrindo um espaço natural para observar que uma parte é composta de outras partes, até a infinitesimal partícula sub atômica.

Podemos admitir isso quando colocarmos em perspectiva a família. Nosso corpo não difere em absolutamente nada desta proposta. Somos um corpo alimentar, mas também somos um corpo essencial ou consciencial. A perspectiva de pertencimento é sistêmica, pois só ocorre em razão de uma parte se reconhecer em relação a um todo e a forma como a comunicação, os relacionamentos entre as partes, estão acontecendo. Então, como temos certeza de quem somos? 

Existe uma identidade, porque o meio sistêmico, que inclui família e ambiente, atuam para que a pessoa exista como indivíduo; quer dizer que, todo o tempo, temos muitos referenciais, programações e crenças, nos informando o que deveríamos ser e como precisamos nos comportar para sermos aceitos.

Para que se construa um corpo, uma pessoa, muita coisa aconteceu antes; e muitas delas estão agindo como informações desorganizadoras do equilíbrio. O fato de o BodyTalk ser um sistema, possibilita que esta perspectiva ampla e profunda, com tantos conteúdos diversamente registrados na experiência, se torne observável.

A criatividade no sistema BodyTalk, vem da possibilidade de observar as informações se expressando de modo não linear, não local, independente da lógica de tempo e espaço, apoiando o sistema corpo mente, para que encontre opções mais saudáveis para expressar-se. No BodyTalk, as sessões são conduzidas pelo praticante com total atenção ao que acontece no momento presente; o terapeuta está lá com o cliente, plenamente, sem julgamento de valor, praticando a escuta em níveis amplos. Há uma escuta de fato, daquilo que pode ser dito; mas principalmente, há uma escuta do silêncio; daquilo que nunca pôde ser dito; de histórias de uma vida inteira registradas no corpo; de memórias doloridas, marcantes ou singelas; registros inconscientes que, inúmeras vezes, precisam somente de uma respiração profunda ou de uma lágrima, pois palavra não cabe ali. A experiência em uma sessão de BodyTalk pode ser muito reveladora ou extremamente sutil, sugerindo que nada muito profundo está acontecendo, mas trata-se apenas de como a experiência se dá para cada um. E tudo isso segue, estritamente, os caminhos e ritmos delineados pela sabedoria inata.

Tendo a sentir a terapia como arte, pois antes de ser terapeuta eu dançava. E na escola onde estudei, havia duas meninas surdas que faziam balé clássico. Era um mistério como elas sabiam, no sentido do saber profundo, todos os compassos e ritmos da música! Hoje, eu compreendo mais claramente este jeito de escutar com o corpo inteiro, trata-se de estar com o coração disponível para a experiência, em estado de atenção e presença.

O BodyTalk faz este percurso, de escutar de perspectivas diferentes, já que esta escuta é feita sempre a partir do conjunto cliente/terapeuta, e desta energia única emergem questões sistêmicas; escutar é um “ato contínuo”. Reverberando em ondas para os vários níveis do ser. De uma certa forma o periódico Escuta, convida a todos para esta dança silenciosa. Aqui, terapeutas comparecem como autores, a convite da Nirvana Marinho que é a idealizadora do projeto. Quando a Nirvana se dispôs a ouvir os terapeutas, estava germinando o caminho que resultou neste periódico que, não por acaso, leva o nome de Escuta.
          

A medida em que ela nos ouvia, ondas alcançaram seu cérebro, seu coração e se expandiram em ações que se materializaram num amplo convite à participação integradora de muitos terapeutas, que puderam também expressar suas experiências e percepções sobre o BodyTalk, permitindo um mapeamento inicial da presença do BodyTalk no Brasil, como você  poderá descobrir lendo o artigo BodyTalk no Brasil: uma cartografia de caminhos possíveis – por Ana Marcela Sarria

O artigo A relação do Livro O Ponto de Mutação e o BodyTalk – por Luciano Flehr, aponta para as bases da teoria dos sistêmicas dinâmicos, trazendo informações precisas para a compreensão das interações entre o ambiente e o ser e a influência que o livro de Fritjot Capra teve na perspectiva sistêmica do Dr. John Veltheim.

Enquanto desenvolvemos a prática do BodyTalk, vamos aprendendo que, assim como no corpo, as relações também adoecem e que este adoecimento é a tentativa do sistema inteiro revelar que há algo muito importante acontecendo, no artigo BodyTalk como sistema, é sobre como relacionar-se – por Nirvana Marinho, fica evidente a indivisibilidade do ser, a integração entre ser e ambiente, desde a perspectiva sistêmica.

Para contar um pouco mais sobre pertencimento, o texto que é quase um poema, Sistema BodyTalk – por Claudia Morum Xavier Lapa, nos presenteia com a perspectiva sistêmica familiar. Assim como cada membro da família tem seu lugar, o corpo reflete este processo; ou será que é o contrário?

Observando tudo isso, eu me lembro do sonho do próprio Dr. John, que nos presenteia com uma entrevista imperdível, conduzida e transcrita pela Verena Kacinskis, contando como seus insights foram tomando forma para criar um sistema de saúde baseado em consciência.

O BodyTalk é exatamente assim. Escutamos a fala, escutamos o silêncio, escutamos a diversidade; os conflitos e movimentos criativos que, desde sempre, o sistema corpo-mente quer revelar nas relações com toda a história pessoal e o mundo em que vivemos, estando pronto para melhor se comunicar, sincronizar, equilibrar e caminhar com mais saúde. O convite é para leitura, mas é como uma proposta para ouvir, atentamente, no vibrato profundo do seu coração; assim como aquelas duas meninas no balé. Aproveita a entrada do inverno, se aconchega e escuta o que nosso coração te oferece. Escuta.

Celia Barboza dos Santos

Junho 2020


[1] BodyTalk System (CBP),PaRama Body Talk 1, Eastern Medicine, Master Programação Neurolinguistica, Terapias Integradas da Respiração, Constelação Familiar.

@Celiabarbozaterapeuta
Celia@celiabarboza.com

Para ler em pdf clique aqui

(link atualizado em maio 2021)

Entrevista ao Dr. John Veltheim por Verena Kacinskis

Entrevista[1] ao Dr. John Veltheim[2]

Por Verena Kacinskis[3]

Verena Kacinskis – Olá John, muito obrigada por conceder esta entrevista. Como expliquei por e-mail, essa conversa sairá na primeira edição do periódico “Escuta”. Escolhemos a Teoria dos Sistemas Dinâmicos como tema desta edição. Por isso, trouxe três perguntas em torno desse tema.

John Veltheim – Ótimo! 

VK – Agora sou Instrutora de Fundamentos e, além disso, também traduzi para o Português todos os materiais dos seus cursos nos últimos anos. 

JV – Eu sei. Muito obrigado pelo seu ótimo trabalho. Recomendei você para ser instrutora porque te conheci quando fui ao Brasil e achei que você estava fazendo um ótimo trabalho. 

VK – Muito obrigada! Não sei como é em outras partes do mundo, mas aqui no Brasil as pessoas ainda tendem a dizer coisas como “Bem, eu trabalho com uma técnica chamada BodyTalk”. Costumo começar as minhas aulas esclarecendo para os alunos que o BodyTalk não é uma técnica, é um Sistema. São duas coisas diferentes.  Fico me perguntando de onde veio a ideia, como você soube que não criaria uma nova técnica, que você colocaria coisas juntas e criaria um sistema. Como foi isso? 

JV – Quando estudei na universidade, aprendíamos só técnicas. Com o tempo fui ficando profundamente interessado no trabalho de Fritjof Capra, em “O Ponto de Mutação”, e isso me direcionou à Teoria dos Sistemas Dinâmicos. Naquela época eu ensinava acupuntura e percebi que ela também se baseia na Teoria dos Sistemas Dinâmicos. Você começa a ter um outro olhar para as mesmas coisas e percebe “Eu já estava fazendo isso, afinal!”. Comecei a ler publicações de Física e percebi que toda estrutura, inclusive em nível subatômico, funciona segundo a Teoria dos Sistemas Dinâmicos. É muito mais profundo do que qualquer outra coisa. Naquele filme que fizeram baseado no livro do Fritjof Capra [Mindwalk], deram mais ênfase à ecologia – você sabe, a Teoria dos Sistemas Dinâmicos está na Ecologia. Mas não é só a base da ecologia geral do mundo, é a base da ecologia do corpo também, e de como nós nos relacionamos com o mundo. Portanto, a formação básica do mundo é baseada na Teoria dos Sistemas Dinâmicos. 

Então, comecei a pensar “Tudo bem, quais são os princípios básicos da Teoria dos Sistemas Dinâmicos?”. E foquei em um deles: o princípio da comunicação. A partir daí comecei a praticar a acupuntura a partir dessa perspectiva. Mesmo que eu estivesse usando as agulhas do jeito que eu já costumava usar, na minha mente via sistemas dinâmicos afetando o corpo, e comecei a observar melhoras nos resultados. Então comecei a ensinar acupuntura sob o ponto de vista da Teoria dos Sistemas Dinâmicos nos cursos avançados da faculdade na qual  era Diretor, e isso fez uma grande diferença nos resultados dos tratamentos dos meus alunos. Acho que trouxe um melhor entendimento. Para mim, significava olhar a coluna vertebral, por exemplo, sob a perspectiva dos sistemas dinâmicos, na quiropraxia e osteopatia, entendendo que tudo está conectado e tudo envolve tudo. Ou seja, você podia ter torcido o dedo do pé e isso podia estar te trazendo uma dor na lateral da cabeça.  Passei a sempre olhar para o que estava acontecendo no corpo todo. A pessoa me procurava com dor no ombro e eu acabava tratando o menisco medial do joelho oposto.  Consegui chegar a isso, mesmo antes de usar o Sim e o Não, por estar usando intuitivamente a Teoria dos Sistemas Dinâmicos, o que me levou a encontrar formas diferentes de fazer as mesmas coisas. 

Eu já tinha explorado outros aspectos da cinesiologia aplicada – sabe, se feita de forma apropriada, a cinesiologia aplicada também é um modelo de sistema dinâmico, embora não fosse ensinada sob essa perspectiva naquela época. Atualmente existe na Alemanha uma faculdade ensinando a cinesiologia assim. O diretor dessa faculdade fez seu treinamento comigo. Comecei com trabalho básico, especificamente com os Córtices e coisas afins. Assim que refinei o trabalho a partir da Teoria dos Sistemas Dinâmicos, tudo evoluiu muito rápido. Comecei a ver as coisas por sua relação com as outras. A pessoa vinha com um problema no joelho e eu enxergava o que realmente estava acontecendo ali – um problema no joelho não é um problema apenas no joelho, frequentemente é um problema no meridiano do Rim e toda uma gama de outras coisas que estão relacionadas dinamicamente. Então eu fiquei… bem, não vou dizer que fiquei obcecado, mas digamos que passei a focar no desenvolvimento e aperfeiçoamento da osteopatia e da acupuntura, que eram as disciplinas que eu ensinava na época, e para isso comecei a praticá-las sempre a partir do ponto de vista dos sistemas dinâmicos, ou seja, buscando comunicação, sincronização, etc. 

Depois comecei a desenvolver algumas técnicas – Córtices foi a primeira delas – e comecei a perceber que se fizesse alguns toques básicos, conseguia alguns resultados. Todavia, se eu fizesse a mesma implementação com toques usando os conceitos da Teoria dos Sistemas Dinâmicos, os resultados eram melhores. Foi como uma atitude que passei a usar, e comecei a perceber resultados melhores e mais rápidos. A partir daí, iniciei o desenvolvimento de tudo ao redor da Teoria dos Sistemas Dinâmicos. 

Naquela época, esbarrei com o Fritjof Capra numa conferência, e apesar de só termos tomado um café juntos, eu senti como se ele tivesse me entregado uma energia [risos], o que me deixou ainda mais animado. Nós não chegamos a falar sobre isso, mas me senti inspirado só de estar na presença de Deus em pessoa (pelo menos para mim, porque seu livro o Ponto de Mutação foi, de fato, um ponto de mudança para mim). Eu não gostei do primeiro livro dele, achei muito científico para mim, mas depois ele entrou mais na Teoria dos Sistemas Dinâmicos. 

Portanto, eu sempre voltava para a ideia de que tudo está relacionado e só precisamos chegar a um ponto em que os sistemas interajam entre si, precisamos ajudar o corpo a trabalhar em equipe, basicamente, e perceber que qualquer parte do corpo pode influenciar qualquer outra parte do corpo se você entender esses princípios. E, apesar de nós não irmos tão fundo no BodyTalk básico, ainda assim ensinamos técnicas que estão baseadas nisso. No entanto, conforme você vai se aprofundando no BodyTalk, você começa a ter mais contato com a Teoria dos Sistemas Dinâmicos e percebe que tudo gira ao redor dela, essa é a fundação de tudo. E até nos meus trabalhos mais avançados, aqueles que estou desenvolvendo agora, ainda uso a teoria como base. Claro que eu estudei extensivamente a Física Quântica e coisas assim. 

Você sabe, estive no Brasil algumas vezes, estudei Física Quântica com alguns teóricos importantes lá. Eles ficavam impressionados com o fato de eu estar trabalhando com a Teoria dos Sistemas Dinâmicos. Alguns deles disseram “Sim, nós também estamos nos encaminhando para essa direção, vamos trabalhar cada vez mais a partir dessa perspectiva”. Foi por isso que nos demos tão bem e eles endossaram meu trabalho. 

Então, posso dizer que o processo de criação de BodyTalk foi como uma evolução. Demorou um pouco porque as pessoas ainda estavam fazendo o trabalho básico achando que eram técnicas em vez de dinâmicas. Essas pessoas usavam as técnicas e conseguiam resultados, mesmo que não entendessem completamente a teoria existente por trás. Acho que demora mesmo um pouco e ainda tem bastante gente que faz o trabalho básico do BodyTalk e não o entende completamente, enxergam apenas as técnicas. Não obstante, depois que você está trabalhando com BodyTalk há um tempo,  conforme você vai fazendo o trabalho mais avançado, vai ficando óbvio, já que você se percebe fazendo vínculos que parecem malucos, tipo entre o joelho e a lateral da cabeça – e na verdade você está tratando o fígado. 

Tudo evoluiu bem rápido, na verdade. Demorou um tempinho para que as pessoas às quais eu estava ensinando, principalmente àquelas que tinham formação médica, para que elas entendessem o que estava falando, porque elas eram muito cartesianas. Mesmo que reconhecessem que a Física avançada trabalha muito com a Teoria dos Sistemas Dinâmicos, alguns dos médicos me diziam “Mas a Física avançada não tem nada a ver com a Medicina!” [risos]. Naquela época, quando eu comecei, a Medicina era bem cartesiana, mas isso está mudando bastante agora, principalmente na Europa. Por isso meu trabalho está sendo cada vez mais aceito nesse contexto. 

E agora, conforme vou desenvolvendo trabalhos ainda mais avançados, continuo me apoiando na Teoria dos Sistemas Dinâmicos. Apesar de não ser mais tão óbvio como nos meus trabalhos mais básicos, as técnicas que tenho apresentado nos cursos mais avançados também se apoiam nessa abordagem e quem não percebe tende a não conseguir os mesmo resultados que eu. Mas veja, quando eu coloco a minha mão em cima de uma pessoa, estou colocando a mão sobre um corpo que está em um estado natural de sistema dinâmico consigo e com o seu ambiente, e isso afeta tudo, porque quando você atende um paciente, você está tratando a relação dinâmica dele com sua família, incluindo os familiares que ele nunca conheceu. 

Inclusive, podemos estar influenciando a relação dessa pessoa com o governo. Vocês sabem disso aí no Brasil e nós estamos vivendo isso aqui nos EUA – esses governos que são bem cartesianos, que focam em acumular dinheiro e coisas afins, isso causa uma corrosão em tudo ao redor porque eles não enxergam o mundo como um sistema dinâmico. Tenho notado que em lugares como Holanda e França, os governos estão trabalhando mais baseados na Teoria dos Sistemas Dinâmicos, sabe? E lá as coisas funcionam melhor, como na Noruega, por exemplo. Eles têm o melhor sistema de educação do mundo apesar de os alunos só irem para a escola 3h por dia. Mesmo assim eles estão entre os melhores da Europa porque ensinam as crianças a se relacionarem e interagirem com o mundo, e ao fazerem isso alcançam uma informação que não se aprende nos livros e isso é muito mais útil. Portanto, vejo que o BodyTalk está refletindo o que está acontecendo nos melhores cenários da educação, das ciências políticas, e vejo que as pessoas mais interessadas no meu trabalho são os físicos quânticos. 

A Teoria dos Sistemas Dinâmicos está ficando bem conhecida em círculos científicos, mas do ponto de vista médico, o sistema médico atual está mais direcionado ao modelo cartesiano porque eles trabalham com remédios que não são criados para os indivíduos. No entanto, alguns médicos não gostam desse conceito e estão tentando, em alguns lugares da Europa, por exemplo, incluir a homeopatia e outras coisas que, de alguma forma, estão baseadas na Teoria dos Sistemas Dinâmicos. 

VK – John, tem uma coisa que eu sempre quis te perguntar. Para criar algo como o que você criou – um sistema novo, como o BodyTalk – você precisa abrir espaços dentro de você. A gente precisa abrir espaços internos para poder criar. Como isso funciona para você? O que acontece primeiro: você passa por mudanças e então cria algo novo, ou você cria algo novo e isso te transforma? Ou tudo acontece ao mesmo tempo? Como é o seu processo criativo? 

JV – Na verdade, tenho que dizer que grande parte do meu processo criativo acontece quando estou tratando pessoas e preciso achar respostas para entender o que está acontecendo. Então digamos que eu receba um caso complicado – e recebo muitos casos complicados. Primeiro, preciso me abrir para o que está ali, depois isso se liga ao meu background e aos meus conhecimentos, isso tudo começa a vir intuitivamente, e eu tenho esse dom de saber, quando algo aparece intuitivamente, se vai funcionar ou não. Isso é intuitivo, certo? Então, é bem comum que eu use uma técnica pela primeira vez quando estou tratando um caso bem teimoso, desses que não conseguem bons resultados com outras técnicas.  Consigo fazer isso, em certo nível, por causa da minha experiência – trabalho com saúde há 50 anos, estou acostumado com os pacientes e com as respostas aos tratamentos. Assim, tento algo completamente diferente, baseado naqueles princípios que conheço, e eu vejo as mudanças acontecendo no corpo. Posteriormente, isso se torna um novo curso. Em praticamente todas as coisas que eu crio, não me sento e fico ponderando. 

Quase tudo o que desenvolvi foi feito com as minhas mãos sobre o paciente quando eu estava respondendo a uma situação ou a um caso difícil, para o qual tinha que encontrar uma resposta. Portanto, tudo o que eu preciso fazer é me abrir e levar aquilo para um novo nível.

Existem coisas que eu ainda não ensinei, principalmente no nível da Consciência Coletiva, em que podemos tratar grupos maiores. Um dos temas com os quais tenho estado mais empolgado é a ecologia. Tenho feito muitos trabalhos com ecologia e planejo fazer muito mais. Se você olha para os ecologistas, eles estão trabalhando dentro da Teoria dos Sistemas Dinâmicos. Por exemplo, digamos que você queira plantar alguma coisa. Você precisa saber onde vai plantar baseado em onde vai ser o melhor lugar para que aquele sistema dinâmico funcione. No momento estou trabalhando muito para entender como usar o BodyTalk para a Ecologia e tenho conhecido pessoas interessantes que trabalham com isso. De agora em diante espero me dedicar mais ao planeta do que aos indivíduos porque pela Teoria dos Sistemas Dinâmicos você pode influenciar áreas enormes e encontrar soluções que trazem mudanças consideráveis na ecologia daquela região do mundo. É um trabalho fundamental, de base. 

O que nós aplicamos no corpo também pode ser aplicado à forma de funcionamento de empresas, de uma floresta etc e acho que começa a fazer sentido para as pessoas quando elas entendem como funciona. Algumas pessoas precisam ser convencidas pelos resultados mas tenho percebido que em algum momento faz um clique, porque já faz parte do conhecimento do lado direito do nosso cérebro, já que o cérebro direito definitivamente funciona dessa forma [Teoria dos Sistemas Dinâmicos]. Percebo que as pessoas que se sentem atraídas pelo tipo de trabalho que faço são pessoas que naturalmente estão mais orientadas para o cérebro direito, que estão se movimentando nessa direção e querem entender as coisas pela lógica do cérebro direito. Francamente, em essência, o cérebro direito funciona a partir da Teoria dos Sistemas Dinâmicos e o cérebro esquerdo é cartesiano. 

VK – Tem algo mais que eu percebo. Quando aprendemos BodyTalk nos níveis básicos, aprendemos que estamos sincronizando a pessoa ao ambiente, estamos dissolvendo a influência do ambiente sobre a pessoa etc. Mas agora que já trabalho com BodyTalk há 11 anos, percebo que as pessoas que recebem sessões de BodyTalk há um tempo passam a se organizar dentro de seu próprio campo sistêmico. Acompanho diversos pacientes com BodyTalk que recebem sessão uma vez por mês há 4 ou 5 ou 7 anos. Imagina isso! Receber BodyTalk uma vez por mês há 7 anos! Comecei a ver padrões e a documentá-los e percebo que nos primeiros 8 a 9 meses, aproximadamente, estamos organizando as coisas básicas da vida daquele paciente, colocando as coisas em ordem. 

Depois desse período, vamos mais profundo no trabalho, as pessoas começam a ficar mais autônomas, elas podem cuidar de si mesmas, não dependem mais tanto do BodyTalk para se manterem organizadas. E então, a partir do segundo ano de tratamento, mais ou menos, elas começam a ficar mais sincronizadas e alinhadas com o ambiente, com seu campo sistêmico. É quando um livro chama a atenção na livraria e era justamente o que precisavam ler, quando começam a enxergar os sinais ao seu redor. O que quero dizer é que o BodyTalk atua no ambiente organizando as pessoas com seu campo sistêmico e essa é uma das coisas mais bonitas porque agora essas pessoas não só deixam de ser afetadas pelo ambiente mas passam a ter um efeito positivo sobre ele. Entende? 

JV – Absolutamente, esse sempre foi um dos meus sonhos desde a criação do BodyTalk. 

As pessoas que estão muito envolvidas com BodyTalk hoje, quando começaram a fazer aulas comigo lá no começo, eram bem cartesianas, pensavam “Isto é meio estranho, mas ele parece saber o que está fazendo” [risos]. Elas achavam que estavam apenas implementando fórmulas no cliente e não percebiam que estavam rearranjando todo o processo de como o seu próprio corpo funcionava. Não percebiam que ao tratar as pessoas, elas estavam se tratando. Eu vi esses terapeutas passarem por muitas mudanças. Agora, quando elas vêm conversar comigo, vejo que têm uma percepção diferente e forte dos sistemas dinâmicos. Algumas vezes eu ainda preciso corrigi-las para retirar condicionamentos a respeito da Teoria [dos Sistemas Dinâmicos] mas o BodyTalk muda mesmo a vida das pessoas. Isso é muito legal. Eu recebo emails de pessoas me agradecendo e dizendo que o BodyTalk mudou suas vidas. Elas contam felizes que se divorciaram ou passaram por coisas muito desconfortáveis por causa do BodyTalk [risos]. Essas pessoas se abriram para essas mudanças. 

É claro que outras pessoas não ficam por muito tempo [no BodyTalk] porque costumam estar muito envolvidas com sua cultura local, que é muito cartesiana, e elas não topam passar por essas mudanças. E para elas também é difícil conseguir clientes de BodyTalk, então acabam escolhendo ficar com métodos mais cartesianos. Mas nós plantamos uma semente e algumas vezes elas me relatam que tiveram que parar, que foram estudar isto ou aquilo, 6 anos depois voltaram para o BodyTalk, e finalmente fez sentido para elas. É mesmo muito difícil, o treinamento na maioria das sociedades é muito cartesiano, não leva em conta o todo. Veja o modelo médico. Eu tive o benefício de conhecer pessoas pelo mundo que se entusiasmaram muito com o meu trabalho e isso nos levou à vitalização do BodyTalk. Para ser sincero, a rede de neurônios precisa passar por mudanças. 

VK – Sim, com certeza! 


JV – O que eu percebo é que a maior mudança acontece no meu curso de Energetics, onde fazemos o equilíbrio dos cérebros e melhoramos a comunicação entre eles. Semanas depois, quando encontro alunos do curso, eles me dizem que finalmente estão entendendo a Teoria dos Sistemas Dinâmicos. Porque os cérebros estão trabalhando juntos de novo. 

VK – No curso de Fundamentos aprendemos que o Protocolo é um modelo de sistemas dinâmicos, as fórmulas funcionam como um modelo de sistemas dinâmicos, mas também vejo que quando o terapeuta e o cliente recebem e praticam BodyTalk há um tempo, eles começam a funcionar e a se comportar mais sincronizados com a ideia dos sistemas dinâmicos. É porque começamos a ver que o modelo dos sistemas dinâmicos está em todos os lugares. Está nas fórmulas, está no protocolo, está no Sistema BodyTalk, e também está na forma como as sessões afetam o cliente. Isso é muito interessante. Eu trabalhava como psicóloga, comecei a trabalhar com BodyTalk e me afastei um pouco da psicologia, mas alguns anos depois, quando voltei para a psicologia, percebi que compreendia os conceitos muito melhor do que antes porque, graças ao BodyTalk, havia vividos aqueles conceitos. Eu vivi a sincronicidade e o inconsciente coletivo, da psicologia junguiana, na minha prática, no meu corpo, e os testemunhei com o meu MindScape. Então agora eu entendo a psicologia junguiana melhor do que antes. Na verdade, agora eu realmente entendo o que o Jung estava dizendo. 

JV – Bem, eu conheci alguns cientistas brilhantes, e os que chegam ao topo e se sobressaem, como Elizabeth Rauscher, Fritjof Capra etc, definitivamente entendem a Teoria dos Sistemas Dinâmicos. A Elizabeth Rauscher – acho que ela faleceu recentemente – foi basicamente uma das maiores matemáticas do mundo (NT – pequena correção: ela era PhD em Física). Eu a conheci no Brasil e você deve ter me visto empurrando a cadeira de rodas dela pra lá e pra cá. Eu me oferecia para empurrar sua cadeira de rodas porque queria ficar sempre por perto para poder entrar no cérebro dela, conversar com ela [risos]. Ela tinha um entendimento dramático da Teoria dos Sistemas Dinâmicos. Ela foi Chefe na NASA, ajudou a projetar alguns dos foguetes, ela era uma lenda. Nós conversamos sobre a Teoria dos Sistemas Dinâmicos e era tão natural para ela. Ela me disse “é assim que tudo funciona” e tentou me convencer de que a matemática pura é o que melhor se aproxima da Teoria dos Sistemas Dinâmicos. Ela e o Richard [L. Amoroso] fizeram muitos trabalhos juntos, trabalhos que ficaram bem famosos, e ela me mostrou os emails que eles costumavam trocar todos os dias usando fórmulas matemáticas como linguagem, para poderem expressar a Teoria dos Sistemas Dinâmicos “em sua forma apropriada” [gargalhadas]. É uma linguagem baseada na Teoria dos Sistemas Dinâmicos e esta pode ser chamada por nomes diferentes. Tive o privilégio de conhecer muitos desses cientistas e a maioria deles diz que o Capra os inspirou muito, porque ele foi o cara que realmente entendeu a Teoria dos Sistemas Dinâmicos. Ele está aposentado agora, morando na ilha de Vancouver, perto de Vancouver. Quando tivemos a Conferência lá [Conferência Internacional de BodyTalk de 2013], eu soube que ele e o [Rupert] Sheldrake e todos esses top moram perto uns dos outros e se encontram toda semana. Fui convidado para ir a um desses encontros mas recebi o convite depois que a reunião aconteceu. 

VK – Não acredito!!

JV – Verdade! [risos] O Rupert Sheldrake expressa de forma diferente mas ele também está falando de Teoria dos Sistemas Dinâmicos. 

VK – Eu estou lendo O Ponto de Mutação agora. O livro foi escrito nos anos 80 mas é tão atual! 

JV – Sim, muito. 

VK – John, já estamos terminando a entrevista. Quer dizer algo mais?

JV – Obrigado por falar comigo. Tenho planos de ir ao Brasil porque sinto que estou precisando respirar o ar de vocês [risos]. Eu adoro o Brasil mas não tenho ido por causa do meu acidente. Ainda estou me recuperando porque tive três derrames quase ao mesmo tempo e eu deveria estar morto, segundo os médicos. Tive hemorragia, concussão, por isso não quis viajar ou voar nos últimos anos. Estou melhor, embora eu ainda sinta os efeitos dos derrames (minha memória de curto prazo está comprometida). Mas estou me recuperando e quero voltar a viajar no ano que vem. 

Quero ir para a Índia, porque temos 40 médicos que estudaram Fundamentos lá e eles querem que eu dê um curso avançado. Depois tenho que ir para a Filipinas porque eles estão fazendo um trabalho ótimo com os indígenas. Provavelmente não vou dar aula lá, só quero ver como está esse trabalho. Então no ano que vem pretendo começar com os Estados Unidos e depois quero voltar para o Brasil e rever os alunos. Por enquanto estou em minha casa fazendo sessões à distância e tem sido ótimo porque estou usando as pessoas como cobaias para minhas novas técnicas [risos] e estou vendo ótimos resultados. Tem sido divertido. 


[1] Realizada 21 de abril 2020 por Zoom.

[2] Dr. John Veltheim é o fundador do BodyTalk System e da International BodyTalk Association. O Dr. Veltheim é quiroprático, acupunturista tradicional, filósofo, mestre de Reiki, professor e professor. O sistema BodyTalk foi desenvolvido pela primeira vez nos anos 90 pelo Dr. John Veltheim. Originalmente da Austrália, o Dr. Veltheim administrou uma clínica de muito sucesso em Brisbane por 15 anos. Ele também foi diretor da Faculdade de Acupuntura e Terapias Naturais de Brisbane por cinco anos Seus extensos estudos de pós-graduação incluem cinesiologia aplicada, psicologia bioenergética, osteopatia, física quântica, medicina esportiva, aconselhamento e filosofia e teologia comparadas. Biografia disponível em https://www.bodytalksystem.com/iba/professionals/details.cfm?id=381.

[3] VERENA KACINSKIS é psicóloga, Adv. CBP, CBI e pesquisa as várias formas humanas de se expressar. Produz cursos e conteúdos sobre a calma que surge quando organizamos nosso mundo interno em verenakacinskis.com e fala sobre receitas com plantas + intuição no projeto Minha Cozinha Virou Um Jardim.

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(link atualizado em maio 2021)

Ensaio poético “Sistema BodyTalk”

Cláudia Morum Xavier Lapa (1)

Sistema. Sistêmico. Partes em um todo. O todo.

Todas as vezes que falamos em partes, olhamos para o todo. As partes que formam o todo estando, cada uma, em seu próprio lugar. Nada falta. Tudo reverbera.
Tudo pertence e tudo completa. Tudo em seu próprio lugar.

Constelar. Conter lar. Constelação. Conter ação. Movimento e fluxo. Ir e vir sem fim.

O Eu, em si, é um sistema. Completo. Pleno. Pronto. E a caminho.

Eu, pronta e a caminho. Parto daqui.

Por que nos colocamos tanto a preencher espaços? Por que tendemos a excluir?
Se nós sabemos parte, por que queremos o todo? E se em nós mesmos somos todos, por que queremos partir?

Somos parte de um todo. Todos nós.
Somos plantados pela fonte da Vida lá no seio, no ventre, e ali somos acolhidos.
Ali, no ventre, passamos a pertencer.

Não fomos escolhidos. Fomos acolhidos.
E passamos a ser parte de um sistema, o familiar, onde pertencemos a um pai e a uma mãe.
Porque não existe pai sem mãe e não existe mãe sem pai.
Ambos pertencem. Em si. No todo.
Já não importa o que se dê entre esse homem e essa mulher. Soprada a vida, um pertence ao outro e ambos se tornam um só em cada célula do que brota, do que nasce. Vida renovada!

Por que tentamos partir?

Pertencemos! E passamos todo o tempo validando esse movimento. Sou.
Pertenço.
Incluo e então integro.

Entrego! Integro!
Integrado ao todo me faço completo, pleno e perfeito. Tudo que fui feito para ser.

Somos soprados pela vida em um momento de Encontro. Sopro. Vento.
Vida!

Existimos a partir de dois e, também por isso, mesmo únicos, somos plurais. Trazemos em nós mesmos os dois, o encontro, a integração. A pertença!

É como se selássemos em nossa existência a completude do Ser. Perfeitos!
Tudo que fomos feitos para ser.

Mas então… por que partimos?
O que nos leva a tentar quebrar as partes se podemos ser o todo, estar no todo? Pertencer!? Parte ser!

Todo ser humano busca pertencer. Talvez seja exatamente por termos existido a partir de um encontro que nos parece vital fazer parte. Mas se entendemos que não há como partir, usufruímos do todo e saboreamos. Ficamos. Não tentamos encaixar em outro espaço. Não precisamos do que é do outro. Porque em mim eu sou pleno.

Porque no que me cabe, eu caibo. E plenifico.

Nascemos pertencentes. Mas mesmo antes de nascer, já somos parte do sistema. Mesmo aqueles que viveram por um curto espaço de tempo, ainda no ventre da mãe, e morreram sem ver a luz deste mundo, pertencem.

Porque tudo que existe, morre. Completa. Porque mesmo quem não nasce morre, e existe. E ninguém deixa de existir porque morreu. Somos todos parte, para sempre. E ninguém muda isso. Nem a Vida. Nem a morte.

Então… por que ainda tentamos partir?

Somos parte. Todos. Da humanidade. Do sistema familiar onde nascemos. E de sistemas que constituímos.
Um, dois, às vezes três ou mais…
Encontros que se perpetuam porque passamos a pertencer um ao sistema do outro. Intercessões. Pertenças.

Não é possível excluir o que pertence. Porque cada parte é do todo. E não há parte que supere o todo. Nunca.
Em qualquer tempo ou lugar.

Por que tentamos excluir?
Por que teimamos em pertencer ao que não nos cabe?

Se existimos, pertencemos. E me pertencem. Os filhos são dos pais e os pais são dos filhos. Para sempre. Nada muda isso. Nem a morte. Nem a vida. Selados por um encontro, pertencemos.

Um encontro entre um homem e uma mulher. Onde ambos são inteiros e completam.
Momentos que se eternizam quando a Vida sopra.
Não há como separar.

Em mim, pai e mãe são um só.

Para sempre.
Um não é maior que o outro. Ambos são partes e juntos são
o todo. Um pertence ao outro, e mesmo que se despeçam como casal, permanecem sistema, e permanecem um em mim. Em cada célula minha. Células que são parte e formam o todo. E a vida segue em frente. Em pleno movimento. Plena. Serena. E soberana.

Assim a vida se dá. Plenificando encontros. Eternizando vidas que pertencem. Multiplicamos. Crescemos. Esparramamos sementes dos frutos colhidos dos que vieram antes. Vida continuada. Sou parte. Colho e semeio. E o que espalho será colhido pelos que vem depois de mim. Porque sou só uma parte do todo que existe desde muito antes e que pode ir em frente, a partir de mim e dos meus encontros. Porque pertenço e selo. Continuo. Permaneço viva naquele a quem dei, nos solos que semeei.

Nasço, cresço, frutifico. Multiplico. Pertenço em partes e ao todo. Participo de novos sistemas.
Trabalho, organizações… sistemas!

Com meu trabalho, sirvo. Me coloco a serviço da Vida, do mundo e da humanidade. Então, mais pertenço!
Como parte, sirvo ao todo.
Esparramo sementes. Multiplico. Mas permaneço um só. Uma parte, de um todo. É só o que posso ser. Parte. Plena. Inteira e íntegra.

E como parte, pertenço e me coloco a serviço. Dou continuidade e crio. Atividade. Movimento.
Sigo em frente.

A serviço da Vida. Dou. Recebo. Troco. Complemento. Colho. Contribuo.

Equilibro no dar e receber a continuidade da Vida plena. Vida que é.
Em mim, em você, em nós, a Vida é.
Plena. Sem complementos.

Se há luta, há luto. Perda. Falta. Exclusão. Negação. Ilusão.
Pertencente, pertence para sempre.
Flui. Em colher e semear. Usufruir. Compartilhar. Organizar. Se dar. E Ser.

E então, volto ao início desse momento. No tempo.

Sistema BodyTalk. Sistema. Pertenço? Pertenço!

Me dou! Coloco a serviço. Colho. Semeio. Observo. Compartilho. Multiplico. Organizo a mim ao estar no meu lugar. Como parte, sou do todo. Pertenço. Recebo. E na medida que dou e colho, sigo em movimento de pertença.
Com o que é meu. Colhendo do outro.
E, do que é meu, usufruo e plenifico.
E do outro, colho e sirvo.

Escuta, revista sobre BodyTalk, ed. 1, inverno, 2020 4

Vai e vem. Em movimento. Sempre pertencendo. Aceitando
da vida. Acolhendo. Fazendo a flor ser. Florescer.
Em mim. No outro. Em todo.
Como parte. A parte que só cabe a mim. E que plenifica o todo em mim. E no outro.

Porque como parte, eu fico. Mesmo se partir.

Então…
Já sou parte. E do meu próprio lugar só eu posso ver. Estar. Observar. Ser.

Pleno Ser. Um só. Único. Especial. Extraordinário!
Como são todas as outras partes que pertencem ao todo. E em todos pertencem.

Que venha o que é meu. Que eu possa fazer boas coisas com isso. Tomar do que o outro oferece. Agradecer. E então, a Graça Ser. Em abundância.

Como lá no princípio da Vida. Soprar. Mover. E ir em frente. Esparramar sementes. Colher frutos. Se dar. Receber.

E assim, a Vida segue em frente. Em movimento.
Plena.
Soberana.

Eu quando eu partir, no momento em que a vida se fizer completa em mim, eu vou em paz. E fico.
Fico nas sementes plantadas.
Fico na existência pertencente.

Tudo está em seu lugar.
A vida flui.
Criatividade. Continuidade. Intimidade.

Vida multiplicada.
Que segue em frente. Em cada parte. No eu, em você, em todos, no TODO.

Usufruamos!
Vida em abundância desde sempre, para sempre. É só colher!

Somos sistêmicos. Sou Sistema.

E isso é BodyTalk.

Cláudia Morum Xavier Lapa Maio de 2020

(1) Cláudia Morum Xavier Lapa é
. Psicóloga clínica (atendimento individual, casal e grupo)
. Consteladora
. Terapeuta BodyTalk CBP e PaRama (certificada pela IBA)
. Palestrante
61 999949791
@claudiamorumxavierlapa

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(link atualizado em maio 2021)

“BodyTalk como sistema, é sobre relacionar-se”

Nirvana Marinho (1)

Ao conhecer o BodyTalk como paciente, vivenciei a surpresa do bem-estar contínuo. Revisei crenças difíceis da mente racional, venho observando como se desprendem pouco a pouco e experimentei a força que emergiu para lidar com as decisões que a vida convida – ou impõe, depende do ponto de vista. Naquele tempo, não podia perceber o quanto essas melhorias estavam em relação: autocuidado, mente propositiva e serena e corpo pronto para realizar, decidir. Pouco a pouco, foi ficando nítido o quanto as sessões reverberam em mim, como um todo, sendo minha vida não mais em campos separados – profissão, afetos, família, sexualidade, dinheiro, sociedade – mas uma contiguidade.

Já conhecia os conceitos teóricos da Teoria Geral dos Sistemas, uma das precursoras do entendimento de complexidade e pensamento sistêmico, a partir do doutorado em Comunicação e Semiótica na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, em meados de 2002. Encontrar uma terapia que tem por base a teoria dos sistemas dinâmicos foi uma surpresa. Na pós-graduação, foi o Professor Jorge Albuquerque Vieira o anfitrião do pensamento sistêmico, cujos livros são extremamente inspiradores e ele é amplamente estudado no campo das artes.

Ademais de toda conceitualização densa, importante considerar que Jorge Vieira parte dos estudos de Mário Bunge (cuja data da publicação referência é 1979), cujos estudos focavam em compreender a ciência em sua complexidade chamada ontologia, ou seja, o que são as coisas, como as define, como
suas ações no mundo desenham modos de compreensão, ou seja, epistemologias. Esse emaranhado conceitual pode ser importante aqui para termos uma visão de como a teoria dos sistemas dinâmicas compõem a base filosófica e científica do BodyTalk.

Jorge Vieira, a partir de Bunge, nos conta em seu artigo “Organização e Sistemas” (2000), que ontologia é o estudo de conceitos – o que é – de substância, probabilidade, acaso, mudança, evento e processo, tempo e espaço, ou seja, questões que observamos na psique tal como se propõe o BodyTalk. Adverte mesmo que utilizamos tais conceitos sem termos parado para pensar o que eles realmente significam, pois isso depende da nossa visão de mundo. Por isso, vale ressaltar como é importante a revisão de percepção que Dr. John Veltheim, idealizador da abordagem, nos orienta quando é necessária uma visão não mais cartesiana, mas sim sistêmica do corpo-mente.

Ver corpo sob ponto de vista cartesiano é distinguir as partes e investir na mecânica de funcionamento, enquanto ver de forma sistêmica é observar as relações complexas entre as partes, às vezes visíveis, às vezes não, às vezes evidentes às vezes confusas ou não racionais, às vezes causais e muitas vezes não tão definidas assim em sua justificativa ou explicação racional, pois operam em níveis mais profundos do corpo-mente.

Jorge Vieira aprofunda ainda mais tais conceitos e torna-se aqui fundamental lembrarmos que, a partir de seu olhar sobre parâmetros sistêmicos, considerarmos que os sistemas observáveis são abertos e que suas propriedades fundamentais assim o estabelecem: segundo sua permanência, diante do seu ambiente, e dada sua autonomia. Isso quer dizer que “todas as coisas tendem a permanecer”; “sistemas trocam energia, matéria e informação com outros sistemas”, portanto o fazem em seus ambientes entrelaçados; e que os estoques armazenados ao longo do tempo se acumulam e criam uma narrativa (ele diz uma característica discursiva). Daí nascem sua função de memória, fundamental ao sistema. O autor ainda falará, neste artigo, sobre os parâmetros evolutivos, dentre eles a complexidade, cuja derivação é a reflexão sobre auto-organização.

No entanto, vejamos, por hora, como tal desenho teórico pode nos ajudar na dinâmica do BodyTalk. Vale pontuar que a teoria geral dos sistemas é uma das teorias sistêmicas clássicas que puderam problematizar as teorias que se seguiram, como a teoria dos sistemas dinâmicos. O que se assemelha aqui é o pensamento sistêmico em questão.

A contribuição fundamental do pensamento ontológico a que se baseia a teoria geral dos sistemas, pautando grande parte do pensamento sistêmico, é olhar os movimentos como sistemas abertos, buscando sua complexidade, pois para permanecer, trocar, armazenar – ter memória e narrativa, os sistemas buscam auto-organização.

Isso seria, justamente, uma das bases fundantes do BodyTalk. No meu entender, esse diálogo interteórico e prático – no pensamento científico atual e este aqui pensamento terapêutico do corpo-mente – é justamente essa compreensão dos sistemas abertos, sua complexidade e auto organização que fazem o BodyTalk ser como é: uma prática de escuta, prezando pela prioridade, observando vínculos e lendo a complexidade vinda do que chamamos de Inato.

Sistemas dinâmicos e BodyTalk

Dr John pontua em vários de seus escritos a relação entre a teoria dos sistemas dinâmicos e o BodyTalk. Vejamos algumas das citações:

No artigo de 2012, “BodyTalk: the journey”, ele cita:

“O sistema BodyTalk é baseado em alguns princípios diferentes que envolvem ciência (inclusive a física), filosofia, técnicas e fórmulas para usar medicina alternativa científica e segura e eficaz. (…) A principal base do sistema BodyTalk básico é a Teoria de Sistemas Dinâmicos. Esse modelo científico existe há mais de 40 anos e é maravilhosamente explicado por cientistas, como Fritjof Capra em seus escritos” (Veltheim, 2012, 279)

Escuta, revista sobre BodyTalk, ed. 1, inverno, 2020 4

“Eu sempre entendi completamente que (…) toda a energia do
universo era uma série ou coleção de matrizes morfogênicas que estão todas inter-relacionadas e interdependentes. Isso significa que o único sistema que faz total sentido para mim é a teoria de sistemas dinâmicos. O autor, Fritjof Capra, tem uma influência profunda no meu pensamento em seu livro, “O Ponto de Mutação”. (Veltheim, 2012, 283)

No livro “The Science and Philosophy of BodyTalk – Healthcare designed by your body” (2013), o capítulo 4 explica sobre “A sabedoria inata” e sua aplicação prática e cita:

“Para facilitar a condução de uma sessão do BodyTalk, é utilizada uma abordagem da teoria de sistemas dinâmicos. Isso significa que um protocolo para o cérebro esquerdo é estabelecido para que todo o conhecimento essencial da função da mente-corpo possa ser consultado, como um blueprint. No BodyTalk SystemTM, esse blueprint é incorporado ao Protocolo de Atendimento que reconhece as informações acumuladas de todos os níveis da mente corporal, desde a anatomia física, os corpos energéticos e a consciência localizada”. (Veltheim, 2013, 45)

No livro, “The BodyTalk System”, o capítulo 4 sobre “Reestabelecer a comunicação”, ele comenta:

“Através da Teoria dos Sistemas Dinâmicos, todos os ramos da medicina alternativa têm o potencial de desenvolver uma estrutura teórica sólida para trabalhar com o corpo como um sistema de energia. A Teoria dos Sistemas Dinâmicos também ajuda bastante a explicar as nuances do relacionamento entre o corpo e a mente, particularmente em relação à cura pela energia. As diversas e controversas descobertas e observações do sistema energético humano são finalmente explicáveis em termos relativos”. (Veltheim, 1999: 23)

Outra maneira de contextualizar Teoria dos Sistemas Dinâmicos é visitar fontes bibliográficas como Fritjof Capra, autor muito citado por Dr. John Veltheim como inspiração para sua visão do corpo-mente, de forma sistêmica. Em “A visão sistêmica da vida – uma concepção unificada e suas implicações filosóficas, políticas, sociais e econômicas”, Fritjof Capra diz:

Escuta, revista sobre BodyTalk, ed. 1, inverno, 2020 5

“As principais características do pensamento sistêmico emergiram na Europa durante a década de 20 em várias disciplinas. Os pioneiros em abordar o pensamento o pensamento sistêmico foram os biólogos, que enfatizaram a visão dos organismos vivos com totalidades integradas. Posteriormente, ele foi enriquecido pela psicologia da Gestalt e pela nova ciência da ecologia, e teve talvez os seus efeitos mais dramáticos na física quântica”. (Capra, 2014: 93)

Importante ressaltar que a chamada Teoria dos Sistemas Dinâmicos é também conhecida como “teoria dos sistemas não lineares” e é pautada no arcabouço matemático coerente que só foi possível com o avanço da matemática das décadas de 80 e 90. Capra comenta:

“A visão dos sistemas vivos como redes auto organizadoras cujos componentes estão, todos eles, interconectados e são interdependentes tem sido expressa repetidas vezes, de um maneira ou de outra, ao longo de toda a história da filosofia e da ciência. No entanto, modelos detalhados de sistemas auto organizadores poderiam ser formulados só muito recentemente, quanto se tornaram disponíveis novas ferramentas matemáticas que permitiram aos cientistas, pela primeira vez, descrever e modelar matematicamente a interconexidade fundamental das redes vivas”. (Capra, 2014: 134)

A teoria da complexidade surge nesse contexto. Sendo uma espécie de “mãe” do pensamento não linear, filosofia e matemática confluem na compreensão e descrição de relações e padrões de fenômenos não lineares, sobretudo aqueles dos seres vivos. Assim, tornou-se possível uma mudança de perspectiva do próprio pensamento sistêmico.

Assim também parece ser com a terapia sistêmica e integrativa do BodyTalk. Quando o que chamamos de fórmula – de prioridades e vínculos – na prática terapêutica permite a observação da não linearidade das histórias por detrás dos sintomas – é isso que muda completamente a visão de saúde sistêmica e medicina integrativa.

Escuta, revista sobre BodyTalk, ed. 1, inverno, 2020 6 BodyTalk como sistema

Dada tal contextualização, sabemos que o BodyTalk convida o corpo-mente à observação e escuta de suas prioridades baseadas na sabedoria inata do corpo. E isso tem a habilidade de trazer auto-organização, homeostase, saúde e consciência, o que expande sua complexidade e revela a dinâmica sistêmica que o caracteriza. A questão é: como isso acontece? Compreender como a teoria dos sistemas dinâmicos pode nortear tamanha complexidade no atendimento terapêutico, assim como as implicações desse olhar. Essa é nossa tarefa maior neste artigo.

A observação é uma das chaves da prática do BodyTalk. Conceitualmente apoiada na física quântica, a relação entre observador e observado é, na verdade, a percepção de como se influem mutuamente. É da característica dinâmica dos sistemas a vontade de conhecer seus movimentos, seus fluxos, seus ritmos, suas tendências. Se o sistema é dinâmico e aberto, seus movimentos serão conhecidos a medida em que o sistema se faz ele próprio. Assim, parece ser o corpo-mente em relação ao ambiente e, portanto, de certa forma, o processo terapêutico que o BodyTalk convoca. Observação é uma prática na qual nem prévio julgamento e nem dados a priori estão em pauta, pois é no acontecimento que a sessão se revela.

Dr John Veltheim deduziu que, uma vez uma qualidade de observação dada, o sistema aberto e vivo tende a sua organização não por sequenciar sua complexidade, ou seja, o corpo no BodyTalk não é uma leitura linear; tende a sua organização justamente porque é um sistema dinâmico, ou seja, suas partes não tem uma relação causal – não olhamos o sintoma para determinar um diagnóstico – nem olhamos para o sintoma nele mesmo mas nas suas relações complexas possíveis – ao que podemos chamar das várias técnicas que compõem o sistema integral. O que chamamos de fórmula no BodyTalk é sistêmico porque se revela na medida em que uma prioridade é estabelecida.

Isso nos leva a perceber que uma das peculiaridades do sistema BodyTalk é que a complexidade do corpo está em não diminuir ou elevar nenhuma história que

Escuta, revista sobre BodyTalk, ed. 1, inverno, 2020 7

aparece em sessão – não tem nada mais importante do que o
vínculo, a relação, as formas de coesão que, se ressignificadas, podem ganhar novas dinâmicas. E uma das características dessa dinâmica é a coerência, ou seja, o que realmente faz sentido, ao que chamamos de consciência. Não é uma mente que ordena o que é mais importante, porque isso seria uma forma de ordenação linear de um conjunto de fatores.

Sistema assim tem a tarefa de nos fazer repensar as relações complexas. Uma das implicações terapêuticas é de considerar a sessão como um sistema complexo, considerar a relação entre terapeuta e paciente com outras variáveis que deixa ambos abertos ao que virá.

Dessa maneira, a dinâmica sistêmica do BodyTalk é, em certa medida, em busca da homeostase, ou seja, do funcionamento do corpo e de suas potencialidades tal como são: nem estagnados na doença, nem apegados a sua história, mas em constante movimento porque justamente são lidos como sistemas abertos e complexos. Isso inclui os seus desequilíbrios como forma provisória de equilíbrio, o que abre uma longa jornada para entender a aceitação vinda do coração. Isso inclui também considerar que seus desequilíbrios não podem ser a submissão à doença ou à crença, mas, ao contrário, é um convite ao enfrentamento saudável.

A principal implicação do BodyTalk ser tido como uma prática sistêmica é justamente a possibilidade de observá-lo em sua complexidade e em constante dinâmica de coerência. Isso que o caracteriza como uma medicina integrativa singular. Saúde, do ponto de vista sistêmico, exige de nós a auto responsabilidade do olhar, da empatia e da atenção plena da mente.

Nirvana Marinho Março 2020

(1) Graduada em Dança (1999, UNICAMP), Doutora em Comunicação e Semiótica (2006, PUC-SP), terapeuta certificada de BodyTalk (CBP, desde dez 2015), atua em São Paulo. Atualmente tem como principais iniciativas e projetos com BodyTalk: estudos para implementação de BodyTalk nas Escolas, Grupo de estudos Mindscape – inclusive voltado a jovens estudantes, idealizadora e parte da Comissão Editorial do periódico sobre BodyTalk “Escuta” com Verena Kacinskis, idealizadora das entrevistas BodyTalkers falando de BodyTalk e pesquisadora da cartografia “BodyTalk no Brasil: cartografia de caminhos possíveis” com Ana Marcela Sarria e Daniele Pires, organizadora das Sessões de Matriz BodyTalk Br (nov 2019-2020) e idealizadora e pesquisadora da atual Estudo de Caso Coletivo sobre Articulações. Em tempo, concluiu seu treinamento para tornar-se Instrutora de BodyTalk Acesso em junho 2020 e é uma das coordenadoras do projeto comunitário BodyTalk Covid. Email: nirvana.bodytalk@gmail.com. Site: http://www.corpoconsciencia.net.

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(link atualizado em maio 2021)

“A relação do livro “O ponto de Mutação” e o BodyTalk”

Luciano Flehr (1)

“Os novos conceitos em física provocaram uma profunda mudança em nossa visão do mundo: passou-se da concepção mecanicista de Descartes e Newton para uma visão holística e ecológica, que reputo semelhante às visões dos místicos de todas as épocas e tradições”. CAPRA, F., 1983:15

Com esta introdução adentramos no livro de Fritjof Capra, O ponto de mutação, que traz dados detalhados da evolução da física, da biomedicina, da psiquiatria ao longo dos anos. O livro é rico em detalhes sobre nomes e datas de acontecimentos no mundo da ciência, vem num crescente sobre a visão de Descartes, sobre o olhar mecanicista (que separava matéria e mente) da ciência, fazendo uma ponte com a visão de Newton, que aprofundou esta visão com seus cálculos matemáticos e uma base de tradições esotéricas, trazendo um pouco mais de substância para a visão mecanicista. Passa o olhar pela física moderna de Albert Einstein, mostrando que o seu trabalho foi de grande relevância, porém, não conseguindo fazer a interconexão entre matéria/mente/energia. Deixando este legado para a teoria quântica. Vamos focar na parte sobre a visão do livro que fala sobre saúde, terapias e técnicas holísticas e integração com o conceito sistêmico de tratamento.

No capítulo sobre Holismo e Saúde, traz um aprofundamento pelas diversas técnicas e terapias aplicadas há milênios. Iniciando pela avaliação do Xamanismo, sua importância dentro do contexto social e ambiental. Mostra o quão profundo é a Medicina Tradicional Chinesa, explicando o conceito de Yin e Yang, falando um pouco sobre os cinco elementos, que ele considera ser mais correto dizer “Cinco Fases”, trazendo a ideia de que o organismo humano é um microcosmo do universo e que é influenciado por eventos estressantes nas esferas psicológica e social, que impactam de forma reconhecida para a formação de doenças.

Percorre a medicina no Japão e mostra que lá há uma tendência a unir o conhecimento da Medicina Tradicional Chinesa com a medicina ocidental, criando assim uma denominação de Medicina tradicional do leste asiático, um sistema eficiente de assistência médica. Lá eles se interessam pelo conhecimento subjetivo,

que consideram tão valioso quanto o pensamento dedutivo racional.
Capra comenta que na medicina a intuição e o conhecimento subjetivo deveria ser usado por todo bom médico, porém não é validado e nem tem o reconhecimento na literatura profissional e nem é estimulado nos ensinos das escolas médicas. Em nenhum momento o livro se posiciona contra a medicina Hipocrática ocidental, mas nos mostra que deveria tomar um outro rumo, com relação à visão que tem do “doente e da doença”. Capra também traz a importância da inserção do trabalho de psicologia para acompanhar a pessoa que está adoentada, porque pela visão sistêmica, a parte emocional e social trás uma influência tamanha no adoecimento ou cura do indivíduo. O livro nos leva pelo campo da homeopatia, informando que a origem da filosofia desta terapia remonta aos ensinamentos de Paracelso e Hipócrates, tendo o sistema terapêutico formal fundado no final do século XVIII por Samuel Hahnemann. Trazendo o princípio que a finalidade da homeopatia é estimular os níveis de energia da pessoa. Através da identificação dos padrões de vibração do indivíduo e dos problemas, apregoa o princípio de que o semelhante cura o semelhante. Usando uma afirmação e colocação de George Vithoulkas, o maior expoente da nova homeopatia, podemos colocar que a relação entre o paciente e o homeopata/terapeuta, é uma interação íntima para ambos. “Não há como ser um mero observador passivo, é preciso haver esta interação, para que ocorra o crescimento tanto no profissional quanto no Paciente/Cliente” (CAPRA, F., 1983: 334).
Neste capítulo sobre Holismo e terapias, encontramos conhecimento sobre as técnicas de Wilhelm Reich, sobre a terapia Reichiana, que fala das couraças musculares. Nos mostra sobre a importância da meditação e relaxamento e o quanto a respirar correto é importante para manter os padrões de equilíbrio do corpo-mente. Vai discorrendo sobre as outras técnicas como Quiropraxia, Bioenergética, Técnica de Alexander, Feldenkrais, Rolf. Menciona que todas essas abordagens se baseiam na noção Reichiana de que “a tensão emocional se manifesta na forma de bloqueios na estrutura e no tecido musculares, mas diferem nos métodos empregados para desfazer esses bloqueios psicossomáticos” (CAPRA, F., 1983: 339).
O capítulo leva a entender que o conceito e princípio de saúde não deveria ser separado da integração com o ambiente, corpo-mente e campos energéticos. E faz análises e observações para mostrar que para ocorrer esta integração, precisamos ter uma visão sistêmica do universo a nossa volta. “A nova visão da realidade, de que vimos falando, baseia-se na consciência do estado de inter-relação e interdependência essencial de todos os fenômenos – físicos, biológicos, psicológicos, sociais e culturais” (CAPRA, F., 1983: 259).

Necessita-se ter clareza que os sistemas estão interligados, que os genes, não são os determinantes, exclusivos do funcionamento de um
organismo e que são partes integrantes de um todo ordenado e, portanto, adaptam-se à sua organização sistêmica.
E que todo ordenado é este? Capra cita a auto-organização, dividida em auto renovação e auto transcendência (capacidade de se dirigir criativamente para além das fronteiras físicas e mentais, nos processos de aprendizagem, desenvolvimento e evolução), e que estes princípios trazem uma dinâmica para a auto-organização do organismo. Mas, também nos mostra o quanto complexo é manter um organismo em equilíbrio. Isto nos leva a um entendimento de variáveis nos quais os sistemas estão inseridos. Questões ambientais, sociais, culturais, emocionais e constitucionais do corpo. É importante perceber que a dinâmica do corpo, não está restrita somente a ele. Precisamos ampliar nossa mente e percepção dessa visão sistêmica. Perceber o quanto o fator ambiental, tem um impacto tremendo sobre as reações químicas e emocionais e consequentemente físicas em nós.A influência do ambiente no nosso corpo/mente, foi bem explicada no livro A Biologia da Crença de Bruce H. Lipton, Ed. Butterfly, e Capra a descreve nesta frase de forma precisa “Cada criatura está, de alguma forma, ligada ao resto e dele depende”.


Ele nos mostra que se faz urgente trazer esta visão para as atividades de saúde: médicos, psicólogos, enfermeiros. O Ser não deve ser dividido, ele está integrado, não só em si, mas com tudo. Para ilustrar: “Do ponto de vista sistêmico, a vida não é uma substância ou uma força, e a mente não é entidade que interage com a matéria. Vida e mente são manifestações do mesmo conjunto de propriedades sistêmicas, um conjunto de processos que representam a dinâmica da auto-organização” (CAPRA, F., 1983: 284).
No livro, Capra descreve que esta auto-organização pode ser denominada com o termo Sabedoria Inata do corpo-mente. Neste ponto chegamos ao BodyTalk. A técnica do BodyTalk é denominada sistema de tratamento, porque o criador da técnica John Veltheim, tendo o livro O Ponto de Mutação, como uma de suas referências, conseguiu sintonizar com o princípio da visão sistêmica. No BodyTalk tudo está interligado. Parte física, emocional, ambiental, energética, cósmica. Trazendo fortes bases na Medicina Tradicional Chinesa e filosofia Vedanta, o BodyTalk se destaca por acessar a Sabedoria Inata do cliente para que possamos restabelecer o equilíbrio das energias, das emoções, influências ambientais, corpo físico e mente. John conseguiu unir os fundamentos da Medicina Tradicional Chinesa, Medicina Ocidental tradicional, pela anatomia e fisiologia do corpo, Yoga, Cinesiologia, Física Quântica e Bioenergética, formando um sistema de tratamento Sistêmico. Aonde tudo está interligado. Não deve haver separação, o Ser não é uma máquina fria, estática. Há uma dinâmica e interligação. Partindo do princípio de que o Sistema Corpo-
mente tem o poder de se auto curar, o Sistema BodyTalk acessa as informações através de um sistema de perguntas e respostas de biofeedback, para que possa restabelecer as diversas comunicações necessárias para se desfazer o estresse instaurado no corpo. Capra traz uma definição para estresse: “O estresse é um desequilíbrio do organismo em resposta a influências ambientais” (CAPRA, F., 1983: 317).
Como falei anteriormente, já é sabido hoje que o ambiente influencia grande parte das desarmonias que acontecem no individuo. Nossos genes vêm com todos os marcadores para adoecermos, o que faz para que um desses marcadores seja ativado, é sua reação ao ambiente e vice-versa. Na visão sistêmica, do sistema BodyTalk entendemos esta influência e através de um olhar cuidadoso e intuitivo do terapeuta, vamos acessando as informações nos detalhes, nas dinâmicas de como aquele indivíduo lida com estas oscilações. Para que através da técnica possamos restaurar o equilíbrio ou como citado no livro a capacidade de auto-organização do corpo-mente.
Transcrevo aqui algumas citações do livro O Ponto de Mutação, que fiz um paralelo com o Sistema BodyTalk, por se tratar de uma terapia que traz e incorpora esta visão Sistêmica para o Ser.

“Ser saudável significa, portanto, estar em sincronia consigo mesmo – física e mentalmente – e também com o mundo circundante” (CAPRA, F., 1983: 317).

“A doença pode ser física ou mental, ou manifestar-se como comportamento violento e temerário, incluindo crimes, abuso de tóxicos, acidentes e suicídios, a que se pode licitamente dar o nome de doenças sociais. Todas estas “vias de fuga” são formas de saúde precária, sendo a doença física apenas uma das numerosas formas patológicas de enfrentar situações estressantes na vida” (CAPRA, F., 1983: 319).

“É fato que o estresse prolongado anula o sistema imunológico do corpo e suas defesas naturais contra infecções e outras doenças. O pleno reconhecimento desse fato ocasionará uma importante mudança na pesquisa médica, fazendo com que ela deixe de lado a preocupação com microorganismos e passe a estudar cuidadosamente o organismo hospedeiro e seu meio ambiente” (CAPRA, F., 1983: 318).

Luciano Flehr Junho 2020

(1) Formado em Medicina Chinesa pelo Instituto de Acupuntura do Rio de Janeiro, Reiki I e II, Silva Mind Control, MindScape I e II , BreakThrough, tem todos os módulos do BodyTalk Prático e Avançado, Formação em Parama I e II. Foi organizador do curso de BodyTalk entre 2005 a 2007. Trouxe a Dra Janet Galipo para o primeiro curso de BodyTalk em Belo Horizonte em 2006. Atua com o BodyTalk há 16 anos. Email: lucianoflehr@gmail.com. Site: http://www.lucianobodytalk.com.

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(link atualizado em maio 2021)

“BodyTalk no Brasil: uma cartografia de caminhos possíveis”

Ana Marcela Sarria[1]

  Como traçar o caminho de um sistema? Se partimos da percepção de que um sistema é necessariamente um conjunto de caminhos em movimento, cíclicos em sua natureza, nos deparamos com fenômenos pouco rastreáveis, que não cabem em mapas e não serão contidos em esquemas delimitados. Aprendemos sobre essa interdependência e multifatorialidade característica dos sistemas em outros artigos desta edição, especialmente aquela que se refere ao livro “O Ponto de Mutação” (CAPRA, 1982), e vemos como estas características são perceptíveis tanto em organismos vivos, quanto em dinâmicas sociais e coletivas. É levando em consideração essas premissas que nos propomos aqui a traçar caminhos percorridos pelo Sistema BodyTalk ao longo de sua presença no Brasil. São, conforme apontamos de partida, olhares sobre alguns caminhos possíveis de como este sistema vem se constituindo ao longo de 17 anos de presença nestas terras, através de algumas pessoas que criaram esta história.

  Traçando caminhos para além de um de mapa único, propomos o olhar de cartografia, que considera como premissa o caráter dinâmico e mutável daquilo que é observado, além da produção conjunta do conhecimento que compõe essa observação (CAVAGNOLI; MAHEIRIE, 2020; SADE; FERRAZ; ROCHA, 2013). Este artigo apresenta alguns elementos de um percurso trilhado conjuntamente por muitos terapeutas de BodyTalk, a partir da pergunta “como o BodyTalk entrou na sua vida, e o que aconteceu a partir disso”. A pesquisa cartográfica, cuja metodologia é apresentada na próxima seção, resultou em um material gráfico que faz parte desta publicação (https://bit.ly/cartografiabodytalkbr), e reúne de maneira esquemática e sensível as principais informações resultantes da análise de entrevistas com trinta terapeutas. Existe um foco, na parte gráfica, em apontar os principais pontos cronológicos e conceituais apreendidos na pesquisa, e também de apresentar aspectos básicos do sistema BodyTalk a pessoas que não o conhecem de dentro. Nesta escrita, nos propomos a apresentar de maneira mais detalhada o percurso trilhado para chegar a essas informações, e os principais aprendizados percebidos.

  A primeira seção é costurada pela proposta metodológica, e traz algumas reflexões sobre o corpo que compõe esta pesquisa, ou seja, o processo de “encontro” dos terapeutas que a compõem, apontando as importâncias de seu envolvimento nesse processo. Na segunda e última seção, são apontadas as principais categorias de análise percebidas no conjunto de respostas das entrevistas, que não serão aprofundadas neste artigo por falta de espaço, mas que ficam como pistas de possíveis sequências, e evidência da riqueza do material aqui analisado[2].

Do corpo da pesquisa – ou o quê faz uma cartografia?

  Esta pesquisa nasceu sem se saber projeto de pesquisa: surgiu da curiosidade de uma terapeuta de BodyTalk que, depois de quatro anos inserida no sistema, sentiu necessidade e impulso de conhecer mais sobre seus colegas e sobre o conjunto de possibilidades que vislumbrava em seu trabalho. Em abril de 2019, Nirvana Marinho lançou uma proposta num grupo virtual de amplo alcance formado por terapeutas de BodyTalk de todo o Brasil, um convite aberto para quem quisesse ser entrevistado sobre como este sistema de saúde entrou nas suas vidas. A entrevista seria feita em vídeo para poder ser publicizada na internet, “com o objetivo de divulgar nosso lugar de fala, nosso lugar de terapeutas, nosso lugar de responsabilidade” (MARINHO, 2019), conforme o chamado original do projeto.

  Na medida em que as entrevistas foram sendo realizadas e publicadas com o nome “BodyTalkers falando de BodyTalk”[3] foi se dando a percepção de um corpo já existente que vai se sabendo consciência, trazendo à tona uma multiplicidade de olhares, e ao mesmo tempo tecendo novas relações e entramados sobre esta prática. Ao longo dos meses, a proposta toma novo rumo e se volta para as origens do sistema no Brasil, formando a série de entrevistas nominada “BodyTalkers falando de BodyTalk: nossa história”[4]. Ao perceber a riqueza do conteúdo das trinta entrevistas realizadas nesta empreitada, Nirvana Marinho mobilizou seu olhar prévio de pesquisadora em comunicação[5] com o propósito de sistematizar as informações num formato cartográfico. Convidou as colegas Ana Marcela Sarria e Daniele Pires, ambas terapeutas de BodyTalk e com experiência em pesquisa na área de ciências sociais e antropologia[6], para colaborarem com seus olhares para um processo de sistematização das informações.

  A escolha pelo método cartográfico não se refere apenas à forma de apresentação dos resultados de pesquisa, mas sobretudo ao seu processo de construção. Assim, percebemos que ele já estava presente na realização das entrevistas e se faz pertinente com a proposta ao ser uma das “formas de pesquisar preocupadas com a processualidade e implicadas nas transformações que a investigação pode deflagrar” (CAVAGNOLI; MAHEIRIE, 2020, p. 65). Ou seja, desde sua concepção teórica a cartografia se propõe a acompanhar processos em movimento, construindo conjuntamente com as pessoas implicadas num certo campo de sentidos compartilhados, e sabendo que o simples observar e investigar estará gerando transformações no campo e nas pessoas envolvidas. Outra dimensão importante do percurso cartográfico é a dimensão política que ele supõe, no sentido de potencialidade das interações sociais, “quando são verificáveis movimentos capazes de criar brechas nos modos de apresentação do real, que engendrem novas configurações ao pensamento e ao campo de experiências”[7].

  Para a escrita deste artigo, Ana Marcela entrevistou Nirvana, num convite para revisitar o caminho que levou às entrevistas e o percurso trilhado ao longo de suas realizações. Ao refletir sobre o processo, Nirvana apontou o quanto inicialmente partiu de uma curiosidade aparentemente individual, porém ao longo do tempo percebeu o quanto a busca por essas informações e por essas conexões entre terapeutas atendia também a um interesse coletivo, e também nesse sentido também político, de maior compartilhamento e ampliação da autopercepção do nosso próprio valor. 

a minha impressão é que ao se dar a força para o estado de partilha, muitas coisas puderam acontecer. Notadamente eu percebi nesse tempo como os terapeutas começaram a se sentir ouvidos e valorados. E não é por mim, é pelo próprio movimento. As pessoas começaram a se tornar mais autorais no seu jeitinho de fazer. Então tem o Instagram de um, de outro, site de um, cada um faz de um jeito. Essa pipocagem de expressões, de autonomias, de subjetividades. […] Eu acho isso de uma beleza infinita, e eu acredito que isso é política: as pessoas poderem partilhar. (MARINHO, 2020)

  Outro aspecto central do método cartográfico surge aqui como pista para a compreensão da importância desta pesquisa: a construção de, e a partir da confiança. Tanto no processo de surgimento das entrevistas, temos a confiança depositada por Nirvana em que os colegas responderiam ao chamado, quanto nessas respostas temos a confiança dos terapeutas de BodyTalk em uma iniciativa onde teriam que, de certa forma, se expor e se entregar a uma experiência desconhecida. Este é um elemento central para a potência criativa surgida com esta iniciativa, já que, como sugerem Sade, Ferraz e Rocha:

“Confiar na potência de um encontro não se confunde com a ideia de completude, identidade ou convergência de interesses e finalidades. Não se trata de confiar em um resultado específico. As alianças fundadas na confiança não se sustentam na identidade de um estado de coisas ou de representações de um futuro, mas em zonas de indeterminação que nos lançam em trajetórias inventivas.” (2013, p. 285)

  Dessa inventividade, foi surgindo uma interação entre colegas, mesmo que virtualmente. O fato de as entrevistas ficarem disponíveis na plataforma do YouTube, e serem publicizadas via redes sociais, levou a que diversos terapeutas assistissem uns aos outros, conhecessem melhor o trabalho dos colegas, se vissem refletidos nas práticas descritas e quisessem acrescentar seu próprio olhar a esse mosaico coletivo que foi se configurando ao longo de alguns meses. Ainda olhando para a dimensão da confiança, a pergunta geradora “como o BodyTalk chegou na sua vida” trouxe também a característica de maior intimidade e autoria para as abordagens suscitadas nas entrevistas, expandindo explicações que poderiam ser técnicas e trazendo de maneira potente o aspecto vivencial deste sistema terapêutico. As reverberações disso se fizeram notar num processo observável nas falas que remetem a uma maior valorização de si, do seu trabalho, um auto-reconhecimento e também um reconhecimento à potência do próprio sistema terapêutico. Vemos, portanto, como: “com a confiança a nossa potência de agir excede aquilo que conhecemos, e, por isso, ela é condição de todo ato de criação. […] Promove, assim, a atualização de forças inéditas no nosso campo de consciência, e, ao mesmo tempo, novas possibilidades de ação.” ( SADE;  FERRAZ; ROCHA, 2013, p. 285-286).

  Percebemos um reflexo relevante dessas “novas possibilidades de ação” especialmente no surgimento da segunda etapa das entrevistas, que pode ser percebida na playlist específica subtitulada “Nossa História”.  De certa forma, as primeiras já vinham trazendo aspectos históricos relevantes, já que ao sermos convidados a contar como chegamos ao que fazemos hoje, frequentemente conectamos com uma versão da sequência de eventos e relações que nos possibilitou essa experiência. No entanto, a maioria dos terapeutas que vinham sendo entrevistados até então tinham entre dois e dez anos de prática como BodyTalkers, sendo que o sistema chegou pela primeira vez ao Brasil em 2003. No final de julho de 2019, participando de um curso de integração de módulos avançados, Nirvana Marinho teve uma experiência com alguns colegas que lhe chamou a atenção para a importância de conhecer melhor a trajetória histórica do BodyTalk no Brasil.

  Neste ponto, cabe ressaltar um aspecto importante, que é a pulverização com a qual estão distribuídos os terapeutas deste sistema. As formações no Sistema BodyTalk acontecem de maneira não sistemática em algumas grandes cidades do país, de acordo com a disponibilidade de instrutores estrangeiros e, até recentemente, um único instrutor brasileiro. O percurso de formação no sistema, apesar de cumprir um processo bem definido para certificação de terapeutas, se dá de maneira muito livre em termos de ritmo de realização dos cursos e de nível de aprofundamento nos níveis mais avançados. Isso significa que cada pessoa define, a partir de suas próprias demandas, quando fará os cursos, em quanto tempo e como incorporará o BodyTalk em sua prática profissional. Além disso, apenas no ano de 2019 surgiu a Associação Brasileira de BodyTalk (ABBTS), como uma sucursal local à Associação Internacional de BodyTalk (IBA, por sua sigla em inglês), portanto até então não havia uma instância formal de reunião e articulação de terapeutas desta prática.

  Portanto, fatores como:  fluxos de ofertas da formação desde a realização do primeiro curso oferecido; a extensa distribuição geográfica do país; e a ausência de uma política institucional de comunicação entre terapeutas, levaram à existência de diferentes gerações, com pouco contato entre si. Num trabalho de resgate dessa história, a estratégia de convite para as entrevistas, que num primeiro momento se deu por livre adesão de quem se sentisse convidado, passou a ter uma intencionalidade na busca por alguns elementos históricos sobre o sistema BodyTalk no Brasil, indo então por indicação de colegas nomeando uns aos outros nesse re-tecer de uma teia.

  Longe da pretensão de contar “A” história do BodyTalk no Brasil, como se existisse algo único com esse nome, esta lista de 13 entrevistas nos brinda com informações valiosas sobre as redes de afeto que permitiram a expansão do sistema em diferentes cidades, as conexões estabelecidas através de trajetórias pessoais que transitam também fora do país, e as maneiras como pequenos grupos de terapeutas mantiveram seus estudos e suas práticas localmente, notadamente no Rio de Janeiro, Brasília e Belo Horizonte. E para além desses aspectos, é também como se pudéssemos reconhecer mais uma camada de complexidade daquilo que nos dá base, num acúmulo de informações, experiências e conhecimentos existente para seguir expandindo nas novas etapas que vão surgindo num sistema complexo e em expansão.

Dos resultados e possibilidades de análise a partir das entrevistas

  Nesta seção trazemos alguns dos temas que aparecem como recorrentes e significativos nos olhares trazidos nas entrevistas, sistematizando de maneira breve os principais achados percebidos. Como parte do processo de elaboração do material gráfico de apresentação esquemática da cartografia, foi realizado um processo de análise da série “Nossa história”, que resultou em 35 temas chave que encontravam ressonância em diferentes entrevistas. Estes temas podem ser reunidos em quatro categorias de análise principais, que denominamos: aspectos da história e coletividade de terapeutas; relação dos terapeutas com o sistema; potencialidades e características percebidas pelos terapeutas; conceitos e procedimentos do sistema. Apesar do foco analítico mais minucioso na série histórica, consideramos que podemos generalizar muitas destas informações para a totalidade das entrevistas realizadas, já que todas foram assistidas e consideradas de certa forma, e trazem elementos em comum, que se complementam.

  A partir da recuperação histórica realizada nas entrevistas, vemos que o BodyTalk chegou no Brasil em 2003, com a vinda da instrutora estadounidense Janet Galipo ao Rio de Janeiro, ministrando uma palestra e um curso, com tradução simultânea, organizados a partir da relação entre pessoas que conheciam o sistema por terem vivido na Flórida, onde se encontra a sede da IBA. Graças à boa receptividade das pessoas que participaram, e pela característica dos cursos de estarem concentrados em poucos dias, foi possível que, a partir daquele ano, os cursos seguissem acontecendo periodicamente, na medida em que se ampliou o interesse pela prática. Através da rede de terapeutas que foi se formando, em 2006 aconteceu o primeiro curso dos módulos básicos – os Fundamentos – em Belo Horizonte, e em 2009 em Brasília. Além da ampliação de alcance geográfico, aconteceu também uma diversificação dos instrutores que vieram ao país e a oferta de diferentes módulos avançados. Vale a pena chamar a atenção também para a vinda do fundador do sistema, John Veltheim, que esteve no país em 2007 e 2009, oferecendo cursos e ministrando palestras de amplo alcance no Rio de Janeiro, Brasília e Recife. Nas cidades mencionadas até agora, também se mantiveram iniciativas de grupos de estudos autônomos e algumas ações voluntárias de implementação do BodyTalk em espaços de saúde e em projetos sociais.

  No ano de 2010 inicia um novo momento na dinâmica de formação no país, com a chegada do instrutor Márcio Ribeiro, brasileiro até então radicado em Cingapura, onde fez sua formação como terapeuta e instrutor. A partir de seu primeiro curso de Fundamentos, ministrado em Goiânia, a presença de Márcio contribuiu também com a expansão dos cursos para outras regiões, como São Paulo, Rio Grande do Sul e Paraná, entre outros. Nos anos seguintes, este instrutor se habilitou também para ministrar dois dos quatro módulos avançados – Princípios da Consciência e Biodinâmicas -, aumentando assim a possibilidade de aprofundamento na formação para mais terapeutas locais. De certa forma, e através de uma dinâmica mais complexa do que podemos mapear aqui, este foi um marco temporal importante para marcar a existência de diferentes gerações de terapeutas no país. Houve uma diminuição gradual da vinda de instrutores estrangeiros ao Brasil, apesar de se manter principalmente a vinda da Dra. Janet Galipo para lecionar os módulos avançados de Macrocosmos e Matrizes, além de outros instrutores que lecionam cursos das modalidades chamadas Ciências da Vida: MindScape, BreakThrough e FreeFall. Mais recentemente, houve também a expansão de cursos on-line de John Veltheim com tradução ao português, e a vinda da Dra. Laura Stuve para ministrar dois cursos especiais, de Epigenética e Ecologia do Corpo.

  Traçado esse percurso coletivo, ao nos aproximarmos dos percursos pessoais vemos que dentre as maneiras de se chegar no sistema BodyTalk, tanto como cliente quanto como terapeuta não há necessariamente um caminho único ou padrão. Há processos lentos de aproximação, assim como relações arrebatadoras onde a pessoa mergulha de cabeça no sistema, porém de maneira geral se encontra um encantamento que tem dificuldade de ser colocado em palavras. Nas histórias individuais, aparece uma profunda modificação de si a partir do contato com o sistema, seja em processos mais graduais e sutis, seja na percepção de mudanças rápidas e surpreendentes. Porém, mesmo se a narrativa de transformação individual não tem um percurso único – como haveria de ter? –, existe uma coincidência no entusiasmo pelo estudo e disseminação da prática quando a pessoa decide tornar-se terapeuta de fato.

  Diversos entrevistados apontam o impacto do BodyTalk em suas vidas por ser uma proposta de um paradigma de saúde em que há um profundo processo de auto-responsabilidade e consciência, e ao mesmo tempo um respeito ao tempo próprio de cada pessoa, se apoiando tanto na intuição, quanto em conhecimentos muito bem fundamentados, organizados em um protocolo estruturado. A curiosidade por “como isto funciona?”, ou mesmo “como isto é possível?”, leva à busca de um aprofundamento cada vez maior nos estudos e na prática, ao mesmo tempo em que vai se complementando com aquilo que a pessoa já trazia de experiência. Não é possível, com a informação que temos, traçar um perfil dos terapeutas, que vêm de diferentes bagagens profissionais e vivenciais. No entanto, é possível recuperar a valorização que eles apresentam ao fato de o BodyTalk ser um sistema que permite a complementariedade entre diferentes modalidades terapêuticas, e portanto valoriza e potencializa as experiências prévias do terapeuta. Neste sentido, as entrevistas trazem uma riqueza de possibilidades de escuta do corpo a partir da combinação de olhares da medicina, da psicologia, da medicina chinesa, da osteopatia, da arte, do yoga, das ciências sociais, entre outras formações que compõem os terapeutas. Nas palavras de uma das entrevistadas: “Essa complementariedade é uma visão que integra, e não fragmenta, como muitas vezes é a prática das profissões em saúde. Essa capacidade do BT de integrar, acolher e complementar, potencializar quaisquer outros recursos em saúde, em medicina, em autoconhecimento, é um grande presente.” (RESENDE 2019)

  Outro aspecto importante destacado pelos entrevistados é a riqueza e abrangência do percurso de formação possível dentro do próprio Sistema BodyTalk, que leva as pessoas a aprofundarem os estudos em diversos temas complexos. Além de um leque de questões relacionadas com as ciências da saúde, como anatomia e fisiologia, e outros sistemas de conhecimento, encontramos também uma importância central de dois pilares filosóficos: a Medicina Tradicional Chinesa e a filosofia Advaita/Vedanta. Ambas abordagens permeiam todo o conteúdo do Sistema BodyTalk em sua concepção, porém cabe destacar que os princípios de não-dualidade da Advaita ficam muitas vezes diluídos na compreensão sutil do quê é a consciência à qual nos referimos nos processos profundos de auto-conhecimento implicados no sistema. Nesse sentido, é digno de nota que alguns aspectos das entrevistas apontam para a relevância que teve o declarado interesse do instrutor Márcio Ribeiro nesse tema, de modo que estes conceitos se fizessem mais presentes nos cursos desde os módulos iniciais. Da mesma forma, aponta-se para o enriquecimento do Sistema na medida em que há cada vez mais instrutores com diferentes bagagens, trazendo maior versatilidade para os olhares possíveis.

Um ultra-breve encerramento

  Não há um fim em algo dinâmico, porém um texto se dá numa dimensão relativamente estática. As informações que constam aqui já geraram transformações em muitos sentidos, e as relações da matriz têm se modificado de maneira tão acelerada que já teríamos condições de fazer uma nova cartografia. Afinal, cada nova observação altera o que conhecemos. Neste momento, podemos considerar que a palavra que emerge como principal resultado deste processo é: amadurecimento. Estamos colhendo frutos.

Referências

CAPRA, F. O Ponto de Mutação: a Ciência, a Sociedade e a Cultura emergente. Cultrix: São Paulo – SP, 1982.

CAVAGNOLI, M. et al. A cartografia como estratégia metodológica à produção de dispositivos de intervenção na Psicologia Social. Fractal: Revista de Psicologia, [s. l.], v. 32, n. 1, p. 64–71, 2020.

MARINHO, N.  Comunicação em grupos restritos de Facebook. Postado em 14 de abril de 2019.

MARINHO, N. Arquivo de pesquisa. Entrevista realizada em 08/05/2020.

RESENDE, S. Entrevista na lista BodyTalkers falando de BodyTalk, Nossa História. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=uMIlEDbrA9M&list=PLAOdJgJTVHegOIKK_g9aPx99lzYGTY2nD . Entrevista realizada em 08/10/2019.

SADE, C.; FERRAZ, G. C.; ROCHA, J. M. O ethos da confiança na pesquisa cartográfica: experiência compartilhada e aumento da potência de agir. Fractal : Revista de Psicologia, [s. l.], v. 25, n. 2, p. 281–298, 2013.


[1]    Ana Marcela Sarria é Cientista Social, acadêmica em Enfermagem e terapeuta certificada de BodyTalk desde 2016. Também faz formação em Medicina Tradicional Chinesa. Encontrou no BodyTalk um valioso caminho para promover saúde como autonomia individual e coletiva com consciência e respeito à sabedoria de cada ser. Contato: (51) 99317-8777. Face e insta: @anamarcelabodytalk

[2]    As entrevistas que dão base a esta pesquisa estão disponíveis ao público na plataforma YouTube, conforme indicado na próxima seção, o que amplia as possibilidades de que quem se sinta convidado possa dar continuidade, aprofundamento ou mesmo novos rumos a esta análise.

[3]    Acessível em: https://www.youtube.com/playlist?list=PLAOdJgJTVHegvzV_b4kwxp1e4bpRfW04R

[4]    Acessível em: https://www.youtube.com/playlist?list=PLAOdJgJTVHegOIKK_g9aPx99lzYGTY2nD

[5]    Nirvana Marinho tem graduação em Dança pela UNICAMP, mestrado e doutorado em Comunicação e Semiótica pela PUC-SP, além de ampla experiência profissional em curadoria artística.

[6]    Ana Marcela Sarria tem graduação em Ciências Sociais e mestrado em Desenvolvimento Rural pela UFRGS, e Daniele Pires tem graduação em Ciências Sociais e mestrado em Antropologia, também pela UFRGS.

[7]    Ibid, p. 66.

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