BodyTalk: Pensando sobre as sessões remotas e seus embasamentos científicos – um exercício de percepção

Natasha Mesquita

Ao me propor a escrever este artigo para a Revista Escuta, a ideia inicial era elucidar conhecimentos a fim de gerar maior compreensão sobre como fatos científicos esclarecem a possibilidade das sessões de BodyTalk serem também realizadas à distância. O foco do artigo segue sendo este, pois existe em mim um desejo legítimo de informar, a partir das experiências e conhecimentos que tenho, como este sistema tão maravilhoso pode também trazer benefícios a nossa saúde através das sessões remotas efetivamente. 

Mas a ressalva aqui se dá pois quando comecei a escrever e organizar os pensamentos, percebi que o caminho mais coerente parecia ser outro. Começar falando do sistema em si, independente de estar fazendo referência direta a sessões presenciais ou às remotas, refletir a partir do princípio fundamental do BodyTalk, trazendo então à tona embasamentos científicos, filosóficos e teóricos, convidando o leitor a um exercício de percepção, se estabelecia como caminho. Incomum seria falar de BodyTalk sem mexermos com paradigmas e particularmente acredito que só se transforma uma “forma de ver”, abrindo receptivamente os sentidos para o exercício de acessar informações por vários ângulos! Então vamos observar como essencialmente uma sessão presencial ou remota, não tem diferença?! Sigamos refletindo a partir do BodyTalk, elucidando sua definição fundamental e corriqueira: é um sistema de cuidados com a saúde baseado em consciência.

Aposto que esta definição gera de partida muitas perguntas. Afinal o que isso quer dizer? Onde está a consciência? Consciência se encontra em algum local físico? Ora, porque tantos paradigmas sobre a viabilidade de sessão a distância, se a consciência é imaterial? E se é imaterial como acessamos a consciência, esta ciência/conhecimento que não está na memória consciente, mas nas nossas heranças subconscientes? Então de onde vem nossos filtros de conhecimento sobre o que é possível, em se tratando de uma terapia energética, que atua pelo corpo sutil? E onde está expressa a ciência do corpo, o conhecimento dele sobre como agir e funcionar? Existe evidência sobre a localidade da consciência? E mais ainda, porque será que tantas vezes, só o que está atestado cientificamente nos parece válido e possível? 

Perguntas começaram a pipocar na minha mente sem nenhuma linearidade aparente, e fui tentando observar qual seria a relação entre todas estas indagações e o assunto que pretendia abordar aqui; aí lembrei de uma frase: “A ausência da evidência, não é evidência da ausência”; disse o astrônomo americano, cientista planetário, cosmólogo, astrofísico, astrobiólogo, autor e comunicador científico, Carl Sagan. Rapaz, porque será que este senhor foi estudar tantas especialidades? Seria por um desejo de compreender a expressão do todo e não só as partes que as “especialidades” ressaltavam?! 

E dá-lhe interrogações abrindo o espaço criativo!

“A ausência da evidência, não é evidência da ausência”. 

Faz sentido para você? Pra mim faz todo o sentido. O que eu conheço eu reconheço, e o que eu não conheço não existe?! E se o sentido, o direcionamento do nosso olhar e das nossas ações vem mesmo do âmbito sensorial de ser, como posso considerar como real só o que a ciência comprova, se o que eu sinto não se mede? Que conhecimentos e percepções teriam movido o cientista Carl Sagan a trazer à tona tal afirmação, tendo em vista que os procedimentos científicos levam em consideração o que se pode medir, quantificar, ver, pegar, evidenciar?

Pois é, foram as indagações que moveram minha busca no caminho de estruturação deste artigo. E não será sobre trazer respostas para cada uma delas mas ir clareando a proposta de seguirmos num exercício de percepção não linear, movida por elas. 

Então bora! Aterrando um pouquinho estes tantos pensamentos… se é que vou conseguir… inspira… e vamos tirar do ar e trazer para a terra… expira… 

Voltando à definição essencial do BodyTalk: um sistema de cuidados com a saúde baseado em consciência. Então acessamos como terapeutas do Sistema estas informações, esta consciência, este conhecimento sobre si que está além do nível consciente, está principalmente no subconsciente. Quem nunca viu a foto do iceberg só com a pontinha para fora d’água e aquele mundão de gelo submerso, e ouviu sobre a analogia ao subconsciente do indivíduo como a parte do iceberg mergulhada no desconhecido das profundezas. Compreendemos que estas informações todas, sobre o iceberg fora e dentro d’água, são as forças que nos moldam e nos movem, e são a base de toda a expressão corporal do sujeito, nossos padrões essenciais inscritos no comportamento biológico, celular, mental e social. Quando tomamos consciência de algo que estava submerso, abre-se o potencial de movimento entre todas as possibilidades de expressão. O simples ato de observar o que o corpo tem a dizer auxilia ele a mudar de assunto, transformar o condicionamento ampliando sua expressividade como um todo, facilitando assim seu potencial de vida cíclica, natural. 

“Escolhemos livremente quando superamos o ego, dando um salto descontínuo, chamado de salto quântico. (…) A síntese essencial do condicionamento é que, à medida que a consciência se identifica progressivamente com o ego, há uma perda correspondente de liberdade.” Amit Goswami aqui, com base na mecânica quântica, ressalta um pensamento parte do novo paradigma científico que redescobre a espiritualidade ao afirmar que é a consciência, e não a matéria, o substrato de tudo o que existe. 

Então, a consciência é o substrato de tudo o que existe e estes padrões, nossas impressões primárias de base que estão no consciente subconsciente do corpo mente, advindas de nossa cultura e herança assim como de nossa criação, a ciência do corpo expressa nos nossos genes, tudo que nos molda a ser quem somos e não alcança nossa lembrança; toda esta informação contida no corpo que expressa “a dor e a delícia” de ser quem somos estaria transitando por onde mesmo? E a memória genética que diz sobre como seu avô levou a vida dele, esta força que pode desencadear em você certo sintoma? Este conhecimento inato sobre si, que dá ritmo à natureza, está nos trilhões de células compostas por moléculas, partículas sub atômicas, elétrons e prótons, e via vibração se comunicam e compartilham informações. Espera, então esta informação está nas nossas micro partículas celulares que vibram… No fim das contas a comunicação não acontece por via material então? Como acessamos esta informação e “conversamos com o corpo” pelo BodyTalk? Tocando fisicamente no paciente?

Vamos falar então sobre estes registros, memórias e essa transmissão de informação.

Rupert Sheldrake biólogo, bioquímico, parapsicólogo e escritor inglês ficou bem conhecido por sua teoria dos campos morfogenéticos. Morfo significando “forma” e gênese “origem”, os campos morfogenéticos podem ser entendidos como ordens e estruturas que dão forma aos padrões de comportamento. Esta teoria defende que todas as coisas possuem uma auto-organização, determinada por seus próprios modelos estruturais.

Podemos dizer que estes campos mórficos são meios pelos quais circulam informações e não energia, ou seja, por onde comportamentos característicos são disseminados através do tempo e do espaço. Não são campos físicos ou estáticos, uma vez que são invisíveis e mutáveis e que possuem intensidade própria, que não perde força mesmo depois de sua criação.  Deste modo, Rupert defende que tanto pessoas, animais como plantas podem adotar determinados padrões comportamentais herdados de gerações anteriores e, do mesmo modo, podem perpetuá-los para as gerações seguintes.

Segundo o especialista em biologia holística, em se tratando de moléculas, ideias, cristais e sociedades, isso ocorre porque há um tipo de memória presente nestes campos morfogenéticos, advinda do passado, e que estimula a propagação de comportamentos dentro destes ambientes auto-organizados. Ainda de acordo com o especialista, este processo de herdar memórias inconscientes também pode ser chamado de Ressonância Mórfica.

“Os Campos Mórficos funcionam modificando a probabilidade de eventos puramente aleatórios. Em vez de uma grande aleatoriedade, de algum modo eles enfocam isto, de forma que certas coisas acontecem em vez de outras. É deste modo como eu acredito que eles funcionam”, destacou Rupert Sheldrake em seu livro: Uma Nova Ciência da Vida, lançado em 1981. 

A informação do indivíduo (e de tudo) está no espaço, no campo, orientada pelo ambiente auto-organizado que é você. Então a sintonia que ocorre entre paciente e terapeuta BodyTalk se dá pelo campo, a presença física não é necessária. Pelo campo nos conectamos de modo não local com o paciente, e do mesmo modo quando em sessão presencial. Nos sintonizamos com estas informações sobre a “forma de origem”, sua ressonância mórfica. Agregando aqui outras referências, citando de modo muitíssimo pontual, outros conhecimentos que podem corroborar e ampliar o entendimento da teoria de Sheldrake. 

O neurofisiologista Jacob Grinberg realizou o primeiro experimento comprovando a não localidade da consciência de forma inequívoca, usando máquinas objetivas. O físico Alan Aspect por experimentos demonstrou, em 1982, que objetos quânticos são capazes de influenciar-se instantaneamente, caso interajam e fiquem correlacionados por meio da não localidade quântica.

Vamos a um desvio?  Arejar a cabeça e exercitar a percepção?

Aposto que para muitos leitores a teoria do Sheldrake seja uma novidade. Leia novamente; nossos paradigmas não se transformam tão facilmente. Te soa possível? Talvez para alguns, o fato de ser uma teoria e não um fato científico já gere um descrédito imediato. Não se sinta julgado se foi o que aconteceu assim que leu a palavra “teoria”; nossos condicionamentos podem ser “mais fortes do que nós”. Já parou para observar qual a etimologia da palavra ciência? A palavra ciência até mais ou menos 1670, se referia ao conhecimento profundo sobre alguma coisa e a utilização deste conhecimento como fonte de informação. Então até 1670 quando se usava a palavra ciência era sobre conhecimento e ponto. Se eu me referisse à ciência do corpo ou do mundo, isso não tinha nenhuma outra possível conotação se não a de conhecimento. 

Uma nova atribuição à palavra surge em meados de 1725 quando ciência passou a designar “estudos que não incluem as Artes”. Hum… uma mesma palavra significa “conhecimento” e também “um conhecimento que exclui a subjetividade”, excluindo assim um aspecto do conhecimento. Me pareceu muito interessante e pertinente para deixar passar, a sugestão de pensarmos sobre esses significados e nossos filtros de percepção. Despojados de críticas e julgamentos, vamos só refletir sobre o quanto está implícito no uso da palavra “ciência”, uma percepção sobre valia, valor? Se ciência quer dizer conhecimento, quando falamos sobre “a ciência” estaríamos condicionados a perceber que ela é “O conhecimento”? Será? Mas de fato o que é a ciência se não um método, um caminho de observação. 

Mencionei Sheldrake e a ressonância mórfica para compreendermos a partir de sua teoria sobre estas forças que nos moldam essencialmente, e sobre como estão no campo as informações referentes a elas. Refletindo ainda a partir da definição básica do BodyTalk, vamos ao Amit Goswami, físico indiano, filho de um guru hinduísta, Ph.D. em física quântica pela Universidade de Calcutá na Índia, professor emérito do Instituto da Física da Universidade de Oregon nos EUA, e um dos pioneiros nos estudos que buscam conciliar a ciência e a espiritualidade, que defende uma nova visão de mundo em que a origem de tudo o que existe é a consciência e não a matéria. “Antes de qualquer coisa, temos de abandonar essa visão condicionada de que tudo é apenas matéria. Uma percepção materialista da vida serve apenas para denegrir toda a nossa experiência interna.” O autor conceitua a consciência como o fundamento de todo o ser e propõe uma nova ciência dentro da consciência. “O novo paradigma trata sujeitos e objetos, espíritos e matéria, nas mesmas condições”.

“Na ciência materialista existe apenas uma fonte de causação: as interações materiais. Damos a elas o nome de causação ascendente, pois a causa sobe desde o nível básico das partículas elementares até os átomos, as moléculas e a matéria densa que inclui as células vivas e o cérebro. Tudo bem, só que segundo a física quântica, os objetos são ondas de possibilidades, e tudo que as interações materiais conseguem fazer é transformar possibilidade em possibilidade, mas nunca em realidades que experimentamos.(…) 

Para transformar possibilidade em realidade, é necessária uma nova fonte de causação; podemos chamá-la de causação descendente. Quando percebemos que a consciência é a base de toda a existência e que objetos materiais são possibilidades da consciência, então também percebemos a natureza da causação descendente – ela consiste na escolha de uma das facetas do objeto multifacetado da onda de possibilidades, que então se manifesta como uma realidade. Como a consciência está escolhendo uma de suas próprias possibilidades e não algo separado, não existe dualismo.” 

Ressoando com Goswami o pensamento sistêmico propõe, em contraposição aos paradigmas científicos e ainda assim os considerando, os pressupostos da complexidade (vs. Simplicidade) da instabilidade (vs. Estabilidade) e da intersubjetividade (vs. Objetividade), e se aliam a fatos que a mecânica quântica traz à nossa ciência… ciência enquanto conhecimento e método de análise.  Talvez estes conhecimentos que podem ser novos para muitos, elucide possibilidades nunca antes contempladas por nossos filtros, já tão condicionados a ver de determinada forma, e a buscar somente as respostas lineares e cartesianas.

“Os primeiros físicos quânticos notaram que partículas subatômicas como os elétrons estão em comunicação instantânea uns com os outros – frequentemente centenas de vezes à velocidade da luz, e independentemente da distância – resultando no complexo corpo/mente como uma rede dinâmica ou um holograma de realidade e eventos inter-relacionados. Quando algo muda em um local, componentes dentro da rede naturalmente respondem e mudam também. Isto significa que em nível mais profundo, todas as coisas – e pessoas – no universo são interconectados.” John Veltheim, fundador do Sistema BodyTalk.

Na citação acima que é parte de um texto sobre as sessões remotas de BodyTalk, John está também se referindo ao entrelaçamento quântico (ou emaranhamento quântico, como é mais conhecido na comunidade científica). Este é um fenômeno da mecânica quântica que permite que dois ou mais objetos estejam de alguma forma tão ligados que um objeto não possa ser corretamente descrito sem que a sua contra-parte seja mencionada – mesmo que os objetos possam estar espacialmente separados por milhões de anos-luz. Isso leva a correlações muito fortes entre as propriedades físicas observáveis das diversas partículas subatômicas. Essas fortes correlações fazem com que as medidas realizadas numa delas pareçam estar a influenciar instantaneamente à outra com a qual ficou entrelaçada, e sugerem que alguma influência estaria a propagar-se instantaneamente, apesar da separação entre eles. Isto dá a entender que tudo está conectado por “forças” que não vemos e que permanecem no tempo, ou estão fora do sistema que denominamos, entendemos ou concebemos como sistema temporal. Tudo está sistemicamente relacionado e conectado.

A física quântica nos traz ainda, através de experimentos e teorias, que fatos existem sim, mas podem ser subjetivos, que diferentes observadores podem ter acesso a diferentes fatos que podem coexistir entre eles. O observador traz à tona a força de coesão e manifestação das ondas de possibilidade que estão ali no campo. Então quem sabe você é observador de parte de sua história, a que conhece conscientemente, mas partes da sua história subconsciente com registros de informações presentes no seu campo morfogenético podem ser percebidas e observadas por outro observador que não você mesmo, trazendo à tona a força da sua liberdade de expressão natural. 

Vamos respirar um pouco, dar tempo para deixar… só deixar toda essa informação circular. Respirar e parar de tentar entender, deixando a compreensão acontecer, a poeira assentar da forma que for.

Lembrei da Clarice Lispector… do livro Água Viva… “agora é um instante, já é outro agora. (…) viver, ultrapassa qualquer entendimento”. Respirar para processar informação, agora após agora… ressonância mórfica, consciência descendente, pensamento sistêmico, emaranhamento quântico,… teorias e fatos científicos que se complementam no exercício aqui proposto de refletirmos sobre como as sessões remotas de BodyTalk, por princípio essencial, não tem diferença das presenciais. Acessamos pelo campo o que a sabedoria inata do corpo tem como prioridade para nos relatar sobre a consciência que descende, a causa que então se manifesta fisicamente no corpo.

Me valendo da arte mais um pouquinho, dando espaço para esta “ciência do subjetivo”, que tanto se emaranha com a terapia. Sendo a arte uma via de liberação da força criativa assim como é a via terapêutica, segue uma analogia: a informação do artista chega a você, seja através da pintura, da escultura, da dança, do espetáculo televisionado ou ali do palco. Chega de modo não linear o movimento da expressão, a energia que gerou a forma é o que chega, não é em si a forma, mas o potencial que a gerou. Claro que estar presencialmente, fisicamente com alguém é em si uma experiência diferente de não estar, e não poderia ser este comentário mas pertinente à experiência de todo mundo nestes tempos de distanciamento social!!! Mas ainda assim, aqui me refiro à essência da informação que precisa de movimento e como ela pode ser acessada e transmitida, para que o potencial de uma sessão de BodyTalk seja pleno no que se propõe, facilitar comunicação e assim a sincronia do equilíbrio dinâmico do corpo. É complexo? Mas é simples. É dual? Neste mundo tudo é. A simplicidade é a de melhorar a comunicação consigo mesmo para viver a vida de modo mais equilibrado, transitando pelos polos. Este é o foco fundamental do Sistema BodyTalk, e tanto faz a forma.

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